ÁLVARES DE AZEVEDO (1831-1852)

Paulo Franchetti *

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852) é até hoje um dos poetas mais lidos do Romantismo brasileiro. Sua poesia abriu-se a muitas influências, que o poeta nem sempre teve tempo para depurar e solidificar. Vários de seus textos – principalmente os poemas longos, que não quis ou não pôde talvez rever para publicação – ficam prejudicados pelo uso excessivo de referências literárias e lugares-comuns do ultra-romantismo. Por esse lado internacional, o poeta é identificado nas histórias literárias como representante máximo do byronismo brasileiro, que consistiu num gosto acentuado pelo cinismo, pelo pessimismo e pela ironia, e num apego às descrições mórbidas e funerárias, à imagética diabólica e a uma mistura de tedium vitae com lubricidade desenfreada.

Foi principalmente por esse aspecto que a sua poesia e a sua prosa obtiveram, em meados do século passado, enorme ascendência sobre os jovens poetas. E é ainda esse lado que persiste na imagem corrente e obscurece o que há de mais importante na sua poesia: o humor melancólico, a irreverência e o coloquialismo presentes, por exemplo, nas suas “Idéias Íntimas”. Sua obra, escrita poucos anos após a estréia de Gonçalves de Magalhães, já sinaliza um novo momento na poesia brasileira. Os literatos, no seu tempo, não são mais barões do Império, integrados à sociedade, sem crises de identificação política. Nem se viam como condutores da cultura nacional em seu caminho para o esplendor. São jovens estudantes, que manifestam na sua obra e nos atos públicos de sua vida o desconforto do homem de letras no sufocante ambiente intelectual do Brasil oitocentista.

Frente à limitação do público e dos meios de reprodução e preservação da cultura, o poeta que por volta de 1850 entrasse na vida adulta (e continuasse poeta) ou assumia o lado obscuro e outsider – foi o caso de Varela (1841-1875); ou então se dilacerava entre ele e uma fachada respeitável e medíocre – solução almejada e nem sempre conseguida por Bernardo Guimarães (1825-1884). Aos demais a opção não chegou a colocar-se, por mal sobreviverem à adolescência.

A obra de Azevedo, como a de Casimiro, é atravessada por uma obsessiva tematização do amor adolescente, que foi objeto da análise de Mario de Andrade, no ensaio “Amor e medo”.

No caso de Álvares de Azevedo, o movimento central da vivência amorosa é a rígida divisão entre os domínios do afeto espiritual e do desejo carnal. Toda a sua obra se articula em função desses pólos, que são sentidos como antagônicos. Nos poemas dedicados às virgens idealizadas e incorpóreas, todo o esforço do discurso lírico é exorcismar a emergência do corpóreo, sublimá-lo, como em Sonhando. Por outro lado, o sexo, sentido sempre como violação da pureza espiritual, como mácula, é associado ao crime – incesto, estupro e prostituição – e vivido de forma culpada e dolorosa. É o movimento que surge quando a sublimação não obtém sucesso. E tão forte é essa polaridade que passa a vigorar como princípio estético: existem não só imagens recorrentes associadas a cada um desses domínios, como também um tom característico para tratar de cada um deles. Uma conseqüência importante é que, quando o poeta tenta fugir às rígidas prescrições que se traçou e combinar os dois universos afetivos em um mesmo poema, o resultado é a que o texto se fragmente e perca sentido estrutural, como sucede ao longo e caótico O Poema do Frade.

Essa tentativa de manter separados e regidos por princípios autônomos dois mundos tidos por antagônicos organiza inclusive o livro de poemas de Álvares de Azevedo, que se divide em duas partes de tom bem diferente, tendo o poeta se incumbido de explicar ao leitor, a meio do livro, a sua articulação básica.

Essa mesma separação de domínios está na origem de uma interessante questão com a qual se depara o historiador da poesia brasileira da segunda geração romântica: em vários poetas, de um lado encontra-se a massa da produção socialmente aceitável: os poemas áulicos, inócuos e patrióticos de Bernardo Guimarães e José Bonifácio, por exemplo, a que correspondem, na obra de Azevedo, os versos em que se tematiza a pureza do amor fraterno e virginal, de que todo o pecado é afastado pela morte iminente de um dos amantes; do outro, uma estranha produção para circulação mais restrita ou marginal, como os poemas de non sense (ou "bestialógicos", de Guimarães e Bonifácio) e de cariz perverso ou pornográfico – a que corresponde, em Azevedo, o ambiente esfumaçado em que ocorrem os incestos, os estupros e os assassinatos da sua Noite na Taverna.

Tais poemas formam um conjunto notável, quando cotejados com a obra "séria" produzida por esses autores, por conta da inventividade e da qualidade literária. Poetas que pagavam um tributo excessivo às convenções do tempo quando celebravam a musa vaporosa e lânguida, que então se impunha, transformavam-se de súbito, ao sopro da maledicência, da lascívia ou da simples emulação boêmia, em virtuoses da palavra, improvisadores de raro talento e inventividade.

Mas apenas o poeta da Lira dos vinte anos conseguiu ser grande e produzir uma poesia de primeira linha em ambos os domínios, e é isso que o torna a figura emblemática e mais notável da sua geração.