"O PATRIOTA, JORNAL LITTERÁRIO, POLTICO, MERCANTIL, &c" (1813-1814)

Marco Morel *

A publicação dos 18 números de O Patriota, Jornal Litterario, Politico, Mercantil, &c. entre fevereiro de 1813 e dezembro de 1814, na Impressão Régia, Rio de Janeiro (período, portanto, da presença da Corte portuguesa nesta cidade), representou o aparecimento do que hoje chamaríamos de primeiro periódico dedicado exclusivamente à difusão do conhecimento científico no Brasil. É de se notar a abrangente perspectiva enciclopedista do subtítulo: letras, política, comércio e “etc.”.

Tratava-se de um jornal bem diferente dos moldes atuais, com números mensais (e depois bimensais) que tinham em média 110 a 130 páginas. Pertencia a contexto intelectual marcado pela expansão e reinterpretação do Iluminismo do século XVIII, típico dos Antigos Regimes, mas já tocado pela nova conformação do liberalismo pós-Revolução Francesa - que, todavia, ainda não vigorava nos domínios luso-brasileiros. Era, pois, uma publicação cultural característica das monarquias absolutistas, na qual os que a redigiam estavam imersos nestas conjunturas de crise, mudança, ambiguidades e transformações, quando o comércio se redefinia na esteira dos impérios que ruíam, se ampliavam e de novas nações que emergiam.

Seu redator (hoje diríamos “editor”) era o baiano Manuel Ferreira de Araújo Guimarães (1777 - 1838), coordenador da publicação e integrante de uma rede de letrados luso-brasileiros que privilegiavam o Brasil como centro de poder no interior daquela nação portuguesa, como Silvestre Pinheiro Ferreira. Constavam também no periódico nomes da geração que teria destaque no Brasil independente uma década depois, como o paulista José Bonifácio de Andrada e Silva, o baiano Domingos Borges de Barros (futuro visconde de Pedra Branca) e o fluminense Mariano Pereira da Fonseca (futuro marquês de Maricá), ao lado do “inconfidente” mineiro Manuel Inácio da Silva Alvarenga. O jornal tinha, pois, uma tendência “brasileira” que não significava nacionalismo, mas uma vertente do patriotismo imperial português.

Entre os assinantes estavam nomes da nobreza como d. Carlota Joaquina, os condes dos Arcos, da Palma e da Ponte, o marquês de Torres Novas e o barão de Rio Seco. O que não garantiu a sobrevivência do jornal. Seus autores eram basicamente integrantes do círculo de mecenato de d. Rodrigo de Sousa Coutinho, conde de Linhares, falecido no ano anterior ao surgimento de O Patriota. O veículo, de certo modo, foi uma tentativa de sobrevida desta articulação, após a morte de seu patrocinador. Estava, portanto, no cerne das disputas de poder no império português, sendo atingido por estas.

Trazendo expressiva contribuição iconográfica (gravuras, tabelas e quadros) e tratando de temas como Botânica, Zoologia, Mineralogia, Cartografia, Filosofia, Viagens, Literatura, História, Medicina, Matemática, Química, Topografia, Hidráulica e Navegação, entre outros, O Patriota, mesmo sem se caracterizar como um dos combativos jornais patrióticos da época, sucumbiu pelo que poderia ser o “etc.” de seu subtítulo, ou seja, os fatores imponderáveis da crise que atravessava aquela sociedade.