"Isidora" uma família de fontes tipográficas digitais inspirada no primeiro livro impresso no Brasil

Laura Benseñor Lotufo

Laura Benseñor Lotufo é arquiteta e urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Em seu trabalho final de graduação, defendido em dezembro de 2010, Laura desenvolveu uma família de fontes tipográficas digitais inspirada na “Relação da entrada [...]” e nos tipos empregados por Isidoro da Fonseca, sob orientação da Professora Dra. Priscila Lenas Farias. A família chama-se "Isidora".

A Brasiliana USP conta com um incipiente grupo de trabalho de "Resgates Tipográficos", que se dedica à recuperação de fontes tipográficas utilizadas em livros históricos e sua adaptação para uso nos computadores modernos. O grupo, carinhosamente apelidado de "Tipografia Brasiliana", é composto por alunas da FAU e entrevistou Laura Lotufo, cujo primoroso trabalho de recuperação dos tipos utilizados por Isidoro da Fonseca em seu “Relação da entrada [...]” é, sem dúvidas, uma fonte de grande inspiração.



1.

— Laura, a criação de uma família de fontes tipográficas digitais a partir de fontes usadas no passado, ou seja, o trabalho de "Resgate Tipográfico" tem, sem dúvidas, um valor histórico e cultural imensurável, principalmente tratando-se de uma obra tão relevante como a “Relação da entrada [...]” de Isidoro da Fonseca, primeiro livro impresso no Brasil. Quais as particularidades dos tipos empregados por Isidoro e sobre que aspectos o resgate tipográfico contribui para a recuperação da História da Tipografia no Brasil?

Uma das primeiras etapas de trabalho foi, logicamente, a escolha de uma obra como referência para o ‘resgate tipográfico’. Defini dois principais critérios para a escolha da obra: 1) seu valor histórico (importância na história editorial brasileira e valor intelectual do conteúdo; e 2) suas qualidades gráficas e tipográficas que dariam margem para um desenvolvimento satisfatório do ‘resgate tipográfico’. Então, após um levantamento inicial, escolhi a Relação da entrada […], pois, embora o tema do documento fosse ‘passageiro’, seu valor como o primeiro livro impresso em território brasileiro é inquestionável, ainda mais num momento que antecede em mais de meio século a vinda definitiva da imprensa para o Brasil. Além disso, os tipos empregados e, principalmente, o caráter aparentemente improvisado e pouco refinado do impresso, despertaram um interesse investigativo sobre a produção da obra e a história do próprio Isidoro da Fonseca.

Esse improviso é visível ao longo de todo o livro. No entanto, alguns aspectos tipográficos se destacam; particularmente, o ‘til’ sobre o ‘O’ de ‘RELAÇAÕ’ que é, na realidade, um ‘J’ em corpo menor girado em 90 graus, e o cedilha deslocado abaixo de ‘C’, que se assemelha a um ‘s’ com a parte superior cortada. Esses elementos improvisados, assim como o aspecto geral do material impresso, traduzem ‘tipograficamente’ as circunstâncias nas quais foi impresso, de maneira clandestina, às pressas, numa oficina recém aberta e, provavelmente, cujo funcionamento ainda ocorria com um certo grau de improviso. Espero que o desenvolvimento da família ‘Isidora’, – o processo e não só o resultado final – tenha contribuído no sentido de resgatar esse ‘espírito’ que existiu no passado editorial brasileiro.



2.

— Tratando-se de um "Resgate Tipográfico", há muitas escolhas a serem feitas em relação à fidelidade ao desenho original dos tipos, ajustes no desenho e inserção de caracteres que não eram usados à época. Que escolhas de desenho você precisou fazer no seu projeto e que ajustes técnicos foram necessários para fazer da "Isidora" uma família de fontes tipográficas que pode ser usada nos computadores hoje?

Considerei quatro principais aspectos para o desenvolvimento da família ‘Isidora’:

  1. A melhor postura, como designer, para desenhar a fonte: reproduzir da maneira mais fiel possível o tipo original ou, como fiz, procurar manter o espírito do design e tomar certas liberdades, como expandir a família tipográfica criando novos pesos e possibilidades de uso.
  2. As diferenças entre os caracteres utilizados na Relação da entrada [...] e aqueles comuns hoje. Muitos símbolos caíram em desuso enquanto outros passaram a ser fortemente usados nos últimos anos. Considerei de interesse histórico, sobretudo no meio acadêmico, resgatar esses caracteres hoje muito pouco utilizados e torná-los disponíveis digitalmente, assim como desenvolver novos caracteres hoje utilizados.
  3. A fundição de tipos metálicos levava em consideração cada corpo da família, e, portanto, havia diferenças consideráveis, por exemplo, entre um caractere corpo 10 e o mesmo caractere corpo 18 de um mesmo estilo pertencente a uma mesma família. Eram feitos uma série de ajustes ópticos que permitissem que os caracteres mantivessem o mesmo peso e o mesmo ‘espírito’ na mudança de um corpo para outro. Essa constatação é importantíssima, pois mostra que dois fatores devem ser levados em consideração: 1) o corpo dos caracteres usados como referência e 2) o uso final da fonte digital que se pretende desenhar. Se a referência fosse, por exemplo, uma fonte para títulos, mas a destinação final da fonte digital fosse a aplicação em textos pequenos, seriam necessários ajustes consideráveis quanto ao peso, contraste e as proporções das formas. Tive que levar isso em conta, pois a maior parte dos tipos empregados na Relação da entrada [...] estão em corpo 18 e meu objetivo era uma família digital para a composição de textos, que são geralmente utilizadas em corpos de 9 a 12.
  4. Os materiais e técnicas utilizadas no impresso também são importantes para o desenho dos caracteres. No caso do papel, qualidade, gramatura, porosidade, rugosidade, são fatores que influenciam essencialmente a aparência dos caracteres impressos. A qualidade e quantidade de tinta também influenciam a aparência final do impresso, assim como a pressão adotada sobre o papel. Se lembrarmos que a puxada da alavanca e a aplicação da tinta eram manuais, podemos imaginar que haveriam variações razoáveis, de exemplar para exemplar, de uma mesma página. Por isso, foi importante levantar e analisar muitas ocorrências de um mesmo caractere ao longo de todo o documento.



3.

— Como profissional do design gráfico, que aspectos do projeto você achou mais enriquecedores?

Foi uma experiência acadêmica completamente nova em que procurei aliar dois temas de meu interesse, a tipografia (aliada ao design de tipos) e a produção editorial no Brasil. Procurei mostrar os resultados finais, mas sempre valorizando e documentando o processo de trabalho, testes, erros e acertos de metodologia.

Tendo escolhido a Relação da entrada [...] como referência, fiz, logo no início do trabalho, uma primeira tentativa de de­senvolvimento prático. Optei pelos caracteres itálicos como ponto de partida e fiz um exercício projetual que durou cerca de dois meses e meio, paralelamente à pesquisa histórica. Considero que este foi um ponto decisivo e o mais enriquecedor, pois conheci e compreendi muito mais o processo e a metodologia aplicadas. A experiência do itálico foi extremamente elucidativa, e contribuiu para o desenvolvimento dos demais estilos da família tipográfica. Permitiu, também, que pudesse ensaiar uma apresentação da fonte na forma de espécime, no qual podiam ser vistas formas de aplicação da fonte e da composição de texto em corpos diferentes. Findada esta experiência, as considerações para a realização do resgate tipográfico, assim como o processo metodológico, puderam ser reavaliados e acredito que essa reflexão contribuiu positivamente para o resultado final.



4.

— Na Brasiliana USP há um grupo de estudantes da FAU iniciando projetos de resgates tipográficos, o grupo "Tipografia Brasiliana". Que conselhos você nos daria?

Os conselhos que posso dar são melhor transmitidos através da minha experiência com a família ‘Isidora’. Alguns aspectos do trabalho foram absolutamente essenciais. A referência metodológica de Cristóbal Henestrosa[1] para o desenvolvimento de um ‘resgate tipográfico’ foi o grande ponto de partida do trabalho. A partir dessa referência, pude desenvolver o meu próprio processo de trabalho, a começar pela pesquisa histórica.

Quanto à pesquisa, aspectos aparentemente pouco importantes para o desenho de uma família tipográfica digital ajudaram a moldar o resultado final. Explorar as circunstâncias da vinda de Isidoro da Fonseca para o Brasil e todo o processo de impressão do livro me ajudou a entender e procurar transmitir aquele caráter de improviso que tanto me instigou. Considero também, que foi fundamental entender o processo mecânico pelo qual foi impressa a Relação da entrada [...], ou seja, compreender como se imprimia com tipos móveis, projetar como teria funcionado fisicamente a oficina do impressor. Acredito, por essa experiência, que apenas aprendendo como funcionou o processo no passado que se pode, de fato, ‘resgatar’.



Muito obrigada pela entrevista, Laura! Estamos aguardando novos resgates tipográficos!

Entrevista com Laura Benseñor Lotufo, por Kollontai Diniz em março de 2011



Notas:

[1] HENESTROSA, Cristóbal. Espinosa: Rescate de una tipografía novohis-pana. México: Designio, 2005.