Joaquim Nabuco (1849-1910)

Angela Alonso

Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo. Nome comprido, origem aristocrática. Nabuco veio ao mundo, em 1849, filho de José Thomaz Nabuco de Araújo, membro da aristocracia burocrática e um dos líderes políticos do Segundo Reinado. Herdou do pai a trilha usual da elite imperial: o Colégio Pedro II, a Faculdade de Direito (em São Paulo e Recife), postos diplomáticos (em Washington e Londres), e o mandato de deputado, alcançado em 1879, quando o partido paterno, o Liberal, voltou ao poder depois de longo ostracismo. Enquanto aguardava, poliu sua formação cortesã e fez-se Quincas, o Belo, dândi elegante, rei dos salões.

Chegando ao Parlamento, Nabuco chamou para si a causa que já suscitava manifestações na imprensa e nos teatros: a abolição da escravidão. Consagrou-se com discursos eloquentes, um projeto de emancipação paulatina dos escravos e a fundação, em 1880, da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão.

Assim ganhou prestígio mas perdeu apoio partidário. Não se reelegeu e foi para Londres, em 1882, como correspondente do Jornal do Comércio (e logo também do La Razón, de Montevidéu) e consultor de empresas inglesas com negócios no Brasil. Na Inglaterra, angariou apoio de abolicionistas europeus e redigiu obra de propaganda, O Abolicionismo. Voltou para as eleições de 1884, quando radicalizou, rimando abolição com reforma agrária. Neste e nos pleitos de 1885, 1887 e 1888, apesar da reação escravocrata, foi eleito e sagrado líder abolicionista, seu nome estampado em cigarros e chapéus, sua aparição convulsionando multidões.

Abolição feita, Nabuco empunhou nova bandeira, a monarquia federativa. Causa perdida para a avalanche republicana. No novo regime, defendeu o velho, compondo o Partido Monarquista, escrevendo críticas à República (Balmaceda e A Intervenção Estrangeira durante a Revolta de 1893), e uma história política do Segundo Reinado, sob a forma da biografia do pai (Um Estadista do Império). A nova identidade de intelectual o aproximou de Machado de Assis, que arquitetava a Academia Brasileira de Letras, na qual se fez secretário-vitalício.

No governo Campos Sales, aceitou o convite para produzir defesa brasileira em contencioso com a Inglaterra em torno das Guianas. Passando do monarquismo a emprego republicano, Nabuco publicou Minha Formação, livro no qual ressaltava sua imagem de homem de letras, inclinado para a diplomacia. Nesse campo, reinou uma vez mais: chefe de legação em Londres (1900-1905) e primeiro embaixador brasileiro nos Estados Unidos (1905-1910). Abraçou nova causa, o pan-americanismo, propagandeando a aliança preferencial do Brasil com os norte-americanos em conferências pelos Estados Unidos e logrando sediar no Brasil a Terceira Conferência Pan-americana, que presidiu.

A glória atingida em todos os campos nos quais atuou ficou atestada em seus funerais, em 1910, que congregaram admiradores do embaixador, em Washington; do intelectual, no Rio de Janeiro; do abolicionista, no Recife. Três facetas, três causas: abolicionismo, monarquismo, pan-americanismo, nas quais Nabuco logrou consagração instantânea e póstuma. Homem de muitos predicados. Disse dele Henry Hilliard: “ele brilhava no firmamento do seu país como a estrela da manhã.”