"O Cabrião cumprimenta o respeitável público..."

Rosangela de Jesus Silva

"O Cabrião cumprimenta o respeitável público..."

Com esta saudação escrita no rodapé da primeira página, acompanhada de uma figura com longos e escuros cabelos e barbas que segurava na mão direita um chapéu em sinal de reverência e na esquerda um cartaz com a inscrição “Cabrião 1º ANNO”, o público paulistano conhecia o jornal ilustrado Cabrião, publicado em um domingo, provavelmente no mês de setembro de 1866.[1] A figura que daria nome ao periódico funcionava como uma espécie de guia do leitor, estando presente em quase todas as edições e introduzindo, através de diálogos e imagens, alguns dos assuntos ali tratados.

No cabeçalho, que estaria presente em todos os 51 números do jornal, apenas com pequenas variações, alguns seres estranhos, meio animais, meio homens, com olhares instigadores e sorrisos sarcásticos adiantariam ao leitor o caráter provocador e satírico do periódico. Ao longo de suas oito páginas, sendo metade delas ilustradas com imagens cômicas e por vezes ácidas que, com freqüência, ilustravam personagens do período, fazia-se uma leitura dos costumes e hábitos da província de São Paulo sem descuidar, no entanto, das grandes questões nacionais, que passavam a ser apresentadas ao público semanalmente.

Em sua apresentação, o jornal prometia dizer em “prosa e verso o que vir e ouvir em todas as praças, escriptorios e boticas”. Seria mais específico ainda afirmando que cuidaria das “idéias do governo”, defenderia a liberdade e seria imparcial, “e de uma imparcialidade á prova de interesse...”. Essa imparcialidade não se sustentaria ao longo de suas páginas, pois o jornal apresentava clara simpatia por um segmento do Partido Liberal paulista e se colocava contra os conservadores. Entre os exemplos que demonstram sua afinidade com os liberais temos algumas homenagens feitas a nomes importantes daquele partido com a publicação de retratos e artigos. Mas algo ainda mais revelador seriam as críticas e enfretamentos com um periódico de matriz conservadora chamado Diário de São Paulo, o qual tinha entre seus membros o chefe do partido Conservador da Província, João Mendes de Almeida. Sobre o jornal afirmaria: “E tudo fez-se, e tudo recommendou-se em nome do partido da Ordem, que prega a obediência passiva às autoridades constituídas, que quer a monarchia com todos os seus appendices, que professa o jesuitismo e a intolerância politica e religiosa [...]” (Cabrião, n.12, São Paulo, 16/12/1866, p.2).

Além de algumas imagens bastante representativas da cidade naquele período como as mulheres de mantilha, as construções, os padres e os estudantes da Faculdade de Direito, o jornal mostraria as mulas e burros responsáveis pelo transporte das riquezas de São Paulo e que lentamente seriam substituídos pelo trem de ferro com a expansão das ferrovias pelo país. A Guerra contra o Paraguai (1864-1870) foi um tema bastante presente no periódico, sobretudo os recrutamentos. O jornal mostrava as fugas dos convocados e as ações desesperadas das autoridades para garantir o número de soldados.

Um periódico que se propunha a cuidar de tantos temas e de maneira tão instigadora certamente não descuidaria do seu nome, algo fundamental para chamar a atenção do leitor. Na segunda metade do século XIX, o Brasil conheceria um grande aumento no número de periódicos, sobretudo daqueles com propósitos críticos. Uma das características desses empreendimentos era a utilização de títulos que oferecessem ao público a ideia de algo perturbador, que incomodasse, por exemplo: Mosquito, Diabo Coxo, Mequetrefe, entre outros. Com o Cabrião não seria diferente. Mas afinal de contas o que significa cabrião? Délio Freire, pesquisador que organizou a edição fac-similar do Cabrião publicada pela editora da UNESP, fez um cuidadoso levantamento acerca do termo mostrando que o seu nome foi traduzido para o português: de ‘cabrion’ se tornaria cabrião. Há vários significados para o termo como, por exemplo, identificá-lo a uma peça utilizada em navios. No entanto, conhecendo algumas características do jornal, percebemos que o sentido mais próximo é aquele que Freire apresenta como “Pessoa que gosta de fazer pirraça, para aperrear. Maçador, importuno”. Ou ainda o personagem (que possuía características parecidas) do romance Os Mistérios de Paris de Eugène Sue (1804-1857), um escritor francês, muito popular em sua época.

Esse romance foi publicado em capítulos na imprensa francesa entre os anos de 1842 e 1843, como uma novela que vai aos poucos mostrando seus personagens e as intrigas que os ligam. Seu sucesso foi tão grande que ganharia tradução em outras línguas. O Brasil do século XIX foi um grande apreciador da cultura francesa. Em nossos jornais, vários textos franceses eram republicados com freqüência, os quais rapidamente conquistavam os leitores brasileiros. O romance de Sue foi publicado no Jornal do Commercio já em 1844.

A descrição de Cabrion, personagem do romance de Sue, lembra bastante o desenho que ilustra o periódico paulistano: “o chapéu pontiagudo, com seu cabelo longo, seu rosto magro, sua risada satânica, sua barba piramidal e seu olhar fascinante...”[2]. O pintor Cabrion era o pesadelo do senhor Pipelet, outro personagem do romance, responsável pela hospedaria onde aquele vivera e que só de sonhar com o personagem sentia-se mal. Seria certamente essa visão intrigante do personagem que Angelo Agostini(1842/3-1910), Américo Brasílio de Campos (1835-1900) e Antônio Manoel dos Reis (1840-?), os criadores do jornal, queriam apresentar ao seu público.

O artista italiano Angelo Agostini, o mais jovem dos três, seria o responsável pelas ilustrações. Já vinha de uma experiência anterior na imprensa, tendo sido o responsável por ilustrar o primeiro periódico ilustrado da cidade: O Diabo Coxo (1864-1865). Teve uma carreira de muito sucesso na imprensa do Rio de Janeiro com periódicos como a Revista Illustrada (1876-1898) e o Don Quixote (1895-1903). Uma das marcas da carreira de Agostini foi sua atuação contra a escravidão no Brasil. Américo de Campos era bacharel em direito, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, e já atuava na imprensa paulistana como redator do jornal Correio Paulistano. Foi bastante atuante na imprensa da cidade, tendo fundado outros periódicos importantes como A Província de São Paulo, que se tornaria, na República, O Estado de São Paulo. Teve uma atuação marcante em prol do abolicionismo e da República. Antônio Manuel dos Reis, por sua vez, também se formou na Faculdade de Direito de São Paulo e desde os tempos de estudante já colaborava na imprensa. Foi escritor e teria tido uma atuação relevante em órgãos católicos da imprensa.

Um passeio pelas páginas do Cabrião é, sem dúvida, uma viagem de descobertas, da qual ninguém que se aventurar poderá se arrepender. Ao disponibilizar esse periódico a Brasiliana USP oferece aos pesquisadores e interessados um rico material com grande potencial a ser explorado. Não há tempo a perder, o Cabrião espera o respeitável público!

Notas:

[1] O primeiro número do Cabrião publicado com data foi o quarto exemplar, de 22 de outubro de 1866.

[2] Livre tradução do texto em espanhol. SUE, Eugène. Los Misterios de Paris. Barcelona: Imprenta de Saurí, A. Gaspar y Berdaguer, 1845. Disponível em: http://www.archive.org/details/losmisteriosdepar0304suee