Dentre as obras de medicina popular do século XIX, o dicionário de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, certamente o mais conhecido livro do gênero, foi de importância fundamental para a divulgação da prática e do saber aprovados pelas principais instituições médicas oficiais entre finais do século XIX e princípios do XX.
Eram raros os médicos formados em universidades no Brasil dos setecentos, e os poucos que havia concentravam-se na maior parte das vezes nos grandes centros urbanos como Salvador e Rio de Janeiro, com a população do interior recorrendo aos cuidados de cirurgiões, boticários, parteiras e curandeiros. Além desses recursos a população valia-se também dos manuais de medicina prática, cuja função era fornecer informações sobre o diagnóstico das doenças e conselhos sobre os principais medicamentos indicados para a sua cura.
A transferência da Família Real em 1808 para a América inaugurou uma época de expansão e abertura às ciências, o que se refletiu entre outras coisas, na criação das instituições científicas como as escolas médico-cirúrgicas da Bahia e do Rio de Janeiro. Mas foi apenas em meados do século XIX que este saber institucional passou a ser divulgado em maior escala à população brasileira, quando então aumentou a circulação de livros sobre temas relacionados à saúde. É neste contexto que se insere a produção ds dicionários de medicina doméstica.
Nascido em Lukov, na Polonia, Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, ainda estudante de medicina, exilou-se em Paris para escapar à repressão que seguiu ao levante de 1831 contra o domínio russo. Foi na França que terminou seus estudos, país de onde se transferiu para o Brasil no início de 1840. Instalado no Rio de Janeiro passou a clinicar e a participar das principais instituições médicas locais, tornando-se membro titular da Academia Imperial de Medicina. Em 1842, lançou o seu Dicionário de medicina popular, cujo sucesso editorial foi imediato, e cuja aceitação pelo público é atestada pelas cinco edições subseqüentes sendo a última de 1890. Em 1855 o Dr. Chernovitz retornou à Europa, onde veio a falecer em 1881.
O dicionário descreve os medicamentos mais populares da época estando todos eles organizados em ordem alfabética. Além dos de origem européia, aparecem outros tantos baseados no uso e nas tradições indígenas, bem como são numerosos os verbetes descrevendo as principais doenças disseminadas pelo Brasil, e os meios terapêuticos indicados na sua cura. Destinado a um público diversificado, a linguagem utilizada pelo autor era fácil e acessível, o que ajuda a compreender a sua larga difusão e a boa reputação que alcançou ao longo dos anos. Até meados do século passado não havia farmácia de boa fama no interior do Brasil que não contasse com um exemplar da obra porque, nas palavras de Carlos Drummond de Andrade, o
“Doutor Pedro Luiz Napoleão Chernoviz Tem a maior clientela da cidade Não atende a domicílio Ninguém lhe vê a cara Misterioso doutor da capa preta.” (O Dr. Mágico in Boitempo, I, Rio de Janeiro, Record,2001)
Sobre a obra: Maria Regina Cotrim Guimarães; Chernoviz e os manuais de medicina popular no Império. Dissertação de mestrado/ Fiocruz, 2003)