BASÍLIO DA GAMA (1741-1795)

Ivan Teixeira

José Basílio da Gama (Tiradentes, 1741-Lisboa, 1795) nasceu na época de D. João V, mas sua vida madura transcorreu nos reinados de D. José I e D. Maria I. Aos 18 anos, viajou para a Itália, fixando-se depois em Lisboa, onde exerceu elevados postos na administração pública e obteve carta de nobreza. Na Itália, freqüentou a Arcádia Romana, com o pseudônimo pastoril de Termindo Sipílio. Do lado paterno, pertencia à família de Vasco da Gama; do materno, descendia de escravos negros. Seus poemas circularam em folhas volantes, opúsculos e em pequenos livros (O Uraguai, Quitúbia). Foram reunidos em 1920 nas Obras Poéticas, por Joaquim Norberto e José Veríssimo, em edição da Livraria Garnier, Rio de Janeiro. Em 1996, a Editora da Universidade de São Paulo publicou nova versão desses poemas, com estudos literários e filológicos.

Do ponto de vista artístico, Basílio da Gama representa um aspecto interessante da Ilustração francesa nas Letras luso-brasileiras. Tendo escrito na época de Voltaire e do pintor Jean-Jacques Louis David, Basílio da Gama soube como poucos transformar política em poesia. Por isso, alguns textos requerem certa paciência arqueológica. Outros, ainda que filiados ao momento, possibilitam interpretação mais livre. Adepto do pensamento administrativo do Marquês de Pombal, de quem foi secretário, o poeta sempre se envolveu em debates de interesse nacional, tratando-os com singular eficiência retórica. Quase toda sua obra enquadra-se no gênero do encômio alegórico, em que a imaginação poética suporta argumentos em favor de causas públicas. Assim, com poucas exceções, a poesia de Basílio da Gama pode ser entendida como intervenção artística na controvérsia européia sobre o conceito e a prática do Absolutismo Monárquico, particularmente em sua variante conhecida, hoje, como Despotismo Esclarecido. A outra hipótese de organização política considerada, mas sempre rechaçada pelo poeta, seria o Governo Teocrático, de feição neo-escolástica, ou apenas com participação decisiva do Clero.

Em 1765, ao escrever “Ode a D. José I”, exalta o governo ilustrado da razão, suposto promotor da paz e do progresso. Dois anos depois, escreveu “Ode ao Conde da Cunha”, primeiro Vice-Rei a governar a Colônia a partir do Rio de Janeiro, o que lhe oferece pretexto para elogio do desenvolvimento urbano e da indústria náutica que então se estabelecia na cidade. Em 1769, escreve o Epitalâmio a Excelentíssima Senhora D. Maria Amália, em que a luta de Sebastião José de Carvalho contra os jesuítas é figurada como um combate das Luzes contra as Trevas. Um pouco mais tarde, no mesmo ano, funde história com sátira política na redação de O Uraguai, obra-prima da brevidade e concisão, em que se encontram alguns dos mais apreciáveis versos da língua portuguesa. Nele, há uma caricatura da catequese jesuítica no Brasil, que o poeta caracteriza como manifestação do fanatismo e da ambição. Em 1776, editou “Os Campos Elíseos”, em que se exaltam supostas virtudes cívicas de membros da família de Sebastião José. Já no reinado de D. Maria I, em 1788, lastimou a morte de D. José, Príncipe do Brasil, em Lenitivo da Saudade, entendendo a ocorrência como perda coletiva para Portugal. Sua última publicação de relevo foi Quitúbia (1791), poema que apóia a suposta integração da Metrópole portuguesa com uma de suas colônias africanas, Angola.

Os primeiros informes sistemáticos sobre a vida de Basílio da Gama apareceram em Reposta Apologética, livro anônimo publicado em Lugano em 1786. Consensualmente atribuído ao padre jesuíta Lourenço Kaulen, esse livro de 300 páginas é uma veemente defesa da Companhia de Jesus contra as acusações de O Uraguai. Apesar de breve – primeiras 14 páginas do volume – essa biografia estabeleceu os traços fundamentais para o discurso sobre a vida do poeta. Nasce daí também, no discurso crítico sobre o poeta, a tópica da ingratidão contra os jesuítas e servilismo à causa pombalina. Embora funcionais na argumentação geral de Reposta Apologética, nenhuma das opções procede como categoria crítica adequada ao entendimento histórico e estético do poeta.