A Brasiliana digitalizou dois livros das missões jesuíticas do Paraguai: o Arte de la lengua guarani, de Antonio Ruiz de Montoya e o Explicacion de el catechismo en lengua guarani, de Nicolas Yapuguay, ambos impressos em 1724 no Pueblo de Santa Maria La Mayor (veja ao lado link para baixar os livros em arquivo pdf). São livros raros, parte do que restou da produção de livros nas missões jesuíticas no Paraguai. Para conhecer um pouco dessa história, entrevistamos a Fernanda Veríssimo.
1.
— Como surgiu a idéia de estudar a produção livreira das missões jesuíticas do Paraguai?
Eu brincava com o Dr. José [Mindlin] dizendo que a “culpa” era dele. Depois de fazer um mestrado em História do Livro, na Inglaterra, eu fui visitá-lo em São Paulo. Ele e D. Guita [Mindlin] foram, como sempre, adoráveis e me mostraram a biblioteca em detalhes. Um dos livros era o Explicacion de el catechismo en guarani, cuja autoria é de um índio, Nicolas Yapuguay. Dr. José me falou rapidamente sobre os livros impressos nas missões e eu me interessei. Um ano depois, apresentei um projeto de pesquisa ao Professor Luiz Felipe de Alencastro, da Sorbonne Paris IV, e ele me orientou num mestrado sobre o assunto. Em seguida, comecei a trabalhar no doutorado. A minha idéia sempre foi fazer um estudo mais analítico de cada livro, no espírito da escola inglesa de “bibliografia analítica”, descrevê-los fisicamente, tentar descobrir o que fosse possível sobre o processo de impressão. O maior problema, claro, foi ter acesso aos livros, que são muito raros. A produção original já era, provavelmente, muito pequena, num período também curto (1700-1727) e com o desmantelamento das missões, depois da expulsão dos jesuítas, as bibliotecas se dispersaram e muitos livros se perderam ou foram destruídos. Você encontra alguns exemplares na Europa (na França, Inglaterra e Espanha, principalmente) e também em universidades nos Estados Unidos. Na América do Sul, há alguns no Brasil, no Chile e, principalmente, na Argentina, em coleções públicas e privadas.
Vários aspectos me interessaram no assunto, a começar pela questão mais ampla, que se aplica a todas as gramáticas, “artes” e vocabulários de línguas indígenas, da adaptação e modificação do alfabeto latino para representar estas línguas até então não-escritas e, em seguida, da manufatura destes novos caracteres a serem impressos. No caso da impressão jesuítica-guarani, esta questão tecnológica é ainda mais interessante porque todos os componentes são locais: a prensa (ou as prensas, porque não se sabe se havia uma em cada redução ou se a mesma prensa era levada de uma a outra missão), os tipos, a tinta, a mão-de-obra indígena, mesmo que com orientação dos padres. Só o papel era importado. Já havia impressão na região, em Lima, mas a prensa era européia e as matrizes também, assim como os primeiros impressores. As oficinas missioneiras funcionavam longe dos centros coloniais, servindo só àquela população de missionários e a elite letrada guarani. A qualidade pode não ser muito boa, mas há todo o cuidado em seguir uma estética “universal” do livro: as páginas de rosto seguem os mesmo padrões, com título, autor, data e local de impressão. Há prefácios, títulos, subtítulos, uso de itálicos e negritos. Enfim, são livros que se esforçam para ter “cara” de livro. Estes impressos tinham uma razão prática, claro, já que eram usados para ensinar o guarani e as doutrinas cristãs e não podiam ser importados, simplesmente porque não existiam fora dali. Mas também têm um significado simbólico muito grande, servindo a idéia de “civilização” tão cara aos jesuítas. A correspondência e as narrativas dos padres falam muito do talento de copistas dos índios, que se confirma quando você vê a qualidade e a clareza de um livro missionário manuscrito (dois dos quais eu vi na Biblioteca Mindlin). Então porque imprimir, se as cópias são poucas e existe a mão de obra copista? Afinal, construir uma prensa pode ser relativamente fácil, mas fazer os tipos (ainda por cima sem o metal adequado) e a tinta, e tocar o processo de impressão, tudo isso dá mais trabalho. Então há, sem dúvida, esta idéia do livro impresso como mais uma prova da construção de uma sociedade “civilizada”, ao lado de outras artes e ofícios como a escultura, a música. E essa idéia se reflete também na existência de um autor guarani impresso, Nicolas Yapuguay, que escreveu dois livros (Explicacion de el catechismo, de 1724, e Sermones y Exemplos, de 1727) em colaboração com um padre, Paulo Restivo. Não só escreveu como tem seu nome impresso na página de rosto, enquanto muitos autores jesuítas só assinavam, modestamente, “um padre da Companhia”.
2.
— Como os livros eram impressos nas missões?
Há muita conjetura. Não existe nenhum relato explicando as etapas do funcionamento de um atelier de impressão das missões, só menções esparsas. Uma carta que diz “tal padre traduziu tal livro, que foi impresso em tal missão”, ou um comentário sobre tipos feitos em estanho, ou queixas sobre a falta de papel. Não se sabe nem se havia uma prensa em cada redução ou uma prensa “móvel”, que era levada de cidade em cidade. Mas as páginas de rosto falam de pelo menos quatro locais de impressão: Loreto, Santa Maria La Mayor, San Francisco Xavier e, talvez, Candelária. Hoje é possível encontrar oito títulos, todos eles gramáticas, dicionários ou livros religiosos, com exceção do último conhecido, Carta que el Señor Antequera y Castro (...) escrivio al Señor Obispo Joseph Paloz, de 1727, um livreto que tratava de uma polêmica envolvendo a Companhia e a revolta comunera dos anos 1720-30 no Paraguai e do qual só existe um exemplar, na Biblioteca Britânica. Houve mais impressões, conhecidas pela correspondência jesuíta, mas que simplesmente se perderam, ou estão por aí e ainda não foram identificadas. Há pouco tempo circulou um rumor de que os dois primeiros livros impressos nas missões, um Martirologio Romano e o Flos Sanctorum, dois títulos hagiográficos, teriam sido encontrados numa redução de chiquitos, na Bolívia, mas a informação não foi confirmada. Um colecionador argentino garante que as páginas de guarda de um dos seus livros são feitas com folhas de um destes livros desaparecidos, mas também é difícil confirmar. Apesar do assunto parecer chato, as buscas são divertidas e muitas vezes parecem coisa de cinema.
3.
— Porque os jesuítas instalaram oficinas de impressão nas missões do Paraguai?
Há, antes de mais nada, a questão prática. Os livros eram necessários para ensinar o guarani aos missionários e para ensinar as doutrinas cristãs em guarani, e era mais fácil produzi-los ali mesmo, entre aqueles que dominavam a língua, do que mandar fazê-los na Europa. O padre Antonio Ruiz de Montoya, que é um dos maiores nomes da história das missões do Paraguai e um grande linguista, chegou a imprimir três livros em guarani na Europa (um Tesoro e uma Arte y Vocabulario, em 1639, e um Catecismo, em 1640), mas reclamou muito da dificuldade que teve, porque os tipógrafos não conheciam a língua e era preciso criar novos tipos para imprimir em guarani. Mas além da questão prática, acho que há também essa coisa simbólica do livro impresso como mostra de uma sociedade desenvolvida, mais uma entre tantas artes e ofícios que os padres se orgulhavam de ter implantado nas missões e nos quais, muitas vezes, os guaranis eram mais capazes do que os artesãos das cidades coloniais como Assunção e Buenos Aires.
4.
— Em entrevista à Valéria Gauz [1] você conta que pesquisou também na John Carter Brown Library. Como os exemplares da Biblioteca Mindlin se relacionam com o conjunto, ou seja, com os outros exemplares que você estudou?
A John Carter Brown, onde passei uma temporada de quatro meses, tem a maior coleção de “guaraníticos” do mundo. Quando fui pra lá, em 2003, o Dr. José me fez prometer que, sempre que possível, eu deveria lembrar ao diretor (Norman Fiering, na época) que eles não tinham o Explicacion de el Catechismo, que a biblioteca Mindlin tinha. Mas até este eles acabaram achando e comprando, em Paris. E eu fui cúmplice, porque examinei o livro para eles e achei que valia a pena comprar, estava em ótimas condições e mais completo que os outros exemplares que eu conhecia. Liguei primeiro pro Dr. José, avisando da minha traição, e é claro que ele me perdoou. Agora a JCB tem 6 dos 8 títulos existentes. Eles foram super generosos e me ofereceram cópias de todos e assim eu pude compará-los, página por página, com outros exemplares que tive a oportunidade de examinar. Para minha grande surpresa, há muitas diferenças na impressão de vários exemplares, demonstrando pelo menos a reimpressão de algumas páginas. Isso não significa que tenha havido mais de uma edição de cada livro (acho que nem se pode falar de “edição” em relação aos impressos das missões), mas talvez se possa falar de diferentes “estados” ou “emissões”. Fica claro que o processo era mais complexo, e talvez feito com mais cuidado, do que se imaginava. Há muitas correções manuscritas, contemporâneas, feitas à margem ou no corpo do texto, e isso não é surpreendente. A surpresa é ver as correções manuscritas de um exemplar serem corrigidas na impressão de outro, mostrando que houve um processo de revisão dos tipos e da composição tipográfica. Parece-me que estas correções eram feitas durante a impressão. Imagino um corretor que vá lendo as provas quando elas começam a ser impressas, detecte um erro e corrija à mão; a impressão é suspensa enquanto o erro é corrigido na forma e depois segue do mesmo ponto. Claro que, como não havia muito papel, mesmo os cadernos com erros, corrigidos à mão, eram mantidos nos livros.
Deste livro que está digitalizado, Explicacion, eu comparei três exemplares (Biblioteca Mindlin, Fundação Biblioteca Nacional e JCB). Do Arte de la lengua guarani consegui ver cinco (JCB, Fundação Biblioteca Nacional, Biblioteca Nacional da França, Biblioteca Britânica, Biblioteca Nacional do Chile e uma coleção particular da Argentina), do Vocabulário, três (JCB, Biblioteca Britânica e Biblioteca Nacional da Argentina). Mas o mais impressionante deles é, sem dúvida, o Diferencia entre lo temporal y eterno, impresso em 1705. É um folio lindo, com 43 gravuras impressionantes. Que eu saiba, só existem dois exemplares completos no mundo, ambos na Argentina. Depois de muitas tentativas, consegui ver os dois. Pra se ter uma idéia do valor, o colecionador particular que tem um dos exemplares recusou por ele uma oferta de mais de dois milhões de euros de uma instituição européia.
Entrevista com Fernanda Veríssimo, por Kollontai Diniz em agosto de 2010
notas:
[1] Leia também: entrevista com Fernanda Veríssimo, por Valéria Gauz em setembro de 2003: Missões jesuíticas no Paraguai - I e Missões jesuíticas no Paraguai - II.