O VOCABULÁRIO PORTUGUEZ E LATINO de Rafael Bluteau

Maria Clara Paixão de Sousa *

O vocabulário é a expressão de uma sociedade

Georges Matoré [1]

O Vocabulario Portuguez e Latino de Rafael Bluteau (1712), “a obra mais monumental da lexicografia portuguesa” [2], envolve-se de um intenso significado histórico, que pode ser observado de partida nos termos do seu título completo ("Vocabulario Portuguez, e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, Forense, Fructifero, Geographico, Geometrico, Gnomonico, Hydrographico, Homonymico, Hierologico, Ichtuologico, Indico, Ifagogico, Laconico, Liturgico, Lithologico, Medico, Musico, Meteorologico, Nautico, Numerico, Neoterico, Ortographico, Optico, Ornithologico, Poetico, Philologico, Pharmaceutico, Quidditativo, Qualitativo, Quantitativo, Rethorico, Rustico, Romano; Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico, Terapeutico, Technologico, Uranologico, Xenophonico, Zoologico, Autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes, e latinos, e offerecido a ElRey de Portugual, D. Joaõ V, pelo Padre D. Raphael Bluteau."). Ali se explicitam Your browser may not support display of this image. os fatores centrais para a compreensão do significado da obra em sua época: o espírito enciclopedista da sistematização lingüística (trata-se afinal de um vocabulário “Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, ...”); o movimento de elevação da língua portuguesa ao nível de uma língua de cultura equiparável ao latim; e o impulso para tanto representado pelas ações reformadoras da Restauração portuguesa, a partir do reinado de D. João V, como têm apontado diversos autores [3].

De fato: a obra de Bluteau, e o movimento de dicionarização que ela inaugura, tiveram papel central na consolidação da idéia do português como língua nacional e de cultura. Esta primeira dimensão da importância do Vocabulário – seu peso na constituição de um lugar para a língua portuguesa no mapa das línguas nacionais européias – só pode ser apreciada se lembrarmos o quanto esse lugar se encontrava ameaçado, no início dos 1700, como efeito de quase dois séculos de domínio cultural da língua castelhana em terras e mentes lusitanas. O próprio Bluteau, no Prólogo ao leitor estrangeiro do Vocabulário, ocupa-se de desfazer quaisquer dúvidas sobre o caráter do português como uma Língua merecedora de letra capital, afirmando sua autonomia e independência – uma afirmação cujo valor facilmente se perde no nosso horizonte atual, mas que, na geração da Restauração, era ponto de honra para muitos, e alvo de acalorados ataques de outros. Assim, num contexto em que a língua portuguesa arriscava-se a ser vista como mera corrupção dialetal do castelhano, a importância simbólica do empreendimento da construção de seu primeiro dicionário monolíngüe foi central [4] .

A segunda dimensão da importância do Vocabulário nos aparece na esteira da primeira: uma Língua de Cultura, uma Língua Nacional, precisa de seus instrumentos, precisa dicionarizar-se – e para isso, sistematizar-se, normatizar-se, organizar-se. Ou, se quisermos tomar emprestadas as palavras do próprio Bluteau, a língua precisa ser “colocada em ordem nas aras de uma filologia” – “Tirei dos authores Portuguezes as palavras, que fora da alphabetica jerarchia andavão dispersas, & a todas ellas, como a simulacros da eloquencia, colloquei com ordem nas aras desta Philologia...”, afirma Bluteau na Introdução ao Vocabulario. Tal esforço de ordenação não teve precedentes na história da língua portuguesa: os especialistas calculam que Bluteau tenha aumentado em cinco vezes o volume do léxico que havia sido listado na incipiente produção lexicográfica portuguesa do Renascimento e do século XVII. Essas primeiras obras de sistematização vocabular, herdeiras diretas da tradição escolástica pedagógica dos glossários ou guias de leitura medievais, deram início ao levantamento sistemático das unidades lexicais do português – destacam-se, aí, o Dictionarium ex Lusitanico in Latinum Sermonem de Jerónimo Cardoso, de 1562; o vocabulário de Agostinho Barbosa (1611), o de Amaro de Roboredo (1621), e a extensa lista dos compêndios vocabulares dos jesuítas, tais como o Vocabulario Lusitanico Latino de Manuel Barreto (1607). Todos esses compêndios compartilham a característica de constituírem, fundamentalmente, obras de uso escolar para o apoio à leitura em latim. No contraste em relação a este ponto reside a originalidade do Vocabulário de Bluteau, obra cuja missão essencial é a sistematização e a descrição da Língua Portuguesa. O pioneirismo do esforço de sistematização da língua materna, e a amplitude dessa sistematização, unem-se assim para formar essa segunda dimensão da importância da obra de Bluteau.

Aqui atingimos a terceira dimensão da importância da obra: pois se de um lado o Vocabulario é produto de um contexto histórico que permitiu e deu sentido a sua construção, de outro lado é, ele também, produtor de efeitos históricos. Um desses efeitos é o da própria direção da padronização lexical da língua portuguesa, que o Vocabulário inaugura e modela perante toda a lexicografia posterior. O caráter seminal da obra de Bluteau nesse aspecto, entretanto, só pode ser bem compreendido se lembrarmos o destino que seria reservado ao Vocabulário graças a seu “recompliador”, Antonio de Morais Silva, que em 1789 lançará uma segunda edição da obra sob o título notavelmente sucinto de “Diccionario da Lingua Portugueza”. A referência de autoria desta edição (“Composto pelo padre D. Rafael Bluteau, Reformado e accrescentado por Antonio de Morais Silva”) dará vazão a inúmeros debates na historiografia (essa polêmica, bem como um quadro com a fortuna crítica em torno da obra de Bluteau, está apresentada no seguinte artigo [O DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUEZA de Antonio de Moraes Silva]). Aqui importa apenas ressaltar que a condensação realizada por Morais não se limita ao título, mas atinge a obra como um todo, conferindo um caráter moderno ao espírito quase barroco, quase enciclopédico da empresa de Bluteau – fundando, de fato, a possibilidade de seu caráter seminal no âmbito da lexicografia portuguesa.

Há entretanto um segundo efeito da obra de Bluteau sobre a história da língua, com relação ao qual seu autor talvez ocupe a posição de semeador solitário. O Vocabulário pode ser visto como a inauguração de uma relação institucionalizada entre o falante letrado e o universo da língua portuguesa escrita, que perduraria nos séculos seguintes, e que se revela na seleção das fontes agrupadas por Bluteau para compor um vocabulário “Autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes e latinos”. Como salienta C. Murakawa [5], a lista em que Bluteau reúne as obras “exemplares” da historiografia e da literatura em português reflete a identidade cultural, as limitações histórico-institucionais, e os valores éticos e morais atuantes na sociedade portuguesa dos 1600 (considerando-se a década de 1680 como o ponto inicial do período de trinta anos que Bluteau teria dedicado à construção da obra). Inicia-se assim a construção do Cânone da língua portuguesa escrita, ato inaugural que viria a conformar e moldar os recortes posteriores que determinariam seus “melhores” escritores.

Temos assim no Vocabulário de Bluteau o produto da relação histórica que se formara entre a sociedade e as letras na Portugal seiscentista, e ao mesmo tempo uma obra produtora de efeitos sobre a sociedade letrada portuguesa dos séculos seguintes. A relevância da mais recente edição do Vocabulário no âmbito da Brasiliana Digital, primorosamente produzida pela equipe da Dra. Márcia Moisés Ribeiro, reside primeiramente nesse significado histórico da obra. Por representar uma época, e por influenciar hereditariamente as épocas seguintes, o Vocabulário possibilita aos leitores de hoje um vislumbre do universo da língua portuguesa e da leitura em português nos últimos trezentos anos.

Esse universo, por sinal, encontra-se ele mesmo também replicado no acervo da própria Brasiliana, que já abriga algumas das obras (e virá a abrigar muitas outras) entre as quais Bluteau selecionou “palavras dispersas que andavam fora da alfabética hierarquia”, arou-as, definiu-as – transformou-as, com efeito, de palavras de facto em palavras de direito. Essa relação entre a obra e o acervo que a abriga leva essa apresentação a encerrar-se com a sugestão de uma pergunta: estaremos recriando, na forma de uma biblioteca virtual, a rede de palavras, sentidos e leituras que informavam e eram informados pelo Vocabulário de Bluteau?



NOTAS

[1] Georges Matoré, 1968, como nos lembra e traduz C. Murakawa, 2006.

[2] Segundo Verdelho, 2009

[3] Entre outros, Marquilhas, 2001; Dias e Bezerra, 2006; Murakawa, 2006; Nunes, 2006; Verdelho, 2009

[4] Nesse sentido importa ressaltar que o Vocabulário, ainda que se denomine Portuguez e Latino, tem sido considerado pela lexicografia portuguesa essencialmente como um dicionário monolíngüe, o que se mostra claro no exame do detalhamento do tratamento conferido ao português na obra, em contraste com a brevidade e o caráter acessório das definições latinas, como destaca Verdelho (2009).

[5] Em Murakawa, 2006, Capítulo I (O corpus do Vocabulário de Bluteau, fonte primeira do exemplário de Morais)