Em 10 de novembro de 1927 começou a circular na cidade de São Paulo uma revista semanal chamada Arlequim: revista de atualidades. O semanário durou apenas um ano, sendo que em 1928 passou a ser quinzenal. No entanto, a qualidade da publicação parece ter conquistado o público feminino para o qual era direcionado. O periódico possuía entre 30 e 40 páginas, regadas de poesias, contos, comentários sobre cinema, arte, teatro, música, dicas de moda, fotos da sociedade paulista, propagandas das mais elegantes lojas e produtos da cidade, além de várias ilustrações.
No meio jornalístico foi logo saudada por periódicos similares como a revista Para Todos (disponível no site da Fundação Biblioteca Nacional), publicada no Rio de Janeiro, que teceu o seguinte comentário sobre a jovem colega:
“Sud Mennucci, Maurício Goulart e Americo R. Netto fundaram em São Paulo uma bella e moderníssima revista, cujo primeiro número circulou no dia 10 do corrente. Arlequim mostra, na parte redaccional como na sua feição material, o extremo amor que os jovens intellectuaes da Paulicéa puzeram no empreendimento, já vitorioso desde esse primeiro número de um elegante semanário. Prevê-se facilmente para Arlequim, uma existência longa, e nisto estão os nossos melhores votos.”
[Para Todos, Rio de janeiro, ano IX, n.466, 19/11/1927].
Se a previsão de longevidade não se concretizaria, o aspecto de modernidade estava presente tanto por seu projeto gráfico – as capas da revista exibem variadas composições sempre partindo do losango característico da roupa do Arlequim – quanto pela presença de nomes como o do poeta modernista Raul Bopp (1898-1984) que publicou diversos poemas na revista. O artista e crítico de arte José Maria dos Reis Júnior (1903-1985) realizou vários comentários sobre o panorama das artes plásticas. A revista contava com uma rede de colaboradores pelo Brasil, sobretudo em São Paulo. Durante alguns meses Arlequim realizou uma caravana pelo interior paulista e trouxe para os leitores fotografias e textos sobre várias cidades, suas construções e personalidades, sempre com ênfase nas mulheres da sociedade local. É importante lembrar que antes dessa revista houve outra publicação com o nome O Arlequim publicada no Rio de Janeiro entre 1867 e 1868.
Os fundadores da revista, nela identificados como diretores, trabalhavam no jornal O Estado de São Paulo e é provável que a ideia de criá-la tenha nascido ali. Além do fato de serem colegas de trabalho, apresentariam em comum uma trajetória dedicada a projetos e atividades voltados para São Paulo. O piracicabano Sud Mennucci (1892-1948), além de jornalista, sociólogo, geógrafo e escritor foi também um educador. Fundou o Centro do Professorado Paulista em 1930 e analisou o problema da educação no Brasil no livro A crise da educação brasileira – defesa da educação rural. Maurício Goulart (1908-1983), embora não fosse paulista de nascimento – nasceu em Petrópolis – foi deputado federal por São Paulo na década de 1960 e teve participação ativa na organização da “Revolução” de 1930, tendo chefiado o serviço de comunicação do Destacamento Miguel Costa que partiu do Rio Grande do Sul para São Paulo. Além disso, foi historiador, estudou a presença do negro no Brasil e escreveu Escravidão africana no Brasil: das origens à extinção do tráfico. O jornalista e advogado pernambucano Américo R. Netto (?-1974) viveu em São Paulo por volta de 40 anos, foi o idealizador do Marco Zero de São Paulo que está na Praça da Sé, além de um importante nome na história da educação física no Brasil. Incentivou o automobilismo esportivo no país e foi dirigente da Federação Paulista de Atletismo.
A atuação em São Paulo, expressa resumidamente nos dados biográficos acima, não poderia deixar de estar expressa na revista. A lembrança de sua garoa, a nascente industrialização, bem como a atribuição à cidade de um papel de motor nacional frequentaram as páginas da revista por meio de textos ou ilustrações. Vejamos um trecho de “Em louvor de São Paulo”:
“Na meia tinta da sua garoa, forjam-se energias que dão para alimentar toda a fome do território. Á sua penumbra de cidade ingleza, o pensamento novo do paiz exige as columnas vertebraes do grande organismo de amanhã. Sob a toada das suas fábricas, alargam-se os horisontes da prosperidade nacional (...).
A Paulicea é uma rapariga privilegiada e modesta. É uma rainha sem apparatos. (...)”
[Arlequim: revista de atualidades, São Paulo, n.5, 08/12/1927].
O texto citado acima e assinado por Corrêa Junior trazia ainda a ilustração de duas grandes chaminés fumegantes assinadas pelo ilustrador da revista, o artista francês Jean Gabriel Villin (c.1906-1979). J. Villin, como assinava os desenhos publicados em Arlequim, foi presença constante na publicação. Dono de um traço elegante, foi o responsável por imprimir nas páginas da revista a figura marcante do Arlequim. O escultor é também o autor do Marco Zero da cidade acima citado.
A figura símbolo da revista e que lhe nomeava parece estar ligada à visão que seus fundadores tinham de São Paulo. O Arlequim é um personagem da Commedia dell’ Arte italiana que surgiu no século XVI, definida como um gênero teatral marcado pela itinerância, por apresentações em espaços públicos e, portanto, para um público heterogêneo. Esse personagem é o mais popular, uma figura ingênua e atrapalhada, mas também bastante sedutora com sua roupa colorida de retalhos, cheia de boas intenções que encanta o público. O aspecto do personagem mais destacado pela revista foi a sua vestimenta, vários retalhos que, reunidos, assumem uma forma peculiar, mas com uma organização que parecia funcionar. A metáfora apresenta-se como uma possibilidade de representar a cidade que reunia pessoas de diversos lugares – vide os próprios jornalistas – cuja junção assumiria uma ordem própria que impulsionaria o crescimento e desenvolvimento de São Paulo. Sem esquecer o aspecto sedutor do personagem responsável por encantar as mulheres, público privilegiado da revista.
Em seu primeiro número a revista trouxe um poema da chilena Gabriela Mistral (1889-1957). A presença feminina foi constante na publicação com pelo menos três nomes de mulheres em cada número. Infelizmente, há poucas informações sobre essas colaboradoras. Colunas como “Elegâncias”, assinada por Marilú, um provável pseudônimo não identificado, comentava tanto trajes femininos como masculinos, com dicas sobre os últimos modelos de sapatos e chapéus, acerca da utilização da bengala pelos homens, entre outras. No texto “A Victoria do feminismo” [Arlequim, São Paulo, n.03, 24/11/1927, p.4 e p.5], Alba de Mello Amadeu Soares, uma das colaboradoras da revista, tratou sobre o voto feminino e fez uma previsão, hoje plenamente concretizada, quanto ao dia em que as mulheres também poderiam ser votadas. No mesmo texto reclamou de um assunto referente ao cotidiano das mulheres: a falta de cavalheirismo dos homens nos bondes.
A leitura da revista oferece ao leitor olhares instigantes acerca de São Paulo e das mulheres naqueles anos, tudo temperado pelas discussões que a Semana de Arte Moderna despertara alguns anos antes e que naquele momento ainda fervilhava.
Um alerta: passear pelas páginas desse periódico poderá fazê-lo iniciar uma jornada cujas inquietações serão difíceis prever. Assim, aos curiosos de plantão não há tempo a perder!