Correio Braziliense
Marco Morel*Considerado por alguns estudiosos como primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense ou Armazem Litterario foi publicado em Londres durante 14 anos (junho de 1808 a dezembro de 1822), num total de 175 números, chegando ao Brasil, pelos tempos de viagem marítima da época, entre 45 a 90 dias depois. Na então capital do Brasil, ainda América Portuguesa, começava a circular a partir de setembro de 1808 a Gazeta do Rio de Janeiro (coleção digitalizada disponível em www.bn.br), primeiro periódico impresso em terras brasileiras, na Impressão Régia instalada pela Corte recém chegada ao Novo Mundo.
A importância e a originalidade do Correio, cujo impacto foi grande entre as elites luso-brasileiras, residia em ser um jornal de opinião explícita, que praticava o debate público, defensor das modernas liberdades, em contraponto às tradicionais gazetas de Antigo Regime, ainda que houvessem importantes pontos em comum entre os dois periódicos que acabavam de surgir. A circulação do Correio era formalmente proibida e perseguida no Brasil e em Portugal, o que não impediu que circulasse, inclusive entre as autoridades. A própria localidade de elaboração deste órgão já expressava sua dupla e complexa relação com o liberalismo monárquico inglês e com a expansão econômica do Império britânico.
O redator do Correio, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (1774 - 1823), nascido na Colônia de Sacramento pertencente então a Portugal, era um típico homem de letras luso-brasileiro, que valorizava o papel do Brasil nesse conjunto. Ele empreendeu a monumental tarefa de coletar materiais e redigir durante todo o tempo uma publicação que lembra pouco um jornal de nossos dias. Cada número se compunha de um volume, mensal, apresentando em média entre 72 e 140 páginas, embora alguns tenham ultrapassado 200. Era dividido em quatro seções gerais: Política, Comércio e Artes, Literatura e Ciência e, ainda, Miscelânia (que se subdividia em Correspondência e Reflexões).
Tal publicação pertenceu a uma época de crise, instabilidades e expressivas transformações: impérios que ruíam ou se reestruturavam, nações que se constituíam. Em suas páginas vibram estas tensões, incertezas e esperanças. O Correio, sem dúvida, está associado às condições que resultaram na Independência do Brasil, ainda que só nos últimos momentos tenha apoiado a separação de Portugal. Para os pesquisadores atuais trata-se de um enorme e precioso manancial de fontes documentais. Sobretudo porque seu redator não apenas registrou de modo privilegiado tais acontecimentos locais e internacionais, formando um amplo “armazém”, como participou deles, assumindo posições e influindo, no seu limite, nas mudanças que ocorriam. A Era das Revoluções palpita nestas folhas impressas.
Indicação de leitura:
HIPÓLITO José DA COSTA Pereira Furtado de Mendonça. Correio Braziliense ou Armazém Litterario, Londres: W. Lewis Paternoster, 1808 - 1822. Edição fac-similar organizada por Alberto Dines em 31 volumes: Brasília /São Paulo, Correio Braziliense / Imprensa Oficial, 2001. O vol. 30, em dois tomos, contém artigos e ensaios sobre o jornal e seu redator e o vol. 31 traz a reimpressão do Índice do Correio Braziliense 1808 - 1822, apres. José Honório Rodrigues, Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1976.
* Marco Morel, Doutor em História pela Université de Paris I, professor do IFCH / UERJ.
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