Gonçalves Dias (1823‑1864)

Paulo Franchetti

Antônio Gonçalves Dias (1823‑1864) nasceu em Caxias, no Maranhão, filho de pai português e mãe cafuza. Estudou em Coimbra, onde obteve o grau de bacharel em Direito em 1844. De volta ao Brasil, exerceu a docência e funções públicas, incluindo a diplomacia na Europa. Faleceu na costa do Maranhão, no naufrágio do navio no qual regressava da Europa, onde fora em busca de tratamento de saúde.

Seu livro de estréia (Primeiros Cantos) foi publicado no Rio de Janeiro em 1846. Dividido em duas partes, abria com uma seção de seis poemas, sob a denominação "Poesias americanas"; os outros, quase quarenta, vinham sob a rubrica de "Poesias diversas". A obra mereceu de imediato crítica muito elogiosa do poeta, historiador e romancista português Alexandre Herculano, que reconheceu em Gonçalves Dias um grande poeta e saudou nele o progresso literário do Brasil, lamentando apenas que as "Poesias americanas" fossem tão poucas. De fato, o era apenas programa na geração precedente se torna realização na obra de Gonçalves Dias, que é o criador da linguagem poética romântica no Brasil. O poema que abre os Primeiros Cantos, a "Canção do exílio", não é apenas o mais conhecido poema brasileiro – é o primeiro, desde Tomás Antônio Gonzaga, a recuperar um tom que, sem ser vulgar, é coloquial, e um arranjo sintático que, sem rebuscamento e sem esforço aparente, obtém das palavras uma musicalidade quase encantatória. Alie‑se a essas características um forte sentimento de apego à terra natal e ter‑se‑á a razão da imensa voga do poema, que teve versos incorporados à letra do Hino Nacional e à canção dos combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial.

Entretanto, o autor da maior parte dos versos que se costuma reconhecer como brasileiros é, dentre os românticos, o que manteve ao longo da vida a mais íntima ligação com o lirismo peninsular ibérico. O gosto pelo vocábulo arcaico, pela temática medieval e pela construção castiça revelam, a cada passo, os frutos de sua convivência coimbrã com os românticos portugueses. Dessa convivência resultaram ainda as Sextilhas de Frei Antão, que Gonçalves Dias publica nos Segundos Cantos (1848). Trata‑se de uma obra única no romantismo brasileiro, tanto pela linguagem, quanto pelo assunto. Escrevendo num pastiche de português antigo, o poeta assume a "persona" de um certo Frei Antão de Santa Maria de Neiva para cantar em longos poemas as excelências da vida portuguesa na época de ouro da nação. Essa fidelidade à literatura da antiga metrópole – e também à língua de sotaque lusitano – acabou por desconcertar os contemporâneos mais nacionalistas, os que mantinham, em linhas gerais, as bandeiras levantadas por Gonçalves de Magalhães.

A parte da obra de Gonçalves Dias que teve maior difusão e até hoje a mais lida é a de temática indianista. Ao seu indianismo se devem, de fato, algumas das obras‑primas da poesia de língua portuguesa: “I-Juca‑Pirama”, “Leito de folhas verdes”, “Marabá” e “Canção do Tamoio”. Todas publicadas nos Últimos Cantos, que a exemplo dos Primeiros, vinha dividido entre "Poesias Americanas" e "diversas". Entretanto, em que pese a recepção nacionalista, o ponto de vista mais compreensivo sobre o seu indianismo é o de Sérgio Buarque de Hollanda, que, num prefácio de 1939 aos Suspiros poéticos e saudades, afirma que a principal diferença entre o indianismo de Magalhães na Confederação dos Tamoios (1856) e o de Gonçalves Dias é que, enquanto Magalhães toma o indianismo como mais uma peça na sua luta por extirpar a herança portuguesa no Brasil, Gonçalves Dias faz "uma arte desinteressada, onde as paixões valem pelo que são e pela beleza de seus contrastes." Na mesma linha, Antonio Candido, por sua vez, 20 anos depois, chama a atenção para o parentesco entre o medievismo coimbrão das Sextilhas e o indianismo gonçalvino, cuja função principal não seria dar a conhecer a vida indígena, mas "enriquecer processos literários europeus com um temário e imagens exóticas, incorporados deste modo à nossa sensibilidade". Como observa Candido, o indianismo só ganha sentido completo quando colocado em função do universo de referências de que ele se origina: "para o leitor habituado à tradição européia, é no efeito poético da surpresa que consiste o principal significado da poesia indianista."