• H ,0 ______r PHYSIOLOGIA ££D<£-à.^ t> A TYA?Ç V A ¥íTf f AK PHYSIOLOGIA DAS PUXÕES i OTECCOES PRECEDIDA DE UMA NOÇÃO PHILOSOPHICA GERAL E POR UM ESTUDO APROFUNDADO E DESCRIPÇÕES ANATÔMICAS DO HOMEM E DA MULHER SUAS DIFFERENÇASPHYSIOLOGICAS, PHYSIONOMICAS, PHILOSOPHICAS E MORAES, BASEADAS NAS THEORIAS DE LAVATER, M0REAC, PORTA, LE BRUN, ROUSSEL, V1REY E OUTROS SEGUIDA DE UMA CLASSIFICAÇÃO METHODICA DE TODOS OS SENTIMENTOS AFFECTIVOS E MORAES, CONFORME A FORÇA COM QUE OBRAM NO ESPIRITO, NA IMAGINAÇÃO E NO CORAÇÃO PELO ^T ItysioIogiea, itltyslonomira 0 pltilosophlca tio homem e tia mullter. DO HOMEM. Existo; mas quem sou? Brado intimo E' este d'uma voz que eu n'alma sinto: Fito em mim mesmo atônito meus olhos, Todo o meu ser em si se immerge e pensa; Rompe uni clamor universal silencio, E me diz que sou corpo organisado, E um de infinitos animaes, que a terra Mui carinhosa mãi produz e nutre: Como elles nasço e vivo, cresço e morro;, Como elles sinto a dor, sinto 03 prazeres; São mui iguaes nas sensações corporeas; Em todos vejo idênticos sentidos; Existe em todos machinal instineto, Que em varias gradações, se eleva, ou desço Desde o vasto elephante ao verme ignoto. A vigília tenaz me cansa e prostra; A fadiga aturada inerva as forças; Exhaustas-forças me restaura o somno. Hei mister respirar nos livres ares, Obra do Eterno, fluido pasinoso! Nenhum homem, nem af&rc, nem brulo,v Nenhum composto orgânico e vivente, A vida pôde conservar no vácuo. TOM. II. 1 — 2 — E sem almo calor, que a Natureza Em toda a parte accende, em toda espalha, Nenhum, nenhum dos animaes existe. Do mamo escuro, no profundo seio Prende o calor vital, e anima os entes Do vasto abysmo, mudos habitantes D'agua e terra também, que em mim renovam Quanto um segredo ignoto e profundo Consumidor principio acaba e gasta, Para viver como animal preciso. Mas que pasmosa architectura é esta Deste corpo, que eu palpo, eu sinto?.. MACEDO (Medit.) Encontram-se no corpo do homem certos compostos que os anatomistas e physiologistas denominam por elemen tos orgânicos, e estes são : a gelatina, a fibrina, a albumi- na e a gordura. Estes elementos existem nos sólidos e fluidos, em diversas proporções, segundo as partes onde se extrahem, a idade e o temperamento individual •, e contém princípios communs, conhecidos pela analyse (como sejam o carbono, o azote, o hydrogeneo, uma pequena quantidade de oxygeneo e sies), os quaes se organisam, ou por uma im- pulsSo geradora, ou por uma in iludiu mórbida, que c origi- nariamente fluida, e se solidificam, e os sólidos se reduzem a fluidos, para se renovarem pelo processo da nutrição. Os fluidos desseminados (diz um escriptor) por toda a parte, enchem os vasos e humedecem as paredes das cavidades, e impregnam o parenchyma das partes, e, associados com os órgãos, concorrem ao exercício das funcçfies que os mesmos executam. Os humores são communs, como os que se acham espalhados por toda a economia : taes são o sangue e a lym- pha, próprios a certas parles e differentes entre si por suas propriedades physicas e sua composição, sua origem e usos, taes como a bilis, a urina e o esperma, etc; outros se des envolvem soba fôrma de vapores como a sorosidade, a ma téria da transpiração pulmonar eculanea; outros no estudo do liquido, como o sangue, a urina e a lympha; outros ap- parecem sob uma consistência média, como a gordura, a bi lis e o licor espermalico. £/) Bichat (o immortal reformador da Anatomia physiologi- ca), julgando comprehender melhor a estructura orgânica, / ' 1^9 ^** Sx^y-,+4^ ^s%^2^^- ^T^ , ^y?^* -*-*><-*» y>-r& ^6, •^ ^ fi^^yytZx^iy _*.y\rK-i_ -yt^Sv -c+^a> / **-<>4 ã^Crr^yt^h /*-* f* *L^6&P>* ^W*^ f[^fa ' s%*~+- <&t~t>-*^. *+*-« *&ts>-r£yU^~t *\<*H '/^Á'/H y •• — 3 - fez sentir o variado cruzamento e reunião das fibras dos di versos tecidos do corpo do homem, embora differenles pela natureza das moléculas contidas nos intervallos que as mes mas fibras deixam entre si; e então é que associados estes te cidos formam a estructura primitiva dos órgãos, em cujos intervallos são depostas as substancias nutritivas, que lhes são indispensáveis. Os systemas de que se #3mpõe o corpo do homem são: o Cellular, o Exhalante, o Absorvente, o Ar terial, o Venoso, o Capillar, o Nervoso, o Ósseo, o Medular, o Cartilaginoso, o Fibroso, o Fibro-cartilaginoso,o Mus cular, o Mucoso, o Glanduloso, o Dermoide, o Epidermoidé e o Pelloso. É' o tecido cellular uma substancia filamentosa, mais ou menos branca, que se encontra geralmente em todas as par tes do corpoy e se compõe de uma infinidade de fibras e de lâminas dispostas de maneira a formar uma multidão de pe quenas cavidades ou cellulas, que communicam entre si e contém limpha ou gordura. Este tecido, percorrido por-um considerável numero de vasos* entra na formação de todas as partes do corpo* e lhe serve de meio de união. O estudo desta substancia tem feito conhecer que ha duas espécies deste tecido: uma, que se compõe de lâminas contíguas e pa- rallelas, entre as quaes não se encontram cellulas nem cavi dades; eoutrh, em que se encontram não só lâminas contí guas, como filamentos que se entrecruzam e formam cellulas areolares, onde a gordura é contida, e a sorosidade é exha- lada. Conforme as idades, o tecido cellular é formado de um muco espessp, no feto, queaugmenta em densidade até se ma nifestarem ás lâminas e filamentos-, e, á medida que a idade caminho, se encontra empregnado de suecos albuminosos e gelatinosos. Depois de nascida a criança, em vez de albumi- na, encontra-se gordura, que se conserva a>tô á idade viril, e< á medida que se declina para a velhice, também vae-se diminuindo, e o tecido cellular torna-se pouco contractil. Dos VASOS EXHALANTES. — Os vasos exhalantes são a continuação dos capilares arteriaes, e cujas terminações abrem-se na superfície interna das paredes das cavidades, onde depõem os líquidos necessários a manter essas partes* para bem exercerem suas funeções ; ou na mesma substan cia dos órgãos, a fornecer-lhes os elementos de sua nutrição. Dos VASOS ABSORVENTES.—Estes vasos, que compõenf um TA, /0 s*\~A« — k — systema, são os vasos limphalicos, ou absorventes, ou glan- glionariosisão elles de côr esbranquiçada e de fôrma nodosa, por causa das válvulas que guarnecem o seu interior. Nas cem por orifícios imperceptíveis na superfície do corpo, nas paredes das cavidades internas, e nas mesmas substanciai dos órgãos, oppostos por toda a parte aos vasos exhalantes. Em sua distribuição, elles se encontram em toda a parte onde ha abundância de tecido cellular. O SYSTEMA MEDULLAH comprehende- a rede de malha» delicadas, que se desenvolve na substancia esponjosa dos ossos, onde exhala um sueco oleoso que enche todas as cellulas ósseas. O SYSTEMA cAivriLAGiNoso são substancias brancas flexí veis, elásticas, menos duras que os ossos, porém muito mais que todos os outros tecidos da organisacão. Acham-se na cabeça, ligando os ossos entre si, nas superfícies articulares. moveis, cobertas por uma membrana synovial, que lhe dá uma apparencia polida e brilhante-, na circumferencia das cavidades, onde concorre á sua formação. As cartilagens, embora existam no interior do corpo e cobertas por diffe- rentes tecidos, comtudo têm uma membrana fibrosa pro-. pria, que se denomina pericOndro. Sua organisacão ó forma da do tecido cellular e de vasos brancos. O SYSTEMA FIBROSO é o que serve de intermédio aos músculos e ossos, e écontinuo comsigo, mesmo em quasi todas as partes. A sua fôrma é membranosa no periosteo, dura mater, aponevrozés de envoltura dos membros e de alguns órgãos, e em outras partes elle tem a fôrma de mo lhos nos tendões e nos ligamentos articulares. Em sua orgar nisação, elle se compõe de fibras brancas luzenles e côr de pérola, parallela nos tendões, e encruzada variadamenle nas aponevrozés. CIJ O SYSTEMA FIBEO-CARTILAGINOSO participa da natureza do fibroso e cartilaginoso, porque executa algumas vezes as funeções de ambos, como se vê nas fibro-cartilagens irtter- vertebraes, que reúnem mui solidamente as vertebras entre Si, não obstante permittirem-Ihe mover-seum poucor umas sobre outras. Bichat, comprehendendo bem a natureza des*e systema, quer que essas fibro-^artilagens sejam merobrano- sas, como as que forram as aberturas das orelhas e nariz;, outras inter-articulares, como as que se encontram nai ari ^*^**+rfp** Ay**sZaZ^*** &!&ptyjL*^ S^'4- ^s (/) Í«./ , _-*-^>^ #^^y->- sC^^cs+~ij ^ yl-W^-yp V^— ^£^t^V^l^f 0yé^^yie-i^-*^6} «ít^í^-f -*•*"- \ ™<^^+- --^xs^uyu- -t^t^r*> éf-^^-py^"'^' -~^c*-<^-,4 i^Cff-^—y tis ._ c^ sas ^ í^^i^t. é^Á^t^e ^y-*^u-i^y-L *^/2^ *ò~*-^>t^^t^ <& *^+-^z £f~yiZL *-<+, r? C < • i «. *- • - « i — 5 — liculações, temporo-maxillares, sterno-claviculares e ou tras; e uma terceira espécie, que é a que fôrma canaes, para o escofregamento e reflexão dos tendões, etc. O SYSTEMA MUSCULAR é considerado sob dous pontos de vista, que são, um que está sujeito ao império da vontade, e o outro é-lhe independente. Os primeiros são perfeita mente conhecidos, e servem para os movimentos, e os se gundos são destinados aos movimentos dos órgãos da nutri ção, e se encontram no peito, no ventre, no tubo intestinal, etc. Os músculos no feto são pallidos e muito delgados, e, á medida que o feto se vae desenvolvendo, adquirem uma côr roxa, e ao depois do nascimento, logo que respira o ar atmospherico, tomam a côr vermelha (1). O SYSTEMA MUCOSO não é outra cousa mais que a pelle que se introduz no interior do corpo pelas differentes aber turas de sua superfície, e vae formar por continuação as membranas mucosas, das quaes uma é a gastro pulmonar, que é a mais extensa, e forra os olhos, as vias lacrimaes, nasaes, pulmonares e digestivas; a outra é a genito-urina- ria; e finalmente ha uma, que forra o interior dos conductos excretorios das mamas. Esta membrana de côr rosacea, mui delicada, tem a mesma organisacão da pelle. Acham-se en tre a espessura das membranas mucosas pequenas glândulas isoladas ou. agrupadas, que se chamam criptas mucosas, as quaes segregam p mucus destinado a lubrificar a face da membrana, por onde têm de passar os objectos que se põe em contado. O SYSTEMA GLANDULAR cdmprehende um numero consi derável de órgãos differentes por sua organisacão; porém ap- proximados pelo uso commum, queé exlrahir do sangue os elementos mais ou menos compostos das substancias que de vem segregar. Umas com a idade diminuem, tendo anles mui grande volume,.coinothymos,athyroide e as cápsulas super- renaes; outras augmenlani, como os testículos e as mamas. (1) Os músculos (conforme o Dr. J. Cloquetl são órgãos vermelhos y.Am'JL +* ou avermelhados, eminentemente contracteisjpor meio dos quaes se ^Xr**^**^"* executa a maior parte dos movimentos animais. J****^**^ •4**4*+'' Os músculos dividem-se em músculos da vida animal, isto é, que j^yML J» v&i pertencem ávida de relação, executam os movimentos sob a in- /9*^^ ' fluencia da vontade : taes são os músculos dos membros, da cabeça, do ií*.VÍM^- • tronco, etc: e em músculos da vida orgânica, ou que se contrahem sob TOM. II. 2 — 6 — r_. 0^»_ «.««'.í de fôrma membranosa e á maneira" O SYSTEMA SOROSO ém as suas 8Uperficies inter-de um sacco sem afaerttn '.,£ d e são continuamente lia nas mutuamente se corresp. mernbrana forra a face medec.das pelo soro ^e^la - dag visceras interna das cavidades splanchinic a influencia de certos estímulos especiacs, com*" ° coraçêíoy as fibras carnudas do estômago, etc. vqriprtarlM rpl»- Os músculos da vidaammal offerecem numerosas jancaaaCT re». tivas á sua fôrma, grandeza, situação, usos, etc. Pode.^ * °'™"* como os ossos, em músculos longos, .largos e curtos; cada i. «" «««as expressões apresenta muscujps simplices ou compostos. Os músculos simplices têm todas as suas fibras em direcção seme> lnante, e têm somente um corpo, como o músculo costureiro e o mús culo quadrado pronodor. Os músculos compostos são aquelles que têm nm so ventre e vanos tendões, como os flexores dos dedos, ou vários ventres e vários ten- dèes, como o biceps brachial e o músculo sacro-lombar. Aos músculos compostos pertencem também os músculos raiona- dos. Suas fibras partem de um cejntro commum, e são dispostas como os raios de um circulo : taes são o diaphragma.o músculo iliaco e o temporal. ( , . Os músculos peniformes têm suas fibras dispostas em dous ramos ou em duas ordens, que se unem sobre uma haste média, fazendo ân gulos mais ou menos abertos, pouco mais ou menos, como as barbas de uma penna, inserem-se sobre sua haste commum: tal é o grande palmar. , ,„ .,;,,.. Músculos semi-preniformes. Suas fibras são oblíquas, como no caso precedente, mas inserem-se somente sobre um dos lados dó tendão. Differe-se muito na indicação do numero dos músculos. Alguns áu- thores elevam-os a Ü00 e mais: M. Chaussier não admitte senão 368. A máxima parte dos músculos é aos pares; ha mui poucos que sejam impares. Os músculos são denominados conforme: , . 1." Os seus usos: como o diaphragma, o buecinador, os extensores,s os flexores, os adductores, os abduetores, os levantadores, os abaixa-, dores. 2.° Sua posição: taes são os músculos inter-espinhosos, inter-osseos, subclavio, popliteo, anconeo, cubital, iliaco, temporal, etc. 3." Sua figura: como o trapezio, o splenius, os lombricoídes, den» tados, digastricos, dclloide, scaleno, rhomboide, etc. à.° Sua dimensão: assim como o músculo grande peitoral, grande reeto anterior da cabeça, pequeno peitoral, o grande, o médio e ò pe queno, músculos das nafaegas (gluteos), etc. 5.° Sua direcção: os músculos oblíquos, o transverso do abdômen, d recto anterior da coxa, etc. r, 6." Sua composição : os músculos semi-membranosos, semi-tendi- nosos, o complexus, etc. 7»° Suas ligações aos diversos pontos do esqueleto á que se fíxáni: — 7 — queella contém. Compõe-se ^membrana sorosa de vasos ab sorventes e exhalantes. Entre as articulações e as bainhas dos tendões estão as cápsulas sinovivaes, que não são outra cousa mais que membranas sorosas destinadas a exhalar o fluido necessário a facilitar o exercício dessas parles. A única como os músculos sterno-cleido-mastoideo, occipito-frontal, sterno- hyoidiano, etc. E' sobre esta consideração que se acha baseada a No menclatura do professor Chaussier, e a- de M. Dumas. As ligações dos músculos com os ossos são por meio de tendões e de apomoroses. ENUMERAÇÃO DOS MÚSCULOS. MÚSCULOS DO TRONCO. MÚSCULOS DA CABEÇA. A. MÚSCULOS DO CRANEO. NOMES ANTIGOS E MOOERNOS. 1." Região, epicran ea. Músculo frontal-occipital — Occipito-frontal. 2." Região auricular. Músculo auricular superior — TemporoKiricular. » anterior—Zigmato oricular. * posterior — Mastoido oricular. 3.° Região occipito cervical anterior. Músculo grande recto anterior da cabeça — Grande Irachelo sub- occipital. » pequeno recto anterior da cabeça —> Pequeno trachelo sub- occipital. k° Região occipito-cervical posterior. Músculo grande recto posterior da cabeça— Axoido occipital. » pequeno recto da cabeça — Àiloido occipital. » grande obliquo da cabeça — Axoido atloidiano. « pequeno obliquo da cabeça — Atloido sub-mastoidiano. 5S Região occipito-cervical lateral. Músculo recto lateral da cabeça — Ailoido sub-occipital. B. MÚSCULOS DA FACE. X.' Região palpebral. Músculo orbipular das palpebras — Naso-palpebral. » superciliar — Fronto superciliar. » levantador da palpebra superior — Orbito palpebral. 2.° Região oceular. Músculo recto superior do olho — ídem. — 8 — differença que se encontra é ser o fluido das cápsulas mais espesso eunctuoso, que o das cavidades splanchinicas; e isto provém da necessidade local. O SYSTFMA DtRMoioE. A pelle comprehende todo o syste ma dermoide. Esta membrana participa da vida animal pelas Músculo interno do olho — Idem. » externo do olho — Idem. » inferior do olho — Idem. » obliquo superior do olho — Grande obliquo do olho. » obliquo inferior do olho — Pequeno obliquo do olho. 3.1 Região nasal. Músculo pyramidal do nariz — Fronto-nasal. » triangular do nariz — Sub-maxillo nasal. » levantador commum da aza do nariz — Grande sub-maxillo. labial. » abaixador da aza do nariz — Comprehendido no labial. Zi.° Região maxülar superior. Músculo levantador do lábio superior — Médio súper-maxillo labial. » canino — Pequeno super-maxillo labial. » grande zygomatico — Grande zygomatico labial. » pequeno zygomatico — Pequeno zygomatico labial. 5.' Região maxülar inferior. Músculo triangular, do^ lábios — Maxillo labial. » quadrado do lábio inferior —Mento labial. » levantador da barba — Comprehendido no mento labial. 6.° Região intermaxillar. Músculo bucinador— Aheolo labial. orbicular dos lábios — Labial. 7." Região pterygo-maxillar. Músculos pterygordianos interno — Grande pterygo-maxillar, » externo — Pequeno pterygo-maxillar. 8.° Região temporo-maxillar. Músculo masseterino — Zygomato maxillar. » temporal,—Temporo maxillar. 0.° Região làigual. Músculo hyoglòsso — Idem. genioglosso — Idem. » stylo gloso — Idem. » lingual — Idem. 10. ° Região palatina. Músculos peristaphylinos externos — Fterygo staphylino. » interno — Petro staphylino. » palato staphylino — Idem. — 9 numerosas sensações que transmitle á intelligencia e á vida orgânica, pelo vasto emunctorio que offerece ás matérias heterogêneas da economia, e pela entrada que dá a diversas substancias exteriores por meio dos vasos lynphaticos, cujos orifícios inhalantes ella contém. Músculos pharyngo staphylino — Idem. » glosso staphylino — Idem. MÚSCULOS DO TESCOÇO. 1." Região cervical anterior. "Músculo cutâneo — Thoraco Facial. » sterno mastoidianp — Idem. 2.' Região hyoidiana superior. Músculo digastrico •— Mastoido géniano. D stylo-hyoidiano — Idem. » mylo hyoidiano — Idem. » gênio hyoidiano — Idem. 3." Região hyoidiana inferior. Músculo omoplata hyoidiano — Scapulohyoidiano. » sterno hyoidiano — Idem. » sterno thyroidiano — Idem. - » thyro hyoidiano — Idem. li.c Região pnaryngiana. Músculo constrictor inferior ) » » médio ' Comprehendidos nos stylo-pharyn- » » superior C gianos de cada lado. » stylo-pharyngiano ) 5.° Região dorso cervical. Músculo trapezio — Dorso super-acromiano. » rhomboide — Dorso scapular. » splenius — Cervico mastoidiano e dorso trachiano. » grande complexus — Trachelo occipital. » pequeno » — Trachelo mastoidiano. 6.° Região cervical lateral. Músculo scaleno anterior — Costo tracheliano. » » posterior — » MÚSCULOS DA COLUMNA VERTEBRAL. 1.» Região prevertebral. Músculo longo do pescoço — Predorso atloidiano. » grande psoas — Prelombo throchantiano. » pequeno psoas — Prelombo pubiano. 2." Região vertebral posterior. Músculos inter-espinhosos cervicaes — Inter cervicaes. - 10 — A sua face externa, coberta pela epiderme, em di versos lugares apresenta pregas: a sua face interna es a em contacto com o tecido cellular. Os músculos.que exprimem as paixões preudem-se á pelle que cobre o rosto. Músculos inter-espinosos dorso lombares — Idem. » sacro espinal, longo dorsal, sacro lombar — Sacro espinal. 3.L Região vertebral lateral. Músculos inter-transversarios do pescoço — Inter-trachelianos. B » do dorso — Comprehendidos no sacro espinal. MÚSCULOS DÓ PEITO. 1." Região thoracica anterior. Músculo grande peitoral— Sterno numerai. » pequeno peitoral — Costo coracoidiano. » sub-clavio — Costo clavicular. 2.° Região thoracica lateraL Músculo grande dentado, reunido ao angular do omoplata — Costo scapular e trachelo scapular. 3." Regido inter-costaL Músculos inter-cogtaes externos — Idem. » », internos — Idem. » supercostaes—Idem. » triangular do sternum — Sterno costal. k.° Região diaphragmatica. Músculo diaphragma — Idem. 5.° Região vertebro-coslal. Músculo pequeno dentado, posterior e superior — Dorso costal. » » inferior — Lombo costal. 6.° Região thoracica posterior. Músculo grande dorsal — Lombo humeral. MÚSCULOS DA PELVIS (OU DA BACIA). 1." Região anal. Músculos levantador do ânus — Super-pubio coccygiano. » ischio coccygiano — Idem. sphincter do ânus — Coccygio anal. 2.° Região genital. A. Do homem. Músculo ischio cavernoso — Ischio súb-peniano. Í> bulbo cavernoso — Bulbo-urethral. » transverso do perineo — Ischio perineaL - 11 - Três partes differentes constituem a estructura essencial da pelle : 1.» O chorion: tecido denso análogo ao systema fibroso, penetrado de aberturas estreitas e oblíquas, que dão passa gem aos vasos, nervos e pellos. B. Da mulher. Músculo ischio cavernoso — Ischio sub-clitariano. » constrictor da vagina — Perineo clitoriano. MÚSCULOS DO ABDÔMEN. 1." Regiío abdominal. Músculo grande obliquo — Costo abdominal. » pequeno obliquo — Ilio abdominal. » transverso — Lombo abdominal. » recto — âterno pubiano. » pyramidal — Pubití sub-umbelical. 2." Região lombar. Músculo quadrado lombar — Ilio costal. MÚSCULOS DOS MEMBROS. MÚSCULOS DOS MEMBROS THORAC1COS. A. Músculos da espadoa. i." Região escapular superior. Músculo super espinhoso — Pequeno super scapulo trochiteriano. » sub-espinhoso — Grande super scapulo trochiteriano. » pequeno redondo — Mais pequeno super scapulo tbrochite- riano. » grande redondo — Scapulo humeral. 2." Região escapular anterior. Músculo sub-scapular — Sub-scapulato trochiniano. 3.° Região escapular externa. Músculo dcltoide — Sub-acromio humeral. B. MÚSCULOS DO BRAÇO. 1." Região brachial anterior. Muscalo coraco brachial — Coraco humeral. » biceps brachial — Scapulo radial. » brachial anterior — Humero cubital. 2." Região brachial posterior. Músculo triceps brachial — Scapulo homero-olecraniano. C. MÚSCULOS DO ANTE-BRAÇO. l.<- Região ante-brachial, anterior, e superficial. Músculo grande prónador — Epitrochlo radial. » grande palmar — Epitrochlo metacarpiano. — 12 — 2.' O corpo reticular é uma rede vascular muito delicada que se associa ás pupillas nervosas. Uma porção dos seus aso ?ontém estagnado um fluido sem côr nos Europeu , e ma.sou menoscórado nos outros povos: a outra porçãocontem flu.dos brancos em circulação, os quaes são substituídos pelo sangue, Músculo pequeno palmar — Epitrochlo palmar. ,» cubital anterior — Epitrochlo ou Cubito Çarpiano. ,, flexor superficial dos dedos — Epitrochlo phalangiano com mum. 2.» Região anti-brachial anterior e profunda. Músculo flexor profundo dos dedos —Cubito phalangiano commum. » grande flexor do pollegar—Radio phalangiano do pollegar. » quadrado ponador— Cubito radial. 3." Região anti-brachiat posterior e superior. Músculo extensor commum dos dedos—Epicondylo super phalangiano commum. » extensor do dedo minimo — Epicondylo super phalangiano do dedo minimo. » cubital posterior — Cubito super metacarpiano. » anconeo — Epicondylo cubital. lt.° Região anti-brachial posterior e profunda. Músculo adducter do pollegar—Cubito super metacarpiano do pollegar. » pequeno extensor do pollegar — Idem. » grande extensor do pollegar — Cubito super phalangiano do pollegar. » extensor próprio do indicador — Cubito super phalangiano do index. 5." Região radial. Músculo grande supinador — llumero super radial. » pequeno supinador — Epicondylo radial. » primeiro radial — llumero super metacarpiano. » segundo radial — Epicondylo super metacarpiano. D. MÚSCULOS DA MAO. 1.° Região palmar externa. Músculo abductor do pollegar — Carpo super phalangiano do pollegar. » opponente » — Carpo metacarpiano do pollegar. » pequeno flexor » — Carpo phalangiano do pollegar. ' » adductor » — Metacarpo phalangiano do pollegar. 2.° Região palmar interna. Músculo palmar cutâneo — Idem. » adductor do dedo minimo — Carpo phalangiano do dedo mi nimo. » pequeno flexor » — Idem. » opponente ,. - Carpó metacarpiano do dedo mi nimo. „.. — 13 — quando por qualquer irritação a sensibilidade da pelle se augmenta: dahi nasce a razão por que em certas cir- cumstancias o rosto adquire subitamente uma côr vermelha. 3.'O corpo papillar: pequenas eminências formadas da espansão das extremidades nervosas, conforme a opinião k.° Região palmar média. Músculos lomforicoides — Palmi-phalangianos. » inter ósseos — Metacarpo phalangianos lateraes palmares e super palmares. MÚSCULOS DOS MEMBROS INFERIORES. (Abdominaes.) A. MÚSCULOS DAS NÁDEGAS E DA COXA. 1." Região das nádegas. Músculo grande das nádegas (gluteos) —Sacro femural. » pequeno das nádegas — Pequeno ilio-trochanteriano. » mediano » — Grande ilio-trochanteriano. 2.* Região iliaca- Músculo iliaco — Iliaco trochanteriano. 3." Região pelvitrochanteriana. Músculo pyramidal — Sacro trochanteriano. » obturador interno — Sub pubio trochanteriano externo. » » externo — Sub pubio trochanteriano interno. » gêmeo superior — Ischio trochanteriano. » inferior — » quadrado crural — Ischio suh-trochanteriano. li.' Região crural anterior. Músculo costureiro — Ilio pretibial. » crural anterior — Ilio rotuliano. » triceps crural — Trifemoro rotuliano. 8," Região crural posterior. Músculo scmilendinosos — Ischio prétiberal. » remi niembranosos — Ischio popliti tibial. » biceps crural — ischio femorso peroneano. 6.° Região crural interna. Músculo pectineo — Super pubio femural. » recto interno—Sub-pubio pretibial. » grande adductor da coxa — Pubio femural. » pequeno » — Ischio femural. » médio » — Sub-pubio femural. 7." Região crural externa. Músculo tensor da aponevrose crural — Ilio aponcvrosc femural. TOM. II. 3 — 14 — commum, as quaes se perdem na pelle, é o que chamamos coipopapillar. Estas papillas percebem-se facilmente, atra vés da epiderme que as protege, nas palmas das mãos e plantas dos pés, onde formam linhas concentncas, separadas com regos superficiaes. B. MÚSCULOS DA PERNA. 1.° Região anterior da perna. Músculo tibial anterior — Tibio super-tarsiano. ,> extensor do dedo grosso do pé (artelho) — Peroneo super phalangiano do dedo pequeno. » extensor commum dos arlelhos — Peroneo super phalan giano commum. » peroneano anterior — Pequeno peroneo super metatarsiano. 2.° Região posterior e superficial da perna. Músculo triceps da perna — Bifemoro calcaneano. » plantar delgado — Pequeno femoro calcaneano. » popliteo — Femoro popliti tibial.. 3.° Região posterior e profunda da perna. Músculo grande flexor dos artelhos —Tibio phalangiano commum. » tibial posterior — Tibio sub-tarsiano. » grande flexor do grosso artelho — Peroneo sub-phalangiano do primeiro artelho. Zj.° Região do peroneo. Músculo longo peroneano lateral — Peroneo sub-tarsiano. » curto peroneano lateral — Grande peroneo sub-metatarsiano. C. MÚSCULOS DO PÉ. 1.° Região dorsal do pé. Músculo pedioso'— Calcaneo super phalangiano commum. 2.° Região plantar média. Músculo pequeno flexor dos artelhos — Calcaneo sub-phalangiano commum. » accessorio do grande flexor — Porção do tibio phalangiano commum. » lombricoides — Planti sub-phalangianos, 3.° Região plantar interna. Muscido adductor do grosso artelho — Calcaneo sub-phalangiano do grosso artelho. » pequeno flexor do grosso artelho — Tarso sub-phalangiano do grosso artelho. » abducior obliquo do grosso artelho — Metatarsó sub-phalan giano do grosso artelho. a abduetor transverso do grosso artelho — Metatarsó sub-pha- langiano transversal do grosso artelho. — 15 — Não se devem reputar papillas as pequenas eminências seccas, que fazem a pelle de algumas pessoas áspera ao taclo; porque ellas são produzidas por tuberculos gordurosos ou vasculares que levantam a epiderme. O aspecto polido e luzente que a pelle mostra em alguns l\.' Reigão plantar externa. Músculo abduetor do pequeno artelho — Calcaneo sub-phalangiano do pequeno artelho. » curto flexor do pequeno artelho — Tarso sub-phalangiano do pequeno artelho. 5." Região inter-óssea. Músculos inter-osseos dorsaes e plantares — Metatarsó sub-plialan- gianos lateraes, super-plantares e sub-plantares. Em geral, dá-se o nome de ventre á porção média dos músculos, e as suas extremidades chamam-se cabeça e cauda: daqui vem os nomes de gaslro -enomianos, de digaslrico, de biceps, triceps, quando elles offerecem dons ventres, duas o* três cabeças, etc. Os músculos são formados : l.o Essencialmente pela fibra muscular ou carnuda. 2.o Por tecido cellular: elle une entre si as fibras carnudas. E' pouco visível entre as mais delicadas; porém torna-se mais visível â medida que as fibras se reúnem em feixes mais consideráveis. Fôrma além disso em cada músculo um envoltório exterior, que o une ás partes vi zinhas e lhe permitte mover-se. 3.° Por artérias. Vem dos troncos vizinhos e são em geral mui consideráveis; sua grossura e numero são sempre em relação com o volume dos músculos. A' excepção de algumas vísceras, como os pul mões eos rins, ha poucos órgãos que recebam tanto sangue como os músculos. li." Por veias. Seguem ellas nos músculos a mesma marcha que as «•terias que acompanham em todo o seu trajecto, Bichat pensa que, em geral, são desprovidas de válvulas. 5.o Por vasos lymphaticos. São pouco conhecidos, e não podem ser seguidos facilmente entre as fibras carnudas. 6.* Por nervos. São numerosos ede volume variável; vêm quasi to dos do cérebro; alguns porém, vem dos gangliões, e acompanham as artérias. Em geral, elles penetram o tecido carnudo ao mesmo tempo que os vasos, aos quaes são inteiramente unidos. Uma vez entrados nos músculos, os nervos se dividem e subdividem até desapparecer de todo. Não se sabe ainda ao certo se cada fibrilla muscular recebe um íilete nervoso. Os músculos são os órgãos áctivos do movimento (*). (*) DA MARCHA.— A marcha é o mododi progressão ordinária; executa-se do modo seguinte : todo o corpo tem-se sobre uma das pernas, que fica im- movcl, para fornecer um ponto de apoio, emquanto o pé da outra se suspende d* solo, pela flexão suecessiva das articulações de todo' o membro; a coxa se — 10 — lugares, ú devido ao humor gorduroso que os folliculos se- baceos segregam: estes folliculos s3o pequenos saccos mem- branosos e vasculares que se acham engastados na espessura da pelle. O Dr. Gualtier, na sua dissertação inaugural á Faculdade dobra sobre a bacia; a perna sobre a coxa, e o pé sobre a perna; porém a tle- xão da coxa sobre a cabeça não pôde ter lugar sem trazer para diante o joe lho, assim como lodo o membro; então os músculos que tinham concorrido para está elevação total do membro se relaxam; a cabeça e o corpo inteiro se inclinam para diante; a linha vertical que passa polo centro de gravidade do corpo deixa o membro fixado, e passa para o outro que vae servir de ponto de apoio a todo o corpo, em quanto o outro membro executará um meebanismo igual. Os braços movem-se na marcha, mas em um sentido contrario áquclre dos membros inferiores; elles servem como de maromas e sustentam o equilíbrio a fim de garantir as vacilações do corpo. A MARCHA se faz em linha recta, mas não tardaria ella a tomar sobre o lado esquerdo por causa da força maior do lado direito, se a vista não corrigisse este desvio. A segurança da marcha está sempre em razão directa do gráo de afastamento do pé, na inversa da mobilidade do solo nue sustenta e do plano. A MARCHA, sendo um movimento natural, é de tanta importância que, por meio delia, um homem experiente pôde conhecer o caracter do indivíduo. Não especificamos aqui em resumo todas as idéas que possuímos sobre esta ma téria, porque, no decurso deste nosso trabalho, teremos oceasião de faltarem separado. Do SALTO. — O mechanismo do salto baseia-se inteiramente sobre a flex.o preliminar de todas as articulações, e sobre a sua extensão súbita. As partes que têm a maior influencia no salto são as pernas; é alli, com effeito, que o peso a suspender é mais considerável. A carreira augmenta muito a extensão do salto, pela impulsão que lhe communica. Nos quadrúpedes, quanto mais com. pridos são os membros posteriores, maiores e mais prodigiosos são os saltos. , DA CARREIRA. — A carreiia resulta da combinação da marcha e do salto, flf mui poucos animães tão bem construídos para a carreira como seja o homem. Os corredores respiram com uma admirava! celeridade; deitam para trás a ca beça e as espaduas; não apoiam mais que as extremidades dos pés sobre o solo, e movem os braços a tel-os sempre n'uma opposição constante com suas pernas. O NADAn consiste na acção de empurrar a água a fim de sustentar c corpo c leval-opara onde sequer. A quantidade da água que o nadador desloca ÍD- flue consideravelmente para a velocidade dos movimentos. A estes movimentos geraes convém ajunlar os particulares da cabeça c da face, cujo conhecimento é mui importante para o pintor e para o medico. Nos lugares correspondentes de cada um delles, fallaremos com a maior clareza possível, afim de chegarmos ao termo que nos propuzemos. DA DANSA.— E' uni movimento regular do corpo, e passo medido, feitos a» som de instrumentos ou da voz Ella vem de todos os povos, mesmo os mais selvagens, e tem diversas applicações. L'm escriptor portuguez fallando da dansa diz que deve como a pintor* a poesia, ser uma copia da bella Natureza. Um baile é um quadro, ascena — 17 - àe Medicina de Paris, reconhece no corpo reticular quatro partes, que designa na ordem da sua superposição de dentro para fora, com os nomes: 1.*, de botões sangüíneos; 2.% de camada áíbida profunda; 3.a, de gemulas; i/.de camada albida superficial. Conforme o mesmo autor, o corpo papil- n tela, o movimento mechanico das figuras eqüivale ás cOres, a physionomia deltas no pincel;o todo e vivacidade das scenas, a musica e o vestuário formam o colorido, e o compositor é o pintor. Porém nesta arte se offerecem ao artista mais obstáculos para vencer, do que nas outras; porque o pincel e as cores não estão na sua mão, e os quadros elevem ser variados e momentâneos. • Os bailes que até agora' temos tido são em geral monótonos e languidos; falta- lhes aquelle caracter de expressão que lhes serve de alma: nada mais raro do que encontrar gênio em sua composição, elegância em suas fôrmas, facilidade em seus grupos, e exactidão e limpeza nos meios de que as diversas figurasse servem. Deveriam os mestres de dansa, se tivessem amorá perfeição e enlliu- siasmo pela gloria, consultar assiduamente os quadros dos grandes pintores: este exame os approximaria da Natureza. Então, melhor instruídos, fugiriam quanto lhes fosse possível daquella symetria de figuras que, fazendo repetição de objectos, oferece dous quadros semelhantes na mesma tela. Quadros syme- Iricos de direita i esquerda só podem ter lugar nas entradas de figurantes, que não têm caracter algum de expressão, e servem unicamente de dar aos dan- sarinos lugar para que tomem a respiração Também poderia caber em um dansado geral, com que se termine uma festa em quartetos e sextetos, apezar deque é ridículo sacrificar nestes passos a expressão, e o sentimento á flexibi lidade do corpo e agilidade das pernas. Nas scenas de acção deve a symetria ceder infellivelmente á Natureza. Quem é que vio symetria èm um rebanho de ovelhas, que foge dos dentes mortíferos do lobo, ou em camponezes que desam param seus casaes e campinas para forrár-se ás iras do inimigo que os perse gue? A arte consiste em saber disfarçar a arte. Não presumam que intentamos pregar a desordem e a confusão; o que nós queremos é que na mesma irregu laridade se encontre a regularidade. Queremos engenhosos grupos, sentimentos fortes, porém sempre naturaes. As figuras só podem agradar sendo apresenta das com ligeireza e desenhadas com tanto gosto como elegância. - Uma dansa bem composta é uma viva pintura das paixões, costumes, usos, ceremonias e trajes de todos os povos da terra, e por conseqüência deve fallar á alma pelos olhos. Dansa que é fallida de expressões, de quadros vivos e de situações fortjs, fica necessariamente sendo um espectaculo monótono e fasti dioso. c Como as dansas entram na ordem das representações, devem reunir as par tes do drama. De ordinário não ha sentido algum nos assumptos que se tratam em dansa, e são um apontoado de scenas desligadas e tão confusas como des- agradavelmente conduzidas, b' comludo em geral indispensável a observância de algumas regras. Todo o assumplo de baile deve constar de exposição, nexo e solução. A variedade é o atlributo essencial de uma dansa; os incidentes e quadros que resultam delia devem seguir-se com rapidez; se a marcha da acção não é rápida, se a altenção enfraquece, se o fogo não secommunica igualmente a to das as partes, se não acquista novos grãos de calor, ao passo que se desenvolve a intriga, é certo que o plano é mal combinado e concebido; pecca contraia poé tica do theatro, e não faz effeila nos espectadores. Não ha porém defeito tão capital como querer associar gêneros contrários,- misturar o serio com o cô mico, o nobre com o trivial, o galante com o grotesco. Estes quotidianos e - 18 - lar s5o os botOes sangüíneos situados j«imediatamente aci ma do chorion. A pelledofetc, nos primeiros tempos depois da concepção, é uma camada mucosa transparente •, no segundo mez da prenhez, as fibras do chorion apparecem debuxadas 5 passado grosseiros defeitosaccusam o compositor de falta de juízo e de mediocridade de gênio, de gosto depravado e de crassissima ignorância. O caracter c gênero de um baile não devem desfigurar-se com episódios de caracter o gênero di verso e muito menos opposto. Todo o baile complicado e diífciso. e cuja acção não corre limpamente e sem tropeços, e que para entender-se necessita de que se recorra a um programma; todo o baile que se não compõe das três necessárias parles, exposição, n«xo o solução, nunca será (fazendo-lhe muito favor) mais do <,ue um frivolo diverti mento, melhor ou peior dansado despido de expressão e caracter, « só próprio para entreter criariças e parvos. Confessamos que a expressão mechanica da dansa tem subido a um grande ponto de perfeição, e que algumas vezes tem graça ; porém a graça não é mais do que unia parle desta arte; a brilhante facilidade c enc.adeamenlo dos passos, as diflirultoras opposições das pomas e braços não são (faltando em rigor 1 mais do que omechanismo dai dansa; o bailarino ou bailarina mais idiota pôde adquirir esta peifeição, que só depende de mero exercício e da maior ou menor flexibilidade muscular. Quando estas eousas não são adoperadas pelo espirito; quando o gênio não dirige estes mo vimentos todos ; quando o sentimento e a expressão lhe não dão forças para commover e interessar, fica o espectador tranqiiillo e desgosloso, apezar de quantos apptausos der á execução. « O bom êxito deste gênero de espectaculos nasce da boa escolha do assumplo c sua distribuição. Ha muitas eousas que não podem expressar-se com gestos. Tudo que se chama dialogo tranquillo não tem lugar na pantomima. Nunca poderá fazer effeito um baile em que o compositor não souber evitar o que for monótono e frio. As grandes paixões não são mais próprias da tragédia, do que da pantomima, e ainda esta em alguns casos lhe leva vantagem, porque a acção acompanhada da palavra não exprime mais do que cila restrictamente diz; e, quando é só, ajuda-se de quanto a imaginação dos espectaculos ajunla áejuellc signal vago e indeterminado. A pantomima segue a ordem da perspec tiva em-que as miudezas se perdem nos longes. Os quadros da dansa reque rem nacos bem riislinctos, caracteres vigorosos, opposições e contrastes tão ariificiosos como realçados. Um mestre que é hábil deve apresenlar em um golpe de vista todo o effeito da machina, e nunca sacrificar o todo a uma parte; e só deslembrando-se por alguns instantes das principaes personagens é que poderá cuidar da totalidade dchas. Se acaso põe toda a allenção nos pri meiros dansarinos, fica-lhe a acção suspensa, enfraquecida a marcha das fce- nas e a execução sem effeito. Não têm cabimento no thealro eousas inúteis, e por conseqüência deve banir-se da scena tudo que a possa arrefecer, introduzindo nella somente o numpro de adores que a execução do drama restriclamunle pe dir. Dissemos aeima que devem por alguns instantes esquecer-se as personagens principaes, e com effeito temos para nós que é mf-nos dífiiculloso fazer que Her cules e Omphale, Ariadna e Baccho, Ayax c Ulysses representem partes trans cendentes, do que vinte ou trinta pessoas que andam com estas personagens: ora, se ellas não dizem nada em scena, cumpre pôl-as fora, e, se dizem alguma cousa, deve sempre a sua conversação dizer respeito á dos primeiros adores. Não está logo a duvida em dar um caracter dislindo ás primeiras figuras, porque estas 0 têm de si e são os heróes da scena; a grande habilidade está em introduzir com — 19 algum tempo mais, a pelle adquire uma côr roxa, devida ao grande numero de "vasos capillares que nella se distribuem: ella está em contado com as águas do amnios, de cuja im pressão irritante a defende a matéria unctuosa de que se acha coberta. decência os figurantes, e, dando-lhes partes mais ou menos importantes, associa- los ás acções dos heróes. • Segundo estas idéas, é fácil de entender que a dansa pantomimica deve ser Ioda em acção, e que os figurantes não devem oecupar a scena que oactor deixou, só para entretel-a com .figuras symetricas e passos cadenciados; mas sim para a encher com uma representação viva e animada, que conserve o espedador. sem pre attento aoassunipto que os setores precedentes lhe expuzeram. Não se en tenda porém disio, que os figurantes e as figurantas devem representar papeis tão fortes como as primeiras parles; mas que, em razão de esfriar toda a acção de um baile que não é geral, é força que sé empenhe toda a solèrcia e arte em elles par ticiparem delia, pois é justo que as personagens principaes conservem superio ridade sobre todos os objectos que as circumdam. Está pois o: rtificio do com positor em reunir todas as suas idéas em um só ponto, a que vão dar todas as operações do gênio e espirito. Com este talento brilharão os caracteres cm toda a sua luz, sem serem ofuscados por objectos que só devem servir-lhes de sombra. Um mestre de dansa deve dar a cada figura acções, caracter e ex pressão que a distinguam das outras. Todas as figuras devem chegarão mesmo fim por caminhos uppostos, e com unanime concordância concorrer para, com a verdade de seus gestos e sua imitação, colorirem a acção que o compositor lhes desenhou. Se a monotonia se introduz n'um baile; se não vemos nelle aquclla constante variedade de expressão, fôrma e caracter que observamos na nature za; se os leves e imperceptíveis traços que pintam as mesmas paixões, com rasgos mais ou menos distinetos e cores mais ou menos vivas, não são applicados com arte e distribuídos com gosto, é então o quadro um medíocre transumpto de um excellente original; e como não apresenta verdade nenhuma, não tem força nem jus de commover e excitar affeclos. A mescla das côrcs, sua grada- ção e os affectos que produzem na luz merecem também a attenção do mestre de dansa. O realce que isto dá ás figuras, a limpeza que espalha sobre as for cas e a elegância que disto tiram os grupos, é bem pela experiência conheci do. Foi Mr. Noverre o primeiro que em França, nos Ciúmes do Serralho, imitou a diminuição da luz que os pintores observam nos quadros. As cores fortes e inteiras estavam em frente e formavam as partes salientes do painel panlomimico; seguiam-se as menos vivas, e tinha reservado para os fundos as cores brandas e vaporosas; seguio a mesma diminuição nas estaturas, e este feliz invento fez re alçar a execução Tudo era harmonia, tudo era tran ~^\—jfry*y* I^A — 21 — os quaes são sub^ituidos pelo sangue na plica polonica; 2.°, de um canal membranoso, que se extende desde o bulbo até á extremidade do pello, e contém immediatamente os pe quenos vasos de que falíamos; 3.°, de uma envoltura ex terna, fornecida pela epiderme. ds cabellos no feto apparecem desde o seu principio sem a matéria corante; o resto do seu corpo está coberto de uma penugem, que desapparece depois do nascimento. Os pellos crescem rapidamente na idade da puberdade, fazem-se cinzentos nos velhos, e perdem o seu bulbo e a substancia interior, que os assemelhava ás partes organisa- das; reduzidos neste estado somente ao seu canal membra noso, não tardam a cahir, sem deixarem vestígio algum da sua existência (1). O SYSTEMA ARTLRiAL compõe-se de vasos elásticos, que partem do coração, do qual recebe o sangue para o dis tribuir pelas diversas partes do corpo. Este systema de vasos contém ora sangue vermelho, que recebe imme diatamente do coração para o distribuir por todo o cor po, ora sangue ne$ro, que o distribuo exclusivamente nos pulmões- As artérias compõem-se de uma túnica interna (1) Ainda que todos os tecidos que examinámos abracem quasi a totalidade das partes que compõem a nossa organisacão, comtudo restam alguns que se não podem arranjar entre elles, taes são: 1.% a choPoide, que assemelha algum tanto á estruetura do tecido reticular da jelle e dos pellos; 2.°, a pia mater, que pôde ser incluída no systema medullar da substancia esponjosa dos ossos; 3.°, o crystalino e corpo vitreo, que não se podem comparar com tecido algum da economia animal-, _i.°, o tecido esponjoso ou o cavernoso Ao mentulo, do mame- lão, do clitoris, do baço e da placenta; cuja natureza parece ser cel- lulosa e vascular, e nestes últimos tempos foi designada por algumas pessoas como tecido erectil, etc; 5.% os ovarios e as pretendidas glân dulas de Paccbioni, ou granulosidades cerebraes; 7.°, as trompas de Falopio, etc. Todos os tecidos que formam o objecto da anatomia geral, por virtu de da sua estruetura, são dotados de certas propriedades independen tes da vida; taes_jfo : 1. , a extennbilidade do tecido, pela qual se po dem extender e augmenlar de volume, quando qualquer causa mecha- nica obrar sobre elles; 2.°, a contraciibilidade do tecido, pela qual se podem apertar e contrahir, quando cessar a acção que os extender; 3.°, a propriedade de se encresparem como as substancias corneas, quando se acham em contacto com o fogo^ ar secco, ácidos concen trados, etc. (I.eg.) TOM. II. 4 — 22 — mui fina, de outra média, elástica e mui frágil, e de outra externa cellnlosa. O SYSTEMA vi NOSO parle das extremidades arleriaes e recebe o sangue para o levar ao coração. No seu interior as veias são guarnecidas de válvulas, a fim de retardar a marcha do sangue a ser levado proporcional atente oo^coração. hj* O SYSTEMA rAPILEAR são tenuissunovvásoáque succedcm és ultimas ramificações arleriaes, e entram na estruetura dos tecidos dos órgãos. Bichat (T.2.\p. 470), na sua Anato mia geral, fâllando dos capillares, diz que todos os nossas ór gãos contém uma infinidade de capillares que se cruzam, reúnem, separam, communicando-se de mil modos uns com os outros; e é por isso que se pôde considerar o corpo ani mal como um ajuntamento de vasos capillares, cuja extensão é immensa e abraça as mais pequenas di vistes dos nossos orgiios, de sorte que apenas se podem conceber algumas moléculas orgânicas reunidas sem caprttares; do que se se gue que este systema não e semente o intermédio das arté rias e veias. E' delle que nascem todos os exhalantes, os Síi impriinir-llies sensibilidade e •movimento. Têm por orígent uns o cenbro, ocereóello, a medulla oblongada ou es/dnhv, que mandam para os diversos órgãos scntinellas presidir á vida; e outros, situados nas grandes cavidades, nascem dos gânglios nenosos, e se distribuem nas entranhas, inde pendentes dos oulros nervos com que se anastoniosain. Os nervos têm no interior pequenos canaes membranosos que contêm uma polpa medullar, cobertos de uma membro^, na (nevrileme), que consenam estes canaes reunidos aos vasos que nianlem a vida. A' medida que parlem de sua origem, os òervos, entrela çam-se em variüs partes e formam plexns, e em outras for mam intumeccnciaVdenominadijs gânglios, em grande nu mero, nos nervos que presidem á vida interna ou orgânica. U* O SYSTEMA ÓSSEO» o mais resistente e duro do corpo da fg^a^f4ttf^ ftlía Revista Commercia_»ê-se o seguinte: £/^M» -^> +-> t*"^ ' -13-—i*-s T^ÍS-F^ ^/ '&? t^yii+-^~~-£»-2 s^*^-y ^y^t^^ ^^^y*-, *4ta+?.£*-a*^— r*4 . *** +*>*yAri^, y /* W ^/t-yS^t — l - ,NX <£***- » V ^h^^T^a^ ^^>ív^^^^^, _*gí^^> •• -^* '/£4^t*^a> f^> % z^ ^t*m* t*^*^^4fjapa^^ O t^y-1^****- '* *C**ry^yk^£a~£\^+-tsX h^U 4^*JÍ*^'é<é4è4P *± I \ y\ V •• ^y^V^^*^^* * W — 23 — homem, lille é destinado á protecçâo de órgãos importantes, e a servirem deagentes passivos da locomoção. Reunidos por presilhas naturaes ou ártificlaes, formara o esqueleto (1). A fôrma dos ossos varía-segundo o sen ftéstino, e sua es truetura não é a mesma errv-tedas as idades.,, porque nas crianças são elásticos, e nos velhos têm umtêcidoduroè'com pacto, com as cavidades maiores', e são menos pesados que na idade adulta (2). Dividem-se os ossos, conforme as diíliensSes geométricas, em longos, largos, curtos ou mistos, como por exemplo, ohu- merus ou o osso do braço; o femur ou o osso da coxa, que são ossos longos -, os ossos do punho ou do corpo são curtos; as espadoas e os parietaes são Ossos largos; os ossos mistos, como os temporãos, participam de muitos gêneros. A substancia (1) Os ossos que compõem o esqueleto humano são : 1 frontal, 2 Parietaes, 2 Temporaes, 1 Occipital, 1 Sphenoide, 1 Ethimoide^os-a unimis ou lacrimal. os 2 ossos do nariz, 1 Vomer, JdfcW°l!tSpJi^i ciâesr-f MafÜitlares superiores, 2 Palatinos, 1 Maxillar ^ffioxSOsPa do ouvido, sendo o Maptello, o Estribo, a Bigorn^ e 4o^o orJ^STarT; r Hydoide, 24 Vetebras, sendo 7. cervicaes, 12 dorçXes, e 5^k»maâY&í;* 24 costellaSifil*St^*o, 2 Espadrras/2 Claviculas, 2 Huftftrtôt 2 Ra.-, dius, 2 Cubitus. O carpo é composto, 1." do Scafoide, 2*Semiluriares> 3 Pyramidal, 4 Pisiforme, 5 Trapesio, 6 Trapesoide. 7 Osso grande, 8 Ganchoso. A bacia é composta dos 2 ossos üiacoá^l sacro, c o coc- cyx (*), 2 ossos da coxa,2 rótulas, 2 Tibias, 2 Peroneos. Emcadapé 1 Astragalo, 1 Galcarneo, 1 jScaphoide, 1 CubaiJe, 3 GunifArm_sK«5 ossos do metatarsó, e vários ossos chamados êtezamótã&Si • (2) Descobrio-se no fim do século 17 (anno de 1692). no Bourg de, Lasse em Anjou, um terrehrjque continha 15 ou 16 sjjpcdtoras, que ti nham 10,12,14 e 17 pés de comprimento, com cadTveTeydo mèsBJo tamanho. (*) 0 coccyx c o luJiinculo no humem, da ca>:d.i dos miim.es. No liomom parece espantoso o apparecimcnto desta parle, que não é ordinário nos indivi-' duos de sua espécie, e no entaiitanão nos devotos admirar que selenham visto' homens de cauda. ;liin Orleans, um homem desta espécie siueulaV desgõsTõ*sc> de assim se ver c]assifieatlo.iia c'asse dos.qyadriipedií* vòfuntarisBíieiite serc- signou a'uma rperaíjio qH'e W levou ao tjjfliulo.. EsteSÉfela e V ^ - ít* ^ X^-v\^-.^ v, A x <-<».* -*w -* ' * ^ »*••.»•.. -. %.__-,_»^>. •• ,/e^4^y_ A^ziái £>*s» £?<2L+-^^* ^y&y V —^í.: ^ »VNr\ %*% -J^X -^^ ___ v:1 r _^J/V C^^tC^X^*^ <>^iZésa\+>a -y^% . 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A superfície dos ossos é coberta de uma membrana fi- brosa, chamada periosleo, cheia de eminências e cavidades destinadas para a articulação dos ossos entre si, e inserção dos músculos, reflexão de tendões, etc. As eminências que são continuas com us substancias dos ossos chamam-se npo- phisis, e as que são somente contíguas chamam-se epiphisis, *. que ao depois se tornam em apophises á medida que os ossos £+**— caminham para o seu verdadeiro estado de aperfeiçoamento. O esqpeletftjle homem, quer natural quer artificial, se di vide em 3 porções: em cabeça, tronco e extremidades. ",~1S**U*^ ''***'+"**' V*______*___T"*"*'**' * Da rabeca. é*~jl?'T"^Zf* A cabeça comprehendeo craneoea face. O craneo é uma A^^r^^^k espécie de boí^la óssea ovaide, formada pela reunião de 8 **"" *^*"" 2__1-ossos' Que serve a proteger o cérebro, o cerebello e suas mem- /K t*+ ÍT/£< branas dos choques e impressões exteriores (1). O l.°osso /*^*'\ é o frontal, que está situado na parle anterior do craneo e ri A. l_»4-.___i«>SUperjor já face> on(]e fómia a testa e uma parte das orbitas •socculares^> 2.°, os dous parietaes, quasi da fôrma de um quadrado, situado aos lados e em cima da cabeça, e consti tuem a maior parle da abobada craneana; 3.°, ooccipital, situado atrás dos parietaes, e é dos ossos do craneo o mais (1) Assim como tem acontecido nascerem fetos sem a menor appa- renciã dé cabeça, tem suecedido viverem outros com o craneo vazio e sem vísceras. O craneo offerece ainda muitas variações, e as duas ob servações seguintes devem ser deste numero. Mr. de N... nasceu com a parte cabelluda, ou antes, com toda a parte posterior da cabeça sulcada de cima a baixo. Cada vinco representava""exactamente uma talhada de melão. O cardeal de liichelieu tinha duplos os ventriculos do cerefcro. Cada um delles tinha por cima um outro, formando assim duas ordens, tanto para diante como para trás. r*é — 25 — espesso e recebe a parte posterior do cérebro, e principal mente ocerebello, de que as maisligeiras lesões são prompta- mente seguidas da morte. Articula-se este osso com a co- lumna vertebral por meio da vertebra denominada Atlas. Os temporaesffão 2 ossos situados sohre as parles lateraes e inferiores do craneo, onde formam as fontes ou têmporas, e se dividem cm 3 porções, uma escumosa, oulra masloidea, e a terceira conhecida pelo nome de rochedo, atravessada por canaes e cavidades que contêm os instrumentos da audição* e mais de cada lado o martello (ossos do oiivido)^ a bigorna, o estribo, o lenticular, e é obliterada pela membrana do tim- püno. O sphenoide, situado na base do craneo, está formando realmente a chave, e a sua-figura, como o nome exprime (cunha), se lem comparado » um morcego de azas abertas. Este osso, por sua fórmae situação, arlicula-se com lodosos ossos do craneo e com a maior parte dos da face. O Ethimoide (o?so crivoso), é um osso que, entre as suas duas massas lateraes. apresenta uma lamina horizontal cri vada de uma porção de buraquinhos, que servem a dar pas sagem aos filetes nervosos dos dous nervos olfactivos. Considerações iihyslologicas e pliygionomleas do craneo do Homem. favater, apreciando em muito a construcção do craneo, e acompanhando o seu desenvolvimento desde os nucleosos- seos, affirma que os contornos destes órgãos e a configura ção do craneo podem fornecer conhecimentos mais ou menos aprofundados das propensões do indivíduo, a energia ou fra queza do caracter daqtteüea quem pertencia; porém, as ou tras fôrmas do craneo, suas proporções e sua rigidez, ou sua molleza é que melhor e approximadamenle pôde indicar a fraqueza ou a força individual. Assim, quando se encontram em qualquer craneo traços de grande solidez, ninguém está aulorisado a concluir que o homem a quem elle pertencia era um ladrão ou um santo; porém, nada se arriscará em af- firmarque alli se descobre uma abundância de força impul siva, seja ella applicada a esta otfráquella propensão. Lavater affirma que, pela inspefcção dos osso3 de certoscra- — 25 — espesso e recebe a parte posterior do cérebro, e principal mente ocerebello, de que as mais ligeiras lesões são prompia- mente seguidas da morte. Articula-se este osso com a co- lumna vertebral por meio da vertebra denominada Atlas. Os temporaqs são 2 ossos situados sobre as partes lateraes e " inferiores do craneo, onde formam as fontes ou têmporas, e * se dividem em 3 porções, uma escumosa, outra mastoidea, e a terceira conhecida pelo nome de rochedo, atravessada por canaes e cavidades que cpritêin os instrumentos da audição, e mais de cada lado o martello (ossos do ouvido), a bigorna,' o es tribo, o lenticular, e é obliterada pela membrana do tini io75~ lealmente ti cmne, e a sua uguiu, cumu u nume cipiuiic r * (cunha), se tem comparado a um morcego de azas abertas. *f*^^^ panoJO sp^enoi(/e,~situadggyU|e"do craneo, está formando . realment a chave suangura como o nom exprime Este osso, por sua fôrma e situação, articula-se com todos os ossos do craneo e com a maior parte dos da face. O Ethlmoide (osso crivoso), é um osso que, entre as suas duas massas lateraes, apresenta uma lamina horizontal cri vada de uma porção de buraquinhos, que servem a dar pas sagem aos filetes nervosos dos dous nervos olfactivos. Considerações irimyslologleas e physionomlcas do craneo do homem* Lavater, apreciando em muito a construcção do craneo, e acompanhando o seu desenvolvi mento desde os núcleos ós seos, affirma que os contornos destes órgãos e a configura ção do craneo podem fornecer conhecimeutos mais ou menos aprofundados das propensões do indivíduo, a energia ou fra queza do caracter daquelie a quem pertencia; porém, as ou tras fôrmas do craneo, suas proporções e sua rigidez, ou sua molleza é que melhor e approximadamenle pôde indicar a fraqueza ou a força individual. Assim, quando se encontram em qualquer craneo traços de grande solidez, ninguém está autorisado a concluir que o homem a quem elle pertencia era um ladrão ou um santo; porém, nada se arriscará em af- firmar que alli se descobre uma abundância de força impul siva, seja ella applicada a esta ou áqnella propensão. Lavater affirma que, pela inspecção dos osso3 de certos era- neos, se poderá dizer que o tecido, a fôrma, a molleza de suas partes, indicam evidentemente uma pessoa fraca, dotada da faculdade de conceber idéas, e privada de toda a força im pulsiva ou virtude creadora; que 'em tal contectura os indi víduos que têm o craneo assim construido]f)bram fraca mente e são por natureza incapazes de resistir ás fortes tentações e de emprehender grandes eousas. Assim, é claro que o indivíduo que tiver um pouco de penetração' pôde em presença de vários craneosconhecer, sem muita dif- ficuldade, o talento ou a força, ás propensões e os hábitos do sugeito a quem pertenceu. Sentimentos} de llerder. Que mão poderá pegar nessa substancia encerrada na ca beça e no craneo do homem? Ura órgão de carne e sangue poderá penetrar nesse abysm^ de faculdades e forças inter nas,-que ou feimentam ou repousam? A mesma Divinda de teve cuidado de cobrir es|e cume sagrado, morada,e la boratório das mais secretas^)perações, com uma floresta, emblema dos bosques sagradas, onde eram d'anles os.mys- terios^celebrados. Fica-se pqssuido de um terror religioso, com a idéa desse monte son^reado que encerra raios?, com que uJn sol escapado do cháef, pôde esclarecer e embeílezar, ou dgvastar e destruir o mijndo. O pescoço, onde a cabeça seajjpia, mostra não só o que está no interior dohò/nem, comp também o que elle qtjgr exprimir. Designa a n/rmeza ou liberdade, a molleza ea^pce flexibilidade. Ora, sua atti- lude nobre e desembaraçada annuncia a dignidade da con dição : ou, curvando-se, exprime a resignação do martyr, ou, firme como uma columt^a, modela a força de Alcide. Fi nalmente, suas éeformidadfls, seu enterramento nas espa- duas, 3ãoainda signaes característicos e cheios de verdades. Lavnter e «ali comparados em seus systema* por seus e/»mmentadores. Os commentadores d»yl_iVater, querendo dar ao seu tra balho maislocidcz e valorfjulgaram confrontado com o do «vi*/S* — 27 — Dr. Gall, feito sobre o estudo do craneo; e dizem, fallande do systema de Gall: «O novo gênero de indagações não interessou só .aos sá bios ou a alguns homens de letras; passou do retiro philoso- phico e da academia para os salões, e até, entre os homens mais frivolos, tem sido o assumpto de todas as conversações eobjectodeuma activacuriosidade.» Lavater e Gall differem pelo fim, pela intenção e meios de observações, sob muitas semelhanças, porque ambos buscaram conhecer o interior pelo exterior, o homem moral pelo homem physico; e qui- zeram perceber os segredos do coração e as direcções do es pirito na linguagem eácripta pela natureza, nas partes mais sólidas da organisagíp. Os Outros homens, não impressionam sem a physiohomia em movimentos, asètísaçãg* presente e Qs.caracteres.das pajxífcs* »EnTSuá*s indagações La.vate.ta Gall occupam-se da phystonomia em repouso, e mesmo de uma espécie de physiommia passiva; tractam um e outro desta parte do corpo humano, ou de sua copia fiel em relevo, como um monumento que nada exprime ao observador vul gar, cujas diversidades, entre certo numero de indivíduos differentes, são percebidas e interpretadas pelo physiono- mista, e podem fazer-lhe as mais importantes revelações: e bem assim, os differentes gráos de curvatura de uma lesta, uma ligeira differença na fôrma da cabeça, forneceram mui tas vezes a. tevater. as rrrais importantes indagações. Gall mostrou igualmente a maior sagacidade em observações se melhantes. Lavater fez entrar em seus estudos da physiono- mte todas as parles do semblante, e mesmo todas as do cor po-, as altitudes, os gestos, o som da voz^e até o caracter da escripta; emfim, tudo que no exterior do homem pôde ter uma significação e uma linguagem lhe não escapou. O Dr. Gall limitou suas observações ás diversidades do craneo, e restringiu olheatro das observações, com o desígnio de penetrar mais que todos os physionomistas que o prece deram. Lavater muitas vezes julga ao primeiro olhar; e, em todas as eousas, interrogava com a vista. Gall faz suas ob servações ajudado pelo tacto, os signaes dos quaes suas ob servações lhe iam ensinando; indicava o valor nas diversos regiões do craneo. Quanto ao fim, Lavater refere-se á phy- sionomia, e não mistura ás suas indagações dado algum de anatomia e de physiologia. Dirá por exemplo : « Esta con- — 28 — vexidade das fontes, este arco superciliario, esta fôrma do craneo, indicam ordinariamente uma disposição notável do coração ou do espirito.» Porém não cuida, como physiologis- la ou anatômico temerário, em achar a causa material e or» ganica dessa disposição-, limita-se a conhecer o signal e os effeitos. Gall, ao contrario, quer conhecer as causas, e, de pois deter passado uma parte de sua vida no estudo anatô mico do cérebro, persuadio-se ter encontrado em sua orga nisacão os segredos da alma; e no exterior do craneo, as re velações desses segredos e os signaes dus disposições inte riores, donde resultam as grandes variedades do coração e do espirito entre os homens. 0 ^JL ^*%"^L •-*>*-3»fr a* ^y ^^c^ £**»r*>& -^ A face compõe-se de 2 partes; uma quasi immovel e su perior, e outra movei, denominada queixo ou maxillar in ferior. A primeira porção da face compreliende os maxil- lares superiores, os ossos do nariz, os mallares ou pomolos ou ossos da face. Os herimaes ou ungueis (pela semelhança que têm com a unha), estão situados na fossa orbitoria, junto á base do nariz : os palatinos ou ossos da abobada pa- latina -, as cometas ethimoidaes inferiores, situadas nas ca vidades nasaes ;eo vomer, osso comparado com a relha do arado, de que tem recebido o nome latino, o qual unido a uma lamina cartilaginosa, divide em duas a cavidade nasal, e fôrma as ventas. * O maxillar inferior pri rilivamente é composto de dous ossos, que se reúnem depois e formam um só. de figura porabolica, ou por outra, semelhante a uma ferradura de cavallo aberta. Os dous maxillares, são guarnecidos de fortíssimos ossos duros (cobertos em grande p irle de uma substancia esmalti- forme), em numero de 82. sendo !6 para cada maxilla, os quaes estão encravados em buracos apropriados, a quese cha mam alveolos. Estes ossos são por todos conhecidos sob o nome de dentes, e se têm dividido em 3 cl.isses : l.\ os IN CISIVOS (cortantes): seu numero é de8, sendo 4 em cima e 4 em baixo, situados na parle anterior da face-,2.a, CANINOS ou laniar 3S, em numero de 4, sendo 2 para cada maxilla, oi °*y> — 29 — décima, são voltados para baixo, e os de baixo para cima; 3.*, os MOIÀUES, em numero de 20, sendo 5 para cada lado dos queixos. Estes dentes, receberam o nome do seu uso, por se assemelharem ás mós, e se dividem em pequenos e gros sos molares. Os dentes vulgarmente chamados do siso, são os últimos grossos molares, que apparecem mui tarde. Considerações physiologicas dos dentes. Os dentes, servem para a mastigação e para a boa pro nuncia das palavras, e também impedem, que a saliva corra para fora da bocea :são os dentes, um dos principaes orna mentos do rosto. Na época do nascimento, os dentes não são apparentes : ficam oceultos por algum tempo na espessura dos alveolos. afim de evitar as dores á mãi. no acto da mamentação. Sin gular previdência! Nem istoesqueceo á Suprema Sabedoria' " yntes, ordinaiiamente apparecem a deptis d^nascida a criança; ços 4 annos, vem os2 ;ada tnaxillar; na idade de 7 annos, pouco mais os 2t dentes, que existiam antes dos U annos, 8aoslO annos, observa-sa em cada queixo, ror te MOLRR. O dente da SABEDORIA ou do siso, abparece tas vezps aos 18, aos 30, e aos 33 annos, e entãoVé, que mpletlm em numero os d\ntes, que se encontram n? -^ - __~^-~— "- ^ A **"* f, 4**. t*** ^ *^ '<7y*^ /H yy* Vit+V*> y y— *4 á ^ ' — 31 — da cabeça, que está abaixo e adiante do craneo do homem, e que comprehende os sentidos da vista, do ouvido, do pa- ladar e do olfato, uma parte do órgão da mastigação, e aquelles que servem para a expressão da physiouomia. O es paço, que comprehende os cabellos da barba, tanto superior como inferior, e o angulo posterior do maxillar inferior, marcam os limites do rosto, cuja figura approxirna-se da ele gante fôrma de um oval, insensivelmente comprimido e es treitado, em sua extremidade inferior. Physionomia, em linguagem physionomic?, ésó o rosto, considerado relativamente ao exercício da vista (1). (1) A palavra Physionomia, vem do latim bárbaro visagium, que significa o que exerce a vista. O Sr. padre Roquette fazendo a distincção do valor das palavra» cara, fronte, rosto, semblante, face, vulto, diz : « Cara é palavra grega kara ou karé, e significava cabeça, cume ou cimo; mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem e de alguns animaes brutos. E' expressão vulgar, e ás vezes incivil e grosseira. Não é admittida cm estylo elevado, e em lugar delia usam os poetas a palavra frente ou fronte (am ambas vem de frons). José Agos tinho de Macedo diz na Meditação: i « Mas que pasmosa architectura é esta « Deste corpo que eu palpo, eu sinto? A frente, « Qual soberana lhe preside c manda!» « £ Camões: « Que não no largo mar, com leda fronte, « Mas no lago entraremos de Acheronte. « Estando c'um penedo fronte á fronte, « Que eu pelo rosto angélico apertava, « Mão fiquei homem não, mas mudo e quedo « E junto d'um penedo outro penedo.» (Lus. 1, 51, V. 56.) « Chamavam os latinos rostnim ao bico das aves, ao esporão da proa das embarcações e ao que com elle se parecia; os nossos antigos cha mavam e ainda hoje os Castelhanos chamam rostro a cara dos racio- naes, por ser a parte saliente do corpo, sobretudo visto de perfil, em que o nariz fôrma uma espécie de bico. Por suavidade de pronuncia se diz rosto. E' expressão mais elevada que cara, pois só se diz dosra- cionaes e é postiça, como se vê da precedente citação de Camões e da seguinte: « E com o seu apertando o rosto amado, « Que os soluços e lagrimas augmenta.» (Lus. II, 41.) « Semblante (talvez do franecz semblanl)é o rosto considerado como — 32 — A parte do rosto, aonde mais apparece a physionomia, é desde o lábio superior, até a parte mais alta da testa. Os ani- maes tem pouca physionomia, ou rigorosamente fallando, a tem, e o que se \ô do seu parecer, não tem relação alguma com a vida intellectual e moral. No homem, o rosto compa rado ao craneo, parece pequeno, entretanto nelle ha muito mais expressão; differença extremamente notável, e que de pende da extensão, que occupam no rosto humano, as re giões assignaladas para a expressão das vias moral e intellec tual. Á physionomia, não é tanto como se diz, oespelhoda alma, um meio passivo de expressão, quanto um dos orgíos mais eloqüentes e mais activos da linguagem do coração e do espirito, uma das superfícies da organisacão, que mais re lação tem com as affecções da alma, e onde as doenças, as paixões, os vicios, e as virtudes, operam as mais notáveis mudanças. O coração, o pulmão, o cérebro, são tidos sem duvida, como órgãos essenciaes á vida interior : a physionomia, éo orgío essencial da vida, quando ella se espalha exteriormente e que apparece em todo o seu desenvolvi mento e brilho na expres são variada das paixões. A' vista desta jeflexão, é evidente, que na fôrma da physionomia e da cabeça, em geral, é que expressão dos affectos ou paixões, e muitas vezes eqüivale á represen tação exterior, que no rostose mostra do que n'alma se passa. "« Da palavra latina facies vem a nossa face, que significando rigoro samente a maçã do rosto ou a parte da cara, desde os olhos até á bar ba, significa por extensão toda ella; usa-se muito a propósito quando a consideramos voltada para nós. « A' palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa sem blante, como se vê deste lugar de Cícero: «Vultusanimi sensus pterwn- que indicant (de Orat. 2,35). O semblante muitas vezes indica os sen timentos da alma.» Porém o mais ordinário é significar o relevo do corpo humano, e como no rosto é cnde mais avullam as feições huma nas, usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto e talvez rosto fot- MIQSO, como se infere daquelle lugar de Camões: « Quem (1) d'uma peregrina formosura, " D'um vulto de Medusa propriamente, " Que o coração converte que tem preso, « Em pedra não, mas em desejo acceso? » (Lus. III, 142.) (1) Subentende-se: pode livrar-se. - 33 — principalmente se deve procurar os caracteres essenciaes do homem, e a prova mais decisiva, que o gênero humano, é um gênero separado de todos os gêneros de animaes, por um vasto intervallo, sendo uma família isolada, e, que deve ter na historia, o seu retrato aparte, no quadro da natureza. Basta sem duvida olhar para a physionomia de um homem, com at- tenção, para ver-se e reconhecer-se, ainda mesmo entre os mais hediondos selvagens, o selloda humanidade, e as diffe- renças essenciaes e características, que collocam o homem, na grande distancia, que o separa dos irracionaes, que reve lam, que proclamam de algum modo sua superioridade de organisacão, sua nobreza, e sua classe, e o gráo de perfeição e de excellencia de sua natureza. No entanto os moralistas, e mesmo os naturalistas, não apreciam muito a physionomia, e dão muita importância ás relações interiores, e exteriores do homem, ou cedendo a um habito de classificações e cougrassamento, trazido de muito longe, recusam admittir, relativamente o material da organisacão, as differenças essenciaes entre o homem e os animaes. Desta arte, Moscati e Monbaldo, viram apenas no interior da organisacão humana, caracteres capazes de dis tingui-la dos macacos. Linêo, collocou o homem (Systema nalura;) na família dosprimatos, confundindo-os com os macacos e os morce gos; reunião ridícula, e pelo que a respeito destes últimos Daubeton, na Encyclopedia Methodica, altamente se cons pira O próprio Butfon, que ás vezes profundamente penetra os umbraes da natureza animal, faz também ás vezes com parações approximadas, que com prudência verificadas, não exprimem os caracteres com a natureza dos indivíduos, que este famoso naturalista quiz confrontar. A cabeça do ho mem, não sendo pendente como a dos quadrúpedes, e nem pegada ao corpo, pela extremidade superior, porém susten tada e apoiada ao pescoço, como sobre uma columna, o rosto está completamente voltado para o horizonte, e lhe é permit- tido ver em cheio e á primeira vista tudo, que o exterior do homem apresenta de mais caracteristico e nobre. Os olhos est5o collocados o mais vantajosamente possível, e a situa ção dos outros sentidos igualmente concorre, para augmen- tar seu poder, estender sua esfera de acção, e multiplicar as percepções, com que cada um delles enriquece constan- — 34 — temente o império do pensamento. Accresceutamos, queno rosto do homem os sentidos, tão favoravelmente dispostos para o exercício das suas funcções, relativamente aos objec tos exteriores, são mais chegados uns aos outros.que nos animaes, vantagem mui grande para a intelligencia, e que o naturalista deve fazer sobresahir com cuidado, no quadro dos caracteres do gênero humano. A physionomia, tão vantajosamente conformada á contri buir para a superioridade do pensamento no homem, é prin cipalmente notável pelas vantagens, que sua fôrma e sua es truetura lhe dão para servir á expressão da affecçSo da alma; vantagem, que não partilham com elle os animaes, ainda mesmo aquelles cuja conformação geral mais se approxima do modo da organisacão humana. O que mais caracterisa o rosto do homem, são as favoráveis disposições e a riqueza variada dos meios de expressão, que indicam o pensamento, e a variedade das paixões, que podem agitar nossa alma.. Estas disposições são mui difficeis de estabelecer, por com- prehender o rosto, duas ordens de músculos differentes, para seus usos; a saber: os músculos, que coutribuem á vida animal, movendo com força o maxillar inferior; os músculos, que concorrem para a vida intellcctual e moral, pelo jogo e movimentos da physionomia. Músculos do craneo, que servem para exprimir as paixões e os sentimento». Os músculos da cabeça e da face são : l.«-, o occipito fron tal, situado na parte posterior da cabeça, destinado à mo ver-lhe a pelle e levantar as partes superiores da face e da nuca; 2.°, o auricular superior, situado sobre as têmpora» e acima da orelha, destinado á suspender a orelha, e esticar a aponevrose craneana ; 3.°, o músculo auricular posterior, situado por detrás da orelha, e tem por uso puchar esta parte, para trás e dilatar-lhe a concha; 4.°, o auricular anterior, situado adiante da orelha, e serve para levanta-la e traze-la para diante; 5.", os grandes e pequenos rectos anteriores da cabeça, collocados na parte anterior, lateral e profunda do pescoço, e destinados á flexão da cabeça com a columna — 35 — vertebral, e inclinar aquella para diante e um pouco para o lado; 6 , os grandes e pequenos rectos posteriores da cabeça, collocados atrás da articulação da cabeça, com a columna ver tebral, e servem para sustenta-la e move-la, rodando-a de seu lado; 7.°, os pequenos oblíquos, situados na parte postero superior e lateral do pescoço, tendo por uso -estender a ca beça e inclina-la de um lado; 8.*, o grande obliquo da ca beça, collocado na parte postero superior e lateral do pes coço: este músculo, imprime ao atlas um movimento de re lação á fazer voltara face do indivíduo para o seu lado-, 9.<\ os rectos lateraes da cabeça, situados na parte postero lateral do pescoço, e servem para inclinar a cabeça para seu lado e para diante. 191 usculos da face, que exprimem as paixões. l.° O músculo frontal, situado na parte anterior e supe rior da face. O insigne Bichat, affirma que este músculo na sua contracção isolada, pucha para diante uma parte dos tegi- mentos do craneo, bem como levanta os que cobre o superci lio; enruga transversalmente a fronte. Elle, por sua acção, serve para exprimir as paixões alegres, e angustiosas; tam bém, exprime os sentimentos tempestuosos do coração. 2.° O orbicular das palpebras, situado na parte superior da face, na espessura das palpebras; serve para approximar as 2 pal pebras, e para exprimir os sentimentos de admiração è de ternura. 3.° O superciliar, acha-se collocado na parte supe rior da face e na espessura do supercilio, e serve para appro ximar o supercilio e exprimir os sentimentos peniveis. 4." O levantador dapalpebra superior, situado na parte anterior e superior da orbita; destinado para levantar a palpebra su perior e pucha-Ia para cima. 5.' O pyràmidal do nariz; posto na parte superior e anterior do nariz, serve para a expres são da dor e do constrangimento, encolhendo a pelle do na riz. 6.° O triangular do nariz; situado ao lado do nariz, serve para estreitar as aberturas do nariz. 7.<- O levantador commum da ala do nariz e do lábio superior; situado ao lado do nariz, um pouco comprido, partindo de cima da apophesi montante do osso maxillar superior,-, e vindo terminar-se na ala do nariz e no lábio superior: este músculo, s,erve para — 36 — oxorimir o desdém, o aborrecimento e a alegria, puchando um pouco para fora a ala do nariz, e o beiço superior. 8." O abaixador da ala do nariz; situado abaixo desta parte, e nor detrás do lábio superior; elle serve para abaixar a ala do nariz, levando-a para dentro, e também o labto superior. Este 'músculo, tem emprego nas momices e na melancolia. 9.° O levantador próprio do lábio superior; situado na parte média e interna da face, desde a base da orbita, até ao lábio superior : elle serve para a expressão da dor e do pranto, e para o riso, levantando o lábio superior- 10.° O canino; per manente na parte média da face e na excavação ou fossa do mesmo nome. Segundo todos os anatômicos elle serve para suspender a commissura dos lábios, e Bichat affirma, servir elle para a expressão do riso sardonico. 11." O grande li- gonático; collocado na parte lateral e média da face, esten dendo-se do osso molar, á comissura dos lábios; serve para suspender a comissura dos lábios, para trás e para fora. liste músculo é importante no riso. 12.° O peqaeno Zigonatico; situado na mesma parte e com o mesmo fim. Parece que o Creador o pôz, como auxiliar do seu omonimo, e para o que ás vezes falta. 13. O triangular dos lábios, á quem o pro fessor Chaussier, chamava maxillo labial, e Soemraeringde depressor anguli oris; situado na parte inferior e lateral da face, entre a comissura dos lábios e a base do maxillar infe rior: seu uso é abaixar a comissura dos beiços e servir para a expressão da duvida, para o choro e para o riso. 14." 0 quadrado do lábio inferior, também chamado mento labial por Chaussier, acha-se na parte inferior da face, desde o lábio' inferior, até á base do maxillar inferior; seu uso é abaixar o lábio inferior, e serve para exprimir as momices e a dor. 15:° O levantador do mento; situado na parte inferior da face, sua longura é mui insignificante, porque parte do osso maxillar, á pelle do mento; serve para suspender o mento. Bichat (fadando da acção deste músculo) diz, que no movei quadro da physionomia, o lábio inferior representa o princi pal lugar na expressão das paixões deprimentes. 16.' O tu- cinador; collocado na espessura das bochechas, comprehen- dendo os bordos alveolares e vindo até ás comissuras dos lá bios ; seu uso é levar para fora e para trás á comissura dos lábios, serve para a mastigação e exprimir o sentimento de desesperação. 17.° Oorbkular dos lábios, que fôrma (pro- — 37 — priamente fallando) os lábios, serve para fechar a aber tura da bocea, para a apprehensão dos alimentos e a articu lação da voz e do som. Além destes, ha os plerygoidanos externo e interno; o masseter e temporal, cujos usos são exclusivamente ás func- ções da mastigação. Por economia admirável da natureza (diz Lavater), os músculos no rosto humano, são pouco apparentes e acham-se profundamente situados e reclusos nos lados, e só tomam parte na expressão geral da physionomia, quando o homem por um gênero de vida contraria á sua natureza, encarrega- lhes o desenvolvimento. O rosto do homem, aliás muito mais desenvolvido, que o dos animaes, offerece em sua extensão transversal espaço conveniente, á expressão dos sentimentos interiores, onde (conforme a expressão de Shakespearre) as paixões se pintam á vontade, em todas as suas gradações o combinações. Na estreita e comprida cara dos animaes, não se podem mostrar as paixões; ellas se manifestam fracamente e com traços mal desenhados; e no entanto, que o homem acha meios de patentear todos os sentimentos, todas as suas mais occul- tas agitações, em alguns pontos da sua superfície exterior, emquanto que nos mais animaes, para se poder manifestar, é mister fazer fallar todas as partes do seu corpo. E' sobre tudo admirável a estruetura da physionomia, que explica, como pôde esta parte ser tão expressiva; tudo parece disposto para favorecer as relações do moral e do physico do homem, que se manifestam pela physionomia. Uma pelle transparente e branda, o exterior e o elemento superficial da organisacão do rosto; os vasos e os músculos collocados por baixo deste invólucro, variando á cada instante de aspecto, os movimen tos e as tintas sob a influencia da acção nervosa, que cm grande numero de nervos, faz circular de todos os lados, com tanta rapidez e abundância. Todos esses elementos organisados, todas essas partes que se agitam, obram em cada região da physionomia separada mente, faliam na sua linguagem, tomam um caracter em cada acção e formam um traço particular no quadro das paixões. Nos outros animaes, isto não se encontra, e se alguma cousa ha, é tão grosseiro, que não eqüivale comparar-se á physio nomia do homem. E' á finura e transparência da pelle, que TOM. II. 6 — 38 — a figura do homem é devedora dos attractivos que possuo e deste aspecto tão amável e animado, dessas ondulações e desses movimentos, que dão á vista encantada, o espectaculo indefinido e variado do sentimento e da vida. Da pelle sub as relações anatômicas, physiologlcas e moraes. As brandas faces... portentoso quadro. Que intimida donzella a natureza De leite e rosas fez nos mostra o pejo Na purpura que mais se accende e aviva; Imagem da innocencia e da virtude, Que na terra ficou depois do crime. MACEDO (Medit ) A PELLE (1), conforme Richat, Cloquet, Bourgery, Cru- veillier, e outros, comprehende todo o systema dermoide, e participa da vida animal pelas numerosas sensações, que transmitte á intelligencia e a vida orgânica; pelo amplo en voltório, que offcrecem as matérias heterogêneas da econo mia e entrada, que dá á diversas substancias exteriores por meio dos vasos lymphaticos, cujos orifícios inhalantes ella contém. A face externa da pelle é coberta pelo*epiderme,e apresenta em diversos lugares pregas, mais ou menos sa-. lientes: a sua face interna está em contado com tecido cel- (1) Quem se quizer instruir profundamente nos conhecimentos ge- raes de anatomia, pode consultar o que sobre esta matéria escreveu o nosso antigo amigo e mestre, o illustre Dr. Jonatha Abbott, professor de Anatomia geral e descriptiva na Faculdade da Bahia. Este famoso professor, sem duvida nenhuma o mais distineto anatou ico brasileiro, á sua custa preparou um gabinete anatômico, rico de todas as peças de que se compõe o corpo do homem, onde se pôde estudar a organisacão sem a menor repugnância. Sendo esse importante recurso de instrucção medica, unicamente feito pelo nosso erudito mestre e antigo amigo, sem que o estado gastasse um real sequer, em um escripto nosso que naquella cidade publicámos acerca do gabinete anatômico, o deno minámos, em honra ao illustre medico O Gabinete Abbott. A Faculdade medica da Bahia faz honra ao paiz, e nós nos desvane cemos em lhe pertencer. — 39 — lular. Os músculos, que exprimem as paixões, prendem-sc á pelle, que cobre o rosto. A pelle é composta de 3 camadas, como já fizemos ver, mui differentes. 1.*, o chorion, formado de um tecido denso semelhante ao systema fibroso, penetrado de pequenos ori fícios oblíquos, que servem á dar passagem aos vasos, nervos c pellos. 2.° Ocorpo rectirular, isto é, a rede vascular mui delicada, que se associa ás papillas nervosas. Uma porção dos seus vasos contém estagnado um fluido sem côr nosEuropeus e seus descendentes, e mais ou menos corado nos outros povos-, a outra porção contém fluidos brancos em circulação, os quaes são substituídos pelo sangue, quando por qualquer irritação a sensibilidade da pelle se augmenta; d'ahi provém, que em certas circumstancias o rosto adquire subitamente uma côr vermelha (vede Meller e Magendy, Phys.) 3.' O corpo papittar, composto de pequenas elevações formadas pela expansão das extremidades nervosas, as quaes se perdem na pelle e então recebem o nome do corpo papillar. O estado sadio da pelle, a sua maciez, a sua côr ou suas alterações, são quem dispertam nos sentidos ás diversas sen sações, que nos levam ao amor ou ao aborrecimento. Nas primeiras idades a pelle destendida pela gordura e pela acti- vidade orgânica, dá o mais bello aspecto possível á provocar- nos paixões, mais ou menos vehementes. Ellaannuncia por si muitas vezes, por sua pallidez o estado da alma, ou pela côr súbita ográo de pejo, que lhe provocou a presença de um objecto, ou a impressão de uma palavra. A pelle do rosto, é um verdadeiro panorama, onde a cada instante se estão re presentando os diversos painéis da alma. As paixões depri mentes ou expansivas, são manifestamente representadas ai I i em toda a sua magestade. A fraqueza ea força, a alegria e a dor, a completa satisfação e os demais sentimentos, são es tampados na pelle do rosto. Passando ao resto do corpo, a pelle, em vez de reprimir as paixões as provoca, dando-lhes um gráo maior ou menor de permanência á satisfação ou ao indifferenlismo. A pelle, no nosso modo de pensar, é a sede da formosura, porque é sempre pela sua conformação e har monia dos contornos, que preferimos os indivíduos (1). (1) D. Fr. Francisco de S. Luiz e o Sr. padre J. J. Roquete, — 40 — Polyphemo, levado pelos altractivos da formosa Galalea, exprobrado por outro pastor chorrorisado do crime que pre meditava, exprime-se assim : Eu matar Galatéa! oh que vileza! Naquella rara imagem da belleza Descarregar o golpe penetrante! E haviam ver meus olhos nesse instante Aquelle branco peito traspassado! O rosto, bem qual sol quando eclipsado E os olhos, que daquelle sol são raios, Perdendo a luz na sombra dos desmaios! Aquellas lindas faces tão coradas Eu poderia vel-as desmaiadas! A bocea robicunda e graciosa, Bem qual entre jasmins a linda rosa, Eu teria valor, teria vida Para vel-a sem graça amortecida! discriminando o valor moral e philosophico da palavra formosura, dizem : « Consiste a belleza e a formosura na boa proporção c harmonia das partes que compõem um todo: porém a palavra formosura, limita-se a representar áquella idéa com relação ao agradável; a palavra bellem representa a idéa da perfeição possível. « Neste sentido se admira a belleza do Laocoonte de Belvedere, do Hercules Farnesio, dos quaes não pode, com igual propriedade, dizer- se que são formosos; porém a Venus de Medicis c o Apoio Pythio tão bellissimos para os intelligentes e formosos para todos. São os olhos os juizes da formosura, e por isso acontece muitas vezes que o gosto vi ciado por capricho ou costume, põe a formosura no que está mais dis tante da belleza. Se a Venus de Medicis, em cujo corpo se não encon tra defeito, se pudesse vestir á franceza, que zombaria não faria a maior parte de nossas clamas de quem louvasse a belleza de seu ialhe? A formosura só se applica ao physico, ao que obra sobre os senti dos; a belleza applica-se também ao moral, ao que obra direciamcnje sobre o animo. Assim não chamamos/braoío a um poema, á expressão de um sentimento, á ternura de um affecto em que cabe muitíssima belleza. a Não damos por segura a opinião que vamos expor, mas parecc-nos que sendo a formosura o império da fôrma sobre a matéria, c nascen do para persuadir, reinar e avassallar corações, como disse um philo- sopho, deve especialmente applicar-se ás donas, e a belleza aos varões. >íem deixará de apoiar-se esta nossa opinião em mui boas autorida des. O padre Bernardes, fallando do menino Moysés,diz: «Livrou na sua belleza a sua vida (Flor. V. 117). » Vieira, fallando de Absalão. — 41 — E haviam escutar-lhe os meus ouvidos O pranto, os ais e os últimos gemidos : Já com tremula voz e a cada instante Vêl-a convulsa, afflicta e delirante, Sem alento, sem côr desfalecida, Dando um suspiro e acabando a vida! Oh Céos! que horror concebo em ponderal-o Eu tremo, gelo-me e de dôr estalo : Que coração tão bárbaro haveria Que obrasse tão enorme tyrannia? Eu teria valor, se a offendesse, Para vê-la morrer sem que eu morresse? Não, não teria tanta impiedade, Que vendo cahir morta uma deidade Não me sahisse deste insano peito O duro coração de dôr desfeito. diz: « Era Absalão tão galhardo mancebo, que do pé ao cabello da ca beça, como falia a Escriptuia, nenhum pintou a natureza mais bello (V. Ziíil).» Fallou muitas vezes este celebre orador de formosura, e sempre a applicou ás mulheres. Não será sem interesse transcrevermos a jui alguns lugares, que mais se recommendam por sua belleza. « A formosura é um bem frágil, e quanto mais se vae chegando aos « annos, tanto mais vae diminuindo e desfazendo em si e fazendo-se « menor. Seja exemplo desta lastimosa fragilidade Helena, aquella ía- « mosa e formosa Grega, filha de Tindaro rei de Laconia, por cujo " roubo foi destruída Trava. Durou a guerra dez annos, e, ao passo « que ia durando e crescendo a guerra, se ia juntamente com os annos li diminuindo a causa delia. Era a causa a formosura de Helena, flor « em fim da terra, e ceda anno cortada com o arado do tempo (VIII, « 319). Formosura apregoada não está mui longe de vendida (ibid, « 292). E' tão appetecida das mulheres a formosura, que só pela gloria « de a contemplarem, deixaram a maior dignidade (ibid, 295). Aqaella « graça da natureza, á que os olhos chamam formosura, não é mais « que uma apparencia da mesma vista, enganosa e vã... Sócrates cha- « mou á formosura tyrannia, mas de breve tempo; Theophraslo cha- « mou-lhe engano mudo, porque sem fallar engana; S. Jeronymo diz « que é esquecimento do uso da razão... Os primeiros tyrannos da « formosura são os annos, e a sua primeira morte é o tempo. Debaixo « do império da morte acaba, debaixo da tyrannia do tempo muda-se; « c se alguém perguntara á formosura qual lhe está melhor, se a morte, « ou a mudança, não ha duvida que havia de responder: Antes morta que mudada.» (IV, 453.) « Mui usado 6 de Camões o epitheto formoso, como tão harmonioso c poético que é; citaremos só dous exemplos : — 42 — Sentimentos «le Lavater, em relação a eòr e a physionomia da pelle. Para melhor conhecer-se a estruetura da physionomia, convém separar todas as partes e estudal-as de per si, para depois reunil-as, á se poder apreciar convenientemente as funeções. A parte fundamental da estruetura da physio nomia é o apparelho ósseo, depois os músculos, e agora a pelle. Este órgão é notável por sua estruetura fina e delica da, por seu colorido, e sobre tudo, pela aGtividade predomi nante de suas propriedades vitaes, que dão tanta extensaoás sympathias, ás relações e ás communicações de toda a espé cie, que entretem com as differentes parles da organisacão. A elevação de temperatura das propriedades vitaes da pelle do rosto, é que dá a esla região do corpo humano, o aspecto e tintas tão variadas e lão importantes na physionomia, para o medico observador. Por esta mesma disposição e que tantas « E como ia affrontada do caminho « Tão formosa no gesto se mostrava. « Formosa filha minha, não temaes o Perigo algum aos vossos Lusitanos. » (Lus. II, 3Zi, lili.) « E na estância 76 do Canto IX parece confirmar a differença que entre belleza e formosura fazemos, pois diz de Leonardo : « Quiz aqui sua veníura que corria « Após Ephyre, exemplo de belleza, * • • « Já cansado correndo lhe dizia : » O' formosura indigna de aspereza, « Pois desta vida te concedo a palma, « Espera um corpo de quem levas a alma. « Faz elle extensiva a significação de formoso a eousas inanlmadas como na língua castelhana, dizendo: « Três formosos outeiros se mostravam « Erguidos com soberba graciosa, « Que de granineo esmalte se adornavam, « Na formosa ilha alegre e deleitosa. Formosos leitos e ellas mais formosas.» (Lus. IX, bU, etc.) — 43 - vezes a pelle da physionomia, é excitada na occasião das impressões distantes e estranhas, que mudando de gradações, sob a influencia de uma multidão deaffecções interiores, e particularmente atormentada pelos signaes da bexiga, que muitas vezes é o lugar das empigens, das erysipelas, que ás vezes se cobre de botões durante o trabalho da den lição, ou na época e na crise da puberdade, que manchas e diversas erupções alteram-na em muitas mulheres e mesmo durante a gravidez; finalmente, ella torna-se amarella na ictericia, enegrece ou se avermelha em outras moléstias; adquire na clorose, uma côr esverdeada: é irrissada de florècencias e de asperezas em differentes moléstias agudas, o pôde revelar por seus diversos estados, aquelle de todo o systema vivo, com que suas vastas sympathias, a tem em permanente e activa commünicação. O tegumento dos lábios, da superfície dos olhos e da su perfície interna das alas do nariz, cujo tecido é muito mais « Mas não a applica aos homens. A nenhum dos navegantes que na ilha encantada se derramaram após as nymphas dá este epitetho, se não outros que melhor ficam aos varões; e fallando do mais galhardo delles, diz: « Leonardo, soldado bem disposto, » Manhoso, cavalheiro e namorado, A q.iem amor não dera um só desgosto, K Mas sempre fora delle maltratado » (IX, 75,) « Gentileza é a galhardia e bom ar acompanhado de nobre presença, è mais varonil que a formosura; e sendo esta privativa do sexo femi nino, deve aquella usar-se particularmente quando se falia do mascu lino; disto nos deixaram exemplo dous mestres da língua. Vieira, fal lando de Absalão, a quem chama galhardo e bello, diz: « Esta foi a pensão que pagou Absalão á sua gentileza» (V, Ml). E o padre Ber- nardes, fallando de Fortunato de Quiaromonte, diz: « Era de tão rara gentileza, ornada com os retoques da modéstia» (V, 116). « Boniteza é a qualidade do que é bonito, mas que não chega a ser formoso. Bonito é a palavra que indica cousa agradável á vista, e to ma-se ordinariamente pelo opposto de feio, como diz o ditado vulgar : — 59 — dio e lluctuante, talhe mais esbelto e mais bem proporcio nado, e feições menos deformes. Um Mouro, é um negro incompleto: um negro, é um Mouro mais escuro. O habitante de Guiné e da Ethiopia é negro, o da Barbaria é Mouro so mente. A pátria primitiva dos Mouros, é exclusivamente na África, na Ásia, na ZonaTorrida, ou nas Cercanias delia. Os que apparecem em outros paizes, tanto do antigo, como do novo continente, parecem todos oriundos daquella parte da África e da Ásia. Ha na America algumas povoações Indígenas, cuja côr dá ares da dos negros e dos Mouros; porém esta côr é arti ficial, e não natural. E' mui geral entre os selvagens da Ame rica, a extravagância de pintar-se artificialmente a pelle, e os que de negro a pintam, negros ou Mouros á primeira vista parecem; mas não ha um só Americano Indígena, que seja preto de sua natureza, e pôde olhar-se, como um facto certo serem as pequenas nações, que na America têm natu ralmente esta côr, de origem Africana ou Asiática. Os Americanos Indígenas, desde o fundo da Groelan- dia, atéá raia extrema do paiz dos Patagões, são todos natu ralmente de uma côr bronzeada. São também notáveis por faltarem á alguns as sobrancelhas, c a barba a todos. « Os « Tartaros e os Chinas, têm quasi o mesmo caracter (diz o « autor das investigações philosophicassobre os Americanos), « com a differença porém de aos trinta annos, lhes crescer « no lábio superior um bigode em fôrma de pincel, e alguns («esporões de cabello na extremidade inferior do queixo, « cousa, que não acontece aos Americanos, que são absoluta- « mente inberbes, sem cabello no corpo, afora o da cabeça.» A America, comtemplada nos seus habitantes Indíge nas, isto é, naquelles, que descendem sem bastardía dos po vos, que a habitavam em 1A92, época fatal do seu descobri mento, não apresenta mais do que uma espécie de homen^ que são todos mais ou menos trigueiros, ou bronzi-côres, e que naturalmente são todos, ou quasi todos, de extracção Tartara. « Temos para nós (diz Mr. de Buffon) que a razão « de tal uniformidade nos homens da America, provém de « viverem todos do mesmo modo. Todos os Americanos « eram, ou são ainda, selvagens: os Mexicanos e os Peruvia- « nos, eram de tão fresco civilisados, que não podem fazer - ÜO — « excepção: qualquer que seja a origem destas nações sel- « vagens, ella parece ser commum á todos. Todos os Ame- n ricanos sabem de uma mesma fonte, e tem até agora, sem « a maior variação, conservado o caracter de sua raça, pois « têm remanescido todos selvagens, e têm vivido pelo mesmo « theor. Seu clima não é (com pouca differença) tão desigual « para o frio e para a calma, como o do antigo continente, e « estando de pouco estabelecidos em seu paiz, não tiveram « as causas, que produzem variedades, sufficiente tempo « para operar effeitos mui notáveis. » (1) Os Laponios c os Esquimáos, são os anões da espécie hu mana, sua estatura não excede de ordinário á quatro pés e meio. Os Laponios, habitam a parte mais semptentrional da Europa, entre o circulo Polar e o mar Glacial, e, afora a pequenhez de seu talhe, em nada differem dos demais Euro- peos. Costumes brandos e virtuosos, gênio serviçal, alma tranquilla e limpa de ambição, extremo afierro á pátria, de onde ninguém os arranca, sem lhes arrancar a vida, formara o fundo de seu caracter nacional. Os Esquimáos, habitam a costa oriental da America, desde a terra do Lavrador, entre a bahia de liudson e a ilha da Terra Nova, para 52 grãos de lattitude. Todos os povos que divagam por esta immensidão de paiz, são anres e hnberbes, vivem como selvagens, sustentam-se da caça e pesca, têm quasi o mesmo talhe, feições, costumes e faliam a mesma lingua. Um Dinamarquez, que tinha aprendido a fundo o. Groenlandio, encontrou uma tribu de duzentos Esquimáosi (1) Setenta e sete naçúes indígenas povoaram a America meridional, que são: 1.°, os Cairos, que oecupavam o sul de S. Vicente, e senho res então da ilha de Santa Catharina (ilha dos Patos); 2.«, os Tamoyoi, fue habitavam os contornos do Rio de Janeiro, estendendo-se para S. icente, e que só reconheciam por alliados os Tupinambás, que eram seus visinhos e semelhantes em usos e costumes; 3.°, os Bugrés,qvn habitavam a comarca de S. ."aulo; Zi.°, os Tupiniquins, que oecupavam Porto-Seguro, e a costa dos Ilhéos, desde o rio Cainamú, até o Circare, quasi 5.° ao N; 5.°, os Tupinás, visinhos dos Tupiniquins, que pac tuavam com estes; 6.°, os Tupinambás, que habitavam á Bahia de To dos os Santos, e suas enseadas, conquistada por elles, aos Tupis; l.'\ os Cahetés, selvagens, que oecupavam toda a costa de Pernambuco; 8.', os Tabayares.âdi mesma família, porém menos ferozes, que o» — 61 fallou-lhesGroenlandez, e elles lhe responderam na mesma lingua, que é o idioma nacional do seu paiz, mas que não tem affinidade, ou analogia com o Tinoez, com o Laponio, com o dialecto de Islândia, da Noruega, ou da Samoyedia. Todos os Pigmeos do Norte da America, têm os pés muito pequenos, a cabeça enormemente grossa, o rosto chato, a bocea redonda, o nariz pequeno, sem ser esborrachado, a alva do olho amarellada, o íris negro e pouco brilhante, o queixo inferior alongado e saliente, além do superior, a côr Cahetès, oecupavam com elles,a mesma costa; 9.°, os Pitagonis,CVIK- lissimos, oecupavam a Parahyba e Rio-Grande do Norte; 10, os Ta- puytaras, oecupavam o Maranhão; 11, os Guajàjàros, que também oecupavam o Maranhão. Diz-se, que os Tupinambás são oriundos do Maranhão; 12, os Tapuyas, que oecupavam o Pará, inimicissimos dos Tupinambás: 13, os Canaris, que residiam além do Rio Negro; l/i, os Apanlos, que habitavam mais acima do mencionado rio; 15, os Ta- guans, cm seguida do mesmo rio, e mais acima; 16, os Guacaraes, vi sinhos dos Taguans; 17, as Amazonas (1), que habitavam em monta nhas, e particularmente sobre o Yacamiabo. Dizem alguns, que esta tri- bu de mulheres guerreiras e varonis, se mantêem e sustentam sem soecorro de homens, pois são assás laboriosas e providentes em agen ciarem mçios de subsistência, e mais precisões da vida. Habitam em montanhas escabrosas, e com particularidade sobre o Yacamiabo. São ellas mesmas, que marcam as oceasiões em que devem receber visitas de "varões; e são os seus visinhos Guacaraes. Nas oceasiões por ellas marcadas, cada uma leva uma maça, e a faz armar na sua caba- na; e depois gostosamente se entrega ao Guacaraes, á quem pertence a maça. Passados alguns dias, os hospedes se retiram para o seu paiz, á virem todos os annos, que são chamados na mesma época, a repeti rem a mesma visita. As filhas, têm o mesmo caminho das mães á todos •dfc respeitos, sem que se saiba o fim que dão aos filhos varões. Con ta-se, que se suppõe, que são entregues aos pães, e que conforme ou tras autoridades, matam-nos, o que se não conforma pelas razões do sentimento maternal, mesmo pela permanência da procreação; 18, os Pajis, tidos por sacerdotes e adivinhões, viviam em grutas sombrias, onde nenhum índio se atrevia a penetrar : alli,-dizem, se levava (1) A narração relativa ás Amazonas, é devida ao Jesuíta Chrislovão da Cunha, autor de grande sizudeza e circumspecção, o qual navegou c explo rou o rio Amazonas, que tomou o nome das mulheres homens, que acima mencionámos. Orelhano, mnito se conforma com a dita narraçãu; e Figueira, com muita circumspecçáo abona á ambos estes senhores. Depois, na era de 1743, certo acadêmico, que viajou sobre o Amazonas, por effeito de suas in dagações, altesla ser verdade a existência das ditas mulheres. Ora, a duvidar mos disto, por parecer impossível, que mulheres hajam de tanto valor, tam bém poderemos duvidar das Amazonas da Sylhia e Lybia, e das da África, que referem os padres Gaspar de Mendonça, e outros! TOM. II. 9 — Ü2 — bronzeada ou azeitonada. La Peyrere affirma, que ha al guns tão negros, como os Prelos do Senegal; Davis, For- bisher, Ellis, Egede e Creas, que mais, por tal paiz, se en- tranharam, não d3o noticias do tal. Os Patagões, moram na parte mais austral da America, quasi desde o grào 47 de longitude, até ao Estreito de Ma galhães e Terra do Fogo. São selvagens, sem pello.netn barba, e seu talhe quasi iguala o dos Europeos. Ha entre elles algumas tribus, ou famílias de estatura gigantesca, a quanto elle pedia, e era, pelo mysterio do seu vaticinio, attento ao fa natismo das tribus, que os prognósticos á morte, entregam-se á pessoa» contentes e satisfeitas, sem constrangimento, deitando-se na cama, sem quererem tomar alimento e água até expirar, com devota e voluntária resignação; 19 e 20, os Guayanares e Guayzacares, oecupavam as pla nícies de Piralininga e os contornos de S. Vicente. Estas duas tribus, eram em tudo differentes dos demais índios; 21, os Maraques (que ha bitavam na distancia de quasi 8 léguas da Bahia de Todos os Santos), andavam nús, e as mulheres com tangas. Pescavam de linha, e faziam sal, sendo muiactivos e trabalhadores (2); 22, os Barbados, conheci dos pelas grandes barbas de que usavam, e pelas quaes se distinguiam das outras nações, habitavam junto ao Paraguay; 23, os Papanares, que foram desalojados pelos Goytacazes e Tupiniquins, habitavam nas costas de Porto-Seguro, e seus subúrbios; 2_i, os Tabajares, habita vam a serra da Imbiaba. Com a chegada dos Portuguezes, passaram- se para a Parahyba, Rio-Grande do Norte e Ceará; 25, os Guayós; 26, Iboros; 27', Apuyares; 28, Cuxaràs; 29, Mandaveis; 30, Naporàs; 31, Paliez, que habitavam ao norte, descendiam dos Tabajares e Tapuias; 32, os Guivos; 33, Aramitos; 34, os Cancaiares, habitavam junto ít costa marítima da Bahia de Todos os Santos. As mulheres Cancaiare», tinham os peitos tão compridos, que lhe chegavam ás coxas; quando sahiam, faziam delles embrulhos e os levavam ás costas; 35,os Campf-* chos, que não comiam carne humana; 36, os Aguiguros; 37, e Mari- quitos, habitavam as costas, entre a Bahia de Todos os Santos e Per nambuco; 33, os Maragajás, oecupavam as costas, entre o Espirito San to e Rio de Janeiro; 39, os Aymorés ou Aymores, habitavam entre a Bahia de Todos os Santos e o Rio Doce. Eram ferozes, ebem assim;40, os Ighigriacupos, seus adiados, e o exemplo dado, foi o que aconteceo na batalha, que lhes deo o governador Mem de .Só, quando elles foram atacar Porto Seguro e Ilhéos; 41, os Vaitagnasses, que habitávamos contornos de Cabo Frio, entre o Rio de Janeiro e a Para'iyba do Sul; 1x1, os Guaytacazes, visinhos dos Vaitagnaeses, estendiam-se desde as planícies, que hoje são conhecidas por Campos dos Guaytacazes, ao longo da margem meridional da Parahyba do Sul, até a praia meridio nal do rio Xiquito, nos contornos de Villa Rica: elles eram inimigo» declarados dos Vaitagnasses. (2) Suppõe-se serem os habitanles da ilha de lUparica. — 63 — qual os viajantes, quasi que sempre exageram, d3o até doze pés de altura. E' para admirar que na Europa se falleha mais de du zentos annos em Gigantes Patagões, parecendo ainda duvi dosa a sua existência. As Tabas, ou Famílias Gigantescas, de que falíamos, foram vistas no paiz dos Patagões, pelo Ita liano Pigafetta em 1519; pelo Hespanhol Sarmiento em 1572; pelo Inglez Knivet em 1592; pelo lnglez Ricardo Hankins em 1593; pelo comodoro Biron em 1764. Grande Dizem, que esta nação presumida e orgulhosa, e que habitava em um paiz de mais de 200 léguas, era o inimigo implacável das ou tras nações, e jamais foi subjugada, e conserva ainda a sua indepen dência, se bem que occupando território menor: vivem em commum, e na mais perfeita união, sendo o seu brasão, conservar boa harmonia, menos com os estranhos, pois se julgam superiores; h'ò, os Boticudos, habitavam as visinhanças de Minas Geraes, têm por brasão, serem guer reiros e valentes; 44, os Pariés; 45, os Onaimarés, vivem afastados do littoral, e mostram ser de um caracter pacifico: as suas habita ções se encerram em redes de panno de algodão, suspensas entre ar vores, e cubertas de um tecido de palha, com que elles se abrigam das intempéries e calamidades das estações: 46, os Molopaques, oecupa vam os lugares além da Parahyba do Sul: seus costumes eram brandos e de maneiras affaveis: ao chefe somente, é permittido ter muitas mu lheres. Seus terrenos abundam em minas de ouro, sem com tudo se aproveitarem mais do que daquella porção, que o acaso lhes mostra; 47, os Lopis, montanhezes, que habitam mais distantes: sua alimen tação é fruetifei a, e seus terrenos abundam em pedras preciosas; 48, os Coramarés, habitavam a ilha do Araguaes; têm brandura natural, e affeição aos bons usos e costumes; 49, os Guegnes; 50, Timbirás; 51, os Jeicôs; 52, os Aucapuras, eram habitantes da comarca do •Wauhy,e alguma cousa para a banda do Maranhão: 53, os Guarés; 54, os Arahis; 55, e Caicazes, avizinhavam-se ás Amazonas. Na outra ex tremidade para a banda do Malto Grosso habitavam; 56, os Guaycurús; 57, os Carigès, habitavam entre o Rio Grande do Sul e S. Vicente. En tre todos os Indianos, eram os Carigés, os mais trataveis e humanos; 58, os Peliguazes ou Petivozes, habitavam as margens do Parahyba: ha em seu território abundância de páo brasil. Elles são trataveis, civis e valorosos: admittem a polygamia, e talvez seja essa a razão delles não matarem animaes fêmeas, em quanto estão grávidas; têm os beiços fu rados; 59, os Viataens, foi uma nação muito numerosa, mas está re duzida a pequeno numero, porque foi destruída pelos primeiros, a quem os Portuguezes excitaram, para que os índios vendessem uns aos outros. E' gente barbara, porque se matam cruelmente a si próprios. Têm elles os seus estabelecimentos no interior; 60, os Tupinaques; 61, e os Coroes, são vingativos e irreflectidos, habitavam as proximi dades do rio da Prata; 62, os Anhelimes; 63, Aracuitas; 64. eCosiva- res, habitavam em subterrâneos; 65, os Tapiquiras, são robustos, de — » |tl_ysloiiomia tln testa. (SEGUNDO LAVATER.) ...? A' frente, Qual soberana, lhe preside, c mandai MACUDO (Medil.) Lavater, comprehendendo a importância da testa, elia- (1) Os IncHos acerca das perguntas sobre que foram consultados, e acerca da tinta, especialmente, de como não conservavam as cores, responderam, com a graça seguinte. Façamos uma expeiiencia, di ziam: trocai vós outros comnosco os trajes, e andae mis ao solei chuva, quaes nós andamos; c veieis logo que de brancos vos haveis de tornar da nossa r.òr. K quanto A mudança das línguas, diziam, que com o decurso dos tempos, variedade dos lugares, e divisões que tinham feito entre si, por ca isa de seus ódios e guerras, foram forçados a chegar :i esquecer-se dos vocábulos pátrios, e ajudar-se de outros de novo inventados. Na resposta que (leram, altribuiam a mudança das còrcs ao dema siado calor que fere suas carnes, e parece que fatiaram conforme a philosopliia e experiência; porque os philosoplios concordam, que a côr branca procede de summa Maldade, como se vê nos pés. Por isso Aristóteles aitribue a brandira do cysne á frialdade do ventre da mãi^ e a negrura do corvo, ao c.dor do ventre da mesma. K destes dous ei- tremos se tiram as cores entiemeias vermelha, amarella, verde, etc, segundo a diversa intens^o do calor ou frio: quanto mais parti cipam do calor, tanto mais se chegam ao prelo; e qnanUr mais d» frio, tanto mais ao branco: assim, que foi a opinião dos índios conlorme a philosofia. E foi também conforme a experiência, porque segundo isto, vemos, lançando os olhos por todos os climas do mundo, tanta dillerença de còre.s nos homens; tudo nasce do temperamento diverso de que gozam. Os Europeus, quanto mais chegados ao pólo gelado, tanto mais brancos são, como os rlollandezes, flamengo.", Allemãe». K pelo contrario os Africanos, Asiáticos e Americanos, quanlo mais chegados ao torrido da Zona, onde mais predomina o calor, tanto mais pretos são. E daqui vem, que uns nascem alvissimos, outros mais brancos, outros tostados, outros fulos, outros vermelhos, outro» [. elus e outros sobre o preto asevichados. Porém, nSo obstante toda esta doutrina, nem os índios, nem os pW' tn.ophos, nem a experiência, parece satisfazerem bastantemente, porq* — 73 - vendo estudado os phenomenos por ella manifestados, diz que' com razão, esta parte do corpo tem bem merecidoo no me de porta du alma e templo do pudor, animi januam, templum pudoris. Reconhecendo haver-se muito escripto sobre a physionomia da testa, transcreve as observações alheias, confirmando as exactas, e regeitando as que são falsas, ou vagas. A parte óssea da testa, sua forma, sua altura, seu arquea- mento, sua proporção, sua regularidade, marcam a dispo sição e a quantidade de nossas faculdades, e de nossa ma neira de pensar e de sentir. A pelle da testa, sua posição, sua côr, tensãoou relaxamento, fazem conhecer as paixões da alma, e o estado do nosso espirito; ou em outros termos, a parte solida da testa, indica a medida interna de nossas padece as instâncias seguintes. Sc toda a causa da sua côr vermelha é a razão do clima e calor, os Portuguezes, que vem a viver entre elles, no mesmo clima e calor, e ainda dentro de seus mesmos sertões, e talvez despidos, como elles, por toda sua vida, porque são sempre bran cos? E porque de suas mulheres brancas geram-se brancos, e estes geram outros brancos e não vermelhos, como elles? E pelo contrario os índios, que vão viver entre os Europeus no mesmo clima, e no mesmo frio, cpmo elles, porque ficam 6etnpre vermelhos, e estes geram outros semelhantes, e são brancos como os Europeus? Aristóteles, parece que attribue adifferença destas coresá imagina ção, segundo aquelle dito seu Imaginaliofacit causam. Mas, (deixe mos a historia celeberrima da sagrada Escriptura, Gênesis 10, nume ro 3, das cores diversas das ovelhas de Jacob, nascidas da imaginação das mais, e outras historias de animaes, que trazem os autores) vamos m»s homens. Quintilianno defendeu de adultério a uma mulher branca que parira criança preta, só com mostrar que estava em seu aposento ao tempo da concepção o retratro de um Ethiope. Tasso, escreveu acerca de Clorinda, que nasceu branca de pães pretos, só por estar onde foi concebida a pintura de uma virgem branca. Heliodoro, conta o mesmo de Caridea, que nasceu branca, só porque a rainha de Ethyopia sua mãi, costumava olhar para um retrato de Androineda branca. Outros casos semelhantes, escrevem os autores a cada passo; e não ha duvida, que tem a imaginação eflicacia para maiores monstruosidades: de que se pode vêr um livro inteiro do padre João Eusebio Nierem- berg, em sua curiosa philosophia, e é o segundo. Porém a meu vér, esta doutrina não tem aqui lugar, porque de successos singulares não se argumenta com eflicacia para o geral, que sempre acontece: porque era ncessario provar no nosso caso que sempre os índios desta terra, ao tempo da sua concepção, teem na memória a sua côr vermelha, o que não tem probabilidade alguma. ChroBica da companhia de J«sus. por Vasconcellos. — 74 — faculdades, e a movei, o uso que dellas fazemos. A parle solida fica sempre sendo o que é, ainda que a pelle exterior se enrugue: emquanto as rugas, variam conforme a constituição óssea. As de uma testa chata são differentes das de uma arqueada, de sorte que, consideradas de um mo do abstracto podem-nos fazer julgar da fôrma do testa, e reciprocamente se poderá determinar, segundo esta fôrma, as rugas, que a testa deve produzir : tal testa não admitte senão rugas perpendiculares; ellas serão exclusivamente horizontaes n'uma segunda ; arqueadas n'uma terceira; misturadas e complicadas n'uma quarta. As testas lisas, e que menos ângulos têm são ordinariamente as que lèm rugas mais simples e mais regulares. Uma testa estreita annuncia um homem indócil; uma testa larga e escavada em baixo é indicio de estupides, pol- tronice, e incapaz de grandes eousas; uma testa quadrada, promette grande fundo de sabedoria e coragem. Uma testa elevada e arredondada denota franqueza, be nevolência, beneficência, facilidade de contentar, o ser ser- viçal, reconhecimento e virtude. Uma testa mal feita, e sem rugas é indicio de ferocida de e perfídia; uma muito grande e desforme, desigualefun da no meio é indicio de caracter tímido, preguiçoso e es túpido; porém uma testa grande, bem feita e regularmente arqueada 6 signal de coragem, actividade e intelligencia. Uma testa pequena c estreita demonstra'inconstância, inquietação e indocilidade. Se a testa é oblonga indica bom senso e espirito claro; se é quadrada indica magnanimidí' de de coração; se é circular arrebalamento e tolice. Uma testa achatada indica um natural afenlinado; uma testa regular e carregada de rugas denota espirito reflecti- do e melancólico, e ás vezes espirito limitado e leviano. A disposição das rugas é que decide, por sua regularidade ou irregularidade, sua tensão ou relaxamento. A abundância de rugas caracterisa um homem assomadoe violento, eque se não abranda facilmente, quando seencolerisa: se ellasoc- cupam só a parte superior da testa exprimem espanto mis turado de toleima; se ellas se concentram para a raiz do na- rif» annunciam um homem grave e melancólico. Se a testa nao tem signal de rugas, annuncia humor alegre e derre to. A testa muito nberta denota o homem lisongw»; a^é&i^ A-vC *•*-*-« e^^&i*--? s*-+ S? S4+^&^&% X^tsé+z ^^i^t^Jf* £*^u-aí+£j yryl£^L^t^~ • *6+~yi*^2Z ^y- ay^^t^S^t^c^a^*^ y^ ^£>y &^y. ,/^C* ^^ • • • • — 75 — uma testa sombria é signal de caracter rabugento, triste e cruel. Uma lesta desigual e dura, alternativamente cortada por elevações, apresenta o indicio de um homem pródigo, li- cencioso, infiel, duro, activo e cheio de projectos. Diz um escriptor Allemão, que uma testa arredondada e elevada, annuncia franqueza, alegria, bom coração e juízo; sendo unida, lisa e sem rugas, prognostica caracter imper tinente, enganador, porém pouco sensato. Uma testa pequena occulta espirito ignorante, cruel e ambicioso; sendo redonda, saliente nos ângulos e sem pello designa razão sã e desejos de grandes eousas, isto é, daquel- las, que se referem á gloria ou proveito. Sendo a lesta aguda para os fontes é o signal de um homem máo, igno rante e versátil; se é carnuda no mesmo lugar é signal de homem arrogante, teimoso e grosseiro. Uma testa encrespada e fendida pelo meio presagia espi rito limitado e altivo, e revezes da fortuna. Testa volumosa em todas as partes, redonda e calva é signal de espirito fe cundo em repentes eardiz, orgulhoso, colérico e matreiro. Sendo a testa elevada, alongada, globulosa e acompanhada do um queixo pontudo denota um ente fraco e simples. Idéas pliilogopliicas de Pousdiel sobre a i»I» j - sionomia da testa. A extensão da lesta, diz Peuschel, vae de uma fonte á oulra, e comprehende ordinariamente o espaço de 9 polega das. A testa, considerada em sua largura, divide-se em 3 partes iguaes, que para um homem judicioso e bem organi- sado, devem ser delicadamente arqueadas em relevo, sem achatamento, nem covas. A primeira destas partes é que indica memória; a segunda, dá a conhecer a força do juizo, e a terceira riqueza de espirito. Uma testa perfeitamente redonda não prejudica á me mória, nem ao espirito; porém, se a parle média, é a mais espaçosa e saliente, tereis o caracter e distinetivo de um juizo superior. Ao contrario, se a secção superior ô mais ele vada, que a inferior, é a memória que sobresahe ás outras - 7(1 — partes inlellecluaes. Se éeniüm a secção inferior, que tem mais elevação c mais extensão, é o espirito, que predomina. 1.» Uma testa bem proporcionada, que tem todos as suas dimensões em largura e em comprimento, e que não é muito "carnuda, denota muita aptidão e capacidade para todas as eousas. 1: Uma testa excessivamente volumosa, denuncia ho mem de concepção dura. mas que conserva bem oqueapren- de. Lento e preguiçoso para formar idéas, não terá menos iraballm e repugnância para executal-as. 3.' Uma testa muito larga, indica homem colérico, or gulhoso, vão e fanfarrão &.« Uma testa, que exceda ao tamanho ordinário em comprimento e largura, e que é ao mesmo tempo muito elevada, pôde ser collocada na mesma classe da segunda. 5.-i Uma testa pequena, curta e estreita, é signal de in- telügencia muito limitada. 6.a Uma tesla redonda, dá-nos idéa de homem colérico, altivo, impetuoso e vingativo. 7. Uma testa grande, tem inclinação ao orgulho, e uma muilo pequena significa cólera e avareza. 8a Hu testas tãoimmoveis, que a pelle que as cobre, n3o é capaz de enrugar-se, salvo comprimindo-sc, ou estenden- do-se os palpebras com exforço. Também ha homens, que conservam os olhos continuamente baixos, simulando arde soinno. Um tal olhar, impede a mobilidade da testa, e indi ca uma indifférença e abandono invencíveis. A verdadeira causa da immobilidade da fronte, é a preguiça. *' 9.a Uma testa cavada no meio, caraclerisa avareza. Lavater, não é favorável a esta opinião, e diz que a avareza é uma paixão tão complicada, e depende de tal fôrma da nossa posição, da nossa educação, e de uma infinidade de circunstancias accessorias, que seria, conforme elle pensa, uma cxcessha imprudência sustentar, que tal fôrma de lesta, é signal de avareza, no mesmo sentido em que se tem dito, que outra fóuna detesta indica caracter de juizo e bon dade, sensível ou duro, corajoso ou tímido, suave ou arre batado. No entretanto ha testas, que trazem o sellode no tável inclinação para a avareza, e a menor conjectura bas tará, talvez, para decidir, O avaro, crê ter necessidades que não tem: não acha em si bastante energia, e nem esses re- - 77 — cursos para prover suas necessidades, e julga-se por conse qüência na precisão de recorrer a meios, que sente lhe fal tara. A escolha destes meios custa-lhe muitos cuidados e trabalhos, e o de occupar-se delles, esquece-se do fim a que elles o deviam conduzir. Assim, a raiz da avareza provém de uma imaginação creada em necessidades, e que não en contra em si bastante força e poder para vencel-as ou satis- fazelr-as. A' vistadisto, chama-se avaro aquelle, que é ator mentado por necessidades, que não é senhor; e esta defini ção prova-uos, que a avareza é paixão de almas pequenas, pelo defeito da energia: aquelle, que é bastante forte de si mesmo, pôde passar sem soccorros estranhos. O desinteresse distingue-se da avareza, em que uma força interna basta para submetter as necessidades, que nascem em nós, e que procurando vencer nossas paixões, constitue um caracter generoso e desinteressado. A falta de uma força interna semelhante á esta, ou o sentimento desta falta de energia, eis o que torna o homem pusilânime e avaro. No entanto, a força ou a fraqueja de energia, tomando uma direcção perfeitamente differente, nem sempre pôde dege nerar em avareza. Gom o mesmo gráo de força, ou de fra queza, um indivíduo collocado n'uma posição feliz, favore cido pela educação e pelas circumstancias, seguirá um ca minho inteiramente opposto; creará outras necessidades, & se deixará dominar por paixões análogas, que talvez o diri jam á honra; no entanto, queá avareza, propriamente dita, o afasta da vergonha : tornar-se-ha avaro do seu tempo, i\é\do de grandes acções, e invejoso de quem faz bem: por sua paixão, se limitará sempre ao objecto, que de pre ferencia o occupa e o perseguirá, com inquieta actividade. Ora, que um caracter assim determinado, tenha por at- tributo necessário uma testa cavada nomeio, é uma affir- mação, que não poderá §er adoptada senão á vista de induc- ção mais positiva. Por este exemplo, continua Lavater, se vê, quanto é imprudente o manchar a reputação de um ho mem, por um signal único e arbitrário, e particularmente quando este signal, é tirado de partes sólidas: entretanto, era este o methodo dos antigos e dos modernos, que os tem se guido passo á passo- O pbysionomista philosopho deve seguir outro caminho, isto é, deve resolver as primeiras causas geraes da paixão, TOM. II. ü — 78 — para fixar o gráo e o gênero de sensibilidade de que cada indivíduo é susceptível. Nunca esquece, que a massa geral da nossa energia, ea somma positiva dos sentimentos e das forças, que nos são confiados, reside invariavelmente nas partes sólidas do semblante, e que o uso voluntário e arbi trário, que fazemos destas forças, explique-se pelas partes inoveis. O systema ósseo, mostra-nos o homem tal qual pôde ser: as partes molles, fazem-nos conhecer o que elle é, e se se tem algum outro meio de examinal-o em estado perfei tamente pacifico, isempto de paixões, ellas descobrirão até as suas mais occullas disposições. 10. Uma testa perfeitamente unida, sem rugas e sem vin cos, e cuja pelle luzenta é muito adherente ao osso, denota homem sangüíneo, impetuoso, e amigo dos ornalos e das ga- lantarias. Lavater affirma ler encontrado estas espécies de testas em pessoas mui fleugmalicas e modestas. 11. Uma testa cabelluda, suppõe-se geralmente ser sig nal de concepção excessivamente dura; e quando as linhas da testa são interrompidas e cortadas, annunciam inclina ção á libertinagem e á velhacaria, e mesmo torna-se presa- gio de morte violenta. DOS OlllOB. DlíSCRIPÇÃO PHYLOSOPHICA DO PADRE MACEDO. . ? A' frente. Qual soberana, lhe preside e manda! Quanto me assombram scintillantes olhos, Que delia, quaes dous soes, despedem luzes! São mudos, mas interpretes fecundos? Lenços, onde as paixões vivas se pintam! Nelles se exprime a Natureza, e falia! Mostra-se o crime, mostra-se a virtude; Alli vêm d'alma os Íntimos arcanosl Nelles se vê Galigula, e Antônio; Nelles descubro Bonaparte, ou Tito; Cezar mostra ambição, Pompeu grandeza, Scipião mostra a pátria, e Sylla a morte; Virgílio um nume, Tácito prodígios. - 79 — Turvos, se o ódio, ou raiva, o peito inflamma; Serenos, se o prazer um doce e meigo Orvalhado fulgor nelles entorna: A tristeza, o pezar, os turva, os fecha; Se teme o coração, com elle temem; A compaixão de lagrimas os banha; Prende nelles de amor o fogo, a chamma, Na saudosa formosura morrem, Na satisfeita formosura vivem: Se geme o coração, também suspiram; Quaes vivos astros, que do eclypse emergem Da sombra da tristeza ás luzes passam Do, raro entre os mor taes, prazer ingênuo, Que tecido de túnicas pasmosol? Que lentes subtilissimas, por onde (De todo a Newton, descoberto arcano!) Ao centro d'alma a luz leva as espécies, Que do vasto espectaculo do mundo (Simulacros incógnitos) se espalham! Descrlpção anatômica, pli ysiolojflèa e pliyslo- .. nomica do> olho e do apparelho da mão. ,f" »•»%»•#• • *^^t vf*£t v%*< MM ,%\.i.\ ^ ,- , •-—-•"^ ** -;••*•— — ^ As funcções de relação têm por fim não só aperfeiçoar a intelligencia do homem, como também estabelecer as suas relações com os objectos que o rodeam, e isto se faz, por Hfiipressões, por combinações, e por acções e expressões com a voz, com a palavra, com o movimento, e com os gestos. São as sensações, as impressões penÓ*sas ou agradáveis, que resultam do exercício da sensibilidade animal, e existem nos órgãos internos, que transmillem ao cérebro sentimen tos obscuros, mais ou menos agradáveis ou penosos, como acontece com a fome, a sede, e as dores internas. As sensa ções, propriamente ditas, são as que residem nos órgãos dos sentidos; e por tanto, devendo precedel-os, daremos a des- cripção do seu apparelho. Compõe-se este apparelho de partes acccssorias e partes essenciaes. As partes accessorias são : as orbitas, as sobran celhas, aspalpebras e seus folliculos sebaceos, as carunculas — 80 — lacrimaes, as glândulas e vias lacrimaes, e os músculos do olho. As parles essenciaes são: o globo do olho, suas mem branas, seus humores, os vasos e nervos, que entram em sua organisacão. Da orbitai A orbita é uma cavidade pyramidal óssea, um pouco qua drada, tendo a base para diante, e algum tanlo oblíqua, e o vértice dirigido para a parte posterior e interna. Esta cavi dade contêm uma parle das vias lacrimaes, e o globo do olho, os músculos e os nervos, que se distribuem no referi do globo, e bem assim a gordura, que envolve todas estas partes. Das sobrancelhas. As sobrancelhas são duas pequenas eminências arquea- das, situadas na parte superior da base das orbitas: os ca bellos, que as guamecem, moderam a intensidade da luz, c demoramJbs corpos estranhos, que tendeji á cahir denlro dos olho/ *6#+>W táBÊLÍ** Das palpebras. As palpebras são duas espécies de véos moveis, eslendidW diante dos olhos. As duas palpebras, superior e inferior, es tão fixas na base da orbita, e reunidas nas suas extremida des, para formarem astommissuras. O hordolivreestá guar- necido de cabellos curtos e duros, chamados cilios, ou pes tanas, que têm os mesmos usos, que as sobrancelhas. Por sua face externa existem umas glândulas sebaceas, mui pe quenas, guarnecendo os bordos, bem como no canto interno existem outras chamadas caruuculas lacrimaes, que forne cem um fluido unetuoso, que facilita o movimento das pal pebras e impede a eííusão das lagrimas pela face. As palpe bras servem para impedir a luz e interromper voluntaria mente a vista, .proteger os olhos, e facilitar-lhes os movi mentos . — 81 — Buffon, fallando desta parte da physionomia, diz: «depois dos olhos, as partes do semblante, que mais contribuem para marcar a physionomia são as sobrancelhas; como ellas têm uma natureza differentedas outras parles, são maisap- parentes por este mesmo contraste, e chamam mais atten- cão do que qualquer dos outros traços ; as sobrancelhas são uma sombra no quadro, que anima as cores e as fôrmas. As pestanas também fazem seus effeitos; quando são lon gas e profusas, tornam os olhos mais bellos, e o olhar agra dável. Só o homem e o macaco é que têm pestanas em am bas as palpebras: os outros animaes não as têm na palpebra inferior, e, mesmo no homem, ha menos cabellos na palpebra inferior, que na superior; os cabellos das sobrancelhas ás vezes crescem muito na velhice, e é preciso cortal-os. As sobrancelhas só têm dous movimentos, que dependem dos músculos da testa, sendo um para erguel-as, e outro para abaixal-as, approximando uma da outra. O professor May- grier diz, que o movimento, de a^fíxamento e elevação da palpebra, resulta, o primeiro, da acção do músculo orbi- cular das palpebras, e o segundo, da acção do músculo le vantador da palpebra superior e do frontal. Le Brun, lrociando da expressão das paixões, diz que nas sobrancelhas, ha dous movimentos, que exprimem todos os movimentos das paixões. Estes dous movimentos têm per feita relação com os dous appetites, na parte sensitiva da alma, o appelile concupiscivel, e o appeiitc irascivel, que são os que levam ao cérebro todas as paixões ferozes e •cruéis. Ha diversas espécies de elevações das sobrancelhas, uma, em que a sobrancelha se eleva no meio, e esta elevação exprime sentimentos agradáveis; outra, quando a sobran celha eleva-se no meio, a bocea ergue-se pelos cantos, como na tristeza. Quando o meio da sobrancelha abaixa-se. este movimento denota dor corpórea, e então a bocea abaixa-se pelos cantos. No siso, todas as parles do semblante se har- monisam; porque as sobrancelhas, abaixando-se para o meio da fronte, fazem, com que o nariz, a bocea e os olhos, sigam o mesmo movimento. Lavater é de opinião, que muitas vezes as sobrancelhas por si só servem de positiva expressão do caracler do homem, e disto são provas os retratos de Tasso, Alberto, Boileau.Turenne, Le Fevre, Clarke, Newton, etc. — 82 — As sobrancelhas, brandamente arqueadas, estão de acor do com a modéstia e simplicidade de uma joven virgem. De senhadas em linha recta e horizontal, indicam caracter varo nil e vigoroso. Quando sua fôrma é meio horizontal, e meio curva, annunciam força de espirito e ingênua bondade. As sobrancelhas grosseiras, e sem ordem, são sempre signal de intractavel vivacidade; porém, se os cabellos dellas são finos, esta mesma confusão, annuncia ardor moderado. Quando ellas são espessas e compactas, e que têm os cabellos deita dos parallelamente e, por assim dizer, sahidos da linha, pro- mettem decididamente juizo maduro e solido, profpnda sa bedoria, senso recto e são. As sobrancelhas, que se juntam, passam entre os Árabes por um traço de belleza; no en tanto, que os antigos physionomistas a ellas ligaram a idéa de um caracter taciturno. Não posso adoptar, diz Lavater, nem uma, nem outra destas duas opiniões : a primeira parece falsa, e a segun da exagerada, porque tenho encontrado estas espécies de sobrancelhas nas physionomias mais honestas e amáveis. E* verdade entretanto que ellas dão ao semblante um ar mais ou menos carregado, e que assim, até certo ponto podem fazer suppor perturbação do espirito e do coraçaa. Winckelmann diz, que as sobrancelhas apagadas dão á cabeça de Antônio uma expressão de rudez e de me lancolia. Nunca vi, continua elle, um pensador profun do nem mesmo um homem firme e judicioso com sobrancelhas finas e muito altas, partindo a fronte em duas partes iguaes. As sobrancelhas finas são signal iü- fallivel de fleuma e fraqueza. Isto não obsta que um ho mem muito colérico e enérgico, possa ter sobrancelhas claras ; porém, sua modicidade diminue sempre, á viva cidade do caracter. As sobrancelhas angulosas e inter- corladas, denotam actividade de espirito productivo. Quanto mais ellas se approximam dos olhos, mais serio e profundo é o caracter: este perde sua força, firmeza e intrepidez, á medida que os sobrancelhas sobem. A, grande distancia de uma á outra, annuncia fácil concepção, alma pacifica e tran- quilla. As sobrancelhas esbranquiçadas, provém de um na tural fraco: sendo de um pardo escuro, são emblema de força. O movimento das sobrancelhas é de uma infinita expres- _ 83 — são: servem, principalmente para assignalar as paixões ignóbeis, o orgulho, a cólera e o desdém. Um homem so berbo é um ente desprezador e desprezível. Sentimentos de Herder, sobre as sobrancelhas» Abaixo da testa começam as sobrancelhas, arco iris de paz por sua doçura: arco intezado pela discórdia, quando ex prime cólera; assim é elle, quer n'um, quer n'outro caso, o signal das affeiçõcs. Não conhecemos nada mais attractivo e de expressão, para o observador esclarecido, do que um angulo fino, bem pronunciado, que se termina com graça, entre a fronte e o olho. Do globo do olho (1). O globo do olho, está alojado na parte anterior e interna da cavidade orbitaria, e tem a fôrma de uma esphera ligei ramente aplanada em vários sentidos, cuja parte anterior se continua, com um seguimento de esphera, muito menor. Compõe-se o globo do olho, de membranas e humores ; a primeira das membranas é a conjunctiva, de natureza muco- sa; esta membrana revestindo a face interna das palpebras, reflecte sobre a parte anterior do olho, e fôrma junto ao seu angulo interno, uma prega triangular denominada carun- \tlla, á que Bichat chamou membrana pestenejante. A se gunda membrana, éa cornea transparente, que se acha na parte anterior, da abertura anterior da esclerotica, e como que engastada circular mente, nesta ultima. Ella, é formada de lâminas, e de uma natureza desconhecida. A terceira membrana, é a esclerotica ou cornea opaca, que faz parte do systema fibroso. E' nesta membrana, que se prendem (1) Os olhos são órgãos de um sentido á que em parte devemos o conhecimento de nós mesmos, sem os quaes não podemos contemplar perfeitamente, nem distinguir facilmente e nem julgar com razão das differentes obras da natureza. Entretanto succede sermos privados del- les totalmente ou em parte. — 8/4 - os músculos, rectos e oblíquos do olho. Ella offcrcce duas aberturas; uma anterior, occupada pela cornea transpa rente, e outra posterior, atravessada pelo nervo óptico e ar téria ophtalmica. A quarta membrana é a cAoroú/e.que fica por detrás da esclerotica, cujo tecido está empregnado de uma matéria negra pigmentosa, designada por Bichat, com o nome de fluido ehoroidiano. A quinta membrana é a re- tina, que é a continuação do nervo óptico que, entrando na esclerotica, se espande e forra ligeiramente o interior do olho. A sexta, finalmente, é o iris, espécie de diaphrag- ma, situado no interior doolho,cuja circumferencia se pren de á face interna da esclerotica, pelo ligamento ciliar, lendo no seu centro um buraco, perfeitamente redondo, chamado pupilla; a sua face anterior é de diversas cores; na face pos terior, prendem-se pequenos appendices membranosos, chamados processos ciliares. Os humores do olho são: o humor aquoso, alojado na câ mara anterior do olho, entre a cornea transparente e o iris, e na câmara posterior, entre o iris e o crystalino; o crystal- lino, espécie de lentilha diaphana, formado de camadas con- centricas, tanto mais duras, quanto mais approximadas são no centro desle corpo. O humor vitreo, que occupa mais das três quartas partes posteriores do olho : este humor é mais consistente, que o aquoso, e menos que o crystalino. Asse melha-se ao vidro derretido. Olandula lacrimal. A glândula lacrimal está de cada lado, situada em uma pequena escavação que se encontra na parte supero-anterior da orbita, e sobre o olho. Ella tem a figura ovoide e achata da, e o seu tamanho é pouco mais ou menos o de uma amêndoa, tendo o seu grande diâmetro de diante para trás. Sua côr é de um vermelho amarellado, e se compõe de mui tas glândulas unidas (conglumeradajpelo tecido cellular e se paradas por vasos sangüíneos e nervosos. Por 7 ou 8 canaes excretores mui finos, despeja esta glân dula as lagrimas, producto do seu trabalho, atrás da pal pebra superior, e dahi em differente direcção vem formar os pontos lacrimaes em numero de dous aos lados do angulo — 85 - interno das palpebras, sendo um superior e outro inferior. Estes pontos, que estão sempre abertos, são arredondados e cominunicam-se também com o sacco lacrimal que se acha collocado na goteira formada pelo osso unguis e apophyse montante do maxillar superior. Os vasos e nervos lacrimaes são fornecidos pela artéria ophlhalmica e veias do mesmo nome e palpebraes. O mais pequeno ramo do nervo ophthalmicoé o que se vae distri buir na glândula lacrimal. Das lagrimas. São as lagrimas a expressão mais viva e característica dos sentimentos da alma. Elias se manifestam nos olhos invo luntariamente, quando o coração soffre, ou são manifestadas pela violência do lormento: ellas são, como bem diz Vol- taire, a linguagem muda do padecimento. A effusão das lagrimas, diz o celebre Dr. Darwin na sua Zoonomia, causada pelo pezar, ou pela alegria, é sempre de vida a um movimento sympathico. Logo que a terminação do canal do sacco lacrimal nas ventas é affectado por sensa ções agradáveis, ou dolorosas, em conseqüência dos estimu lantes exteriores ou por sua associação com idéas agradáveis, os movimentos da glândula lacrimal obrando ao mesmo tem po com mais energia, sobrevem um fluxo de lagrimas por uma associação sensitiva. Neste caso existe umencadeamento „(}£ actos associodos: a secreção da glândula lacrimal é aug- mentada por tudo que estimula a superfície do olho, ao mes mo tempo que a abundância das lagrimas estimulando os pontos lacrimaes, augmenta a sua acção, e que o fluido assim absorvido, estimulando o sacco lacrimal em seu canal nasal, augmenta-lhe acção. Este augmento de acção é determinado em direcção contraria á cadêa da associação : 1.°, o canal nasal do sacco lacrimal é excitado a augmeníar sua acção por uma idéa despertadora; 2.u, os pontos lacrimaes, ou a outra extremidade do sacco lacrimal, sympathisam com elle, como as duas extremidades de todos os outros canaes sym- patisam entre si; 3.°, os movimentos do canal excretor da glândula lacrimal, estão associados com a acção augmentada dos pontos lacrimaes, porque obram sempre juntos. Final- TOM. ii 12 - 86 — mente, com as acções augmentadas do canal excretor desta glândula, vem-se associar os de sua extremidade, porque muitas vezes obram conjunctamente, do mesmo modo que as extremidades dos outros canaes estão associadas, e as la grimas correm em abundância. Quando o pezar faz derramar lagrimas, acredita-se que ellas adoçam-lhe o amargor e isto merece algumas indaga ções ulteriores. Quando as sensações dolorosas são fortes, ex citam a faculdade da volição, eo indivíduo continua arc- cordar-se das idéas que occasionaram as sensações dolorosas; isto quer dizer, que o homem afflicto torna-se até então in sensato ou melancólico; porém as lagrimas, sendo produzi das pela faculdade sensorial da associação, é provado que a dor e mitigada a ponto de não excitar mais o poder excessivo da volição ou alienação; são por conseqüência um signal da diminuição do estado doloroso do pezar, antes que causa deste consolo. Os moralistas (l)ephilologos, apreciando devidamente os caracteres das lagrimas, distinguem-as dizendo: « Lagrimas são gottas de humor aquoso que sahem aos pares dos olhos de quem chora. Choro é acção de chorar ou derramar lagrimas por uma causa não estranha a nós, e por uma qualidade que nos é inherente. Pranto é a effusão do sentimento que na turalmente fazemos vertendo lagrimas a impulso de urna causa estranha a nós, e que nos produz grande dor. O choro pôde ser mudo e silencioso; o Pranto é sempre acompanha do de vozes sentidas e de gritos lamentáveis, e então se cha ma pranto desfeito.» O Sr. Francisco Muniz Barreto, um dos nossos melhores poetas, sobre o túmulo de seu pae fallou d'est'arte : Assim me vae descendo Em pedaços a vida á sepultura (2). (1) Yung tinha em tanto apreço o homem que chora, que se expri me assim : K Desprezemos o orgulhoso que tem pejo de \erter lagri mas. » Juvenal disse: « A natureza, dando-nos as lagrimas, prova que nos creou sensíveis.» O celebre Pithagoras recommendava: « Poupae as lagrimas do» vossos filhos, para que possam derramal-as sobre o vosso túmulo.» (2) A linguagem dos túmulos exprime tanta philosophia, significa — 87 - O restante do tronco D'arvore, de que fui ramo bem triste, De ha muito vacillante, Lá em fim derribou a Mão do ETERNO: O mal-cicalrizado Golpe, que n'alma me fizera a parca, Da vida á minha mãe cortando o estame, Ei-lo de novo aberto Co'a perda de meu pae; vertendo a frouxo Sangue, em que se me vão prazer e alentos, Já gastos na existência amargurada. Meu pae. que era o orgulho de seus filhos- Que servio sua pátria em quanto pôde, Sem ambição de prêmios, que não teve, Porque nunca a pedil-os A grandes se humilhou, que vio pequenos; Meu pae, que tão brioso, honesto e honrado Nunca em acção ruim manchou seu nom" * Que á sombra de feliz independência, Em áurea mediania, Contente viveo sempre no seu campo, Sem cobiça ou remorso, Que as horas do socego lhe turbasse; Meu pae, meu charo pae — tão bom p'ra toclo«. De todos tão querido onde habitava— Para eu nunca mais vêl-o neste mundo Lá comsigo o levou o anjo da morte! — Assim me vae descend^ Em pedaços a vida á sepultura. •ü que fora de mim, se não tivesse Estas lagrimas doces que derramo? Meu DEOS! é o chorar um dos maiores Benefícios que deste á humanidade. Se dissolvida a angustia pelos olhos Não vasasse aos mortaes, que peito houvera, Que podesse, da dor no aperto inteiro, Abrir-se, meu SENHOR, aos teus dictames? tanto a dor vivíssima do coração, que se a não pôde ver sem ter hu- midos os olhos. A metaphora sublime com que o poeta princi pia a expor a dor de sua alma, vendo descer a vida em pedaços á sepultura, foi tão bem cabida que nos prendeo logo a attenção e nos chamou aos domínios da dor a participarmos em commum dos seus ioffrimentos. — 88 — Tom elles me conformo, porque choro Vs vezes a razão nasce do pranto; Astro é que brilha ás vezes. Só depois que de nuvens Grossa chuva de lagrimas Limpa e clarôa os horizontes d'ali.;a. O pranto q'itula estilla, Meu DEOS c meu SENHOR, minha saudade, Na escuridão da mágoa de perdel-o Foi que me deo q'eu visse Os risos de meu pae na gloria tua— Feliz quem chorar sabe os pães que perde, Em quanlo cá na terra ora por elles. Bocagc disse : Labéo da espécie humana é quem não chora, Por leões devorado cm selva escura, Aprenda a conhecer a dor que ignora. O Sr. Garrctt, fazendo chorar ao divino Camões, disse em presença de uma capclla de rosas desprendida doataúde: Correi sobre estas flores desbotadas, Lagrimas tristes minhas, orvalhae-as, Que a aridez do scpulchro as tem queimado, Ros:i d'Amor, rosa purpurea c bella, Quem entre os goivos te esfolhou da campa? O fido e inconsolavel amante de Lesbia, o desditoso cegoe insigne épico, Thomaz Antônio dos Santos e Silva, sobrei» sepultura de sua amada, em lagrimas, exclamava : Cavar-te-ha meu pranto gotta a gotta Pranto que ás caras cinzas eu consagro Até tornar-me seceo ou ver-te rota. Adeos, ó Lesbia!.. pronto não me afogue Essa resignação que tu juraste, Minha musa chrislã não se derogue. Não, eu não choro mais a gotta fria Que rebelde em meu rosto se congela H' já costume e não minha agonia. — 89 — Mechanismo da visão. A visão, ou a vista, é a sensação, que, pelo soccorro da luz, nos faz distinguir as qualidades exteriores dos corpos. A luz é o.cxcitante particular da vista, isto é, umfluido, ou principio subtil derramado no espaço pelo sol, e as es treitos fixas, ou desenvolvido dos corpos terrestes pela elec- tricidade, combustão, etc. Ella vem directa, quando chega ao olho sem obstáculo, e immediatamente do corpo lumi noso, que a produzio; é refracta quando primeiramente pas sou através de um corpo diaphano, que lhe fez perder a sua primeira direcção;e reflexa, quando retrocedeo de um pla no opaco, sobre que linha cahido (1). A luz, corre em linha recta; a sua velocidade é tal, que atravessa 72 mil léguas, por segundo; a sua reflexão faz-se sempre debaixo de um angulo igual ao da incidência : a sua refracção varia em razão da densidade, da combustibilida- de, e da figura do novo meio. Befractados por um prysma, os raios luminosos, decompoem-se em 7 cores primitivas, chamadas collectivamente espectro solar, que são : o verme lho, alaranjado, amarello, verde, azul, purpureo, e roxo. Da sua reunião forma-se obranco; da sua ausência resulta o ne gro; e das suas diversas combinações, as cores secundarias. De todos os pontos de um objecto resplandecente partem cones de luz, cuja base se apoia sobre a cornea transparente; porém, para se entender melhor a explicação do mechanismo da vista, devemos suppor três cones luminosos partindo, do •otjecto situado defronte do olho: cada um destes cones tem necessariamente três raios principaes; um central, que lhe fôrma o eixo, e dous, que lhe formam os lados. O raio cen tral do cone médio, chama-se eixo visual ou óptico; como elle cahe perpendicularmente sobre a cornea, atravessa todo o interior do olho, e chega á retina, sem ter experimentado refracção alguma. Os dous raios lateraes do mesmo cone, que têm uma direcção obliqua, são refractados e approxima- dos ao raio central, atravessando a cornea transparente, que é convexa e densa. O humor aquoso, lhes conserva esta pri meira convergência : elles franqueiam a pupilla, e passam (í) Vrdc Ilauy-Phy, c Chardcl Psychol. Phys,, art. Luz e theoria l * " r X'/' i V: « f'\\\\ft !ll": . »I H /'i » >+~&^* — 93 — mais bellos, são aquelles,ííqae parecem negros ou azues; a vivacidade,.que élo principal dos olhos, brilha mais nas cô- arregaàa#fqi* nas meio tintas de côr; os olhos negros la;s foi^d^expressão, e mais vivacidade; porém ha "doçura e/falvez, 'mais finura nos olhos azues; nos pri- res tão grande. Ao principio só podia tolerajr muito pe quena porção de luz, e todos os objectos lhe pareciam muito maiores que o natural; mas á proporção qne ia vendo os objectos que realmente - 95 — cio mais ordinário de espirito varonil, vigoroso e profundo; e o gênio, propriamente dito, associa-se quasi sempre a olhos de um amarello tirando para o pardo. Seria interessante, como excepção á esta regra, saber-se por que os olhos azues são tão raros na China enas ilhas Philippinas; por que razão não se encontram alli, senão nos Europeus ou nos creôlos, entretanto que os Chinezes são os mais brandos, os mais voluptuosos, os mais pacíficos, eos mais preguiçosos de to dos os povos da terra. As pessoas coléricas têm os olhos de differentes cores; raramente azues, e muitas vezes pardos ou esverdeados. Os olhos desta espécie, são de alguma maneira signal distinctivo de vivacidade e coragem. Temos visto bem poucas vezes olhos azues claros em pessoas coléricas, e quasi nunca nos eram grandes, percebia então serem menores os outros. Não formava idéa de cousa alguma fora das que via. Bem que soubesse que o quarto que occupava era uma parte da casa, não podia comprehender como o resto poderia parecer maior. Antes de se lhe fazer a operação, nem por isso demostrava grande esperança do contentamento que havia de receber do novo sentido que se lhe promeüia. O seu grande objecto e desejo de ver era para poder ler. Dizia que não podia gozar de maior satisfação em passear no jardim com este sentido, do que sem elle, por quanto já passeava desembaraçadamente e conhecia todos os passeios do mesmo jardim. Notava também com grande verdade que a sua ce gueira lhe dava uma grande vantagem sobre o resto da gente; vanta gem que elle com effeito conservou por muito tempo depois de cobrar a vista, a saber, o poder andar ás escuras confiada e seguramente. Porém assim que começou a gozar deste novo sentido, ficou summa- mente maravilhado e disse que cada objecto lhe patenteava nova fonte tle prazer. Passado um anno foi levado á villa de Epson, cousa de 5 lé guas de Londres, onde ha umabella e extensa perspectiva, com a qual se mostrou grandemente encantado, e chamou á paizagem que tinha presente um novo methodo de ver. Um anno depois fez-se-lhe ao ou tro olho a operação, e foi igual o suecesso de ambas as operações. Quando vio com ambos os olhos, tudo lhe parecia de dobrado tama nho do que antes quando via de um só olho, ainda que não via as eou sas dobradas, nem dava signaes alguns de que tal conclusão podesse inferir-se. A distancia só por experiência se concebe, porque quanto mais dis tante está um objecto mais pequeno nos parece. Quando por certas circumstancias não podemos formar justa idéa da distancia, e quando não podemos julgar dos objectos senão pelo angulo, ou antes pela fi gura que elles fazem nos nossos olhos, necessariamente nos enganamos sobre o seu tamanho. Todos sabem quão fácil é a quem viaja de noite tomar um arbusto que está perto por uma arvore ao longe, e também uma arvore distante julgal-a um arbusto ao pé de nós. Do mesmo mo- — 96 - melancólicos. Esta côr parece ligar-se particularmente aos fleugmaticos que ainda conservam um fundo de aclividade. Quando a beira, ou a ultima linha circular da palpebra su perior descreve um perfeito arco, é signal de bom natural e de muita delicadeza; ás >ezes também de caracter tímido, feminino ou infantil. Os olhos que não estando abertos, ou que não estando comprimidos, formam um angulo alongado, agudo e pontudo para o nariz, pertencem, por assim dizer, às pessoas ou muito judiciosas ou muito finas. O canto do olho, sendo obtuso, o semblante tem sempre alguma cousa de infantil. Quando a palpebra desenha-se quasi horizontalmente so bre o olho, e corta diametralmente a pupilla, suppomos or dinariamente homem muito fino, muito astuto e mui ve do se não distinguimos os objectos por sua formatura, e se por esta não podemos julgar de sua distancia, continuará o mesmo engano. Neste caso uma mosca,que passe pelo pé de nós com rapidez, parecerá ser um pássaro em distancia considerável, e um cavallo que esteja no meio de unia campina ao longe, sem se mover e n'uma attitude seme lhante, por exemplo, á de um carneiro, parecerá ser de tamanho de um carneiro, em quanto nos não certificarmos que é um cavallo. Se por tanto nos anoitece em um lugar estranho, onde nenhum juizo podemos formar da distancia, a cada instante estamos sujeitos a enga nos de nossa vista. Daqui nascem os contos medonhos dos espectros 011 fantasmas, e de outras visões loucas de que tanta gente falia e se ca pacita de realmente as ter visto. Ainda que semelhantes figuras só existam na imaginação, com tudo é mui provável que no escuro taes se tenham pintado aos nossos olhos: isto tanto mais provável parecerá, se considerarmos que quando não podemos julgar de um objecto se não pelo angulo que elle fôrma no olho, segundo o mesmo objecto mal! perto está delle, assim se nos vae engrandecendo; e se considerarmos também que, se o objecto parecia ao principio de alguns palmos de altura ao espectador que não pôde igualmente distinguir a cousa e jul gar em que distancia está quando dista, por exemplo, vinte passos, deve neste caso quando estiver longe delle poucos palmos, parecer lhe de uma grandeza augmentada a um ponto extraordinário Isto de noite é natural que o aterre em quanto não tocar e distinguir o fictício ob jecto gigantesco, pois no mesmo instante que elle vier no actual conhe cimento doque a cousaé, logo ella diminue em sua idéa e lhe fica pa recendo o que é na realidade. Se a pessoa/pelo contrario, teme che gar-se ao objecto e foge precipitadamente do sitio, a única idéa que ha de formar do que se lhe representou, será a de uma figura de uma grandeza enorme e de horrível aspecto. Esta preoecupação a respeito dt espectros nasce por conseguinte da natureza; e semelhantes visões não dependem só da imaginação como tem supposto alguns philoao- phos. — 97 — lhaco; com tudo, isto não é dizer que esta fôrma de olhos exclua a candura do coração; porém temo-nos muitas vezes convencido do contrario. Uns olhos grandes, onde apparece muito branco por cima da pupilla, são communs a tempera mentos fleugmaticos e aos sangüíneos. Na comparação dis- tinguem-se facilmente: uns são fracos, pisados e vagamente desenhados; outros são cheios de fogo, mui pronunciados e menos chanfrados; tém as palpebras mais iguaes, mais cer tas, porém menos curvadas. As palpebras mui afastadas, e mui chamfradas, annunciam a maior parte das vezes humor colérico; ahi também se reconhece o artista e o homem de gosto: são raras nas mulheres mui reservadas para as que se distinguem por uma força de espirito e de juizo extraor dinário. Ha em geral duas espécies de vista, uma longa, outra curta. Os que não podem ver bem os objectos senão ao pé, châmam-se myopes, ou pessoas de vista curta; e os que só ao longe podem ver bem as eousas, chamam-se présbytos, ou de vista longa. Os velhos vem de ordinário a ser présbytos, porque o crystallino de. seus olhos se chega mais á re tina, por motivo da diminuição dos humores dos olhos. Pelo contra rio, nos de vista curta está o crystallino afastado da retina. Os que tém a vista muito delicada vêem melhor ás escuras que ás claras; por isso os animaes nocturnos, como os morcegos, corujas, borboletas nocturnas,etc, se deslumbram com a claridade do dia. A primeira túnica, ou pellicula do olho (como já descrevemos),, cha ma-se sclerotica (que quer dizer dura, porque o é mais que as outras) a qual é branca, opaca, e cerca todo o olho, excepto a frente onde está o iris ou circulo da pupilla, que é coberto por uma membrana ou teagem transparente chamada cornea. Reveste o interior da sclero- ti*j outra membrana fina e molle por nome choroide. Sua côr é mais ou menos escura, como se vê no iris ou circulo da pupilla, que em uns é azulado, pardo em outros, etc..' no meio do iris ha um buraquf- nlio chamado pupilla ou menina do olho, que se aperta ao ver a luz, um como annel franzido, a que se dá o nome de annal ciliar, sustem uma lentezinha transparente que é o crystallino, adiante do qual está o humor aqueo, humor limpidissimo; por detrás do crystallino fica o hu mor vitreo, espécie de gelea transparente, que enche todo o vão pos terior do olho: no fundo deste está uma membrana a que chamam re tina, a qual cobre toda a parte opposta ao iris, e é onde se forma a vista, chamou-se retina por ter o feitio de uma redesinha, e vem a ser uma expansão ou dilatação do nervo óptico, ou nervo da visão. O iris pôde dividir-se em duas membranas, uma se chama uvea, outra ruis- clúana. Além do nervo óptico ainda ha outros ramos de nervos que vão entrar nos olhos; parece principalmente ter grande influencia na visão um ramo do grão sympathico, que, segundo Bichat, é uma serie de centros nervosos reuuidos. — 98 — Dos músculo» dos olhos. Os músculos dos olhos são o levantador da palpebra su perior, situado na parte superior da orbila desde o cume desta cavidade até acartilagem torsa da palpebra superior: serve de levantador á palpebra superior, e puxal-a paro cima epara dentro da orbila. O musctilo recto ou levantador su perior do olho, situado na orbita desde a apophysedelngras- sias até a extremidade superior do diâmetro vertical ou su perior do globo do olho. Seu uso é de levantar o olho. 0 músculo recto inferior ou abaixador do olho, situado na or bita, estendendo-se desde o corpo do sphenoide e contorno do buraco óptico até a esclerotica por sua parle interna, serve de puchar o olho para dentro. O músculo recto externo ou abduetor do olho, situado como os outros desde o corpo do sphnoide e contorno do buraco óptico até a esclerotica; serve de puchar o olho para fora. O músculo grande oblí quo ou grande rotador do olho, collocado na parle superior e interna do olho desde o corpo do sphnoide até a parte pos terior e externa do globo do olho, serve de puchar o globo do olho para denlro e para dianle, imprimindo-lhe um mo vimento de rotação. O músculo pequeno obliquo, ou peque no rotador do olho, situado na parle antero-inferiõr da or bila desde a parle anterior inlerna desta cavidade até a parle posterior e externa do globo do olho, serve de levar o globo do olho para diante e para dentro. Fhyglonomoni-i moral do olho, por Salomão. Os teus olhos olhem direito, e as tuas palpebras preceda;» os teus passos. Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue innocente, coração que machina malvadissimos projeclos, pés velozes para correr ao mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia -discórdias entre seus irmãos: o que dá de olho, causará dor, eo insensato será es timulado pelos lábios. Os olhos do Senhor em todo o lugar contemplam aos bons e máos. A luz dos olhos alegra a alma; a boa reputação engorda os ossos. Os olhos do Senhor gnar- {?tu^A o^yZ*^ ^Y *A> s^^ Sy\ £*-&** 'Z-at-r 'A* y~&+ y<~^Z^ 4- '**<»* gfr,. C *. ^*3^*>< _*.. / rt*-La "Ç^OL^^Z? - 99 - dam a «ciência; mas as palavras do iníquo são postas por terra (1). Observações de f,»vatcr. Os olhos pequenos, baços, mal desenhados, olhar sempre de esguelha, lês plúmbea, cabellos negros, curtos e chatos, nariz arrebitado, o lábio inferior mui levantado e mui sa liente, e com uma fronte espirituosa e bem feita, formam uma reunião de traços que só se encontrará n'uni arcbiso- phista máo, trapasseiro, velhaco, fraudulento» desconfiado, sordidamente interesseiro, intrigante vil, finalmente, n'um homem abominável. Observações de Herder. Os olhos, a não julgar mesmo senão pelo tacto, são por sua fôrma as portas da alma; glóbulos diaphanos, fontes de luz e de vida. O simples tacto descobre que sua fôrma arre dondada artisticamente, sua abertura e sua grandeza, não são objectos indifferentes. Não é menos essencial observar se os ossos da região dos olhos avançam muito, ou se se perdem imperceptivelmente; se as fontes ou têmporas se afundam, formando cavernas, ou se apresentam uma superfície unida. Em geral, a região onde se ajuntain as relações mutuas entre as sobrancelhas, fcí olhos e o nariz, é a sede da expressão da alma em nosso semblante, isto é, a expressão da vontade e da vida activa. Physionomouia de uns olhos, jielo Sr. V. da S. Pereira. Que olhos tão lindos, tão meigos, tão puros, Tão vivos, tão tçrnos, tão cheios de amor, Tão castos, tão bellos, risonhos affaveis, Que acordam a lyra do humilde canlor. (1) Cap. li-', V. 25. Cap. 6.°, V. 17,18. 19. Cap. 10, V. 10. Cap. .15, V. 3,* e 30. Cap, 22, V. 12. — 100 — São ostros brilhantes em fronte mimosa, D'affecios mortaes divina pintura, São laços que enleain, que levam minb'alma Após esse Deos d'extrema ternura; li' a Phenis altiva d'aspeclo genlil São espelhos luzentes da sabia natura, De arcanos do peito são mudos arautos Que adoçam-me a vida de p'renne trislura, Não têm de esmeralda a côr peregrina, D'um céo de saphyras o brando sorrir, Também não são pardos, têm côr mais jucunda: São negros! são astros no céo a luzir. Seu brilho me encanta, me prende, me mata, Meu peito electrisa, me faz delirar; N'um mar de venturas me sinto arrojado... SQ posso anhelante -- gemer, suspirar!- ObseivatfdsVAil4sot»Hi(t«* #o qpnjdeOp^iat/hritj aecrea da vista. E' a vista a alampada do corpo e a guarda que a natureza poz de propósito ao lado do juizo, para que com sua vigilân cia e cuidado podesse o homem arredar os perigos que o cercam, e depois os afugentasse pela prudência. É'todavia o primeiro dos sentidos que se rebella contra a razão; é a mãi das nossas paixões desordenadas. Foi ella a que primeiro acommetteo a bem aventurança deEva noParaiso Terre* tre, e que ainda hoje cega a razão de muitos mortaes. Os olhos enganam aleivosamenle o coração; são a origem de nossos máos desejos; faliam sem terem lingua, e expli cam-se com facilidade ainda que sejam mudos. Os antigos imaginaram o amor cego, que comfudo se divisa nos olhos; edahi é que principia a atacar-nos. Post vísum, risum; post risum venit ad aclum; Post taclum, factum; post factum penitet actum. Se David não olhara Bethzabé, a mulher de Putifar o pru dente José, os dous velhos a casta Suzana, Herodes sua cu nhada, e oiitros muitos que pela vista caíram em culpar, não teriam experimentado o castigo do céo. SSo somente os olhos as fontes do coração, e as lagrim» ^jM^â^u t^y-? v -Ul*^ C**+w ay^MY *" é^^a^^^jJ^Ô^' 1^ jéusv+~r ^^A^u^^t *t***.*^&r * ^l^L^aa^y ^sfi**^ &L y/~/y^£*~*4, e^ -,;*?**=. y$r~ ^i^>^^^yxy^ _Ja. mAxifeÀ/Vl %***V* \JN^ >x^*£* -*•« ^»*^rü ^- **^ ***^ 4 ei^ . \v e^u^*^»^ y** >/^t-#-»3 yy**+ *^K^^^y^^'a*>í^< y^ y\ ^-^ /^^^ ^yyi/í^^y^J7yfy^ ^€y^^u **í/?>t "^wi^^^^ /i^^^y^?>y> u> A *£JA^ *^\^ I^Ul-7 » * • • __ — 101 suaTtestemunhas; quando estas procedem da amizade, pa recem pérolas; mas quando a raiva é quem as causa, pare cem gottas venenosas. Da audição. O sentido nobre, profundo e occulto do ouvido, foi col locado pela natureza aos lados da cabeça, onde está meio oc culto. O homem deve ouvir por si mesmo: a delicadeza, a finura e profundeza, formam o adorno da orelha, e é neste órgão que se executa a importante fnncção da harmonia. E' a audição a sensação pela qual adquirimos o conheci mento das qualidades sonoras dos corpos. Divide-se em três partes o seu apparelho, que são: a ore//ia externa; a parte media ou cavidade do tympano; a parte interna (chamada orelha interna) ou Inbyrintho. A orelha externa comprehende a orelha, propriamente dita, e o conducto auricular externo. A orelha é a espécie de concha ou pavilhão que se observa aos lados da cabeça, composta de eminências e cavidades que mostram na sua face externa, principiando da parte posterior para a anterior, e da superior para a inferior, que são o he- lix ou rebordo, e sua cavidade; o anthelix, a fossa navicu- Mar, o trago, o antitrago, a concha e o lobulo, que inferior mente termina a orelha. A orelha lambem tendo seus movi* mentos, a natureza lhe forneceo órgãos para este fim, que são, os três músculos auriculares de que já fizemos menção. Os anatômicos têm descripto outros a que chamam entrin- secos, os quaes são tão pequeninos, que não vale o momento dco&mencionar. M %fta%bnducto auricular princjpia no fundo da concha, di rige-se obliquamente da parte posterior para a anterior, e da externa para a interna, terminando na membrana do tympano que o tapa. Elle é em parte ósseo, eem parte fibro- cartilaginoso. A pelle que o forra está empregnada de folli culos que servem para segregar um humor seruminoso que serve não só para lubrificar estas partes, como também ivim- pedir que nesta importante cavidade entrem impunemente corpos estranhos a embaraçar-lhe o trabalho. A caixa do tympano è nma cavidade hemispherica, ca- TOM. II. \k — 102 — vadana face externa do rochedo do osso temporal, e separa da do conducto auricular pela membrana do tympano. As suas paredes, quasi totalmente ósseas, são atravessadas por muitos buracos, dos quaes os mais consideráveis são po>le- riormente o orificu^as cellulas mastoidéas, anteriormente o orifício da ítÉAle Euslackio; externamenle, ascisun glenoidea; interaarronte o buraco ou janella oval, e aja- nella redonda. Estas duas ultimas no estado ordinário estío tapadas pela membrana fibro-mucosa que se desdobra na ca vidade do tympano. A caixa do tympano contém os quatro ossicultís do ouvido articulados entre si, que são: o marletlo, a bigorna., o estribo e o orbicular. Estes ossos são movidos por três músculos mui pequenos, sendo dous para o maiielH e um para o estribo. O labyrintho compOe-se de ires cavi dades, que se acham na espessura do rochedo, posterior mente os canaes semicirculares, no meio o vestibvlo, e an teriormente o caracol. Estas três cavidades communicatn-se entre si, e estão cheias de um fluido particular denominudo limpha ou humor de Cotumni, bem como os demais canaese aqueduetos. O nervo acústico, partindo do cérebro^ entra no laby rintho com o nervo facial, pelas aberturas que se acham no fundo do conducto auditivo interno, onde se distribuo por filetes polposos que estão banhados pelo humor Cotumni. 0J vasos .sangüíneos que se distribuem nas três partes da ore lha, são deduzidos das artérias e veias que partem da tempo ral e carótida. Jtleehanismo da audição. • A audição para se effectuar tem necessidade de sértfçflüf da pelo som, e este não é outra cousa senão o resultado das vibrações das moléculas dos corpos que suecessivãmente che gam á orelha, oude produzem a impressão auditiva. Aper- cussãoe fricção súbita dos corpos sonoros, são as causas pro- duetoras do som. Os sons differem entre si pela força, pelo tom e pelo timbre. Pela força, a differença nasce da extensío das vibrações; pelo tom, nasce a differença pelo numero era um tempo determinado, e pelo timbre, nasce a differença da natureza do corpo que os produzio. O som propaga-se em — 103 — linha recta,ecom tal velocidade, que corre pela atmospheru 173_loe*aspor segundo. O ar é o seu vehiculo ordinário; pfJwm os corpos sólidos e líquidos também podem servir á sua transmissão. Quando o som encontra no seu progresso alguma superfície solida, é reflectido debaixo de um angulo igual ao da incidência, produz o que se chama echo. Os raios sonoros, que cahem sobre a orelha, ajuntam-se na concha onde passam para o conducto auditivo, que lhe con serva o gráo de intensidade já adquirido pela sua reunião. Concentrados neste conducto, os raios sonoros propagam-se até á membrana do tympano que a fazem vibrar. Ella se es tende ou se afrouxa conforme a gravidade do som. A vibra ção da membrana do tympano agita os ossinhos do ouvido, e o ar contido na caixa e cellulas mastoidéas; este abalo com- mnnica-se ás paredes ósseas da caixa do tympano, e ás pe quenas membranas que fecham a janeíla redonda e oval, e é immediatamente transmitlido peto humor de Cotumni, que delle participa aos filetes do nervo acústico, onde final mente produz a impressão auditiva. Helação da impressão auditiva eom a lnfelllgencia. Os antigos e os modernos physiologistas chamam o sen tido do ouvido, propriamente fallando, o sentido daintelli- gencia, pelas noções que elle nos dá das qualidades ou co- n&Gieimentos moraes dos objectos com quem nos pomos em relação. De accordo com o órgão vocal, a cuja educação pre side, estabelece entre os homens um commercio de pensa mentos que engrandece o seu ser moral, multiplicando-lhe os recursos da intelligencia (1). (1) O som tem, assim como a luz, a propriedade de se diffundir ex tensamente, e também admitte reflexão como a luz, ainda que as leis da reflexão do som são menos distinetamente conhecidas que as da reflexão da luz. Tudo o que sabemos é, que o som é princi palmente reflectido pelos corpos duros, e que o serem ocos tam bém muitas vezes augmenta a reverberação. A cavidade interna da orelha, que está formada n$exterior do osso das fontes, como uma ca verna em um rochedo, parece ser adaptada ao fim de repercutir o som com a maiorexactidão. — 104 — Pensamentos de Salomão, sobre a Importância «Io ouvido. O ouvido, que ouve as repreheusões de vida, terá a sua morada no meio dos sábios. Aquelle que regeita a discipli na, despreza a sua alma; mas o que está pelas reprehensCes é possuidor do seu coração. Ouve o conselho e recebe a cor- recção, para que sejas sábio no fim da tua vida. O ouvido que ouve, e o olho que vê, ambas estas eousas fez o Senhor: Uma das queixas mais communs da velhice é a surdez, a qual pro cede provavelmente da rijeza dos nervos no labiryntho da*orelha. Esta desordem procede também ás vezes da detenção da cera, o que à arte pôde facilmente remediar. Para saber se o defeito é interno ou exter no, ponha o surdo na bocea um relógio de repetição, se o ouvir dar horas, pôde estar certo que o mal nasce de causa exterior. Muitas vezes acontece ouvirem algumas pessoas mais de um ouvido que do outro; porém essas têm, como os músicos dizem, má orelha. Tem-se feito nestas pessoas algumas experiências, e tem-se achado quê o não julgarem bem dos sons nasce da desigualdade de suas orelhas, e de receberem por ambas ao mesmo tempo sensações desiguaes. Tara pessoas, assim como. ouvem de falso, também, sem o conhecerem, cantam de falso e do mesmo modo se enganam freqüentemente a res peito do lugar donde vem o som, suppondo-o geralmente vir do lado da orelha melhor. O ouvido é para o homem um sentido mais necessário que aos ani maes. Nestes é só uma advertência contra o perigo, ou um incentivo para mutuo soecorro; porém no homem é a fonte da maior parte dos seus prazeres, e sem este sentido seriam todos os outros de pequeno beneficio. Um homem surdo de nascença deve ser necessariamente mu do, e toda a esphera de seu saber se limita cm os objectos sensuaes.y» um exemplo singular de um moço, que, tendo nascido surdo, foi casual mente restituido, na idade de 13 á íli annos, a ouvir perfeitamente, do qual fallaremos, mencionando primeiro de passagem a experiência notá vel de um portuguez por nome J acob Rodrigues Pereira, feita em Parto no anno de 1746, o qual em menos de 3 annos deo o uso da palavra i Mr. üAzéd^tavigny, surdo de nascença, e que tinha 13annosquando foi posto nas mãos deste hábil mestre. (Este Portuguez vlveo multo tempo em Bordeaux, e morreo em Paris em Í780, tendo de idade 65 annos, onde foi chamado para alli praticar a arte de fazer fallar oi mudos, em que era habillissimo : o mesmo celebre abbade de ÍEpU se aproveitou dç grande parte do methodo deste Portuguez. LuizXV he fez mercê, em 1760, de um lugar de interprete com uma pensio de 800 libras, em attenção, diz a provisão, da arte que adquirwit poder dar aos surdos e mudos de nascença uma educação de que iliu dantes estavam privados, como incapazes de se aproveitarem dit». Pereira tinha levado alguns de seus discípulos ao ponto de compr»- henderem o sentido da» palavras pelo movimento dos beiço*. Buffm, — 105 - ouve, filho meu, e sê sábio, e dirige a tua alma pelo cami nho direito. Não falles ao ouvido dos insensatos, por que elles desprezarão a doutrina das tuas palavras. Ouve a teu pae que te gerou; não desprezes a tua mãe quando for velha (1). Reflexões de Lavater sobre a orelha. No que pertence ao estudo physionomico da orelha, acon selha Lavater que se preste attenção: primeiro, á totalidade contando o caso acima mencionado, elogia o seu talento na sua Historia , Natural. Condamine,protector de Pereira, foi quem o levou á corte e o apresentou a diversos príncipes. Quantos homens grandes Portugue- zcs tem deixado no esquecimento a incúria de seus compatriotas! O outro exemplo vem transciipto nas Memórias da Academia das Scien- cias de Paris no anno de 170.S, pag. 18, do modo seguinte: — Mr. Felibien, da Academia das Inscripções e Bellas Lettras,fez sa ber á Academia das Sciencias um acontecimento singular, talvez nun ca ouvido, que acabava de sueceder em Chartres. Um moço de 23 para 2/i annos, filho de um artista, surdo e mudo de nascença, começou de repente a fatiar com grande admiração de toda a villa: delle se soube que alguns quatro mezes antes tinha ouvido o som dos sinos, e tinha ficado summamenle admirado desta sensação nova e desconhecida; que depois lhe tinha sabido da orelha esquerda uma espécie de água, e que tinha ouvido perfeitamente de ambas as orelhas: que durante os U me zes esteve ouvindo sem dizer nada, acostumande-se a repetir comsige as palavras que ouvia, e firmando-se na pronunciação e nas idéas liga das ás palavras; que por fim se julgou em estado de romper o silencia c declarou que fallava, posto que ainda fosse imperfeitamente. Pouco» depois foi interrogado por alguns Theologos hábeis sobre o seu estado passado, e versaram as principaes perguntas sobre DEOS, sobre a alma, stbre a bondade ou maldade moral das acções: mostrou que seus pen samentos não se tinham extendido a tanto. Ainda que nascido de pães catholicos, que assistia á Missa, que estava instruído em se benzer e ajoelhar em ar de quem reza, nunca havia a isto ajuntado intenção al- gumaj nem comprehendido a que os outros lhe ajuntavam. Não sabia bem que cousa era a morte e nunca em tal pensara; passava uma vida puramente animal: oecupado todo com os objectos sensíveis e presen tes, e com as poucas idéas que recebia pelos olhos, não tirava sequer da comparação destas idéas tudo o que parece poderia tirar; não que elle não tivesse naturalmente entendimento; mas o entendimento de um homem privado do commercio dos outros é tão pouco exercitado, e tão pouco cultivado, que não pensa senão á proporção de quanto a isso é indispensavelmente obrigado pelos objectos exteriores.» Eis-aqui uma exuberante prova de quanto os sentidos têm relação uns com ou tros. (1) Cap. 15, V. 31 e 32. Cap. 19, V. 20. Cap. 20, V. 12. Cap. 23, V. 19 e 22. — 106 — de sua fôrma e de sua grandeza; segundo, a seus contornos interiores e exteriores, ás suas cavidades e á sua profrrrfdidB-- de; terceiro, ô sua posição. E' mister \er-se se cila é pegadn á cabeça, ou se é destacada delia. Kvn mine-se esta parte em um homem corajoso c em um polirão; n'um pbilosopho c n'iim imbecil de nascimento, o pcrccbcr-sc-ha então asdif- ferençtis dislinctas que se referem a cadn caracter. Pensamentos mnracst de diversos pliiloso.iho* sobre os ouvidos. A natureza, dizia Zenon, deo-nos dous ouvidos e uma bocea, a fim de nos ensinar que é preciso escutar mais, do que faltar. E' preciso, dizia P. Syrus, ter o ouvido duro para o mal, porque como bem pensa Sakespeare, o suecesso de uma boa palavra depende mais do ouvido que a ouvio, do que da língua que a proferio. Mme de Puisseau, recommenda ouvir-se com dousouvi- dos c ver com ambos os olhos, sempre que se trata de deci dir da reputação alheia. Juizo do Dr. Antônio Ferreira. Para o publico bem, tão bem estudam, li cantam os bons poetas, deleitando Ensinam, e aos máos afeitos cm bons mudam, E ás vez :s aos reis vão declarando Mil segredos que então só vêem e sabem, Mil rostos falsos, línguas más mostrando. Em poucas boceas a verdade cabe: Terão ás vezes a culpa os ouvidos: Os versos ousam c cm toda a parle cabem. (P. Lus. L. 2, Cart. 2.) Da musica. O illustre medico, o Dr. Hanin,em seu curso de Matéria Medica, fallando dos agentes therapeuticos, menciona a mu sica como um poderoso excitante nervoso, e mais que no- — 107 — nhum outro adequado ás circumstancias. Exprimindo as propriedades dos sons que são capazes de produzir harmonia e mover os affectos da alma, a musica (diz o illustre profes sor) é uma arte encantadora, que modifica a seu bel prazer os caracteres e as paixões, enfraquece-os, faz verter lagri mas ou torna inflexível, embelleza e ennobrece os pensamen tos, e finalmente causa os mais deliciosos gozos. Os antigos encaravam a musica como uma parte essencial de educação; os Hornanos, e sobre tudo os Gregos, davam a esta arte as maiores prerogativas (1). Companheira da poesia, a musica é muitas vezes delia o interprete : ella conduz à sensibilidade e imita os sons, dispOe o coração a essa doce melancolia, a esses prazeres da solidão que os bosques, as fontes, os reba nhos e os valles inspiram na volta da primavera quando apre senta aos olhos toda a frescura de uma paizagem. Esta van tagem que resulta das duas artes unidas, foi bem compre- hendida pelos antigos cuja poesia era sempre cantada, e os poemas não eram recitados senão do mesmo modo. O fim de toda a musica natural é de renovar na alma cer tas affeições e dispol-a a recebel-as (2). A musica é nada sem imagens e sem interpretações: é as sim que o gorgeio dos pássaros, o murmúrio dos regatos, o ruido dos ventos nas florestas, o ribombardo trovão e da tempestade, o som dos sinos, os prolongados accordes de uma flauta campestre nos despertam ás vezes sentimentos (1) « O' lyra de Apollo (exclama Pindaro em uma de suas Olympi- #cas), és tu que dás o signal de alegria; és tu que presides ao con- « certo das Musas; logo que teus sons se fazem ouvir, o raio se apaga «ca águia adormece sob o sceptro de Júpiter; suas azas rápidas se « abaixam de ambos os lados enfraquecidas pelo somno; um vapor « sombrio espalha-se pelo curvo bico da raialia das aves e sobrecarre- « ga-lhe as palpebras; sua plumagem se intumece pelo doce estreme- « cimento que nella excitam sua harmonia: Marte, o implacável Marte, « deixa cahir a lança e entrega o coração á voluptuosidade; mas não « podem soffrer tuas divinas cantigas aquelles que Júpiter aborrece.» Plutarco, Thucidedes, Herodato, Quinto Curcio, Ovidio, Horacio, Cí cero, Virgílio e outros também fa-em elogios á musica. (2) O fundamento de toda a musica verdadeira é a voz humana; ella é o mais perfeito dos instrumentos músicos; os que delia mais se approximam são os mró harmoniosos e agradáveis. A voz do homem, quando bem cheia, bem movei e bem melodiosa, e a voz da mulher modelada pela sensibilidade, tem incomparavelmente tudo quanto a natureza c arte pedem de mais agradável e tocante. — 108 — esquecidos, communicando á nossa alma uma doce voluptuo- sidade, conduzindo-nos ao tempo de nossa infancio, onde tudo era sensação e prazer, quando nossa innocencia per- mittia-nos de entregarmo-nos a elles sem remorsos. A musica dissipa nossos temores, auginenta nossa cora gem (1), suspende nossos soffrimentos, faz-nos supportar os (1) A musica guerreira augmenta a coragem do soldado, tira-lhe a idéa do perigo deixando-lhe a da gloria. Uma tocata marcial e cantada no meio dos destroços da guerra, accende na alma dos soldados intré pida coragem e muda as queixas dos feridos em gritos de alegria. Cyro ordenou, para animar a seus soldados aterrados com a vozerla dos inimigos, que se cantasse o hymno de Castor e Polloux. O nosso harmonioso e gentil poeta o Sr. Costa e Silva (fallecldo em. Abril de 1854), sobre os encantos da harmonia, também se exprime assim: Branda musica, és tu, que vens no mundo Alardear universal domínio! Quem ha abi que resista aos teus feitiços! O racional e irracional se alegram Com teus suaves sons, que a dor acalmam, E a fadiga adormentam! Nos ardentes, Enfadonhos areaes do Ismaelita, Cançado Dormedario apenas ouve Do conduclor o canto, ou rude avena, Novas forças recobra e mais ligeiro Na escaldada viella os passos move! Cantando o navegante esquece as fúrias Do encapellado, tumido Oceano! Ao som de hymnos guerreiros marcha afouto O soldado a encarar no campo a morte; Ao som de psalmos lugubres á campa O cadáver descendo, e em torno delia Os Manes delle co'a harmonia exultam, Recreara, se os imitam teus encantos, Ais de pezar, suspiros de ternura, £ da melancolia as meigas vozes! Quanto encerra no seio a Natureza Mais terno, mai£ pathetico, resumbra Meiga, suave, harmônica tristeza! Suspira a viração, o arroio geme, Echo piedoso ihe responde e chora Em seus gorgeios Rouxinol saudoso! Amo, ó Lientard, a musica na scena Porém amo ainda mais, mais me commove Entre os quadros da mesta Natureza. Pelo silencio da intempesta noite, m Da muda solidão- por entre as sombras! Melodioso canto que retumba Pelos ramos dos robles do deserto, — 109 — males da vida, faz-nos derramar lagrimas e achar ventura nisto, e finalmente é que dissipa as inquietações do viajante perdido no meio da floresta; que consola o prisioneiro sob seus ferros; que lembra a pátria ao infeliz exilado e o trans porta pela imaginação ao seu paiz, ao seio de sua família, aos braços da esposa amada; é ella que ennobrece o pensa- Opacos campos, torreões mouriscos, Gothicos templos, fúnebres arcadas, Faz que o espirito prove embevecido Grata, religiosa, indefinivel Sensação, que em suave devaneio, Mystico meditar o emmerge inteiro. Quanto podem os músicos primores No bravio selvagem, vós moslrastes, Piedosos Missionários que outro tempo Amansastes as Tabas vagabundas Do rápido Uruguay na esquerda margem! Lá vetustas florestas se levantam Sobre outras que a velhice consumira; Distendem-se Paúes e longos plainos Que na hiberna estação se alagam todos E obrigam os grosseiros habitantes A usurparem dos pássaros os ninhos Mezes vivendo nos arbóreos crutos, Vagando entre elles nas subtis canoas. Sobem ao céo montanhas escarpadas, Desertos a desertos sobrepondo. Rugem onças alli, sibilam cobras,,- Estridulos, ennumeros enxames De engenhosas Tapuicas colmeando Nos carcomidos troncos lá preparam Odorifero mel e a branda cera. Por estas solidões entra sem susto Ardendo o Missionário em santo zelo De Evangélica Luz levar aos povos, Que sentados estão da morte á sombra. Como ousado Librcu de mouta em mouta Vae farejando a timorata Corsa, Arteira rulpe ou montesino cerdo, Estes de Christo intrépidos guerreiros Sem mais armas que a Cruz na dextra erguida E o lithurgico livro, alagadiças Taperas passam, atravessam matos, Kegistam alcantis e horridas grutas K abençoam o céo por taes fadigas Quando um índio somente a voz lhe escuta! Quantas vezes o Apóstolo depara De algum rio sem nome sobre as marge.is TOM. II. *£ — 110 — mento e engrandece e sustenta o gênio e preside ás luai di vinas creaçôes; não ba um só ente, a quem ella não liaon- geie e seduza; que não o arraste, e que não haja sentido al gum bem por sua deliciosa influencia (1). A musicaé um desses grandes motores d'alma e das paixões, e não se pôde negar sua influencia sobre o homem doente. Ou de ignota collina sobre o cume Do companheiro o livido cadáver Victima do cansaço e crua fome, Ou varado de settas! eil-o enxota Famintos urubus que o devoravam, Abre co'as próprias mãos mesquinha cova Nella depõe as míseras relíquias, E dos mortos o officio solitário Na presença do ETEKNO entoa ao martyr! Sabe que sorte igual o espera em breve, E supplíca ao SENHOR lhe apresse a hora. Tanto a Religião eleva os homens Acima das paixões da humanidade! Já escassos neophylas o seguem E a charidade industrias innocentes Suggere ao Missionário! eil-o cortando Em pequena canoa vae com elles Do coroado rio á azul espalda. Soam em riba, e riba ao som da Lyra Com voz sonora cânticos devotos. Assim o caçador em nossos bosques Esconde na gaiola em verdes ramos As domesticas aves, cujos cantos Chamam as da floresta ao visgo, ás redes, Attrahidos da insólita harmonia. Dos montes, das cavernas correm Índios Para os novos arions de perto ouvirem! Homens, mulheres, velhos e meninos Pelas orlas do rio o vão seguindo! Quantos fora de si n'agua se arrojam E o canoro batei a nado buscam! As virtudes sociaes antigostando Larga o arco o selvagem, larga as settas, Vê a esposa chorar, chorar os filhos, Eil-os aos pés da Cruz a frente inclinam E o salutar lavacro alfim recebem. Assim christã republica se funda Nos campos do Uruguay; de Europa as aríei, As virtudes de Europa alli florescem, O trabalho é commum, communs os fructos E á musica se deve um tal prodígio! (1) Os antigo*, para consolar suas esposas em sua ausência,recorr*- - 111 — Zamolxis, philosopho e medico da antigüidade, dizia : «que era mister não esquecera alma, quando se curava « o corpo; que se devia conduzil-a á serenidade pela musica « e pelas distracções.» A musica é evidentemente um excitante; uma musica viva e ardente, augmenta sensivelmente a actividade da circula ção, e se está iutermittente, torna-se regular; a pelle cora-se e a imaginação se anima. Heller (o professor) foi o primeiro que notou que o sangue sahe mais depressa das veias quan do o tambor rufa. Uma musica alegre tem muitas vezes pro vocado a menstruação : sem duvida era com o intuito de fa vorecer a digestão, que os antigos associavam a musica a seus banquetes: nossos maiores substituíram este uso pelos cantos, que eutretinham a alegria dos convivas e facilitava- lhes a digestão; porém este uso, fundado sobre o bem estar e a conservação do homem, está quasi geralmente despreza do, porque tudo geralmente envelhece, tudo se gasto, até as melhores eousas. A musica proporciona aos doentes um somno mais tian- quillo e mais prolongado; concorre para a cura das moles* tias; abrevia a convalecença e estende a vida; Aretro e Haller attribuiram á musica a longevidade de muitos homens celebres que passavam sua vida nos prazeres que ella proporciona, visto que ella conduz a alma á doçura e á beneficência, a eleva acima de si mesma até o heroísmo. Os antigos legisladores, reconhecendo esta maravilhosa influencia, deram á musica os maiores estimulòs. PoZt/oío attribuio á sua influencia a doçura dos Arcadeos, e a cruel dade dos Cynithianos seus visinhos ao desprezo que dellafa- ziam. Quintiliano (o rhetorico) prodigalisa á musica os maiores ram á musica á conservar assim a sua castidade. Clytmestra não foi adultera em quanto Demodochus lhe inspirou por uma harmonia grave e séria a fidelidade, que devia guardar a Agamenon. O prudente Ulys- ses confiou Penolope aos cuidados do cantor Phemius. Sabe-se o effeito que produz nos Suissos a ária tão original chamada Ramides-vaches: quando elles a ouvem longe de seus lares não podem reter as lagrimas. A Tyroleana é uma ária deste gênero, canto nacio nal por excellencia que produz nos montanhezes o maior enthusiasmo e até os leva á revolta. Cada nação tem a sua canção patriótica para excitar o enthusiasmo no povo. — 112 - louvores: chama-a aguilhão do valor, instrumento da ordem moral e intellectual, distracção e sustentaculo dos trabalhos. Montesquieu dá-lhe a preferencia sobre todos os prazeres, como a que monos enerva a alma e o corpo. Não se tem po dido explicar de um modo satisfatório os effeitos extraordi nários da musica sobre os nossos órgãos; não se sabe donde nos vem o prazer da harmonia, quando os mesmos sons mo dificados parecem elevar a alma como por uma espécie de encanto aos mais poderosos interesses da vida, e a penetram dessas idéas tocantes que ora a quebram voluptuosamentee adormecem, ora a estimulam e abalam á sua sensibilidade, até provocar lagrimas, soluços e todos os symptomas da exal tação. E' aos nervos que se devem attribuir todos estes pheno- menos, e a historia das funcções nervosas, em physiologia, ó a que está mais atrazada, embora se tenha escripto mui to. A vantagem que se tira da musica no a trtamentodas moléstias é: 1.". divertir os enfermos, afastando-os do abor recimento, da inquietação e da tristeza; 2.", activaras func ções orgânicas, principalmente as funcçòes nervosas e circu latórias: õ.m adoçar e suspender ao mesmo tempo as dores agudas e inspirar coragem para supportal-as; 4.°, accalmar a agitação e o delírio. Os modos da nossa musica obram bem differentemente sobre os sentidos : os tons médios, cheios e sonoros, fazem nascer paixões fortes e enérgicas, como a piedade, a cora gem, o amor e a ternura; os tons menores a piedade, a tris teza e a commiseração. Estes modos hão substituído os dos antigos (1). Sabe-se que elles inspiram paixões differentes; o phnygiano, coragem e furor; o lydiano, tristeza, queixas e saudades; o eólico, amor; o dorico, cantos graves e religiosos. (1) Um jornalista antigo, hislorigraphando a musica e rcmontandc-te ao seu berço, diz que os Israelitas a praticaram para proclamar os lou vores do Creador, e dar prazer e consolação em preceitos moraes: con- seguin temente seus cânticos deviam ser graves, sólidos e patheticos. Os Hebreos, segundo a Escriptura, já faziam uso da musica instrumen tal, que causava effeitossobrenaturaes pelos seus instrumentosde corda e de vento. Sabe-se que no tempo de David esta arte floresceu muiti*- simo, e que mais de 200 músicos eram nomeados para cantar no Tem plo e instruir a muitos discípulos. O canto dos Hebreos era ordinaria mente acompanhado com dansa e coro de cantores. Os Egypcios, n- — 113 — A musica obra differentemente nos indivíduos conforme os temperamentos. O sangüíneo, disposto a paixões expansi vas, será vivamente affectado pela musica alegre e ardente; o nervoso, pela delicadeza e pureza dos sons; o melancólico, pelos sons tristese queixosos; olymphatico, só receberá da musica fraca e passageira impressão; o bilioso, só será sen sível a musica que elle souber com antecedência que estará de accordo com suas paixões. Note-se que as mulheres sen tem mais que os homens os effeitos da musica; bem que pela fraqueza de sua constituição raramente primam n'uma arte que reclama muita força de espirito e de gênio. Os moços são mais sensíveis que os velhos; os povos dos climas quen tes são mais que os dos climas frios. A musica pode ser nociva em diversas circumstancias : um prazer cujo encanto vae sempre em augmento, pôde tor nar-se em uma paixão dominante e perigosa que exalta a sensibilidade e a imaginação, além do que convém ao livre exercício da* vida orgânica e intellectual. As pessoas natu ralmente melancólicas, as que tem soffrido longas desgra- guindo o exemplo dos Israelitas, consagraram a musica á religião, e como esta arte nunca havia sido empregada em profanidades, rejei taram as canções afeminadas, que somente inspiravam falso prazer, conservaram os hymnos harmoniosos e próprios para excitar os cora ções e os espíritos. Foi no Egypto que Pilhagoras adquirio gosto e co nhecimento de musica para o communicar aos Gregos. Foi elle que achou novos tons e graduações harmoniosas pelas differentes pancadas do martello na bigorna, quando Tubal havia descoberto pelo ouvido os rudes sons que agradavam aos nossos primeiros pães antes do dilúvio. A musica naquellas idades tinha um caracter masculino e guerreiro; era designada para inspirar a virtude e celebrar os heróes: Pericles no seu tempo fez edificar o Odeon e instituir os divertimentos, os comba tes e os concertos musicaes nas festividades Athenienses, onde os prê mios e signaes de honra eram dados áquelles que excediam em mérito, o que causava grande emulação entre os espíritos naturalmente zelosos e ambiciosos de gloria. O poder que a harmonia instrumental ou vocal tem sobre nós, é um figurativo daquella que abrange e contém toda a natureza, cujo poder sentem os elementos, as creaturas e ainda todos os seres inanimados. Sem a harmonia estabelecida pelo Creador, os astros e os planetas não guardariam suas gradações: o ar,a terra, a água,o fogo, etc, não con servariam sua ordem natural. A harmonia da musica, quando é composta por pessoa de imaginação profunda e polida, deve representar alegria, tristeza, magestade, ve neração, actividadc, ou qualquer outro affecto a que nossos sentidos — 1H — ças, experimentam as mais dolorosas impressões com a mu sica. Conta-se que um mancebo teve um accesso de mania fu riosa depois de ter ouvido uma marcha militar. Uma musica terna e muito apaixonada,-tem causado muitas vezes acci- dentes funestos, no tempo da puberdade, nas mulheres dota das de muita sensibilidade e a quem se contrariam as incli nações. E' mister, além disto, em todas as circunstancias, ter muito império sobre si para não prestar á musica senão limitada attcnção, e não fazer desta arte apaixonada mais que uma distracção necessária. A musica, empregada como meio tlierapeutico, não pôde curar só as moléstias, porém em muitas circumstancias pôde servir-lhe de um grande auxiliar. Muitos factos concernen tes ao curativo das febres intermittenles rebeldes têm-se colhido, só pelo effeito da musica: não é inútil observar que é quasi sempre nos amantes ou nos artistas que seme lhantes curas têm sido operadas. A musica tem servido ás vezes de dissipar o terror que faz nascer a apparição> de uma estão sujeitos quando são excitados pela vista ou pelos ouvidos. A composição da musica alegre é como o dia sereno e bello que nos ex cita prazer, e não precisamos de palavras para sentir ese etfeito: as sim também a composição da musica triste, bem como o dia nublo», nos conduz á melancolia, e assim as mais sortes de composições, con forme o que ellas representam. A harmonia da musica tem poder ainda míis activo do que a pintura; porque esta em si (: muda e estática, e não é capaz de infundir espirito, nem extasiar aos seus admiradores como aquella aos seus ouvintes. A musica pela união dos instrumentav graves e agudos, e pela união de sons accordes, descreve ou pinta ao vivo uma batalha, uma tempestade, um terremoto, e quaesquer otilroí Incidentes da natureza. E' pela propriedade dos sons harmoniosos e da melodia dos instrumentos ou vozes, que esta nobre ante tem o poder de suavisar paixões d'alma, lançar fora melancolias e abrandar a lou cura humana, e ainda domar as mesmas feras, ao que não chega a poe sia e nem a pintura. A causa destes effeitos é evidente, porque a força da vibração do ar, graduada pelos sons graves e agudos, formados nos instrumentos de corda ou de sopro, vem tocar nos tympanos acústicos do racional ou irracional, e a alma e o coração como centro se desper tam e recebem o effeito que lhes infunde a* representação harmônica. Finalmente, a musica, pela variedade de sons e modulações com que representa os nossos affectos, tem poder illimitado sobre todas ascrea- turas; por onde quer que ella appareça executada, o sábio oo igno rante, o polido ou o rústico, o homem ou a fera, todo« param, alten- dem, ouvem, e immediatamente são affectados conforme suas imagina ções ou sua natureza. — 115 — moléstia contagiosa. Diemerbroek recommendava que sa fizesjf ouvir aos pestilentos uma musica alegre e estrepitosa, para animar-lhes a confiança ea coragem. Porém é princi palmente nos nervosos que a musica produz effeitos mais sa lutares : ella tem dissipado freqüentemente as nevrozes do ouvido, órgão que recebe iramediatamente a impressão dos sons. A musica tem também ás vezes prevenido accessos de catalepsia, e moderado os ataques de epilepsia, cuja violên cia faz tremer pela vida da pessoa atacada. Galeno recom- menda a musica para adormecer as creanças e acalmar-lhes as convulsões. Tem-se obtido, com o emprego do mesmo meio, uma constante melhora nos symp tomas da melanco lia, da hypocondria, da mania, e de muitas outras espé cies de vezanias. Nada melhor provaria a benéfica influencia da musica, que os effeitos da harmonia, sobre as pessoas mordidas pela Toranlola, se se podesse dar credito ao absur do e maravilhoso conto, ao qual entretanto alguns dos maiores médicos têm dado fé. Finalmente Desault, de Bor- deaux, diz ter empregado a musica com successo nos symp tomas da raiva (1). lío nariz ou orgã* tio ehoiro (f). O nariz, conforme o sentir de Herder. é o órgão que • .ajunta todas as feições do rosto e fôrma, por assim dizer, uma montanha de separação entre duas cidades oppostas. A raiz do nariz, sua espinha, sua ponta, sua cartilagem, as aberturas por onde elle respira ávida, quantos signaes ex pressivos não manifesta elle do espirito e do caracter! (1) No Panorama de 18.'ii (periódico portuguez), a pag. 148, vem um excellente elogio feito á musica, que o não extractamos por termos fatiado assás a respeito desta arte divina em relação ás paixões. (1) Assegura-se que os Peruanos e Brasileiros (os índios), e os Cana denses, têm o olphato tão fino, que, pelo faro, distinguem um Fran- cez de um Hespanhol ou d^ um Inglez, e vice versa. Os Carahibas conhecem um Francez pela voz, e sabem distinguil-a da de um Inglez ou de um Hollandez. Estes povos têm uma memória tão feliz, que se recordam no fim de muitos annos, sem se equivocarem, de tudo quan to entre elles se passou, e dos estrangeiros que os visitaram. — 116 — O nariz, em suas relações anatômicas, compõe-se de duas partes, que são o naiz, propriamente dito, e as fossafna- zaes. O nariz é a parte externa deste apparelho, formado pelos dous ossos próprios articulados entre si; por 5 carlila- gens, das quaes 4 são para os lados e formum as alas do na riz, e em media, situada entre as ventas, e serve paradivi- dil-as, por músculos, pela pelle que o cobre, e pela mem brana pituitariá que o forra internamente. As fossas nazaes estão occupando o meio da região pro funda do rosto; são duas cavidades de fôrma irregular, com 6 faces distinctas; 1.*, interna recta, formada pelo tabique quasi plano; 2.a, externa oblíqua, onde se acham as 3 cor- netas distinctas em superior, media e inferior; e as 3 gotei- ras, ou mettos, que as separam umas das outras; 3a, ante rior; ü.a, posterior, que corresponde ás aberturas anteriores e posteriores; 5.*, superior estreita, que se chama abobada; 6.a, inferior, que é chamada pavimento. Os seios nazaes são cavidades accessorias e abrem-se so bre a face externa e superior das fossas nazaes. Uma membrana fibro-mucosa chamada pituitariá, se desdobra nas fossas nazaes, e reveste todas as suas partes. Esta membrana conlém em sua estruetura uma prodigiosa quantidade de folliculos que segregam a mucosidade que se observa no nariz. O nervo olfactivo (1.° par), descansando sobre a lamina crivosa do ethimoide, atravessa por seus filetes as aberturas, deste osso, e se vem derramar na membrana pituitariá para receber e apreciar as moléculas odoriferas espalhadas na atmosphera. São os cheiros emanações subtis, desenvolvidas dos cor pos pela acção do calor, e dissolvidas no ar atmospherico. A fricção, a dissolução, a combustão, e outros processos, são os meios que fazem desenvolver o calorico próprio para os pro duzir. Os animaes fornecem poucos cheiros; os vegetaes ex- halam muitos e mui agradáveis: é principalmente no tempo em que estes entes se reproduzem, que elles o desenvolvem com abundância. Os mineraes só produzem cheiros fortes e abundantes. — 117 — Itlechanismo do* cheiro. Jkrèartijagem firme, que no centro T)o rosto se devisa a vital aura Com compassada aspiração recebe, Ao fundo peito, vae; do peito torna, Té que em final eigUação se acabe. MACEDO. O ar atmospherico saturado de atmos odorificos, e atrain do pela inspiração, passa ás fossas nazaes para se precipitar nos pulmões. Nesta passagem o calor rarefaz, e de algum modo sublima os pequenos corpos odoriferos junto á aboba- da nazal, onde as mucosidades as prendem e fixam nas ex tremidades nervosas distribuídas na membrana pituitariá. Quando os cheiros são agradáveis, fecha-se a bocea para se inspirar somente pelo nariz, onde o ar entra por curtas e repetidas inspirações: a expiração faz-se pela bocea, para não perturbar a sensação, suecedendo o contrario quando estamos postados no meio de um ar impuro e alterado por cheiros fétidos. Utilidade do olfacto. •Os physiologistas affirmam que o olfacto é um dos senti dos que tem usos mais variados, por que elle nos lisongea com a agradável impressão dos cheiros; examina as qualida des inspiratorias do ar; precede ao gosto na exploração dos alimentos, e a sua influencia sobre o systema nervoso é por demais espantosa, muito principalmente nas mulheres. Physionomia do nariz, por Lavater. Um nariz bem feito, diz Lavater, jamais se associa a um semblante disforme : póde-se ser feio e ter bellos olhos; mas um nariz regular exi£e necessariamente uma analogia feliz das outras feições. Vê-se mil olhos bellos, contra um nariz <*a perfeita belleza; e onde se o encontra, suppõe-se que ahi ha um caracter excellente e de espirito. Conforme nossas TOM. II. 16 — 118 - idéas, as condições precisas para se ter um narij perfeita mente bello, são : 1.° o seu comprimento deve ser igual ao da testa: 2.1- deve ser ligeiramente cavado em sua rait; 3.* a espinha vista por diante [spina dorsum naít), deve ser larga e quasi parallela dos dous lados; A.° a ponta ou a ma çã do nariz (orbiculos), não ha de ser riem dura nem car- nuda; o contorno inferior deve ser desenhado com precisão é"com correcção, nem muito largo', nem muito pontudo; 5.' de frente é necessário que as azas do nariz se mostrem dis- tinclamente, e que as ventas se encolham agrada>elmentc para cima; 6." em perfil, o nariz em baixo só deve ter um terço do seu comprimento. 7.° as ventas devem seguir mais ou menos em ponta c redondamente pelo lado posterior, e em geral serão docemente arqueadas c partidas em duas partes iguaes pelo perfil do lábio superior; 8." os llaucos do nariz ou do seu arco, formarão espécie de pare des; 9." para cima, elle alcansando perto do arco do osso do olho, sua largura deste lado deve ser pelo menos de meia pol legada. Um nariz que tem Iodas estas qualidades, exprime tudo o que se pôde exprimir. Entretanto as pessoas de maior mérito tém muitas vezes nariz disforme; mas é preciso mui tas \ezes diflerençar a espécie de mérito que as distingue. Tem-se >isto homens mui probos e generosos, e muijudi- ciosos, com pequeno nariz, chanfrado em perfil, ainda que vantajosamente organisado: possuem qualidades estimaveis, porém estas limitam-se a um espirito brando e tolerante, altento, dócil c feito paru receber e gozar sensações delict/ das. Os narizes que se curvam no alfo da raiz, convém a ca racteres imperiosos, destinados a mandar, a obrar grandes eousas, firmes em seus projectos e ardentes em seguil-os. Os narizes perpendiculares, isto é, que se approximam desta fôrma (pois estamos sempre firmes no nosso primeiro propó sito, de que em todas as suas producções a natureza aborre ce as linhas naturalmente rectas), podem ser olhados como as chaves do arco das outras duas; promettem uma alma que sabe obrar e sofírer tranqüilamente e com energia. Sócrates e Roerhave tinham narizes mui feios, e nem por isso deixa ram de ser grandes homens; sendo o fundo do seu caracter brando e paciente. Um nariz, cuja espinha c larga, qaer seja direito ou cana- — 119 - do, annuncia sempre faculdades superiores; nunca nos en ganemos sobre isto, mas esta forma é mui rara. ptm a ejfjy.nha ser larga e com a raiz mui estreita, o nariz muitas vezgf indica extraordinária energia; pois esta reduz- se quasi sempre a uma elasticidade sem conseqüência e sem duração. Os povos Tartaros têm geralmente nariz chato e cavado; os negros d^flricajem.-no.esborrachado; os.Judetw, pela maior parte, tem-no aquilino; oS Inglezes, caflilagino- so e raramente pontudo. A julgar-se pelos quadros e pelos retratos, os bellos narizes não são communs entre os Hol- landczes. Ao contrario, nos Italianos é este traço distineto e da maior expressão. A venta pequena é signal certo de es pirito timido e incapaz de ensaiar a menor empreza. Quan do as alas do nariz são bem afastadas e bem moveis, deno tam grande delicadeza de sentimento, que facilmente pôde degenerar em sensibilidade e voluptuosidade. Da respiração. O apparelho da respiração se eompõe de dous gêneros de órgãos, uns externos que comprehendem o thorax, composto de ossos, cartilagens, e músculos; e outros internos, que são, a tracheia arleria, os bronchios, os pulmões, e a pleura.. O thorax, ou peito, é uma espécie de gaiola óssea, carti- laginosa, conoide, um pouco achatado pela parte anterior, e arredondado pelos lados : a sua base é pbliquauiente cortada de cima para baixo, e de diante para a trás; o seu vértice é rombudo e obliquamente disposto em sentido inverso. Os ossos que compõem a caixa do peito são as 12 vertebras dor- saes pela parte posterior; pela anterior o osso sterno, pelos lados as 2& costellas sendo as 7 de cima (de cada lado) cha madas verdadeiras, e as 5 inferiores as falsas. As costellas prendem-se ás vertebras por intermédio de ligamentos, e anteriormente ao externo pelas cartilagens costaes. Os músculos do peito são (na região anterior): l,a o grande peitoral, situado na parte anterior do peito e adiante da axilla, estendendo-se desde a claviculaaté á face anterior do sterno, as cartilagens das verdadeiras costellas, com ex clusão da primeira, até o bordo anterior da corrediça bici- — 120 — pitai do humtrus; seus usos são mover o braço e contribuir para suspender as costellas na respiração; 2.° optqiitno peitoral, situado por baixo do precedente, e partindo oMMe a apophise caracoide da espadoa até á 3.*, 4.* e 5.a verda deiras costellas; elle tem os mesmos usos do precedente, c bem assim puchar a apophese caracoide para diante, para baixo e para dentro; 3.° o sob-clavio,"posto na parte supero- anterior do peito, collocado desde a parte externa da face inferior da clavicula á face superior da cartilagem da primeira costella; seus usos são abaixar a clavicula e leval-a para diante e levantar a primeira costella; 4.° o grande dentado (região lateral), collocado aos lados do peito, que se esten de desde a base da espadoa até á 8.* ou 9.» costellas; seus usos são puchar a espadoa para diante, e suspender as cos tellas em que se ataca por suas digitações; 5.° o angular, collocad o atrás e ao lado do pescoço, e na parte superior do dorso; estende-se das quatro primeiras vertebras do pes coço ao angulo superior da espadoa; elle pucha o angulo su perior da espadoa para cima e imprime a este osso um mo vimento de rotação, e, deprimindo o manubrio do omopla- ta, pôde também concorrer para levantar a espadoa e do brar o pescoço do seu lado, ou fixal-o em sua posição vertical; 6.° os intercostaes externos (região intercostal), em numero de 12 de cada lado, collocados entre as costellas desde a columna vertebral em direcção oblíqua, até á união dag costellas com as cartilagens; servem para levantar e abaixar as costellas; 1: os intercostaes internos (em numero de 12 de cada lado], são como os precedentes, porém em direc* ção opposta, se estendem desde o angulo das costellas até ao bordo do sterno; seus usos são os mesmos que os dos inter-costaes externos; 8." os super costaes, são também em numero de 12 para cada lado, e collocados na parte posterior do tronco, estendendo-se do cume da apophyw transversa de cada vertebra ao bordo superior da costella que lhe fica em baixo; elles servem de levantar as costellas; 9. o tria, guiar do sterno, collocado na face interna do sterno e das cartilagens costaes; estende-se deste osso ás car tilagens da 3.a, 4.a, 5.' e 6." verdadeiras costellas; sene de puchar para dentro, para trás e para baixo as cartila gens onde se pega; 10, o pequeno dentado, pistero superior, situado (região vertebro-costal) nas partes postero-infèrior — 121 — do pescoço e superior do dorso; estendendo-se desde a parte inferior doligamento super espinhoso cervical, e das apo- pbftts espinhosas da ultima vertebra-do pescoço e das duas OD tres primefapsdo dorso até á face externa e bordo supe rior da segundlf terceira, quarta e quinta costellas; serve de levantar as costellas onde se fixa; 11, o pequeno denta do, postero-inferior, sitWéstfalríHrx© do*dorso na região lom bar, estendendo-se desde a apophyse espinhosa das duas ou tres ultimas vertebras dorsaes e das tres primeiras lombares até o bordo inferior das quatro ultimas falsas costellas em que se prende; 12, o grande dorsal (região posterior), si tuado nas partes posterior, lateral e inferior do tronco, des de o humerus ás apophyscs espinhosas da 6.« ou 7.a ultimas vertebras dorsaes e de todas as lombares ao sacro até aos ossos iliacos, e as 4 ultimas falsas costellas ; elle pucha o membro superior para baixo e para atrás, e bem assim para cima e para fora as costellas onde se insere; também move o tronco sobre o membro superior; 13, odiaphragma, é um músculo impar, situado obliquamente na parte inferior do peito e superior do abdômen, servindo de separação en tre estas duas grandes cavidades: as suas partes lateraes são carnosas, e a média é a ponevrotica, em modo a ser cha mado pelos anatômicos centro phrenico: a sua face superior é convexa e a inferior concava. Elle se estende desde o apêndice xiphoide aos corpos das vertebras lombares e das 6 ultimas costellas inferiores em cada lado. Além de ser o principal agente da respiração, este músculo serve igual mente para facilitar a digestão e para a evacuação das maté rias fecaes e urina. Cavidade do peito. A cavidade do peito tem a mesma configuração que a sua caixa: ó forrada pelos pleuras, que sã"o duas membranasso- rosas que a revestem e se denominam pleura central; bem como os pulmões e mais partes, chamada pleura viceral. Estas duas membranas ao encontrarem-se no meio do tho rax, deixam, anterior e posteriormente, um intervallo co nhecido pelo nome de mediastino, anterior e posterior. De cima para baixo encontra-se a trachéa artéria (que pa- — 122 — receser continuação do laringe), formada de arcos cartila- ginosos, terminados posteriormente e reunidos entre sjupor uma membrana fibrosa. O seu interior é forrado pefÉM| cosa que reveste a bocea e o laringe. A traohéa artéria es tende-se desde o laringe pela parte media e*onlerior do pes coço, até ao nivel da quinta verlebra dorsal, onde se divide em dons ramos, chamados Jnén^ft jf, os quaes chegando aos pulmões se rflparterii*em tres divisões para os tres lobulos do pulmão direito, e em dous para o esquerdo: depois desta divisão os bronchiosse terminam por uma ramificação ex tremamente nervosa. Pulmões. Massa subtil, e frágil e esponjosa Do ar, que se introduz, s'enche e dilata, E logo comprimida o ar transmitte. Contínua ondulação, continuo motu! Quando tu paras, Atropos de tudo Corta o precário miserável fio, De que é pendente a duração da vida. MACEDO (Medit) Os pulmões são em numero de dous, tendo a fôrma de um cone irregular, cuja base olha para baixo e o vértice para cima; sua côr épardacenta misturada de um grande numero de nodoas ennegrecidas, que circumscrevem os lobolus pul monares e dão aos pulmões uma apparencia jaspeada.OpjK mão direito é menor e tem duas fendas, em quanto o esquerdo é maior e tem tres fendas. Seu peso é mais consi derável do que o d'agua, não tendo elles em seu interior ar algum. No interior os pulmões representam uma cavidade irregular ou sinuosa, communicando-se com o ar por via da trachéa artéria. Offerecem elles na sua composição um tecido fibroso, cartilagens, fibras musculares e uma mem brana mucosa; porém entre estas partes, a trachéa-arteriaé que serve de base a todas as outras, é a mais importante.por causa de suas funeções (1). (1) Os pulmões pouco mais ou menos nos offerecem o mesmo pbe- nomeno que o coração: têm apparecido fetos que os não têm mostrado como aquelle monstro de Mr. Mcray. Ha pessoas que têm vivido com — 123 — Xarltriapulmonar forma o segundo elemento orgânico especial do (pulmão; este vaso parte do coração, e ao depois ^j_ajaifica em dous braços e segue as divisões bronchicas até ás extremidades do órgão, onde concorre a formar o te cido do pulmão. _«,_^1 ; As veias pulmonares, nascem nos pulmões, de todos os pontos onde o fluido nuftWtiso em contacto com o ar é trans- iormado em sangue. Suas radiculas são ahi tão pouco per ceptíveis, como as ramificações bronchicas e arteriaes; mas pouco a pouco se reúnem em vesiculas, que, ajuntando-se, formam quatro grossos troncos pelos quaes vem em ultimo resultado abrir-se no coração. Do ar atmospherlco (1). O ar atmospherico é um fluido invesivel, insipido, sem cheiro, pesado, compressivel e perfeitamente elástico, for mado de 0,78 partes de azoto, 0,21 de oxygeneo e 0,10 ou um somente, como aquelle rapaz serralheiro cuja historia é referida pelo jornal de Verdua no anno de 1733. Em outras pessoas se têm en contrado 5 pulmões, como se observou no homem de 27 annos de que deram testemunho as Memórias da Academia Real das Sciencias, do anno de 1728. (1) A respiração (diz o Dr. Guindant, Exp. des Varit. de Ia Nat. dans L'Eesp. Iium., pag. Zi8, etc), é a primeira lei que a natureza nos im põe, logo que sahimos do ventre materno. O ar é o elemento queex- cifi nossas primeiras sensações (e que no momento fatal de nossa des truição, ainda sustenta nossos languidos movimentos), torna-se depois tão precioso e tão necessário á nossa existência, que se por qualquer obstáculo o canal que o transmitte e o leva ao peito vem a ser inter ceptado ou cortado só um passo, nos separa da suffocação á morte. O ar é, para o homem que vive sobre a terra, o mesmo que a água para os habitantes do mar; isto é, seu principal alimento, e sem o qual elle não poderia subsistir desde que sahe do ventre materno. Sendo esta a regra commum, tem-se visto excepções. i.° Esses famosos mergulhadores, que"a antigüidade tanto tem en grandecido, e cuja historia nos diz ficarem debaixo d'agua horas intei ras, sem alguma communicação com o ar. 2.° Aquelles que sem precaução fazem habitualmente nas índias as pescas das pérolas, do coral e das esponjas, e que desapparecem por longo tempo aos olhos dos espectadores. 3.° Os Javeus, negros da Martinica e S. Domingos, que para procu rar lindas conchinhas vão cm canoas mergulhai- a meia légua de dis- — 124 — 0,02 de ácido carbônico. Sendo o elemento natural da res piração e o vehiculo das emanações que o calor desenvolve, convém que se o estude, para que o homem permaneçiHéM| elle foro mais puro e saudável. A atmosphera envolvendo a terra, sobe até á altura de 15 a 16 léguas, sempre dimi nuindo de densidade. BIechanienio da respiração. Por dous actos inteiramente distinctos preenche o appa relho orgânico esta importante funcção, que são, a inspira* ção e a expiração. Logo que se faz sentir a necessidade de inspirar, o peito, apartando suas paredes, augmenla de capacidade, e o ar se precipita nas ramificações bronchicas. A dilatação do peito tem lugar do modo seguinte ; odiaphragma se contrahe, a face convexa torna-se plana e concava, o que faz augmen- tar a cavidade do peito na direcção do seu diâmetro vertical. tancia da praia, e cm muitas braças d'agua, sem outra precaução mais que encherem a bocea de azeite de palma. U-° Os infatigaveis mergulhadores da Europa, que sem soecorro da lanterna de Telleamed, sem a bexiga de Drebell com seu licor, demo ram-se debaixo d'agua meia hora completa, quer por prazer, quer por se metterem nas covas de alguns peixes. 5.° Os homens lethargicos, que se conservam no leito da morte duas semanas, e até mezes, sem dar signal algum de vida, e por con.eq*J*- cia sem respirar (*). 6.° Finalmente, essas desgraçadas victimas que tem sido encerrada» nas catacumbas e carneiros, qne se tem visto reclamarem seus direitos á vida fazendo retinir as ahobadas sepulchraes com seus lugubres ge midos de raiva desesperada. Ninguém poderá duvidar destas observações e exemplos; elles são attestados por homens mui circumspectos. Backer, capitão Hollandez, achando-se nas costas da Hollanda DO principio do século passado (1700), vio um homem lançar-se subita mente -dentro do seu navio, entre muitos marinheiros. A novidade de um tal espectaculo snrpreheudeo-o muito mais quando esse homem lhe fallou em hollandez, pedindo-lhe um cigarro para fumar. Sendo per guntado quem era, disse ser Hollandez, que se tendo embarcado na (*) Diz a União Maloisine, que uma rapariga de 16 annos de idade,calira n*um Iethargo, que durou 6 semanas, e durante este tempo nada comeo.ifoi visitada por centenares de pessoas. — 125 — este é o primeiro processo da inspiração, Neste caso as cos tellas e o sterno são levantadas, e o peito se estende no sen tido dos seus diâmetros transverso e de diante para trás. O facto da elevação e abaixamento das costellas é incontestá vel : a capacidade do thorax sendo augmentada, o pulmão que lhe è contíguo* se dilata também, e o ar exterior vem-no penetrar pelo único facfodo equilíbrio. Obedecendo aos seus differentes movimentos, passando*pelas Yias naturáes, ad quire neste trajecto humidade e calor. Bem que a dila- taçao do peito faça ahi penetrar o ar, o seu aperto compri mindo o pulmão devedhe operar a expulsão. Este movi mento é passivo e consiste na sessação da acção dos agentes productores dá inspiração. No canto, a compressão do pul mão é augmentada por certos músculos cuja contracção traz um abaixamento mais considerável das costellas. O ar expellido dos pulmões atravessa a trachea .artéria, aboccáe ás fossas nazaes, e como se tinha no peito carregado das sorosidades formadas pela prespiração pulmonar (trans^- piração insensível) as abandona, resfriando-se, como se pôde idade de 8 annos em um navio que havia ido a pique com tòdaà equi- pagem, tinha vivido depois deste tempo no mar sem saber como. Porém Íercebendo que o capitão queria agarra-lo, lançou-se logo n'agua. I.m-lediatamente rediçio-se um processo verbal desle.plienonieuo, ^. a che gada dò navio odepozeram nós archivosdo almirántado de Anislerdam. Na historia antiga de Portugal se memora que os Lusitanosmanda- rani uma embaixada a Tiberio com a noticia de um tiomcm marinho, apparecidona praia junto a Lisboa. JLm 4.í26ojpyen flu,lrembly de Burgos (o mesmo que foi advogado ocTRei no Bafiado dessa cidade), indo banhar-se cpin,.muitos de seus camaradas, sabendo" todos nadar, Tr?e|rgulfraftim enVuriiá tíaeia que ti nha pouco mais de 8 pés d'agua. Depois de certo tempo reapparece- ram todos á exçepçãp de Dutrembly., Até ahi não, se inqqietçram a, res peito deHe, más tím quarto de hora depois não se ó tendo visto, julga ram-no perdido ou afogado, Um dós companheiros mclgulhandò, fól encontra-lo sentado tranquiüamente em úma pedra: e conduzindo-o pelos cabellos, perguntuu-lhe ,depois, o que foz\à debaixo d'agua, ao que respòndcp que tinha ficado ali sem saber como, e sem sentir o menor vexame. Na cidade de Nivers era por todos sabida a historia de um homem, que o seu maior prazer era andar por baixo d'agua muito tempo. Umjardineiro Sueco, de quem faliam as Ephomerides da Allemanlia, conservou-se 16 horas debaixo do gelo, sem suílbcar-se, Telasis,guarda da bibliotheca real de Stocolmo, falia de uma mulher que esteve 3 dias debaixo d'agua, e que depois que foi tirada >iveo muitos annos, etc, TOAI. II. 17 — 126 — ver no tempo frio, onde o ar expirado sahe da bocea ou do nariz debaixo da fôrma de vapor. Ao sahir dos pulmões o ar, é privado de uma porçfff>§)^ sideravel de oxygenio, e de mais alterado por nina quanti dade de ácido carbônico que leva comsigo na expiração. Assim, no acto da respiração o ar tem perdido uma gran de porção do seu oxygcneo, e absorvido alguns dos outros princípios que linha em siwpensão; ao mesmo tempo que se tem saturado de uma quantidade proporcional de ácido car bônico e de sorosidade animal. O sangue com este processo experimenta uma mudança espantosa, porque de negro que era torna-se vermelho purpurino, escumoso, mais levee mais quente dous gráos que então, e neste ultimo caso passar ao coração e dahi para as artérias. A expiração é separada da inspiração por uin inlervallo pouco mais ou menos iguül em duração á expiração e inspiração reunidas. Em quanto os órgãos exteriores repousam, continua a elabora ção e a absorção da pequena quantidade do ar que escapou áacão expiratoria, ficando em reserva nos lobulos do pul mão. A respiração tem certos phenomenos acces.eorios, dos quaes uns eslão ligados á inspiração, da qual são causa ou effeito, taes são, o cheiro, o bocejo, a sucção; outros perten cem á expiração, ties como a palavra, a vós eo espirro;ou- tros, finalmente, são communs com ambos os movimentos taes como o soluço, o riso, o espirro, etc. (Leg. Zoon). Do calor animal, mia Introdueção, e comer! *• cão no corpo orajranleado e vivo. O Sr. Legouas, resumindo a doutrina de Richerand e de outros physiorogistas, apresenta em substancia as idéas por elles observadas, dizendo que a caloricidade é a faculdaáa pela qual os corpos organisados e vivos se conservam na sua temperatura própria, e resistem aos gráós extremos do ca lor ef rio da atmosphera (1). (1) O maior gráo de calor externo que tem o corpo humano é de 28 a 19 gráos e meio do thermometro de Reaumur. O ar onde nem ba cal, t, nem frio, tem. 15 a 16 gráos de calor; o calor do corpo na — 127 — Esta propriedade, admittida por Chaussier, e sustentada por outros physiologistas, não se deve mais confundir com a calorificação, bem como a sensibilidade se não confunde com a sensação. A caloricidade principia com a vida. cuja existência ella concorre a demonstrar. Nos germens fecun dados dos animaes e vegetaes, e nos differentes tecidos de uns e outros, é a caloricidade uma das principaes condições do desenvolvimento, do exercício da sensibilidade e da rao- tilidade. A sua diminuição e extensão trazem comsigo alte rações semelhantes nas propriedades da vida orgânica, em cujo lugar deve ella ser considerada. A uniformidade da caloricidade em todas as partes do corpo é apparente, por que ella varia tanto como as outras duas propriedades de que falíamos. As propriedades vitaes modificadas infinitamente nos tecidos, órgãos e regiões do corpo, são sujeitas tombem a continuas variações que dependem da idade, do sexo dos temperamentos, dos climas, das estações, e outras circums- tancias. Os sólidos não gozam de uma vida exclusiva, porque também os fluidos gozam de vida, ainda que em gráo me nor. O sangue, a lympha, e principalmente o cliylo, pos suem elementos de vida, se elles fossem mortos não esti mulariam os tecidos que os recebem. E' por virtude desta sombra devida que elles se conservam em estado de liqui do, em quanto se movem em seus vasos, se decompõem pelo repouso e se alteram promptamenle com o conacto dos ví rus que lhes são introduzidos por meio da absorvição. A ca lorificação, conforme osextractosdo Sr. Legouas, é a acção •jbr meio da qual os corpos organisados conservam o seu calor próprio no meio das variações da temperatura e da atmospliera. Q calorico é introduzido no nosso corpo por via da respi ração, absorção e digestão (1). cama ordinariamente é de 22 e meio: não sé sente frio em uma casa a que se deram 12 gráos de calor, e sente-se de 9 até 11 gráos. Com 5 gráos arripiam-se as mãos. As differentes partes do corpo têm diver sos gráos de calor: o maior é o da barriga, depois o do peito e das axillas, e ultimamente o das mãos c pés. O calor do sangue lançado sobre o thermometro quando sahe da veia é de 27 a 28 gráos; a urina deitada immediatamente sobre o thermometro, tem sempre e em toda a idade quasi 29 gráos como também o leite da mulher ou da vacca. (1) A respiração é o meio mais poderoso da colorificação : introdu- — i__s — Ho appnrelho da voz. A tos-, ou phonação, é o som que é produzido dentro da cavidade do larynge, logo que o ar tenha atravessado a tra- chea artéria, quer enlre para os pulmões, quer delles saia. Mr. Adelon define a voz um som que é produzido no larynge, no momento em que o ar expirado alrnvessa este órgão, e que os músculos intrínsecos da glote estão no estado de conlracção o ar que a inspiração tem intro duzido no pulmão é empurrado deste órgão no larynge, pelo jogo do apparelho muscular thoracico, pelo movi mento da expiração. E' lá o primeiro acto necessário para a producção da voz. E' no tempo da expiração que a voz é produzida. A palavra larynge traz a sua elymologia da palavra grega Aíp-r{í, gucla, apito, ou caput arprot artérias gutur. Esta passagem do ar que nós observamos através deste órgão, é absolutamente indispensável para a formação da voz. A voz é formada dentro da glote. A si tuação do larynge é na parte superior da trachea artéria, e inferior da base da língua, sendo aberto pelas suas duas extremidades, superior e inferior, e tendo apenas na sua cx- zido por este meio o principio do calor cm grande quantidade, circula CQJB o sangue c cada parte o desenvolve e segrega por si mesma. O fogo exterior concorre á coloriíicação, oppondo-se á sabida do calor interior, c entretanto a força tônica dos órgãos necessária para se ef- fectuar esta espécie de secreção. A' vista disto se vfi a precisão de se admittir alguma differença entre o calorico interior ou vital, c o calo»» rico exterior ou physico. " O calorico exterior conserva-se tanto melhor, quanto maior é a acti- vidade vital o mais livres são as.funcções. Elle cspalha-se uniforme mente por todas as partes, de modo que as que têm mais cedem ás que tôm menos para se equilibrarem. A temperatura humana ordinaria mente <í de 28.° do thermometro de II., e 3fi.° do Cent., sendo o ca lorico interior, que é excessivo, escapado pelas excreções em geral, c com mais particularidade pela transpiração pulmonar e cutânea; por isso, quando nos achamos cm uma athmosphera elevada, os vasos exhalantes da pelle entram em acção, c o suor que disto resulta leva comsigo unia grande quantidade de calorico, e a outra porção deste principio é subtrabida para servir á evaporação do suor juntamente com o calorico da athmosphera. Sabe-se que a temperatura do corpo do homem apresenta ás vezes mudanças dependentes do estado mórbido; porém deve attender-se que em muitos casos estas variações são subordinadas ás alterações da sensibilidade orgânica. — 129 — Iremidade superior uma válvula parabólica, que é chamada epiglote pelos anatômicos, tendo por uso não deixar en trar algum outro corpo para a cavidade laryngea, e de lbe servir de economizar o ar,.como faz a mão ou o lenço do musico que toca trompa ou corneta, na bocea do instru mento, para melhor produzir o som que quer, idest, mo- difical-o. -!..., Este órgão, o larynge* que é a continuação do canal aereano (trachea-arteria), que vae para os dous pulmões,, com este nome, e depois em baixo se bifurea, então ahi recebe o nome de bronchios,. e entrando nos pulmões se, dis tribuem em muitos canudinbos até por fim perderem-se *no parenchjma desta víscera. O larynge é formado de qua tro cartilagens e uma fibro-cartilagem (a valvuta epiglotica); as cartilagens são: Thyroide (©upso; scutum quod ila dicitur a forma januw, por se asemelhar com os antigos escudos; a esta cortilagem o vulgo chama pomulo de Adão : está si tuada na parte supero-anterior do pescoço. A segunda car- tilagem é uma mais pequena-em fôrma de annel chamada cricoide (KJKWS annulus circulus), situada na parte inferior da primeira, e duas pequenas cartilagens situadas na parte postero superior da carlijagem cricoide, chamadas Aryte- noides (kp-ama. genus cyathi aut poculi, haustrum, .«Tos forma). Chama-se glote aquelle espaço que fica enlre as cordas vocaes superiores e inferiores, id est, aqiiella parte do larynge, onde é formado o som vocal. A palavra glote tjnz a origem da grega — rtwssa, ou rlovrra —, lingua. São quatro as cordas vocaes, duas de cada lado; as inferiores ou cordas de Ferrein, são formadas pelos dous músculos tyro- aritenoideanos, cobertos pela membrana mucosa laryngea; contractil (propriedade muscular), e goza essencialmente de grande utilidade na formação da voz. As outras são as cor das vocaes superiores não musculosas; formadas por uma dobra (de cada lado) da mucosa laryngea: estas duas cordas são por experiências inerteis. na formação da voz: Bichat e Magendie, por experiências directas, provaram serem estas cordas estranhas á formação da voz, e que ape nas podem pôr um pequeno obstáculo á passagem do ar ex pirado, e não modifical-o, e que as cordas vocaes inferiores são as únicas que vibram. Ferrein, foi o primeiro que em — 130 — 1747 comparou o larynge. a um instrumento de cordas, « que os sons eram provenientes das vibrações eífecluada» pelas cordas vocaes inferiores na passagem do ar expirado. A Memória foi apresentada á Academia Real das Sciencias de Paris, e por esse tempo fez muita bulha entre os sábios, sendo acolhido o seu sentimento quasi por todos, expli cava elle a sua hypolhese engenhosa desta fôrma : « Os li- gamentos da glote representam as cordas do instrumento; a columnado ar expirado, o arco que as põe em vibração; a cartilagens tyroide, o ponto de apoio; as arytenoides, as cravelhas, e os músculos desta parte* as potências que as põe em movimento.» Explicava também as differentes va riedades dos tons, pelo maior ou menor gráo de ten são e longura das cordas inferiores. Dizia elle que para produzir sons agudos era necessário tensão e encurlamento das cordas; para os tons graves, laxidão, e por conseguinte alguma longura das mesmas cordas, e que esta tensão é de vida aos músculos crico thyroideanos que fazem com que a cartilagem thyroide soffra um tal ou qual movimento de ba lanço para diante, e que a acção dos músculos crico aryte- noideanos posteriores fazem balançar para trás as cartilagens arytenoides. Conheceo-se depois que esta hypothese, posto que muito engenhosa, não podia ser admittida, por quanto não ia de accordo com os verdadeiros princípios de Physica, que são; para que Uma corda possa produzir som e vibrar, de verá ter elasterio, tensão, estar secca e livre; ora vemos que nada disto tém as cordas laryngeas, porque estão constante mente lubrificadas pela mucosidade da membrana que tf Cobre, e por isso não gozando de liberdade, etc. Com a queda desta hypothese compararam de novo o la rynge a um instrumento de vento, opinião antiga de Aristó teles, e seguida depois por Galleno, que o comparavam a um instrumento do gênero dos clarins ou das trompas záwrt?, e diziam ser o ar a sede das vibrações sonoras, e que a estreiteza de que o canal é susceptível era uma das prin- cipaes causas da entoação do som (1). Mr. Adelon, diz : « o lugar do larynge onde se fôrma a (1) Vai a pena ler-se os trabalhos, sobre a formação da voz, dos Srs. Bichat, Cuvier, Magendie, Dodart, Dutrochet, etc; d'algons re feriremos passagens, já que não os podemos citar por extenso. — 131 — voz é na abertura da glote e nos dous ligamcnlos ditos, cor das vocaes inferiores que cjnge esta abertura.» Sobre una cadáver, com effeito, se introduz com um fol ie o ar para a parte inferior da trachea artéria, e dirigindo* se esleardo lado do larynge se consegue produzir um som vocal; se se comprime ao mesmo tempo sobre as cartilagens arytenoides, de maneira que estas cartilagens se loquem por sua face interna; nesta experiência se vèclaramente que es tes são os ligamentos inferiores da glote, porque suas vibra ções produzem o som. Póde-se demais destruir todas as ou tras partes do larynge sem que a voz seja aniquilada, e não éella inteira senão pela lesão daquelle. Com tudo, eis aqui o que nós podemos já estabelecer sobre o mechanismo da phonação: o ar da expiração é introduzido no larynge pelo apparelho muscular thoracico; os músculos próprios do larynge contrahidos, dão aos rebordos da glote, as cor-- das vocaes inferiores muita tensão para romper este ar, e dar-lhe vibrações, das quaes resulta o som. O apparelho muscular thoracico representa o folie, a tracheia artéria ó porta-vento; a glote e seus rebordos a palheta de quem o ar recebe as vibrações. O som assim produzido se escapa pela bocea e fossas nazaes. Mr. Magendie, explica de uma maneira satisfatória este mechanismo. « Eis ahi pensamos, para tirar toda a duvida, que a voz é formada na glote pelos movimentos dos seus ligamentos inferiores. Bem estabelecido uma Vez este íacto, póde-se, pelos princípios de Physica, dará razão da formação da voz? Aqui está a explicação que nos parece ••«tis provável. O ar expellido do pulmão, segue por um canal assás largo; immediatamente este cauál se estreita, e o ar é obrigado a passar atravez de uma fenda estreita, cujos dous lados são lâminas vibrantes, as quaes da mesma maneira que as lâminas das palhetas4os instrumentos de sopro (como v. g. a do clarinete) permitlem e interceptam alternativa mente a passagem do ar, e que por estas alternativas deter" minam ondulações sonoras na corrente do ar transmittidò. O tubo vocal não ha duvida que lem a propriedade de se alongar e se estreitar, pois se puzermos a mão sobre a parte anterior do pescoço , veremos este phenomeno: nos sons agudos elle se eleva, e nos graves se abaixa; e por este motivo tem a voz a intensidade que se quer produzir. Aqui — 132 — faremos uma não menos importante observação, e e, que o instrumento vocal possue em alto gráo as condições para a producção da voz as mais favoráveis que é possível; além disso vemos que elle produz todos os sons, e os modifica tanto debaixo das relações do metal da voz, como sob a sua intensidade. Para se passar de' um som a outro, para se aug- mentar o seu volume, o larynge pôde tomar o diâmetro que lhe parecer, e então com o exercício conveniente e gosto ás leis da harmonia, toma a voz humana uma força que é capaz de nos excitar as sensações as mais agradáveis, e o deleite o mais inhocente. A voz humana differe muito em quanto ao sexo, idade, etc, e se acha estriclamente ligada por uma lei orgânica ou sympathica com o apparelho genital, de sorte que nu idade da puberdade,(além do grande desenvolvimento que experi menta o larynge), a \oz se torna mais forte, e em alguns mais sonora. Quando o ar sahe dos pulmões, passa, com rapidez para o larynge, que constricto atravessa a glote entrando em vi bração, e produzindo conseguintemente o retumbamente na cavidade ventricular do órgão; a este acto chamamos physicos Timbre. Durante a producção da voz na cavidade laryngea, este órgão em sua totalidade põe-se em continuo movimento» para por este meio fazer com que as. cordas vocaes (con- trahindo-se), se inlesem e se approximem; produzindo os sons agudos, e rejaxando-se, se alonguem para produzir sons graves: as.sim pois a fraqueza ou a força da voz depende Ufc somente, ponforme as experiências^ da quantidade, em w lume, do ar lançado dos pulmões e do gráo de força dos di versos apparelhos que concorrera á respiração. A voz,4al qual se fôrma, isto é, a voz bruta, de pouco ou quasj de nada serve;,porém á medida que atravessa a bocea e fossas nazaes, sevae tornando mais sonora c mais bella, por. isso qq# tem de passar por cavidades e tortuosidadas que para isto se prestam. A voz, logo que é articulada ou modificada por meio- da bocea e suas dependências, no larynge e fossas nazaes, pro duz o que se chama palavra. —. 483 — Do «ante. Conviria mais que muito, quando tratámos da musica, termos dito alguma cousa sobre o conto; porém como aquella trata da harmonia dos sons vocal e instrumental, e este das modulações variadas que a vez recebe no mesmo instante em que é produzida, por isso julgamos não confundil-os. O poder associar a palavra ao canto, e fazel-a servir para exprimir as paixões e communicar os pensamentos, eis Q grande talento do homem. Os antigos cantavam, nos templos, em louvor da*Divinda- de, as orações de graça; e os poetas em vez de recitarem as suas producções simplesmente, expunham-nas cantando ao som aos instrumentos; as acções heróicas eram cantadas ao som da trombcta; a lyra era para cantar amores; a flauta para os misteres do campo em mãos dos pastores, e também para celebrar os seus amores: é isto o que fez dizer ao dou tíssimo Antônio ferreira, na carta oitava do livro pii- tneiro: Versos dão vida Ao digno de memória, e o accrescentam. As musas cantam: dellas é sabida,. Não de metacs, de cedros, de esculpturns A fama aos claros feitos concedida. Ganem as estatuas, gastam-sé as pinturas; Aquelle hratdo canto é sé mais forte Gontr' o tempo, q\ie ferro oü pedras duras: Coalrafogo, contra água e contra a morte Fica soando sempre. Da poeeta. A poesia é u imitação da natureza no universal ou no particular, feita em versos para utilidade ou para deleite dos homens, ou juntamente para ambas as eousas. A poesia, emitando as acçGès humanas' e exprimindo todas as eousas em uma linguagem cadente, á medida que vae expondo o qàe sente, deleita a imaginação tom a liga ção dos peivsamentQS. Para este fim o poeta escolhe o gênero TOM. u. 18 - 134 - de poesia que melhor convém ao objecto de que vae cantar, o também o estylo que deve empregar; porque, como disse o Dr. Antônio Ferreira ( L l.\ C 8.') : Não soffrem ns altas musas meamente Serem tractadás; tanto que do extremo Um pouco desço, cáhio baixamente. E na carta 12. Conheça-me a mim mesmo: siga a vêa Natural, não forçada. Do grilo, «Io riso, «Io suspiro e do soluço. O grilo é uma espécie de voz inarticulada, commiim aos homens c aos animaes, e produzido por contracções e es forços exagerados dos órgãos da voz. Um duplo som, difUcil de ser apreciado, constitue o grito. Conforme as observações doDr. Colombat de 1'Isere, feitas sobre a voz humana, dif ferentes acentos exprimem os sentimentos internos que cau sarão o grito. O Dr. Darwin, nu sua preciosa Zoonomia, faz sentir que o grito exprime ordinariamente a dor, e serve para mitigal-a, porque com elle se pôde dissipar com mais rapidez o poder sensorial accumulado nos órgãos muscula res ou sensitivos. Esta facilidade que tem o animal para com o grilo mitigar a dor, é a origem do riso. O riso, conforme o Dr. H. Cloquet, é um movimento in voluntário dos músculos da face e dos lábios em particular, acompanhado de uma inspiração sonora, interrompida, qua annuncia ordinariamente alegria. O Dr. Darwin, pensando que as sensações agradaveisquo oceasionam o riso são continuamente susceptíveis de se tor narem dolorosas, quer que o prazer e a dor sejão muitas vezes produzidas pelos gráos differentes de um mesmo estimulo: com effeito, o calor, a luz, os cheiros voláteis tornam-se dolorosos por seu excesso, e a cocega na planta dos pés nos meninos é uma sensação dolorosa, desde o instante que se quer fazél o rir. Logo que as idéas agradáveis que nos pro vocam o riso, produzem dor, nós gritamos para nos alhviar, e nos caiajnes di-pois para não perdermos esía sorle de gozo. — 135 — c assim procedemos entre o grito o a qüietaçSo alternativa mente: de sorte que no riso ha Ires períodos, o primeiro de prazer, o segundo de dor,e o terceiro é uma suspensão para mitigal-a. Se o riso ó excessivo que muitas vezes nos per turba, nós sentimos grandes movimentos em todo o corpo, porque apparecem lagrimas e dores no rosto com excesso de sangue para a cabeça, dores nos músculos do, ventre, etc. A physíologia pathologica ainda' reconhece outra espécie de riso, a que chama sardonico, que é aquelle em que se nota um apartamento convulsivo dos lábios, da face, que.precede e acompanha muitas vezes o tétano geral. E' o suspiro uma contracção lenta dos movimentos inspi radores, provocado ordinariamente pelo transtorno da inspi ração por um peso que se faz sentir atrás do osso sterno: elle é uma inspiração mais prolongada que a ordinária. O suspiro tem lugar nas diversas situações moraes, c p muitas vezes provocado pela prisão da respiração. Nas moléstias fe bris que apresentam suspiros, indicam em geral perigo de \idu. As paixões, ordinariamente, são que provocam os suspi ros, taes como o amor, a tristeza, a melancolia, etc., e ser vem nestes sentimentos para alliviar o peso que o coração supporta pela compressão que o abate. Osoíwpoé uma inspiração instantânea, produzida pela. contracção súbitae involuntária do diaphragma, e o aperto simultâneo da glote que Suspende a acção do ar na tça- chea artéria, e desenvolve um som rouco. Este phenomeno de physíologia pathologica tem lugar em uma multidão de d*enças, e freqüentemente se observa em pessoas que, aliás, gozam de perfeita saúde; porém a medicina pratica tem co nhecido que em algumas moléstias quando o soluço apparece, 6 um signal de máo agouro (1). As paixões deprimentes qne desafiam as lagrimas, al- (1) O celebre Darwim quer que o soluço provenha do estimulo do orifício cordiaco ou superior do estômago, provocado pela presença forçada do alimento, e nas febres mortaes pela presença da morte em uma parte do estômago, ou da acrimonia do alimento não digerido. A dor do orifício cardíaco é a causa próxima da pouca acção das fibras deste órgão, e a remota acção dos músculos inspiradores, é o c.ffeito próximo; e a repercução da matéria nociva é o effeito remoto. Muitas veies o íoluço é um effeito sympathico. — 136 — guinat vezos provocam soluços, como lambem na alegria excessiva. Do souto, e do apparelho gonindur. O gosto é o sentido que dos faz apreciar os sabores. Este sentido, assim como o cheiro, foram com bastante fundamento chamados sentidos chymicos, por se exerce rem sobre as moléculas destacadas das substancias dos cor pos que elles sabem reconhecer e apreciar. A língua, órgão principal do gosto, está situada na boc ea (1). A sua face superior é lisa e coberta pela membrana mucosa boccal: em sua superfície se nota um-grande numero de pequenas saliências, que se chamam papillas; sua face inferior é igualmente forrada pela mesma membrana mu cosa, a qual fôrma sobre a linha média uma dobra, a que so tem chamado freio da língua. A lingua é um corpo muscular, susceptível dé muitos mo vimentos; entre as suas duas faces se lhes destingue uma ponta, uma base e dous bordos lateraes. Seus limites são, em cima, o véo do'pa!adar, cm baixo, o osso hyuideo eo laryn ge; a diante a maxilla, e a trás a cpiglotc. Os lábios, o véo do paladar, a abobada palatina, as bochechas, contribuem muito também para effectuar a impressão dos corpos sapi- dos; porém alingua é exclusivamente o principal órgão desta funeção. O gosto se augmenla em razão dos progressos da idade, é o único sentido que o velho conserva em sua integridade até a morte. Os músculos de que se compõe! a lingua são: l.J. o estylo-glosso; 2.°, o genio-glosso; 3.°,,o hyo-gjosso; JJ.°, olingual. As artérias e veias que se distribuem na língua são: a ar- (1) Mr. de Jussieu conta qne, na viagem que fez em 1718 a Por tugal, vio uma inoça de 15 annos sem lingua. Ella, em vez deate órgão, tinha uma pequena eminência em fôrma de mamilo.que se ele vava do meio da bocea á altura de 3 a U linhas. Assim como esta aber ração apparece, também se tem visto nascerem crianças com duas lín guas, como aquella rapariga de Vüreycuja obsei vação foi referida pele Dr, Roux no Marcaria do «nno de 1763. — 137 — teria e veias linguaes fornecida» pela artéria carótida ex terna. As papillas deceminadas sobre a face superior da língua distínguem-se em tres ordens: 1.°, lenticulares, que são folliculos mucosos situados principalmente na base da lingua; 2.°, f ungi formes; 3.°, conicas, que são elevações nervosas que se suspendem na superfície deste órgão: Os nervos da lingua são os ramos~do nervo^glosso phai^ngeo, e o grande hypoglosso, e< o linguul, ramo do nervo maxillar inferior, queé o que vae formar as papillas fangiformesô conicas. Este ultimo nervo ó, propriamente fatiando, a sede do gosto. lvlcchanlsmo do gosto (1). O gosto se opera quando os alimentos, introduzidos' na cavidade da bocea, são submettidos á mastigação e dissolvidos (1) A vista e o ouvido-são, sem duvida, os sentidos mais delicados, mais sensíveis e, se pode assim dizer, os mais vizinhos da alma-: 6 cheiro, o gosto e o tacto, ficam algum tanto mais longe delia, e daqui vem que seus prazeres são menos vivos que os dos outros sentidos', porém mais tranquillos e mais sólidos. O órgão principal dò gosto é a lingua; sua sensibilidade reside nas papllla» nervosas (ou mamilozinhos) que se observam sobre toda a superfície, e particularmente na ponta* da lingua; estas papillas são umas diffusõesdo nervo chamado gustatíw. Também ha papillas no paladar, e este participa- jwrtamettfe com a lingua e outras partes da bocea dos diversos gostos ou sabores, os quaes consistem nas vibrações mais ou menos fortes dos saes que ooram sobre o sentido do gosto, bem como os sons consistem nas' vi- larações mais ou menos fortes do ar, que opera sobteo ouvido-Çt o mesmo podemos dizer do cheiro). Entre os povos selvagens está menos desenvolvido o sentimento do gosto, do que entre as nações policiadas; o mesmo- acontece a respeito do sentido do tacto. Esses sentidos influem certamente muito na ex tensão do juizo, com tudo o do gosto é qnasi todo pliysico, pois de or dinário se observa, que as pessoas gulosas e delicadas, enr quees-tfe sentido está mui desenvolvido, têm commumente o juizo menos exten so e menos bom que os outros. O sentido do gosto recebe grande numero de modifícaçè-es da parte do principio interno da vida. O mesmo ohjecto- parece-nos mais' ou menos saboroso e agradável, segundo a fome, a sêdé, o bom estado do estômago, etc. Os alimentos que ao principio da comida agradam, nó* os enjoamos quando estamos fartos. O habito tem grande influencia nos órgãos do gosto; efaz que muita gente coma eousas que aos outros parecem incapazes de se poderem comer. O gosto de tal modo foi dis posto em nós pelo Autor da natureza, que quasi todas a» oousas verte- — 138 — pela saliva, e então as suas moléculas sapidas obram sobre as papillas nervosas que entram em acção e recebem a im pressão. A sensação do gosto se desenvolve somente pela immediatir applicação dos corpos saborosos, e se'desenvolve e aperfeiçoa com o habito e exercício. O gosto (diz Leg) determina as qualidades saudáveis ou damnosas dos alimentos. Os praze res anuexosao seu exercício encontram-se no órgão do gos to; porém a alma relem pouco a lembrança, e dahi procede o attractivo sempre novo que encontramos nos alimentos: se os tornamos a procurar, é mais pelo prazer que nos promet- tem, que por aquelle que já nos deram e que nós fruimos. lios sabores. Os sabores variam muito, e por isso é mui difficil o clas- lifical-os. Para se poder appreciar as differenças e a quali- nosas repugnam ao nosso paladar, por seu sabor ser corrosivo, enjos- tivo, ou de máo gosto. O recém-nascido menino, e o animalzinho, tem logo que .vem á luz, já tão firmado este sentido, que por instíneto mesmo, rejeitam as matérias que lhes não são convenientes. Vê-se pois uma previsão, um fim, "que excepções mui raras não destroem, no sa bor agradável e doce que tôm iodas us eousas próprias á subsistência da vida. Os órgãos do gosto variam muito nas diversas classes de animaes; porém é bem notável a correspondência que cm quasi todos tem, assim como no homem, este sentido do gosto com o do cheiro, o qual se pôde considerar menos como um sentido particular, do que como supple- raento ou parle do sentido do gosto. , Consiste o sentido do cheiro cm uma membrana mucosa muitA' sensível, em cujo tecido vem desabrochar-se os nervos do olfacto : cha ma-se pituitariá aquella membrana, porque recebe a piluita, liumor aquoso e branco que corre do cérebro, e que por cila se filtra. Como o.çheiro é, por assim dizer, uma espécie de gosto delicado, o Autor da natureza os approximou ambos de lal modo que mutuamente se ser vissem; assim o nariz e a bocea estão sempre vizinhos, e em commu- nicação um e outro órgão. As particulas voláteis dos corpos são mais ou menos oloriferas, se gundo sua natureza; e é cousa observada que alguns cheiros possuem qualidades nutrientes. Democrito refere ter vivido tres dias sustentado só com o vapor de pão quente; e Hipocrates recommenda se sustente por via do cheiro aquella pessoa cabida em demasiada fraqueza qae carecer de prompto sustento. . Os cheiros produzem grande numero de effeitos singularissimos so bre o systema nervoso; alguns fazem a gente estúpida e entorpecida, outros embeüedam e envenenam, uns causam.convulsões, outros som- — 139 — dade da substancia, é mister que seja dissolvida na bocea, e posta em: contaoto com a lingua para se poder appreciar de vidamente. «eilexões phllosophlcas do eonde de Oxeii*firii-r sobre o gosto. E' o gosto filho bastardo dá imaginação e tem muitos pães, por isso se diz : gustibúsnon e'st disputabahdiim. Sua viven- da está na lingua, os dentes são os seus visinhos» e todos os rendimentos do estômago pagam ós direitos de alfândega pas sando pelas suas terras. SerVem-Ihe de nordeste ós suspiros deamor, e os arrotos de cruéis tempestades. Os manjares delicados são seus lispngeiros, e amedicina o desespera. E' naturalmente inimigo da saúde, e só em doenças é liberal. Assim fornece ao medico com que subsistir, e consigna um lugar de renda aos boticários as partes do corpo que só ser- no, outros vigília, etc. Os cheiros fétidos tornam a si de suas syncopes as mulheres bystericas; o vapor do arsênico é muitas vezes mortal, e delle morreo o chimico Dippél. As communicações nervosas do gráo sympathico com a membrana pituitariá são a origem dos espirros que causa o tabaco, a euforbia, etc. Da mesma causa nascem outros mui tos effeitos na economia animal. Também é muito notável- a grande correlação que tem o olfacto com os órgãos generativos pelo quanto interessa, excita e embriaga a imaginação. Do conhecimento desta co- relaçãose têm aproveitado miütas pessoas para formarem certas com posições odoriferas que por sua sympathia ou aniipathia, pretendem attrahir ou repulsar as affeições de outras, as quaes composições sym-S thicas, ainda que não tenham toda a virtude que se lhe attrih/ie. _ acorrem para a damnificação da pureza de costumes, e por isso me recem ser punidos seus compositores, que entre o vulgo passam por feiticeiros. A actividade do cheiro depende muito da sensibilidade do systema nervoso; e esta é a razão porque os homens melancólicos e neryoso?, e as mulheres delicadas têm o sentido do cheiro muito exaltado. Uns e outras experimentam sabores, e sentem cheiros puramente imgina- rios; bem como se sentem muitas vezes zumbidos nas orelhas, ou il- lusões na vista. Póde-se finalmente considerar este e os precedentes sentidos como partes integrantes do sentido do tacto. O mais geral de todos os sentidos é certamente o tacto, pois delle nenhum animal é de todo privado; parece ser o sentido primitivo e o fundamento próprio que dá a conhecer a animalidade; por quanto a essência desta depende totalmente da faculdade de sentir, por uma ou por muitas e modificadas fôrmas, o contacto dos corpos externos sobre pelle. O ser mais ou menos abundante a diffusão dos grupos nervosos na — t*0 — vero ajoelhadas. E' o mais ornei inimigo do estômago, «oi effeitos da sua brutalidade vão até á parte mais baixa do ventre. Muitas vezes escreve o passaporte para o outro inun do, e a morte não faz mais que essignal-o. O guloso é o in tendente das rendas,e 9 bêbado o mata^com os mais bene fícios que lhe faz. E'um dos primeiros ministros do demônio e paga muitos tributos ao inferno. Dá muitas vezes, em re- compensa 'a seus validos, o hospital neste mundo, e a sem queridos uma Indigencia eterna no outro. Esta moralidade disfarçada pôde mui bem servir de guia para os que ignoram os elementos! da sobriedade. na boeca. A bocea, igual prodigíoj órgão primeiro, Onde recebe a ma china o sustento Ondo se fôrma a voz que exalta o homem Canal pasmoso dos conceitos d'alma! MACKDO M. pelle, a maior ©a menor delicadeza desta, sua maior ou menor flexibi lidade produz diversos gráos de perfeição, e diversos modos de sen sação em cada animal. O mesmo interior do Corpo não é privado deste sentido, quando os órgãos nelle estão em um estado de excitaçSo onde sensibilidade, como soecede em algumas doenças. Além disso, a dor e o prazer, a fome, a sede, a fartura, etc, são espécies de tactos, ou, para melhor dizer, sensações que podemos referir ao mesmo gênero. A dureza e a molleza do3 corpos, suas superfícies lizas ou desiguaes, a humidadee a seccura,o calor e o frio, a mobilidade e a immobill- dade,a compressão, a percução.a configuração, eis aqui os objecto» principaes do tacto. Todas estas qualidades dos corpos que nos cercam só je consideram taes a nosso respeito; pois que uma cousa que para. os nossos órgãos é branda, porque facilmente lhes cede, & dura pav órgãos mais débeis que os nossos. Não são por conseguinte as sensa ções senão congruencias variáveis segundo as qualidades dos órgãos dos animaes. A um calor menor que o do nosso corpo chamamos frio; mas é evidente que este gráo de frio ha de ser ainda calor para os animaes muito frios. O tacto varia segundo as diversas parles do corpo. O tacto da mio é muito mais perfeito que o de muitos outros órgãos; o tatto dos beiços não é semelhante ao dos bicos dos peitos: as cócegas das ilhargas, das solas dos pés e das ventas, as litílações, as comichões, differem umas das outras, e todas diversificam da sensação viva dos órgãos sexuaes. A lingua também sente o contacto dos corpos, além de seu gosto; o tacto do» olhos é mui sensível, o do meato das orelhas também é multo vivo, e diflere das outras espécies de tactos. As linhas da pelle interior das mãos mostram a disposição das pa pillas ou eminências nervosas. Para melhor sentir é preciso que os ner vos se inchem e se dilatem: disto se observa um admirável exemplo no — 141 — Eis-me chegado, diz Herder, á parle inferior do rosto hu mano, rodeada pela natureza de uma nuvem nos homens, e com razão sem duvida. E' aqui que se desenvolvem os traços da sensibilidade que convém occultar. Todos sabem quanlo o lábio superior caracter!sa o gosto, a inclinação, o appelite e o sentimento do amor, que o or gulho e a cólera o curvam; que a astucia o guia;que a bonr dadc o arredonda; que a libertinagem o abate e desbota; que o amor e o desejo a e!le se ligam por um attractivo inexpli cável. O uso do lábio inferior serve-lhe de apoio. Nada mais articulado no homem que o lábio superior no lugar em que leixa a bocea. O arranjo dos dentes e a confor mação das laces, é ainda de maior importância para o obser vador. Uma bocea delicada e pura é uma das mais bellas re- Cüuimendações; a belleza do portal annuncia a dignidade do que deve por ahi passar; é a voz interprete do coração e da. sentido do gosto, que não é mais que uma espécie de tacto; porque é necessaiio que o órgão se disperte, se estimule, e se adiante paia tac- tear, sem a qual preparação é impossível que elle sinta, por quanto é preciso que se estabeleça uma relação entre o órgão que sente e o cor po sentido. Quanto mais ligeira é a sensação, tanto mais exaltada deve ser a sensibilidade para a percebei'. A perfeição do tacto depende tam bém da facilidade dos órgãos em apalpar os objectos em lodo o senti do: eis aqui a razão porque as mãos do homem e seus dedos flexíveis, são instrumentos tão importantes, e lhe dão tão grande superioridade sobre os animaes. Parece que as funeções do tacto servem principalmente para rectili- c«*os erros dos outros sentidos; pois que a vista e o ouvido estão su jemos a enganarem-se, por não teieni relações senão com objectos dis tantes; eis aqui a razjo poique o tacto aclivo depende da vontade; com elTeito, era necessário para qualquer se assegurar das eousas, que a alma tivesse á sua disposição uni sentido seguro que firmasse os seus juízos. O tacto é este sentido refiexi\o e philosophico, que dos objectos nos dá as noções mais certas. O gosto e o cheiro são, rigorosamente fallando, umas espécies de tactos; um é o tacto das moléculas do sa bor, o outro das partículas odoriíeras. Se melhor quizermos saber quaes são os uteis e grandes effeitos da tacto, perguntcmol-o ao Universo; consideremos esses immensosglo- oos que a mão do homem, aju;lada do compasso e da regua por elle inventados, hoje sabe medii; perguntcmol-o á terra que elle áia c. albrmosea; ás artes que elle inventa e aperfeiçoa; pergunuinol-o final mente ao amor pbysico, chamado por liuffon, com sua costumada rnergia, sexto sentido, e conheceremos sua- <'i< ollencia, e a precisa •Jl anca dos sentidos do homem. T«\l. 11. 10 — 142 — alim, expressão da verdade, da amizade e dos mais temo* sentimentos. O lábio inferior começa já a formar o mento, eo osso maxillar que desce dos dous lábios o termina. Como elle arredonda toda a elipse do semblante, pôde ser tomado pela chave da abobada do edifício Para corresponder á bela proporção dos Gregos, não deve ser pontudo nem cavado, porém unido, e sua descida deve ser insensivelmente suave. Degerlpção anatomico-iiliyslologica da Iioeea. A bocea é a maior abertura que existe no roslo, e é for mada pelos lábios reunidos nas comissuras: a sua cavidade superiormente está limitada na abobada palalina, formada pelos ossos palatinos e maxillares, e forrada pela membrana mucosa que forra estas parles: infeiiormenle serve-lho de pavimento a lingua-, anteriormente as arcadas dentárias; lateralmente as bochechas, e posteriormente o véo do pala- dar, cuja extremidade livre fôrma a uvula (vulgo campai nha), e terminado aos lados por duascolumuas carnosas ou pilares, enlre os quaes existe um grupo de folliculos niuco- sos, denominados glândulas amygdalas. A bocea, entrando no apparelho da digestão, mais adianto fallaremos dos seus prestimos a este respeito, emquanlo aqui a encaramos sobas vistas physiologicas, physionomicaí e philosophicas. Flaysionon.ia da bocea e doa lablo», por Lavater. A bocea éo interprete e o representante do espírito e do coração; em seu estado de repouso e na variedade infinita de seus movimentos, ella reúne um mundo de caracteres: é eloqüente até em seu silencio. Se o homem sentisse a dignidade de sua bocea, não proferiria senão palavras divi nas, e estas sanlificariam suas acções.-. A bocea é a sede da sabedoria e da loucura, da força e da fraqueza, da virtudec do vicio, da grosseria e da delicadeza do espirito; a sédc do amor e do ódio, da sinceridade e da falsidade, da humildade ^- 143 — e do orgulho, da dissimulação e da verdade... Ha enlre os lábios e o caracter do indivíduo, uma perfeila relação; quer sejam firmes, quer moles e moveis, sempre o caracter é de tempera análoga. Lábios grossos, bem pronunciados e bem proporcionados, quede ambos os lados apresentam a linha mediana bem sa liente efácil de reproduzir nodesenho, são incompatíveis com a baixeza-, elles também repugnam a falsidade e a maldade; porém ás vezes elles se approximam á voluptuosidade. Uma bocea apertada, que corta em linha recta,eonde a borda dos lábios não apparece, é indicio certo de sangue frio, de espirito applicado, amigo da ordem, da exnctidáo e da propriedade. Se ella ao mesmo tempo regaça pelas duas extremidades, promette um fundo de affectação. de preten- ção e de vaidade, e talvez também um pouco de malícia, re sultado ordinário da frivolidade. Lábios carnudos lèm sempre de combater com a sensuali dade e a preguiça. As boceas que são trombudas e mui pro nunciadas, inclinam-se á timidez e á avareza. Quando a bocea se fecha brandamente e sem esforço, e que o desenho é correcto, indica caracter firme, reflectido e judicioso. Um lábio superior, que excede um pouco, é igualmente o signal distinetivo de bondade; e com isto não se quer dizer absolutamente que essa qualidade não pertença ao lábio in ferior que avança; mas neste caso espera-se antes fria e sin cera bonhomia, do que um sentimento de viva ternura. Um lábio inferior cavado no meio, é próprio dos espíritos Loviaes. Reparae com altenção para um indivíduo alegre, no *iomenlo em que vae fazer uma graça, e vereis sempre no centro de seu lábio uma aberta ou cova um pouco ligeira. Uma bocea bem fechada, se todavia não éaffectadae pon- tuda, annuncia coragem, e mesmo nas oceasiões que se trata deprovocal-a, mesmo ás pessoas que lèm o habito de a con servar aberta, ordinariamente a fecham. Uma bocea aberta é queixosa; uma fechada soffre com paciência. A bocea ó a parle do semblante que marca mais particularmente os mo vimentos do coração. Quando a alma soffre, a bocea abaixa- se pelos cantos; quando ella está satisfeita, os cantos se er guem; quando sente aversão, a bocea avança para diante, e eleva-se pelo meio. A parte carnosa que cobre a fileira superior dos dentes, — 14-4 — e que conduz ao lábio propriamente dito, não tem nanir, próprio, pelo mencs que se tenha escriplo, a não ser a dobra da mucosa boccal. Se ella é alongada, mais o lábio se relrahe, e neste caso ella é largo e arqueada, o inlervallo que o separa do nariz é curto e concavo: nova prova da conformidade das feições do rosto. Pliysionomia moral da bocea, por Salomão. Remove de ti a bocea maligna, e estejam longo de ti os lábios que detrahem. Os lábios da meretriz são como o favo que deslilla mel, e a sua garganta é mais lustrosa do que o azeite. Filho meu, se ficares por fiador do teu amigo, deste por elle atua mão a um estranho, com as palavras da tua bocea tcmcUeste no laço e ficasle preso pelas tuas próprias expressões. O homem apóstata éum homem inútil, caminha com bocea perversa; elle faz signaes com os olhos, bate com o pé, falia com os dedos, com depravado coração machina o mal, e em todo o tempo semeia distúrbios. As palavras dos ímpios armam traições, a fim de verter sangue: a borra dos justos será a que os livre. O lábio da verdade será sempre constante; mas a testemunha que é inconsiderada, urde uma linguagem de mentira. Os lábios mentirosos são abomina- çfes para o senhor-, mas os que obram fielmente lhe agradam. As palavras compostas são um favo de mel; a doçura da alma é a saúde dos ossos. As palavras sahem da bocea do va rão como uma água profunda, c a fonte da sabedoria é com a torrente que transborda-, os lábios do insensato metlem-se em disputas, e a sua bocea provoca as contendas. A bocea do insensato ferc-o a elle mesmo, e os seus lábios são a rui na da sua alma. As palavras do homem de lingua dobre pare cem singellas, mas ellas penetram até o intimo das entra nhas. Melhor é o pobre, que anda na sua simplicidade, do que o rico torcendo os seus beiços e sendo insensato. A testemunha iniqua faz zombaria da justiça, e a bocea dos ímpios devora a iniqüidade (1). (!) Prov. Cap. li.", V. 1h. Cap. 6.% V. 3.° Cap. autores do temp >, ou dos havidos por clássico» neste gênero. (jm/Kliano diz tudo n'uma palavra, denominando-* conformidade de tallar entre os homens eruditos. A este uso competem nnicamente as propriedades que inailcani os termos de Horacio, cuja intelligencia co. vém distinguir com o abbade Batleux, para que se não presuma serem todos synonimos. Quando ha contestação em ponto» de linguagem o uso é quem decide, arbürium. Quando* é preciso cortar com autoridade, com razão, ou ainda contra a mesma razão, o uso te» — 149 — Notemos finalmente que os differentes actos que se refe rem ás palavras, são o discurso, o silencio, a verdade, a fal sidade, o fingimento, a dissimulação, etc. Toma-se aquiaver- dátfe pela conformidade de nossas palavras com os nossos pen samentos; e a falsidade ao contrario pela conformidade ou opposição de uns eem os outros. Convém que se não confun- da também a verdade com a falsidade de que se trata, coma para isto direito e jus. Quando 6 preciso fazer leis ou derogal-as, ao uso toca fazel-as ou derogal-as, elle mesmo é a lei. Norma loquen- di(*). (*) DA MUSICA. Na origem das línguas a prosódia, diz o marquez de Forlia, sendo muito variada, as inflexões da voz erão-lhe naluraes. O acaso não podia pois deixar de ahi levar ás vezes passagens, que lisongeassem o ouvido-, iiotou-sc-as e formou-se o habito de rcpetil-as. Tal é a primeira idéa, que se teve da me lodia. A ordem diatonica, queremos fallar d3quella em que os sons se suceedem por tons e por semi-tons, parece hoje tão natural, que se julgaria que ella foi a primeira conhecida; porém se acharmos sons, cujas relações são muito mais sensíveis, teremos direito de concluir, que a sensação nella ha sido notada antes. Pois que está demonstrado que a progressão pela terceira, pela quinta, a pela oitava, tendem immedialamente ao principio donde a harmonia se origina, isto é, a resonancia dos corpos sonoros; e que a ordem diatonica se forma dessa progressão ; segue-se, por conseqüência, que devemos ser mais na sue- cessão, que na ordem diatonica. Esta, alongando-se do principio da harmonia, não pôde conservar relações entre si, senão cm quanto lhe são transmit- tidas pela suecessão, que o forma. Por exemplo, ré, na ordem diatonica, só está ligado ao dó, porque dó ré, c produzido pela progressão de dó sol, e a ligação destes últimos sons, nasce da harmonia dos corpos sonoros de que fazem parte. O-ouvido confirma este raciocínio, por que senle melhora concordância dos iíés dó mi sol dó, que a dos sons dó ré mi fa. Os intervallos harmônicos têm p/s sido notados em primeiro lugar. Ainda ha aqui progressos que observar; porque os sons harmônicos formam intervallos mais ou menos fáceis á entoar, c sendo as concordâncias mais ou menos sensíveis, não é natural que os sons tenham sido percebidos e compre- hendidos logo uns e outros. E* verosimil que só se tenha tido a progressão inteira, dó mi sol dó, depois de muitas experiências. Conhecida essa, fez-se outras pelo mesmo modelo, assim como sol, si, ré, sol. Quanto á ordem diato nica, só foi descoberta pouco a pouco, e depois de muitas apalpadelas, pois que a geração só foi ensinada em 1712 por Rameau. Os primeiros progressos desta arte, foram pois frueto de longa experiência. Multiplicaram-se tanto os princípios, que senão tem conhecido os verdadeiros. Rameau foi o primeiro, que descobrio a origem de toda a harmonia na resonan cia dos corpos sonoros, e que baseou a theoria desta arte, em um só principio. Os Gregos, cuja musica é tão gavada, não conheciam mais que os Romanos, a composição de muitas partes. Entre tanto, & verosimil, que elles tivessem execu tado algumas consonâncias, que o acaso os tivesse feito notar ferindo ao mesmo tempo duas cordas de uni instrumento, dcllas sentissem a harmonia. TOM. II. 20 — 150 — verdade c falsidade lógica, porque estas consistem na confor midade de nossas idéas com a natureza e estado das eousas. Apôs estas reflexões geraes sobre a natureza, uso, e pro priedade das palavras, para fazer-se uma idéa justa de nos sos deveres a este respeito, é preciso notar primeiramente o bom ou máo uso da palavra, c tudo o que nisso podo haver de bom ou de máo, de louvável ou de inconsiderado. Tendo sido os progressos da musica tão lentos, muito tempo se estevosem cuidar em scparal-a das palavras; teria parecido totalmente despida do ex pressão. Além disso, a prosódia tendo apossado-se dos tons, que a voz poda forma#f^«r*eiwM^H!"sWWnTBll]õ oecasíao dé hóTüRW harmonia, era natu ral que a musica só fosse encarada como arte, que podia dar mais graça ou. mais força aos discursos. Eis a origem do prejuízo dos antigos, em não quere rem sepaial-a das palavras. Ella foi, pouco mais ou menos, a respeito daqucl- les, entre os quaes nasceo, o que é a declamação, em relação a nós ; ella ensi nava a regrar a voz. o que antes era conduzido ao acaso Devia parecer tão ri dículo separar o canto das palavras, como hoje separar de nossas os sons do nossa declamação.. DO CANTO SEPARADO DAS PALAVRAS. Pouco a pouco a musica se aperfeiçoou : insensiveltncnle consoguio igua lar-se á expressão das palavras: depois tentou excedei a. Foi então, que se podo perceber, que ella por si mesma era susceptível de muita expressão. Scparal-o das palavras, não pareceu mais ridículo. A expressão,que os sons tinham na pro sódia, que participava do canto, a que tinham na declamação que era cantada, prepararam a que elles diziam ser quando fossem ouvidos sós. Duas razões as- scguiaram o suecesso para os que, com algum talento, se ensaiaram nesse no vo gênero de musica. A primeira era, que sem duvida elles escolheriam pas sagens, que pelo uso da declamação estavam acostumados á ligarem certa ox- pressão.ou que pelo menos, as imaginavam semelhantes. A segunda era, a admi ração que, por sua novidade, não podia essa musica deitar de produzir. Quanto mais surppresos ficavam, mais deviam-se entregar á impícssão, que cila podia oceasionar. Também viam-se os que erão menos difliceis de commover pau» rem da alegria á tristeza suecessivamente, e mesmo ao furor pela força k sons. A esta vista, outros, que não teriam sido abalados, quasi, que igualmente o foram. Os effeitos dessa musica tornaram-se o assumpto das conversações, a imaginação esquentava-se só com o que ouvia cantar. Cada qual a queria jul gar por si mesmo; e os homens commumenle gostando de ver confirmar as COQ- sas extraordinárias, vinham ouvir essa, com as mais favoráveis disposições. Ella repelio pois muitas vezes, os mesmos milagres. Hoje nossa prosódia e nossa declamação estão bem longe de produzir 0 ef feito que nossa musica deveria produzir.O Canto para nós, é uma linguagem tio familiar, como era para os antigos: e a musica separada das palavras, já nlo tem esse ar de novidade, que tanto pôde sobre a imaginação. Além disso, n» o«- casião da sua execução, conservamos todo o sangue frio, de que somos capazes, não ajudamos ao musico á no3 commover, e os sentimentos, que experimenta mos, são devidos unicamente á acção dos sons sobre o ouvido. Os sentimento» da alma, são ordinariamente tão fracos quando a imaginação por si mesma reage sobre os sentidos, que não deve surpreender, que a nossa musica não produza effeitos tão espantosos, como os dos antigos. Era necessário para julgar de seu rodcr,e\ccu ar delia pedaços diante de homens cheios de muita imaginação, — 151 — Filynlo Elysio, reconhecendo a importância da palavra, impõe aos poetas os preceitos seguintes: Contempla que nasceo o homem sugeilo A muitos estos revoltosos, torvos; Que ora a cobiça, o.ufora a mágoa o vence, Que este confia, aquelle desespera: A alegria ao mancebo instiga a dansas: para quo ella adquirisse o mérito da novidade, e que a declamação, feita depois de uma prosódia, que participasse do canto, fosse mesmo cantada Esta expe riência seria inútil, se estivéssemos tão dispostos á admirar o que está em nossa alçada, assim como estamos, com quem está longe de nós. 0 canto feito para as palavras é hoje tão differente de nossa pronunciação ordinária c de nossa declamação, que a imaginação com difficuldade se presta á illusão de nossas tragédias postas em musica. De outro lado'os Gregos eram mais sensíveis qoe nós, por que tinham a imaginação mais viva. Finalmente, os músicos escolhiam os momentos mais favoráveis, para commovel-os. Ale xandre, por exemplo, estava á mesa, como nota Burette, e provavelmente es quentado pelas fumaças Ho vinho, quando uma musica própria a inspirar furor, fel-o tomar as armas. E' verdade que temos soldados, que fariam outro tanto só ao ruído dos tambores c das cometas. Não julguemos pois a musica dos an tigos pelos effeitos que lhe são attribuidos, mas sim pelos instrumentos de que usavam, e não será fora de propósito, a presumpção de que ella deveria ser inferior á nossa. Pode-se observar, que a musica separada das palavras, foi preparada entre os Gregos, por progressos semelhantes áquelles á que os Romanos devem a arte das pantomimas, e que essas duas artes causaram, em sua nascença, a mesma sorpreza entre os dous povos, e produziram effeitos igualmente mara vilhosos. Esta conformidade parece coriosa, e confirma as conjecturas prece dentes. É sabido que os Gregos tinham a imaginação mais viva que os demais povos; a verdadeira razão dessa differença não deve só ser attribiiida ao clima. Sup- pondo-se que o da Grécia conservou-se sempre tal qual era, a imaginação de seus habitantes devia pouco enfraquecer-se. Ver-se-ha pelo que se segue, que lào é um effeito natural das mudanças que se deram nas línguas. A imaginação obra mais vivamente nos homens que não têm ainda uso dos signaes de instituição; por conseqüência a linguagem da acção, sendo imme- «liata obra da imaginação, deve ter mais fogo. Na verdade, para os que como ellasefamiliarisam, um só gesto eqüivale muitas vezes a uma longa phrase. Pela mesma razão os idiomas feitos pelo modelo dessa linguagem, devem ser mais vivos: e os outros devem perder de sua vivacidade, á proporção que mais se alongam desse modelo, delle conservam menos caracter. Ora, o que temos dito sobre a prosódia mostra que, por esse lado a linguagem grega ressente-se, mais que nenhuma outra, das influencias da linguagem da acção, e as inversões, que habitualmente nella se encontram, provam que i.ão são esses os únicos de feitos dessa influencia. Essa linguagem era muito própria,para exercera ima- ginação.Ao contrario, a nossa é tão simples em sua construcç.ão, c em sua pro sódia, que quasi que só exige o exercício da memória. Nós nos contentamos, quando falíamos das eousas, lembrar os signaes; e raramente despertamos- lhe as idéas. Assim, a imaginação mais vezes exercitada, torna-se natural mente mais difícil de commover. Devemos pois ser menos vivos que os Gregos. t — 152 — O deleite requebra o rosto ameno De quem do amado bem logrou o agrado. A triste dor quebranta o vivo lume No esmorecido olhar. Quando um prospera, Outro calie da roda derribado: Um periga, quando outro em salva praia Corre afouto a abraçar-se co'a columna De segurança. Almeno senlc as püas A prevenção pelo costume tem sido, em todos os tempos, um obstáculo ao progresso das artes; a musica principalmente se ha disso ressentido. A La- cedemonia, onde Licurgo juntou a musica aos exercícios militares, não era permiltido fazer mudança alguma á musica antiga. Aconteceo que Terpandro, o melhor tocador de lyra do seu tempo, exe.ellente na arte de celebrar as acções heróicas, ainda que muito instruído nos usos antigos, aecrcscenlasjc uma corda á lyra, para variar os sons. Os Ephoros conilcmnaram essa novidade, e pregaram sua lyra a um muro; tão ligados estavam á simplicidade dos acordes! O musico Timolheo tendo ac- crescenlado duas cordas á sua lyra, quando disputou o prêmio nos jogos Car- neanos, um dos Ephoros veio com uma faca na mão perguntar-lhe de que lado queria que fossem cortadas as cordas, que excediam áo numero do sete. Vê-se por estes factos a importância que os antigos davam á musica, ao canto e mesmo aos instrumentos. Esses signaes de instituição eram destinados a aperfeiçoar o primeiro de todos, que era a linguagem. Porém ambos, não bastavam para conservar a memória dos acontecimentos passados. A escrip- tura era absolutamente necessária, não só para a historia, como para a com posição de todas as obras cm qué o conhecimento dos factos era indispensável, e por conseqüência para a composição dos poemas épicos. DA ESCIUPTURA DOS SONS. (Segundo o Marquea de Fortia.) Emquanto a escriptura dos pensamentos esteve só em uso, o animal, ou cousa, que serve paia representar as idéas, desenhava-se ao natural. Maslob que o estudo da philosophia, que foi causa da escripturação symbolica, levm os sábios do Egypto a escreverem sobre diversos assumptos, esse desenho exacto multiplicando muitos volumes pareceo insupportavel. Gradualmente se foram servindo de outro caracter, que podemos chamar escripturação corrente de hyerogüphos. Assemelhavam-se aos caracteres chinezes; e depois de terem sidoformados primeiramente de um só contorno da figura, tornou-se ao depois uma espécie de marca. O effeito que produzio essa escripturação intelligivel foi d iminuir muito a attenção que se dava aos symbolos e de fixar sobre a cousa significada. Por essemeio tornou-se a escripturação symbolica resumida, não tendo outra cousa que fazer senão a recordar o poder do signal syrnbolico; no entanto que antes era preciso estar instruído das propriedades da cousa ou do animal, que era empregado como symbolo. Em uma palavra, isso reduzio essa espécie de escríplura ao estado em que presentemente está a dos Chinezes. Estes caracteres tendo soffrido tantas variações, não era fácil conhecer como elles provinham de uma simples escriptura, que não tinha sido mais que uma simples pintura. Por isso é que alguns sábios hão caindo no erro de acreditar, que a escriptura dos Chinezes, não começou como a dos Egypcios. — 453 — Do rigor do desdém da sua Filis Espinhar-lhe as entranhas dolorosas; Emquanto Elio assustado acanha os membros? È todo se encolhera n'uma cifra Por esconder-se ao malfeitor phantasma Que elle a si próprio ergueo na eivada mente Jaz estirado em tormentoso equleo, Quebrado a tratòsfdo ódio e da vingança Eis a historia geral da escriptura conduzida por simples gradação desde o estado da pintura até ao da letra; porque as letras são os últimos passos que restam & fazer depois das marcas chinezas, que por um lado participavam da natureza dos hyerogliphos egypcianos, e pelo outro das letras, precisamente do mesmo modo, que os hyerogliphos participavam das pinturas mechànicas e dos caracteres chinezes. Esses caracteres estão tão visinhos de nossa escriptura, que umalphabeto diminue simplesmente o embaraço de seu numero, do qual éum resumo suecinto. A difficuldade de exprimir uma infinidade de pensa mentos intelleetuaes e metaphysicos, fez inventar a escriptura dos sons. Em vez de uma infinidade de traços e de caracteres, que isolados tinham um sen tido determinado muito extenso, reduziram-se a vinte e quatro signaes, pouco mais ou munos, aos quaes se deo um som de convenção; depois, por diversas reuniões e differentes combinações desses caracteres sonoros approximados, formaram-se primeiramente palavras equivocas ou monosyllabieas,' por tanto por si mesmas expressivas; porém, que foram ao depois raizes de outras muitas palavras compostas desses monosvllabos. Serviram umas e outras, para repre sentar os pensamentos e differençal-os segundo seu gráo de semelhança, de analogia, ou de desemelhança. Tal tem sido a marcha gradual do espirito hu mano, na invenção da escripturação. Experimentamos algum custo para comprehender bem esta ultima invenção naquellas de nossas línguas, que nisso perderam vantagens, por serem deriva das do latim. Se a lingua franceza é preferível ás outras por causa de sua clare za, de sua precisão, ede sna elegância, diz muito bem um autor mod,erno,ainda que Allemão (Schoel): « Se a lingua hespanhola e portugueza; distingue-se por sua pompa e magnificência, e a italiaua por sua harmonia, a lingua allemã ou teutonica, tem ura caracter que lhe éqiroprio. e que, nesse ponto, a colloca a •ma de todas as línguas, que se derivam da latina. Nestas ultimas, todas as pa - lavras parecem ter recebido do acaso ou do capricho daquelles; que primeiro as empregaram á significação que lhes é própria, de modo, que para o vulgo, que não sabe latim, não existe outra razão senão o aca5o, para .que a palavra revolução, por exemplo, seja destinada á exprimir o movimento de um planeta, em preferencia á palavra contribuição. Não acontecia o mesmo com o Romano, a quem fomos pedir estes termos. A' medida que pronunciavam as palavras te-volu-ção e contribui-ção, cada uma destas syllabas fazia nascer na alma de quem as ouvia uma idéa particular, ainda que imperfeita, e a reunião des sas idéas, por assim dizer parciaes, formava a idéa perfeita e composta, que devia ser exprimida. Assim re-volu-pào, significava uma acção (pão), pela qual um certo objecto fazia um movimento de rotação (volu), pelo meio do qual tornava a vir ao ponto donde tinha partido (re). Con-tribui-ção expri mia a idéa de unia ácçãc-(cão), pela qual muitos se reuniam (con) para toma rem parte em certo dispendio (tribui). Póde-se consultar sobre estas etimolo gias um diecionario latino-inglez, com o titulo de Stennata lalinitatis (por Nicoláo Salmon). As duas origens de que acabamos de fallar referem-se as palavras volvo e tribus, donde cilas se derivam. — 15A — Esse altivo que um gesto, uma palavra Mal julgada accendeo em cbannnas de ira. Cuidas que não tem sempre a mente abertas As portas ao tropel das infinitas Variadas pinturas ou chymeras, Que indefessa a imaginação lhe arroja? O colorido da fileira immensa De quadros que offerece nesses homens O nascimento, a compleição, a plana, As companhias» hábitos, usanças, São exercício, são liberta alçada Do pincel dos poetas, a quem coube Abranger c'os seus braços alentados Quanta apparencia ostenta esse universo, E o que a nossa alma no seu peito encerra. Vê-se ahi lingua tão valente e rica Que acuda com palavras ajustadas A* descripçao, clareza e louçania De que um vate carece quando as pinta! Sejam pois teus estudos e ousadias Enriquecer a lingua, que te valha Quando avivas com rasgos eloqüentes Quanto na alma arrojado debuxaste. Alli estauca a força, abarca os meios De dar valia ás vis, ennobrecendo-as Co lugar em que as pões: (lidado emprego!) Tecer, co'as de bom uso, na urdidura, Beclaraadas antigas; com bons laços Duas encadeiar, que uma componham, Forjar novas, enérgicas, sonoras, Com que agrados, te louvem e te admirem: Sejas vergel, jardim, cora fruetos, flores, Estas vistosas, suceulentos esses Com que brindes, contentes (4) gosto e vista Dos que cheguem a ver o teu cultivo. Qae enfeite e gala não recebe a lingua Quando são per mão sábia collocadas Compostas (2) que nos forram largas prosas, (i) Satisfaças, recrees. (2) Palavras compostas. — I6f> — E que dão novidade, e dão deleite A quem lhes sabe dar o apreço e estima. Tão peco é o Camões quando descreve Do estellifero pólo os moradores, E a belligera gente! E' despiciendo O Garção, o Diniz, quando com duas Já conhecidas vozes compõe uma Imitando Camões e antigos vateâ? Que bem pintott Alieno, alumno destes, O carro que briosos Tão tirando Os auriverdes bipedes cavallos! (1) Do a.iparcllio «Ia digestão. Este apparelho existe, não somente no homem e nos flnf' mães qne lhe são inferiores, como nos vegetaes; com effeito (1) A primeira regrar geral sobre essa matéria é que o uso que fi zemos da palavra não deve jamais e de modo algum ser opposto ao que devemos a Deos, a nós mesmos e aos nossos semelhantes. Para, qualquer detalhe é preciso estabelecer por segunda regra em que, todas as vezes que a religião ou o respeito que devemos a Deos exige que falletnos ou que guardemos silencia, tornem-se para nós em ambos os casos deveres indispensáveis. Convém fallar sempre de Deos com soberano respeito e com summa circumspecção. Quando se falia a Deos, dirigindo-se directamente a ELLE, è preciso dizer sempre a verdade e observar a mais perfeita sinceridade. A causa por si mesma é clara, e essa tegra não pôde receber limi tação alguma. Não só haveria extrema irreverência em usar para com ftlos da menor dissimulação, como seria ainda uma grandíssima extra- •«gancia querer enganar Aquelle cujo conhecimento é sem limites, e que para certificar-se de nossos sentimentos e dé nossos pensamentos mais secretos não necessita ser instruído por nossa bocea. A palavra tem também alguma relação comnosco, por isso que não uos foi dada só em favor dos outros homens, porém também qus por meio delia possamos procurar-nos as vantagens e as doçuras que a so- fcedade nos apresenta, com tanto que isso de modo algum seja op posto á gloria de Deos e nem também ás leis da justiça e da humani dade. E' de nosso dever por nós mesmos guardarmos silencio ou faltarmos seguindo sempre as regras da prudência, quer por nossa conservação ou por nossa defesa, quer por nos procurar qualquer vantagem inno- ceute e legitima. Quando falíamos por nós mesmos, a lei natural exige que digamos a verdade. E' comtudo bem permiui*), c algumas vezes mesmo é de ver nosso, occullarmos certas cousãs que nos dizem respeito, c que na- — 156 — cm todos os seres viventes se encontra uma superfície desti nada á absorção das substancias alimentares, collocados umas vezes no exterior, outras no interior. No homem, quVfiy especialmente o objecto de nossas indagações, todos os plic- nomenos da digestão se passam no transito de um canal que se estende da bocea ao ânus: este canal fi uniforme, e apre senta grandes e numerosas differenças que convém mencio nar. Sua entrada estreita alarga-se logo para formar uma cavidade, conhecida sob o nome de bocea, que faz parte da face, cujas partes anteriores e lateraes são circumscriptas pelos lábios reunidos nas comissuras e bochechas, lateral mente, guarnecidas interiormente pelos dentes, pela abobada palatina, e pela uvula,que termina em dons pilares, entre os quaes estão as glândulas amygdalas. Nesta mesma cavi- de se acha ainda a lingua, formando o seu pavimento infe- da interessam aos outros, porém nunca alterar a verdade. De outra fôrma toda a crença se perderia, e longe de haver vantagem cm fallar, essa astucia se tornaria inteiramente cm prejuízo daquelle que a em pregasse. Se nessa regra ha algumas excepções, só podem ser muito raras c somente em caso de extrema necessidade. E como o amor próprio po deria seduzir por mil illusões e fazer-nos esperar a permissão bem fora do caso, em que ella poderia ser applicada, firmar-se com torça na regra e ser sempre sincero. Emquanto ao que é do uso da palavra, em relação aos outros ho mens, eis o que de nós exige a sociabilidade. . Devemos guardar inviolável silencio em matéria de cousa que pódc prejudicar a outrem, quer em sua pessoa, quer cm seus bens ou cm sua reputação. Ha verdades que devemos calar; sendo-nos a faculdade da palavy dada para o bem commum da sociedade, seria sem duvida abusar cri minosamente, servindo-nos delia em prejuízo dos outros homens. Assim, é defendido por lei natural dizer-se do próximo um mal ver dadeiro; porém, sem necessidade, chama-se a isso maledicencia.; Com mais forte razão devemos guardar os segredos que se nos con fiam, quanto todavia não demos de mão a deveres mais es senciaes e de que nos não seja possível dispensar-nos. O fim do segredo está em calar a verdade. E devemos calar todas aquella» que nos sao confiadas sobre esse ponto e essa condição. Pode-se confessar a intenção daquelle que nos fez uma confidencia por duas maneiras: primeiro, se declara formalmente que não é sob a condição de segre do que comnosco se explica; segundo, pela natureza mesmo das eou sas que se nos confiam quando vemos que sua revelação poderia pre judicaraquelle que nol-as disse ou a outros que não o merecem e a quem devemos acatamento. E' verdade que, se os homens estivessem — 157 — rior para apreciar o alimento ou a substancia que lem de atravessar, c que lhe serve como que de guia em sua entra da : nesta mesma cavidade sahem os orifícios das glândulas salivares por orate passa a saliva que serve para facili tar a trituração das substancias alimentares, humedé- cendo-as, a fim de que ellas atravessem o caminho que tem de percorrer da bocea ao estômago. A bocea, de pois de se ter alargado para conter estes órgãos (os dentes e as aberturas das glândulas salivares e as aroygdalas), se estreita pouco a pouco, e fôrma.o pharynge, lugar de pas sagem, espécie »de vestihuhve toma o nome de esophago, um pouco mais abaixo do meio do pescoço: sua fôrma é de umcylindro alguma cousa achatado. Desoe assim apoiado so bre a columna vertebral, passando por detrás do coração, através do peito, por entre os pilares do dyapl.ragma, até o sempre na disposição em que deviam estar, não querendo jamais senão o que devem querer, raramente haveria segredos na sociedade. Po rém feitos como são, o segredo torna-se uma precaução necessária contra a malignidade do coração, a indiscripção c a fraqueza de espi rito dos outros; c por conseqüência um dever indispensável. O segredo é sobretudo necessário nos grandes pleitos e nos negócios importantes. Mas lambem é verdade que a necessidade dessa precau ção diminue á proporção que as emprezas que se formam são justas e razoavt-is. Em todos os tempos se ha sentido a obrigação e a necessidade de guardar segredo, e que os que commetlem essa falta altrahem sobre si a cólera de Deos e o desprezo dos homens. « O segredo (dizia Hora cio) pede fidelidade, e essa fidelidade não fica sem recompensa. Livrar- «íe-hei de morar debaixo do mesmo tecto, ou de embarcar no mesmo •jivio em que estiver o homem^jue houver revelado os segredos que se lhe hão confiado. » Se devemos guardar silencio todas as vezes que nossos discursas poderem ter alguma cousa opposta aos deveres para com os outros ho mens, devemos ao contrario faliar em todas as oceasiões em que nosso silencio poder ferir esses mesmos deveres. E' deste modo que convém dar conselhos a quem noí-os pede: mostrar o caminho aos que delle se desviam; um soldado de sentinclla deve advertir a approximação do inimigo, etc. li' ainda um dever indispensável observar a verdade em nossos dis cursos e nunca enganar pessoa alguma comas nossas palavras,ou com nenhum outro signal estabelecido para manifestar nossos pensamentos todas as vezes que aquelhs com quem temos de tratar lêem algum direito, perfeito ou imperfeito para exigir de nós, ou tem algum in teresse razoável para saber o que pensamos. A obrigação em que estamos de dizer a verdade funda-se : TOM. II. 21 — 158 — abdômen (onde muda de figura), (crminando-se na válvula cordiaca, e dilalando-se de novo para formar o estômago, grande reservatório, collocado transversalmente no ventre, por baixo e á esquerdo do fígado, semelhante a uma retorta de chimica, ou mesmo a uma gaita de folies. E' nesta parte do tubo digestivo, que os alimentos experimentam a segunda e a mais importante preparação (a cliy mi Reação). O canal alimentar partindo do estômago (1), e formando uma especio de funil ás avessas, marca os limites deste orgao por meio de um annel chamado válvula pylorica; e continua immediata- menle formando oduodeno, lugar onde recebe do fígado a bilis, e do panchreas o humor que é preparado por esta glân dula, que concorrem ahi para a formação do chylo. Conti-* nuando do duodeno o tubo intestinal, fôrma o je dar lhe uma preparação análoga a nosso gosto, e cnlão obedecemos á sua voz com sensuali dade. Ue qualquer espécie que srjam essas produeções, nós as chamamos ali— isento», forque, com effvilo, ellas nnireiu-nos, restabelecem o movimento no ystema nervoso, refazem (cmiazão de sua própria aclividade, e da dos cle- rnenlos de quese compõe) os rccnrsosda macliina que começava a enfraque cer-se e a aluir-se pelas peidas soffiiilas. Comer e bibcr, eis o tributo de todos os homens; é preciso que elles ao menos satisfaçam essa necessidade, de vinte em vinte e quatro hoas, quando não cabem gradualmente cm marasmo, e en caminham-se a uma morto inevitável. Entretanto essa regra não é tão univer sal como a principio parece. üue pensaríamos nós das relações que se nos fizeram das abslinencias obser vados pelos antigos, e daquellas que nos hão conservado as obras, tanto acadê micas como perioiiicas? Que pensaríamos dessa mulher de que falia o 1'ainar- clia Hermolaus, que passava vinte c mesmo Iriüla dias sem comer'? üe um ho mem, segundo refere o mesmo autor, que só viveo do ar durante quarenta annos?Uue diríamos nós do melancólico de Alberto o Grande, que esteve sete semanas sem tomar outra cousa senão água, isso mesmo de dous em dous dias? D'aquella rapariga de Narbone, que, sob o testemunho de Jacques Silvius, que levou, durante tres annos inteiros, a vida mais sadia e tranqüila, sei» cornei- esem bebei? Da Alletnã, que observava a mesma abstinência com o mciwo rigor — 162 — sucessivamente da periferia para o centro da massa ali mentar por camadas concentricas da espessura de uma linha pouco mais. A' medida que uma.camada chymosa é formada, o movimento de peristola (contracçóes) a faz passar pelo py- loro com tanta maior facilidade, quanto menos consistente e mais liquida é a substancia alimentar. Esta camada tendo sabido, o estômago se aperla mais sobre a que era subjacente, a qual estando elaborada do mesmo modo, este mechanismo continua como começou, até que todo o alimento contido no estômago esteja inteiramente chymificado. A chymificação começa a operar-se uma hora e meia de pois da ingestão dos alimentos, e se pôde avaliar a sua du- eo mesmo suecesso? Que diremos dessa outra mulher Allemã, citada por João Bocatius, que no espaço de trinta annos absteve-se de toda a espécie de nutri ção? Daquella filha de um alcaide Palalino. que viveo sete annos sem comer e sem bebei? Com que olhos encararemos essa filha de Spira, de quem falia Jou- bert, que guardou durante Ires annos a mais severa abstinência, e que tornou depois a tomar o uso dos alimentos? Aquella de Commerci, referida pelo ab- bade de Ursperg, que não tomou nutrição alguma no espaço de dous annos e meio? Aqui cila Pogge, que viveo doze annos sem comer c sem beber1 Que juizo faríamos nós de Nicolet de Pallet, que esteve cinco semanas sem absolutamente comer c beber? (Jornal dos Sábios março de 1688/. Daquelle homem encerrado no hospital dos loucos, referido pelo autor da Republica das Letras, que durante quarenta dias e quarenta noites não tomou nutrição alguma? Do Ferquisscn Inglez, que viveo dezoito annos, não usando de outro alimento que água? (Jornal de Inglaterra, 1742.J Finalmente, que idéa faríamos nós dessa rapariga da Diocese de Toul, qi passou vinte e oito mezes sem comer e sem beber, e só tomando cada d um pouco de mel na ponta de uma façca? (Mercúrio, agosto de 1722.) De Jacobson, Escossez, que passava mezes inteiros sem comei? (Transact. Philos., anno de 1120.) Daquella moça observada por Bleguy, c consignada no /ornai de Medicina, que só tomou durante sele semanas, por toda nulrição, um único caldo? Ede muitas oulras observaçõos reunidas na Bibliotheca escolhida de Medicina, que todas confirmam que o homem pôde viver muito tempo sem comer e sem be ber, e ás vezes passar bem apezar dessa rigorosa abstinência. Porque, á vista destes exemplos, não daremos nós fé ao que nos diz d'An- ville, do pontífice do Thibet, ou do Dalai Lama? Só se serve diariamente ao pontífice Tarlaro, diz esse autor, uma onça de farinha desfeita em vinagre, t uma chavena de chá. E" com esse alimento que o pontífice Thibelano, nâo obstante o alto lngar que oecupa, está acostumado a contentar-se. — 163 — ração de 4 á 5 horas para um jantar ou refeição ordi nária. 0 alimento, depois de ter sido assim elaborado no estô mago, chega no duodeno (intestino que começa nopijloro e acaba na extensão de 12 dedos transversos) desta abertura: este novo estômago è notável por suas villusidadcs em sua superfície interna, e por dois orifícios separados, e confun didos algumas vezes, que são a .terminação dos canaes bí- liario e pancreatico (cujo fluido digestivo importa conhecer a formação e os usos). Apiiarellio Mllario. O fígado, a mais considerável de todas as glândulas do corpo, está situado no hypocondrio direito, que o enche, e bem uma parte do epigaslrio, abaixo do diaphragma por cima do estômago, atrás da parede anterior do abdômen (os bypocoudrios são as duas regiões superiores e lateraes do abdômen sob as falsas costellas). Por baixo do ligado, e em uma escavação particular da superfície desle órgão, se acha uma pequena bexiga ovoide, que tem o nome de bexiga bi- liaria (fel), que serve para deposito da bilis (1). Esta maté ria evidentemente segregada pelo ligado, é recebida por todos os pequenos vasos secretorios que a conduzem por uni canal commum chamado canal hepatico, sendo derramada no Vuodeno por meio do canal colledoco, que é a continuação do canal hepatico e cyslico que vem á bexiga felea, serve, para a perfeição do chylo. O pancreas offerece muita semelhança com as glândulas salivares, e por isso se a tem chamado glândula salivar ab dominal. Sua fôrma é mui alongada: está situada transversal mente na parte superior da cavidade do abdômen, por diante da sua parede posterior c enlre as tres porções do duodeno, atrás do estômago, e á direita do baço. O canal excretor do (1) O Dr. Leltre vio uma créança de 9 dias, sem signal algum da existencia da bexiga felea, apezar de ter o fígado mui bem conforma do. Este facto vem transcripto nas Memórias da Academia Real das S ciências no anno de 1705. — 16'» — pancreas uno-se ao colledocho, e ve.n-sc abrir com elle no duodeno no lugar que corresponde ao espaço de cinco dedos transversos de comprimento, partindo do pyloro. A massa chymosa, chegando no duodeno, deslende as paredes desta víscera, c provoca a entrada dos dous fluidos de que acabamos de fallar, os quaes lançados sobre o chymo, se misturam e se param o chylo de tudo o que não é nutiiti\o. Um physiologista moderno assevera nestes últimos tem pos que a bilis serve somente a favorecer a expulsão das ma térias fecaes. Esla separação é favorecida pelas mesmas cir- cuinstanciasque tem influído sobre a mudança dos alimen tos em chymo noestomago, a saber : os movimentos, a sen sibilidade orgânica c a temperatura. Quanto á nalurczn intimada acção pela qual o sueco extraindo do chymo é mudado em chylo, inteiramente se ignora-, o que se sabe é somente o que se passa nas ultimas rudiculas dos vasos cliy- li feros. O i.jíi-. iiiiento peristaltico bota para trás a massa chymosa, cnivi y.ttpressão é também mui ajudada por mucosidados abundantes exhaladas na superfície inlerna dos intestinos: esta massa chega assim toda espessa em maior ou menor es paço de tempo ao intestino cego. Quanto mais o chymo se afasta do duodeno, tanto mais se espessa e se torna mais amarello; porém uma observação muito importante é que o desenvolvimento que se faz então no interior do j>juno de certos produetos gazosos chamados ventos ou gazes intesli- naes, a não serem produzidos pela dilatação dos gazes ahi contidos, não se sabe como esie phenomeno ^e opera. O c/fc- mo, chegando na extremidade do ilion, passa para o cego* de molle e pouco cheiroso que era, adquire nesta visecra, depois de algum tempo, grande dureza e um máo cheiro, _sempre análogo á natureza dos alimentos. A marcha do ali mento e os phenomenos que se suecedem por onde atravessa, não nos fazem pensar outra cousa senão que os grossos in testinos são reservatórios econômicos destinados pela na tureza a conter as matérias durante um certo tempo, a fim de nos poupar do penoso incpmmodo de as vomitar depois de elaboradas. O movimento peristaltico continuando-se ao longode to do o canal intestinal, vae mandando para o recto as matéria» fecaes, onde se vãoaccumulando, até que o peso ou eslinioto - 165 — annuncie a necessidade de as deitar para fora por meio da defecação. Esta necessidade uma vez reconhecida pelo in- coramodo que disperta, um novo mechanismo emprega a natureza para este fim, que vem a ser, o diaphragma se con- trahe e faz força sobre as vísceras, a fim de que ellas pesan do sobre a bacia, comprimam o recto, ao mesmo tempo que os músculos das paredes anteriores e lateraes do ventre com primem os grossos intestinos, que se acham distendidos pelas matérias fecaes: os músculos da parte inferior da bacia con- trahindo-se, mantém a compressão que faz o dyaphragma, e então as fezes chegando ao sphynctero estimulam, e como acha resistência feita pelos constrictores, o sphincter do •ânus se relacha e a evacuação se opera (1). (1) O Dr. Legouas, explicando seguidamente o mechanismo da di gestão, diz: « A mandibula inferior, approximada ásuperior pelos mús culos temporaes e masstteres, seus levantadores, torna-se o ponto de apoio de outros muitos músculos que movem a lingua, o pharynge e o larynge no acto da deglutição; a lingua suspende a sua ponta : aap- plica contra a abobada palatina,curvando-se ao mesmo tempo segundo o seu diâmetro transverso, para formar uma goteira longetudinal in clinada, pela qual escorregue o bolo alimentar até ao isthmo da guela, que deve atravessar. Esta passagem do bolo alimentar é também auxi liada pela elevação da lingua, cuja base está então dirigida para a parte posterior, e pelas mucosidades que provém das amygdalas e cryptas mucosas das partes vizinhas. Em quanto esta acção se executa, o véo do paladar, que tomou uma direcção horizontal, se oppõe á volta dos alimentos pelas fossas nazaes, impedindo também a sua entrada no ca nal aéreo, a epiglotte se abate sobre a abertura superior do la rynge. O pharynge, elevado ao mesmo tempo que o larynge, pela acção dos jpusculos lyro hyoideo-genio-hyoideo, etc, se inclina adiante dos ali mentos que recebe e lança no esophago, contrahindo-se da parte supe rior para a inferior, e da circumferencia para o centro, tornando outra vez tudo ao estado natural. Os alimentos, chegando ao esofago, passam por elle até ao estômago, atravessando o orifício cardíaco, acompanhados sempre por uma por ção de ar que com elle fora engolido. A passagem dos alimentos pelo esophago é devida á contracção do mesmo. A apprehensão das bebidas executa-se por meio de um vaso que se situa enlre os beiços, ou pela sucção, ou finalmente precipitando-as no pharynge, tendo "a bocea amplamente aberla e a cabeça revirada para a parte posterior. A sua deglutação cffectua-se do mesmo modo que a dos sólidos, porém exige maior exactidão na acção dos órgãos, pela extrema mobilidade das moléculas que compõem as substancias lí quidas. As substancias alimentares, nr.umulando-se no estômago, dilatam as TOM. ii. 22 — 166 — O baço è também uma entranha que se acha collocada no flanco esquerdo junto a grande curvatura do estômago: seu volume varia muito, e sua fôrma é a de uni grão de feijão. suas paredes, augmenlaudo todos os diâmetros de sm cavidade. Quan do o estômago está suflicienteiuente deslendido com os alimentos, ex perimenta-se o sentimento da replecção, e então assim o pyloro como o cardia se contrahem, c se concentram as forças vilães no estômago, que se entrega a um movimento tônico e vago, pelo qual abraça a ma téria que é brandamente agitada. O calor se descmvolve e o sueco gás trico é exhalado em abundância, c é então que principia o trabalho da digestão propriamente dito. A massa alimentar, amollecida pelo concurso de todas estas eousas, se animalisa e converte-se em uma polpa cinzenta, homogênea, c de um cheiro acetoso chamado chymo. O movimento vago do estômago se regularisa c se torna constante do cardia para o pyloso: este mechanismo completa a chymificação. dilata-se (o pyloro), para dar passagem ao chymo, que se despeja gra dualmente no duodeno. Em quanto o chymo se demora no duodeno, opéra-se a sua mistura com a bilis e sueco pancreatico, que neste mo mento ahi se despejam. O chymo, adquirindo por esta mistura um novo gráo de animalisa- ção, separa-se em duas partes; uma mais leve, fluida, seinelhanie ao leite, que sobrenada sempre exteriormente, chamada chylo; outra mais espessa e amarellada, é a parle excremenlida, qne oecupa o centro da polpa alimentar. Esta polpa, assim preparada, é transmittida pelo duodeno ao jejuno e ilion : a sua progressão, favorecida pelo movimento peristaltico e de retracção das túnicas do canal intestinal, afroxa-se nos intestinos del gados pelas inúmeras circumvoluções que estes formam, c pela demora que lhe produzem as válvulas coniventes que guarnecein o seu in terior. Esta disposição permitte ás boceas dos va os inhalautes absor» ver todo o chylo, que, como fica dito, oecupa o exterior da massa ch\ mosa, e por conseqüência está em contacto com a superfície interna dos intestinos. As matérias alimentares, despojadas da maior parte da sua porção nutritiva, chegam ao cego, primeiro dos inestinos grossos, onde ad quirem os caracteres que as constituem matérias fecaes. Estes carac- leres^ão mais consideráveis depois que se tem absorvido o resto da matéria nutritiva, emquanto as matérias fecaes se demoram no colon, onde ellas se movem e adquirem um cheiro fétido. O curso destas ma térias nos inestinos é favorecido pelas r, ucosidudes que elles segrr- gam,e pelo estimulo que a bilis produz nas suas membranas, cuja parle corante e amarga se concentra, a proporção que os excrementos per dem a sua liquidez approximando-se ao recto. Logo que as matérias fe caes chegam ao intestino recto, tornam-se mais unidas e densas, e de terminam nesle órgão um sentimento incommodo que nos adverte a necessidade da sua evacuação, e então o recto entra em contracção, t — 167 — Ignoram-se os seus usos, e o que até hoje se (em conjectu- rado é que elle serve como que de descarga ou aperfeiçoador do sangue que vae para o estômago (1). auxiliado pela acção do dyaphragma e músculos do baixo ventre, as expelle, vencendo a resistência que o sphincter do ânus lhe oppõe (*). (1) Por multiplicadas observações prova-se que o baço não é abso lutamente necessário á vida, e entre as observações vem a de um moço que Dulaurent vio dessecar, e não tinha baço, e o Dr. Kerckring foi testemunha desta mesma singularidade em dous meninos. (*) EXCREÇÕES. Ir á banca é, diz o Dr. Guindant, um tributo que devemos pagar de vinte em vinte quatro hoias, ou, ao mais tardar, de trinta em trinta e seis horas. Por cese nu'io bolamos para fora Iodas as impurezas grosseiras que continuamente so amassam em nosso corpo, e desembaraçamos as vias por omle se fazem a nutrição e o crescimento. Sem essas excreções o exercício de todas as nossas funeções suspende-se; ro^sas forças se esgotam, a natureza revolta-se, e uma gurra iuteslina leva a dissolução a todas as partes de sua obra: eis o que mais conimunie.nte stecede. Entretanto; quantas pessoas lia que passam longo tempo sem evacuar, e que nenhuma espécie de incommodo e nem desarranjo experi mentam na maneira de vivei? A Iradicção de todos os séculos, de todas as ida des, e de todos os tempus disso nos offerece muitos exemplos. Quantas mulheres, principalmente, desde o momento cm que concebem até que parem, quasi que não vão á banca? Alexandre Benedicto cita-nos uma Ve neziana, que durante lodo o tempo de sua gravidez só evacuava no fim década semana, c ainda assim deitava uma pequena fese Nicoláo, Florontino falia- nos de uma dama que esteve desdo o momento em que concebeo até aos quarenta e cinco dias de sua gravidez som evacuar uma única vez, e que pas tou muito bem durante esse inlervallo bebendo e comendo sempre com muito appelitc. Antônio lirassovavolapassava nove dias o ás vpzes doze, sem ir á ban ca,.ipeiar disso gozava de perfeita saude, e montava to>los os dias a cavallo As Aiheiueridcs de Alleinanlia não nos fornecem o exemplo de uma moça quepas- ÍOU treze mezes sem urinar e sem evacuar? Luiza Kourbounc, citada por Ponme c disso outro exemplo. Os ensaios d'Edimbourg nãofjzem mensâo de uma rapariga, chamada .loanna Yomarg. que durante dezeseis annos consecu tivos só ia á banca uma vez por anno? Era sempre no mez de março, e as fezes que deitava eram cuino as do cabrito. Uma senhora da parochia de S. Roque esteve sete semanas inteiras e conse cutivas com o ventie totalmente preso,sem experimentar o menor incommo do. Essa senhora passou dous annos alimentando-se exclusivamente de leite de varca, e foi nas sele primeiras semanas quef.z uso dessa nutrição, que teve a prisão do ventre. Conhecemos dous homens, dos quaes um só ia á banca do dez em dez dias, e o outro de seis em seis, e no entanto gozavam da melhor saude. Conhecemos também uma moça muito fresca e muito sadia, que so evacuava de cinco em cinco dias, e as.Mm viveo muito tempo. A lei natural que nos sujeita a irá banca, pelo menos todas as vinte e quatro horas, ou ao mais tardar, de trinta em trinta o seis horas, não é pois tão geral que não possa tottttr «Igumas excopções. — 168 — Dos vasos cliyliferos, e do» de mais fluidos do corpo do homem, sua passagem e mechanismo. Os vasos lymphaticos s3o canaes extremamente finos,del gados, e valvulosos que levam a lympha e chylo para as veias do corpo. Elles têm uma disposição semelhante á das arvores, ao modo dos outros vasos, e se encontram em todas as partes do corpo humano, exceplo na medula da espinha, no cérebro, no olho e na placenta. Nos membros e nas paredes do tronco formam, como a» veias, dous planos, um superficial, e outro profundo, que» segue os vasos sangüíneos e os nervos: o numero dos vasos lymphaticos é mui considerável, e originam-se na superfí cie e na profundidade de todas as nossas parles, onde entor- tilhando-se sobre si algumas vezes, constituem uma espécie de rede de malhas mui unidas, as quaes pouco a pouco se reúnem para formar muitos troncos communs que têm sem pre direcçôes tortuosas, e communicações mui multiplica das entre si. De distancia em distancia se vê sobre o seu transito pequenos corpos ovoides, de natureza glandulosa, chamados gânglios, onde as matérias que acarretam são sub- meltidas á um processo particular. Estes órgãos glandulosos, espalhados por todas as partes, encontram-se em maior nu mero nas curvas das pernas, nas verilhas, nas axillas, nas dobras dos braços, etc. Outros vasos chamados chyliferos, sao encarregados es» pccialmente da absorvição do chylo: estes nascem na supe* ficie interna do canal digestivo, e sobretudo nos intestinos delgados, onde são em grande numero, mui delicados em sua origem e passam através do mesenterio á formar troncos communs mui volumosos á se irem abrir no canal thoracico. Este canal toma sua origem na parle superior do ventre, e no lugar onde os troncos chyliferos se reúnem com os troncos lymphaticos das partes inferiores,apresenta neste mesmo lugar uma intumecencia chamada reservatório do Pequet. Atravessa o canal thoracico, o diaphragma, eentra no peito, apoiando-se sobre a columna dorsal, e chegando á parte superior do peito passa por detrás do esophago, e vae entrar no angulo reentrante da veia subclavea esquerda. O — 169 — canal thoracico recebe successivamenle no seu trajecto ao longo da columna vertebral, os troncos lymphaticos do ven tre, do peito e da cabeça. Antes que se tivessem descoberto os vasos lymphaticos, as veias eram olhadas como os únicos agentes da absorvi ção; mas logo que foram conhecidos e estudados os vasos lymphaticos e chyliferos, verificou-se que a absorvição dos alimentos era eflectuada por um systema orgânico espe cial. Absorpção do cliylo. Isto posto, vejamos como a absorpção interna e externa se effectua. A absorvição digestiva é a que se faz no canal alimentar. O chylo é de um branco cor de leite, de uma consistên cia variável, cheiro um pouco spermalico e de sabor ado cicado. E' mais pesado do que a água destillada, porém me nos do que o sangue. Este liquido não é somente preparado pelos vasos chyliferos, porque sendo ainda lançado por elles no canal thoracico, não se pôde perfeitamente explicar o mechanismo pelo qual esta preparação tem lugar. O chylo (diz o compilador Legouas), absorvido pelos orifí cios inhalantes dos vasos chyliferos, é conduzido pela força tônica dos mesmos para os gânglios lymphaticos do mezente- rio, onde experimenta uma nova preparação: conduzido de pois ao canal thoracico, mistura-se nelle com os suecos lym- Wiaticos,que de toda a vizinhança se descarregam no mesmo «anal, o qual o despeja na veta subclavea esquerda, onde pela primeira vez entra em contado immediato com o san gue. Conhece-se a entrada do chylo na torrente da circula ção, pela aceleração do pulso, augmento de calor e corro borarão de todos os órgãos. Absorvição cutânea. No exterior da pelle a absorvição não se faz com tanta ra pidez, porém de uma maneira curta, porque se tem nota do que quando se passeia em um tempo humido, o peso do corpo se augmenta; o mesmo acontece com a secreção das — 170 — urinas que se auginentam depois de um banho prolongado; que quando se permanece em algum quarto pintado de fresco com ooleoesenciiilda thercbcntina, as urinas adquirem um cheiro de violeta. Esta observação é tanto mais focil, quanto a pelle exterior c mais fina; assim a ublação do epiderme permitiu a absonição do se effectuar n;is parles do corpo, onde sua acção é de todo insólita. Móis de um pirleiro tem soffrido niolcslias graves pela absorvição dos-humores de pessoas infectadas. A absorvição é muito maisocliva nas mulheres, c muito principalmente se o systema lymphatico predomina ncllns. Nas meninas este phenomeno ainda é por demais activo do que nas mulheres refeitas. Absorvição mucosa. A membrana mwosa que forra todo o interior do /«6o di gestivo, fossas nazaes, hxiga urinaria, larynge. ele, tem maior aclivid.ide no mechanismo da absorvição, que a pelle exterior, e a razão é por que eslaudo ella perleitamente mais desembaraçada do epiderme, permitte que os vasos absor vam proinptamenle;e por isso é que as infecções miasrna- ticas, os vermes, etc, invadem o organismo, com a promp- tidão que se observa. A absorpção interna torna a tomar os restos que resultam da conlínua destruição de nossas partes, isto é, as imilcculas que abandonam os órgãos depois de ler servido á sua nutsJ- Ção. Sabe-se que os vasos lymphaticos e as veias, são osorgKoi que concorrem para a absorpção interna. Apparelho da circulação do coração. Um coração de elnslica substancia (Singular estruetura!) o sangue acolhe: Kmsystole, em dyastole se agila; E com perene pulsação na arteiia Continuo o lança; serpeando corre Com elle a vida pelas fundas veias: — 171 — Aísiin rios caudaes correm dos montes, Gyrain nos poros da fecunda terra, Levando ás plantas vegetal substancia. Ou moto. ou fogo. os alimentos cose, Que dão vigor á macbina vivente. MACEOO (ifedit) O coração é o agente central da impulsão, collocado na cavidade do peito, formando um apparelho importantíssi mo á vida, pelo qual o sangue é mandado a todos os pontos do corpo, para os animar e vivificar. Elle éo começo do sys tema arterial, e a terminação do venoso. Como órgão central da vida, elle é o centro das paixões mais tumultuosas dos sentimentos os mais mysleriosos que experimenta o homem. Vejamos, antes do mais que possa mos delle dizer, o que seja o coração em si. E' o coração um músculo, collocado na cavidade do peri- cardio (seu invólucro exlerior), no meio do peito, e um pouco á esquerda entre os dous pulmões: sua direcção é oblí qua de cima para baixo, de trás para dianle, e da direita para a esquerda, tendo o seu bordo direito apoiadoimrnedia- menle sobre o diiiphragma. No interior o coração é dividi do em quatro cavidades, sendo duas á direi ia e duas á es querda. As duas direitas contêm sempre sangue negro (ve noso); as esquerdas sangue vermelho (arterial): as cavidades direitas e esquerdas não se communicam no homem leito: offerece cada uma duas divisões : a primeira chama-se au- ricula, e a segunda tmU iculo. Asauriculaseos venlriculos, tendo muita semelhança entre si, convém descrevel-as de i_ma maneira geral, indicando o que tem de particular (1). (1) O Dr. Guindar.t (na sua imporlante obra), fallando das aberra ções naturaes, diz que senc'o o coração absolutamente necessário á vida, esta asserção acha-se dismentida pela historia daquella menina de seis mezes que Mr. Mery dissecou em 17'20, que era um perfeito monstro, porque não tinlia coração, nem pulmões, fígado, estômago, intestinos delgados, baço e nem rins... ^Memória da Academia Real dasSc.encias anno de 17:20). Alguns factos, diz o mesmo escriptor, tem apparecido em indivíduos com dous corações, como o que Mr. Catlomb, cirurgião de Lião, vio em 1744. Outros com tres venlriculos em vez de dous, como foi obser vado pelo Dr. Chemineau, medico da faculdade de Paris. Algumas ve- zesemnm, só lia um ventriculo, como aquelle homem de 25 annos, de quem as Ephemerides da Allemanha fallaram. — 172 — Auriculas. Cada auricula tem quatro paredes: na anlerior se observa um prolongamento cravado no interior da cavida de, que se chama apêndice auricular, é uma abertura ú que se tem chamado auriculo-ventricular. Na parede interna acha-se uma depressão, que é o indicio de uma abertura de communicação que na vida fetal existia chamado buraco do Botai. Os venlriculos são dispostos da mesma maneira: em cada uma das cavidades existe uma multidão de columnas carno- sas, notando-se do mais na base do cada ventricnlo uma aber tura que se communica com a auricula correspondente. Neste mesmo lugar se encontra no ventriculo direito a vál vula tricuspede, dividida em tres linguetas, e no ventriculo, esquerdo as mytraes divididas em duas. Estas válvulas são circulares, e se applicam contra as paredes dos venlriculos, de quem não se apartam senão para impedir que o sangue retroceda, quando o ventriculo o força por suas contracçôes a penetrar a artéria correspondente. Os dous venlriculos não diflerem somente por sua grandeza: seu interior 6 guarnecido, assim como temos visto, de columnas carnosas, sendo ellas mais numerosas na auricula e ventriculo direito, á fim de melhor operar a mistura do chylo e lympha com o sangue venoso. Este ventriculo tem paredes menos ásperas do que o ventriculo esquerdo, porque projecta o sangue a uma menor distancia. Uso das auriculas. As auriculas servem para receber o sangue de todas as veias, a transmitlil-o aos venlriculos, que o lançam nas ar térias; sendo o ventriculo direito o que manda o sangue para os pulmões, e o ventriculo esquerdo para todas as par tes do corpo. E' na auricula direita que vem abrir-se os dous grosso» troncos venosos, conhecidos sob o nome de veias cavas, su perior e inferior, que são os vasos que trazem de todas as partes da organisacão o producto das diversas absorpções; e é nessa auricula esquerda que é vasado pela3 quatro veias pulmonares, o sangue que acaba de ser oxygenado nos ptrl- mões, — 173 — O ventriculo direito dá nascimento á artéria pulmonar, que traz aos pulmões o fluido a sanguiniíicar. A artéria aorla começa na parte superior e direita do ventriculo .esquerdo, donde, por divisões successivas, vem transmiltir o verdadeiro sangue a todo o corpo. mechanismo da circulação. Vista a estruetura do coração, vejamos o mechanismo que elle emprega para fazer circular o sangue. Recebendo em si todo o sangue venoso, a lympba e o chylo pelos troncos ve- nosos (veias cavas, superior e inferior) pela auricula direita, sendo os líquidos das paredes do peito, dos membros superio res, pescoço e cabeça, conduzidos pela veia cava superior, e pela cava inferior, o liqüido das partes inferiores: aconte ce que a auricula direita, provida de um numero1 conside rável de columnas carnudas, quebra o fluido composto, e opera uma mistura mais perfeita, e o lança por suas contrac- ções no ventriculo correspondente: este, irritado ou estimu lado pela presença do liquido, contrahe-se, e o lança na ar téria pulmonar, única via que lhe está aberta para este fim, visto que seu fluxo sendo impedido de tornar para a auricu la, pelo obstáculo que lhe offerece a válvula tricuspede, que á cada contracção se levanta enlre estas duas cavidades, o sangue se vê por isso forçado a sahir pela abertura que Encontra sem obstáculo. O sangue que assim caminha, não pode voltar ao ventri- frulo, por que o seu orifício e abertura, é também guarnecido de tres válvulas chamadas sygmoides (em fôrma de s grega), que impedem por sua disposição que o sangue se precipite no ventriculo. Esta artéria leva o sangue, deste modo pre-r parado, para se sanguiniíicar nos pulmões, onde ponda-se em conlacto com o ar, apodera-se do elemento vivificador (o oxygeneo), e torna dahi pelas veias pulmonares (que são em numero de 4), e vae para a auricula esquerda, que por igual mechanismo que o que fez a direita, passa para o ventriculo esquerdo, e deste para a artéria aorla, que o distribue por todos os pontos do corpo. TOM. II. 23 — 17* — Observação» phy^lologira*. <) coração contrahe-se íOOO vezes em unia hora; sendo «Io 20 a 2'í libras a quantidade de songucque tem o corpo do homem; toda n massa do sangue pussa cm uma hora 18 ve- *cs pelo coração humano. A velocidade da circulação do sangue é tal, diz um es- criptor, que corre em um minuto ao menos 125 pés. l»o perieardio. O perieardio ú uma membrana fibro-sorosa, que envolve' o coraçSo e lhe faz conservar a sua posição, e obstar que elle siga as inclinações do corpo. E' formado de duos folhas, uma externa, libiosu, que se continua com o centro oponevro- tico do diaphrngma; e outra sorosa, que so prolonga sobro o coração, à cuja face externa dá um aspecto polido e lu- zente. A folha interna do perieardio exhala constantemente uma quantidade de liquido sorosoque envolve o coração a fazer com que os grandes movimentos do corpo não perturbem os seus movimentos vilães. Considerações pbilosopnicas , pliysiolojçlca» , moraes e aflectívas do coração. O coração, sob as vistas philosophicas e moraes, éuma das partes mais interessantes do homem, porque de qual quer modo que se o possa considerar, elle nosofferece varia das accepções. O coração, tomado no sentido o mais vago e geral, pensa um antigo escriptor, designa no homem capacidade de amar e odiar de ligar-se a um objecto e desejal-o como um bem, ou de evital-o e regeital-o como um mal, com tanto que esse amor ou esse ódio sejam devidos ao conhecimento de seus objectos, a um juizo reflectido, e não ao cego inslineto, ao habito machinal, a qualquer necessidade puramente physíca, ou a algum desejo excessivo dos órgãos do corpo. Não é ao — 175 — coração que se referem as paixões brutaes do glotão, do bê bado, e do impudico que se aferram, não ao individuo, porém ao sexo: ao contrario, é ao coração, tomado naquelle sen tido, que com razão se attribuiram o amor que podemos ter por DEOS, pela pátria, por uma mulher, por nossos filhos, epor todos os entes sensíveis; assim também, como o ódio, a inveja, o ciúme, a vingança, que concebemos contra os entes que olhamos como nocivos, comtanto porém que estes sentimentos sejam provenientes do conhecimento que te mo? de suas qualidades. Assim, o homem piedoso dá seu coração a DEOS; o es poso ama de toda a sua alma a sua consorte; a mãi a seus filhos, etc. Podem-se ainda atlribuir ao coração, tomado no mesmo sentido, as paixões que tem por fim eousas que não tendo preço por si mesmas, senão por que têm a qualidade de procurar-nos e garantir-nos a posse c o gozo dos objectos que julgamos úteis á nossa ventura. Por tanto, o atara dá o coração a seus thesouros, como a um meio de adquirir os diversos objectos que servem para a sua. felicidade; o ambicioso deseja a elevação, porque enca deia a vontade dos inferiores á sua, e emprega-os para asse gurar o suecesso dos seus desejos, etc. Ha corações frios que parece que não amam, nem odeiam cousa alguma, quer seja por que não encaram nenhum objecto como um bem essencial á sua ventura, quer porque sua intelligencia pouco esclarecida e pouco penetrante não conhece toda a in fluencia que certos objectos podem ter sobre sua felicida de; quer porque nelles os órgãos do sentimento physico ou -fietapbysico, são obtusos, embotados, mal constituídos e pouco susceptíveis de abalo; quer, finalmente, porque sua fraqueza ou indulgência acha mais satisfação nu trauquilli- dadeda inação, do que nos movimentos da aquisição ç do gozo. Ha corações ardentes, vivos, excessivamente sensíveis pe las razões contrarias áquellas que acabamos de mencionar da frieza dos outros; mas sobre tudo porque sua imaginação viva representa-lhes os objectos como muito mais próprios a tornar-lhes Como realmente são. Ainda que a constituição phy&ica influa muito sobre a natureza e gráo dos movimen tos do coração, a imaginação ou as idéas que fazemos dos objectos e de suas relações comnosco, c a principal origem — 17G — das emoções que nosso coração experimenta e do gráo de sua actividade. O coração é, bem ou mal, conduzido confor me o dirige o conhecimento da verdade. Tanto que se tem conhecimento de um objecto c da sua influencia comnosco o com o nosso estado, o nosso coração se amolga, e suas in clinações são prudentes, seus gostos virtuosos, e seus mo vimentos chamam-se inclinações, affecções e gostos razoá veis. Se o erro dieta nossos juizos, fazendo-nos procurar como um bem o que é um mal, ou fugir de um bem como de um mal, nossos gostos são desarrasoados, nossas inclina ções viciosas e más. Se nossas inclinações peccam, não quanto á natureza dos objectos que as fixam, mas quanto a seu gráo de vivacidade, porque estimamos muito alguns bens particulares, ou temos mais do que merecem alguns males, de sorte que preferimos a presença de uns, ou a ausência de outros a objectos mais dignos de fixar nossa altenção; neste caso o nosso coração está apaixonado. O coração sendo a parlo physica do corpo mais essencial á vida humana, e todo o peso da vida nascen do da nossa sensibilidade, tem-so resolvido attribuir u esta parte, que é de grande recurso vital do homem, a sede da sensibilidade, que é só o que torna a vida interessante* ainda que cousa alguma, quando escutamos o que em nós se passa, nos leve a estabelecer no coração por preferencia, ou exclu sivamente ás outras partes, a sede da sensibilidade pelo prazer ou pela pena. Ter-se-hfa talvez alguma razão em di zer que nos grandes prazeres, encarados independentemente da alleição do órgão próprio da sensação, é no dyaphragma, ou polo menos, tu região que elle oecupa, que experimeri tamos um prazer, que do mesmo modo que for vindo de sua sede, affectaa pessoa inteiramente. Sob este ponto de vista o cor.ição serve, em nosso modo de ver, para designar em particular a disposição que torna-nos suscepliveis de vivae apaixonada ternura por uma pessoa de sexo differcnte. Dis se-se, uma mulher tem o coração sensível, querendo dizer- se com isto, que pôde tomar amor facilmente poruma pessoa de outro sexo que lhe parecesse capaz de amor, e que ella tem necessidade deste sentimento para ser feliz. E' no coração que se attribue residira saudade, a amiza de,a compaixão, o reconhecimento, a caridade, a humanida- de,assim como todas as disposições oppostas. Sob este ponto - 177 — de vista geral éque o coração ér encarado quando se falia de coração bom e coração máo. O coraçãobom consiste essencial mente na disposição constante em desejar felicidade para to- dosos entes sensíveis; goza prazer em ver ou fazer os outros felizes:soffrequando vê desgraçados;julga>se desgraçado por não poder remediar os males de quem soffre. Máo coração ê a disposição opposta; a ausência de todas estas disposições neste caso, é o primeiro gráo, que consiste em ver com in- differença a felicidade ou desgraça dos outros: o coração máo gosta de ver soffrer, encha uma espécie de satisfação no aspecto das pessoas desgraçadas; esta disposição pode ser levada até aos excessos que se chamam crueldade, que está em fazer soffrer sem necessidade indispensável entes sen síveis. O coração é tomado por coragem, e se diz um homem de coração, por um homem corajoso que não se perturba á vista do perigo, que nem por elle se impede de fazer o que resol ve e julga dever fazer. Parece que a coragem ha sido sup- posta ser dependente da força do coração, isto é, do vigor com que este músculo faz suas funcções, sem que nenhuma emoção d'alma ou dos sentidos accelere ou torno irregular seu. movimento. Com effeito, é verosimil que a disposição que se chama coragem, e que constitue o homem de coração, dependa em grande parte do vigor physico de algumas partes do corpo, e talvez que principalmente da força do coração, ainda que não seja unicamente, porque a educação, as reflexões, os ^templos, sem que mudem a constituição do coração, não ^ixamdedar coragem, ou de,tiral-a. Quantos meninos na turalmente corajosos, tornam-se pusilânimes por lerem pas sado sua mocidade com mulheres tímidas que de tudo têm medo? Quantos mancebos tímidos, medrosos e preguiçosos, bão-se tornado com lições, reflexões e exemplos, corajosos e intrépidos? Entre todos os máos officios que as mulheres fazem,aos jovens que educam, não ha nenhum mais funesto que o defeito de coragem; a falta de coração porque este de feito é um obstáculo ao successode quasi todas as emprezas que formam um homem, e ao cumprimento dos seus mais importantes deveres. Ter coração não é, porém, como muita gente pensa, ter esse orgulho activo e teimoso, que não pôde soffrer contra- — 178 - dicção, que exige respeitos, dcfcrencias excessivas, e qm encara tudo quanto o offende ou não lisongèia seu amor próprio como uma affronta que deve lavar no sangue huma no; isto não vem, nem do coração, e nem da coragem; é um frenesi, um absurdo furor, a mais espantosa dos extravagân cias; é orgulho, vaidade, alma pequena, mascara engana dora de um mérito imaginário. Não ter coração, é ser cobarde. O caraçãó é o principio moral que nos determina acções em respeito aos seres mo raes. Sob este ponto de vista, o coração é bom ou máo, recto ou falsário. O coração bom é aquelle que se determina a obrar ou a não obrar pelo conhecimento do maior bem que resulta em favor da humanidade, da empreza que se aprc« senta para fazer. Coração máo c aquelle que se não con tém á v isto do mal que resultará para os outros d;i acção que quer fazer, ou quando se determina a obrar precisamente, não se importa que esta acção seja nociva a alguém. Sob este ponto de vista, o sentido da palavra coração está cm alguns respeitos de accordo com o que explicámos no principio. A differença que ha neste, é ser considerado uma disposição de instineto, mas unicamente depois do conhecimento da relação da acção com o estado dos indivíduos sobre os quaes esta acfão influe. Coração recto é a disposição constante a nada fazer e nem dizer que vá contra o conhecimento da ordem moral e da verdade das eousas. Coração falso e a disposição de nunca regular-se pela verdade. E' o coração neste sentido que de cide da qualidade moral das nossas acções, encarada com# capaz de tornar-nos eslimaveis ou aborrecidos. Ha i\ccl%f illicitas qué as leis as defendem, e podem ter conseqüências desvantajosas á humanidade, que não tornam odiosa a pesnoa que as commettc, porque não parlem de um coração máo ou falso, e ás vezes mesmo fazem suppor uma alma *ensivel e incapaz de prejudicar a ninguém de propósito deliberado; sâoaquellíis que têm sua origem nas paixões ternas, na fra queza d'alma, no império dos sentidos e do habito; dão idéas de pouca reflexão sobre o que os princípios exigem as con seqüências da ordem moral, e não se offerecem ao espi ri Io como fazendo soffrer nenhum ente sensível, como roubando- lhe cousa alguma do que lhe pertence, e cuja perda poíía-o tornar desgraçado. s* 179 — Para estas espécies de faltas, crjrnpativeis com um coração bom,convém ter-seindtrigencia^Orftrdsacçfiesha",nas quaes os sentidos têm pouca parte e que nada apresentam que as possa escusar, e que fazem suppor maUado.jaWio.dft.pieju- dicar, falsidade e injustiça, que inveja o bem de outrem; estas são aclos viciosos que tornam odioso quem os comette. As faltas que o amor, a amizade, ou o temor, fazem prati car, algumas omissões de deveres contra os quaes a indul gência e a indolência se revoltam, referem-se á primeira maneira de considerar o coração- O crime que a inveja, a vingança, o ódio, o orgulho, e a vaidade fazem commetler, entram na segunda. Finalmente, ç pois oo coração que nos devemos dirigir quando julgamos conforme a conducta das pessoas, do gráo de censura ou de louvor, de amor ou de ódio, de eslima ou de desprezo que ellas merecem. Pbysionojnia do coração por Salomão. A melancolia no coração do homem o abaterá, e com boas palavras se alegrará. A saúde do coração é a vida da carne; a inveja é a padridão dos ossos. A sabedoria descança no co ração do prurnmte, e elle instruirá todos os ignorantes. Aquelle que regeita a disciplina, despreza a sua alma; mas o que está pelas jreprehensões é possuidor do seu coração. O coração do homem dispõe do seu caminho; mas da parte do Senhor está dirigir os seus passos. Bem como a prata se pro^ v»no fogo e o ouro no crysol, assim o Senhor prova os cora ções. O coração prudente possuirá a sciencia, e o ouvido dos sábios busca a doutrina. No coração do homem se forjam muitos pensamentos; mas a vontade do Senhor permanecerá. O conselho é no co ração do homem como a água profunda; mas o homem sábio dahi a tirará. Aquelle, que ama a candura do coração, terá por amigo ao rei, por causa da sincera graça dos seus lábios. A loucura está atada ao coração do menino, e a vara da dis ciplina a afugentará. Entre o teu cotaçáo na doutrina^ e os teus ouvidos nas palavras da sciencia. O teu coração não te nha inveja aos peccadores; mas conserva-te no temor do — 180 — Senhor tedo o dia, porqueHerás esperança quitado chegar .o feu ultimo dia, «^Mb-te^sèYéroubatfa atiltf c*paetação. Dá-me, filho meu, o teu coração, e os olhos teus guar dem aSfrmeusVaminhüs. Íbo_,uelIe quejcanta canções a um coraçlTpeístiiw f (íoino o vinagre quê se*lança ncf at«ro* Assim como a polilha come o.vestido, e o caruncho a nuf-- dé*ira, dt> nfes"mo modo roe a tristeza rvcoraçãodo homem: Os lábios inchados, juntos de um coração péssimo, são torlto1 monta como se quizeras adprnacconi prata baixa um vaso de barro. Pelos seus lábios se dá a conhecer o inimigo; quando no coração tramar enganos. Quando elle te fallar n'üm tom humilde, não te fiesnelle, porque tem se"te malicias no seu coração. O coração do inimigo busca o mal, e o coração recto busco a sciencia. Bemaventurado o homem que sempre está com temor; mas o que é de coração duro, cahirá no mal. Aquelle que confia no seu coração é um insensato; mas o que anda sa biamente será com effeito salvo (1). Pensamentos moraes sobre o coração, por dif ferentes autores» O coração do homem (diz Frei Antônio das Chagas), é como a agulha de marear, não socega senão voltado pora-.o norte. Tudo vence o coração que se não deixa vencer. (P Antônio Vieira.) Não ha coração ao qual a natureza não tenha destinaè) outro. No coração humano (diz Mine. de Pompadour) exis-* tem duas medidas, uma para o prazer, outra para o desgosto, e ambas se enchem e vasam alternativamente. O coração culpjdo (diz o conde de Virnioso) desconfia de todos; e o ce lebre Fonteneliediz que succede nas ligações dos coraçõesio mesmo que nas estações; os primeiros frios são os mais (i) Prov. Cap. 12, V. 25-Cap. 1Z|, V. 30 o 33— Cap. 15, V. 32- E.p\r _:'v-9—^P- ", V. 3—Cap. lp.v. 15—Cap. 19, V. 21-Cap. «' v ^7°^ 2\ V- " e 15~ ^P- 23» V. 12, 17, 18 e 26-Cap. vl> 2(T P' ' V< M» 2A' *25-Cap. 27, V. 21- Cap. * ./JvA^^* £v*>^y*<~~ 5^-V^* •4wi '*^»\- •• | pqr I s^C^Z*- -' &*Jtâ+*V *C*+a~ *u+*a^r s/Lty*^ <****-W^ ~^*^ Srrftnysi^a. ayí»3 /ZA^-y^/.. 's^~/*U~~~~*r~ '+y^ t/rPt^T^i+A*. <4C^y*i^&0-. At ^**- _ O-at^CdíL^e^c^kp ^ ^V<3»* *sr*Ksr **, ^'e^baya^a, '*^fò* *. Uttrí, **« -K t *V^«* 5*=» VH«4V t-%* % J* •-«- > \"«^ \ v \ * . t . * ,N_x ,N**\*^ ~^\ x^>*^ **v$~ ^****!* '* N*. v N_. •n, v a. \ > VA ^ a^S^. 5-*~*V^ ***** ^ v, -:> -"NKV \ *À>X V .^.^J^J^—**^ >r^^V* ^^~*M* • •»•" ... 'AN. V — 181 — sensíveis. O tb.eso.uro publico é o coração do estado; se lodo o sangue alli pára,padecem as extremidades. Duelos diz, que a linguagem do coração é-universal; basta que haja sensibi lidade para que se entenda e falle. J. J. Rosseau quer^que o coração recto seja o primeiro órgão-diite", chegando aos lados da bexiga urinaria, procuram a sua r"gião inferior e posterior, c se dirigem para os lados ini< ni< s das visiculas seminaes, onde recebem o conduclo txcretor, c vae emfim dar origem ao canal ejaculador. les, e o vigor de Achillcs. Neste caso estava aquelle homem de Bou- lonba, que tinha duplo o principal órgão exterior da geração. Outras vezes, crcaaças que reúnem em si os dous sexos : são lestc- ir.uuias os androgineos de todos os tempos, e aquellas raparigas iier- mapluoditas, que se mostravam publicamente em Paris nos annos de 17.J0 e 17"jl,e das quaes os relraios espalharam-^ pelas província, de Tranca. Finalmente vêem-se creanças, como a de Renata Secaud, que foi paitejada em 1776 por Mr. Meiy, celebre cirurgião d'llotel-l)ieu, que não era nem menino e nem menina, e no qual se não via nem exterior e nem inte-iormente, signal algum de sexo, por conseqüência parte ne cessária á geração. (item. da Acad. Real das Sciencias, anno de 1716.) Bãm^"m *"* Jma^ da lorde, periódico da M^SL^*1*"5*0 1est,S__ilte d» Faculdade de MeflMna commrmica^iyNwg^inte facto: •oi fa?» ?7 d0 corf»òte» falléceu no Hospi tal da Santa Casa um doente de febre at& £!ia*que' sen4° dei*ftdo sobre a mesa dedfs-Mccao, reeonheeeu-ae ser hermapbrodita, e Z2£T2* ™ní*L de fazer a aut<>P8ia das partes fííuV&_i?,fa9aí> Pwaentes os SM. Drs, Frei tas, Botelho, Jesus e Alvares que encarregou aos actfuernlcos Ildefonso e Sodrt de fezewm a mdagaçao-dos orgfios sexuaes. Depois de razer-sé uma incisão transversal no abdomea, e fluas verticaes na direcção poueo mais ou menos^ dos músculos costureiros, destacou-se MT* ^ sa molles, e, acabada esta operação, ser-nnMBe a parte anterior dos ossos IKscosiHIm de penetrar-se na cavidade da grauue oítquOM bacia, para ver-se as relações que existiao com os orgÃoi interior,efl,u.J.atq5 feito, entrarão os Srs. estudantes ná anatomia topographica da quella região, e chegarão ao conhecimento do que se segue: « Na parte anterior^e inferior do abdômen se apresentava' um perns rudimentario, tenio na grande uma abertura que não communica com nenhuA outro orgao^érjb. Mèguíméntò, como no estado, natural os dous testículos, ps quaes, em/Vez de, serem envolvidospóiruma so bolsa tcròtal, érão contidos cada um em a sua sepa radamente, e esta separação se fazendo regu larmente na linha média,; Jogo abaixoftèstès órgãos existia a abertura davülvá,que apresen tava um diâmetro vertical dé tres centímetros, e o meato urinariocommunjcando-se, como na mulher, com a bexiga; Depois, pela incisãp feitaium pouco máís por hftixo;'e para Me desta superfície uma cavidade pouco extensa, que apresentava todos os caracteres da cavi dade, üterina, forrada de mucosa; da parte superior deste órgão nascião dois canaes tu- bulosos, com um diâmetro de tres a quatro linhas que se vinhão abrir entre a mucosa e as paredes do pequeno uterò : os ligamentos redondos se achavfio bem desenvolvidos e vi síveis. Um outro canal,' dirigindo-se debaixo para cima e de trás para adiante vinha dar na abertura da vulva, no mesmo ponto onde co meçava o canal da uretra. « A bexiga se mostrava no estado de vácui-dade,-mas muito volumosa, e &a suas paredes espessas apresentando fibras.musculares bas tante desenvolvidas e contranidas.TSis o resul tado qu% se obteve da dissecçâo. Apezar, po rém, dest|s'circumstancias e particularidades que *e escalpello demonstrou, o seu sexp pa recia mais tender para o masculino. Tiaba bar bas, mamas pouco desenvolvidas, ò á sua pby* sionomia era viril. Não consta que em algum tempo usasse do coito; e nem também que houvesse pelas partes genitaes femininas cor- dtnento sanguineo. Este indivíduo era bespa-àhol etinba28 annos de idade. A preparação foi convenientemente feita, e se acha bem acon-dicionadaem um frasco cbeíode álcool. E'mais uma peça que enriquecerá o gabinete de ana • tomia da Faculdade. » — 197 — Ylftlculas seminaes. As visiculas seminaes, são duas bolsas membranosas, de duas e meia polegadas de comprimento, sobre seis ou sete li nhas de largura, irregularmente conicas, desempenhando a respeito do licor seminal o mesmo uso que a visicula bilia- ria, servindo por conseguinte de reservatório ao esperma, que durante o conjuncto amoroso lançam para fora com bas tante força, pela acção tônica de suas paredes, e por meio da compressão exercida pelos músculos que estão na sua visinhança, que entram em contracção no movimento da ejaculação. As visiculas no seu interior são repartidas em muitos al- veolos que formam os lavores que se vêem no seu interior: uma membrana mucosa a forra, e fornece um liquido viscoso que se mistura com o esperma, para lhe servir de vehiculo: a extremidade anterior das visiculas seminaes 6 alongada, estreita, terminada por um canal mui curto que se abre no canal difftrenle, com o qual vae formar o canal ejaculador, que se abre na uretra por dous orificios oblongos no ve- rumontanum. Ha, além das visiculas seminaes, uma espécie de glândula, que também segrega mucosidades, collocada adiante do colo da bexiga, atrás da symphese do púbis (lu gar anterior da reunião dos dous ossos), chamada próstata, e pelas glândulas de Cowper, que são situadas no mesmo lugar e atrás das partes genitaes. O humor excretado por estas glândulas serve para lubrificar o canal da uretra, e fa cilitar pela fluidificação a projecção do licor fecundante no aclo do conjuncto. Do menlulo. — E' o mentulo o órgão do conjuncto no homem; sua direcção representa a fôrma de uma curva; seu volume varia: na extremidade livre ha uma depressão circu lar, que se chama colo, onde se notem umasgranulações que excretam um humor de cheiro forte, e pouco agradável. A extremidade posterior está adherente ás partes lateraes dos ramos do púbis: a anterior (é livre e terminada pela glande tendo em sua parle média uma abertura oblongada, que é o orifício externo da uretra. A extremidade livre do mentulo é coberta por um pro longamento da pelle que lhe serve de protecção, e também de concorrer para despertar variadas sensações. O tecido TOM. II. 26 — 198 — deste órgão é esponjoso, e se compõe de vasos sangüíneos, e de um tecido cellular espesso; offerecendo na sua parte infe rior uma longa goteira, onde está assentado o canal da uretra. A uretra estende-se desde o colo da bexiga até o extremidi.de livre do mentulo. Antes de se terminar o canal da uretra, forma uirp espécie de dilataçBo, a que se tem chamado fossa navicular. A uretra é forrada pela continua ção da mucosa visical. Apiiarellio rcproiluctor da uiulUer. Os órgãos sesuacs da mulher podem ser estudados sob dous modos: uns internos, e outros externos. Os externos são collocados na rcgiSoperineal, e dispostos em grupo ao redor de uma tenda, a que se tem denominado ftnda v atar. Kxarninando as differentes partes que com põe a vulva, aclia-se por cima da fenda uma saliência, cha mada Monte de Venus, coberta de cabellos da época da pu- berdade em diante-, para baixo encontra-se o clitoris. Ca- minhando-se sempre de cima para baixo, se encontra o meato urinario, mui curto, em relação ao homem, com uma pole gada de comprimento; a fossa navicular; o orifício externo da vagina; os grandes e pequenos lábios. A vagina no estado de pureza é como que tapada por uma dobra da membrana mucosa, á que se chama hymen, que serve na mulher como de garante de sua pureza na união conjugai. Depois é destruído é substituído pelas carunculas myrtiformes. A vagina é um canal membranoso obliquo, com paredes delgadas de quasi seis polegadas de comprimento, sobre uma de diâmetro, e mais ampla na sua parte superior do que na inferior. A extremidade superior abraça o colo do utero, e fôrma uma eminência mui distineta nesse lugar. A mucosa que a forra, apresenta muitas pregas, onde tem em sua es pessura unia infinidade de poros por onde sabe um liquido inucoso particular. Não fallando do tecido esponjoso erectíl, que entra em sua estruetura, e nem na sua nimia sensibili dade, notaremos que a sua disposição foi mui bem collocada para o seu importante fita. Ouiero, órgão interno, e o mais volumoso do apparelho pro-creador da mulher, é situado no meio da bacia, entre a /•at*v*£»~a* - i> _^C. » -y.^1 at^tf^' ^-^" >-^—«--<^L__C "^--»*/i-y v » *> 3<^~r- < _E-*-*~— ) c^r c-<£~^ .r S*— f^ » yS.-t,^jtt*mt*s <*?7< x x i-r. y^ *>Stl£a*J. —_. ^ -^ -• ~yry . • \ >N . J -*•* ây^*f/'"Í^-V* • l^yíi^*^^ ^^^^.^-J,, ^^__..^;«__-^ ^-e-ç-.^-^^ç-^., . ;^^£~-~ ^^*-t_-»-_ •-< ^^^_-_u_' —^ "•••*•! 4 "^•*-«-«—• «•«.•> -.^ tm^aff-. -r—i—s £^9—* y- 'Í^ÍJ, • «-T ^ *•«««•»> St^n . «. . » X — 199 — bexiga e o intestino recto, por cirna da vagina e por baixo das circumvoluções dos+frôsiliios delgados. Sua fôrma é a de uma pera um pouco achatada sobre suas duas faces. Elle tem fundo, corpo, e colo. O corpo do utero é um pouco comprimido de diante para trás, com duas polegadas de comprimento. Elle tem duas faces, uma anterior e outra posterior; a extremidade infe rior embocca na vagina, e offerece uma fenda ( bocea de tenca) variável, segundo as condições: na muüier que teve Olhos, ella é transversalmente posta, e apresenla espécie de rasgões, com dous lábios perfeitamente distinetos. No inte rior, o utero fôrma uma cavidade triangular correspondente á sua configuração exterior: no estado ordinário ella é es treita, e apenas pôde conter uma hervilho.e no estado de gestação adquire uma amplitude considerável. Nos ângulos superiores do utero se notam dous orifícios extremamente tênues, que pertencem ás trompas de Faiopio, ou trompas Merinas. Estas trompas são dous canaes longos fluetuantes, de h á 5 polegadas rectas, de um diâmetro mui estreito, que partem dos ângulos do utero para cada lado da bacia, onde se dilatam e formam uma espécie de corala franjada, á que sechamapavilhão, indo uma das franjas pegar-se no ovario correspondente. O peritoneo, dobrando^se sobre o utero, apresenta duas dobras, conhecidas pelo nome de ligamentos largos, fixos, ás partes lateraes do utero, atira de conter os ovarios, as .rompas, e os ligamentos redondos. Ovarios. — Os ovarios são dous órgãos ovaides, menos ¥Olumosos que os testículos, e com a superfície um pouco enrugada: são situados em uma dobra do peritoneo, queatan- do-se ao uiero, mantém esta víscera no lugar que oecupa na bacia. Seu tecido é molle, esponjoso, e parece composto de lobulos vasculares cellulosos, de uma côr escura, embebidos em um humor particular, onde se vêem pequenas visiculas transparentes, cujo numero varia de 15 á 20, tendo a gros- sura de um grão de mostarda, cheios de um liquido viscoso atnarellenlo. Por um lado o ovario adhere-se a uma fra ja dopaulhão Falopiano, e pelo outro insere-se no utero por um.pequeno cordão cellulo-vascular, de uma polegada e meia, chamado ligamento redondo, oivdo otário. — 200 — Mecl.mil-.mo da reproduerfto. Pelas disposições preliminares, os forças orgânicos e vi- tacs dos sexos dispõe-se para o conjuncto, eo homem de põe na vagina o elemento fecnndante que seus órgãos pre param á ir para o orifício do '.iteroe das trompas de Falopio, fecundar o germen que tem de vingar As 1 rompas recebem do ovario o germen fecundado, e o depositam na cavidade, do utero. Se por alguma circumstancia deixa de o fazer, a producção é extra-uterina. Os partidários do systema da _rofr/,wo(n desenvolvimento suecessivo do ser preexistente), que goza hoje do maior fa vor, pensam que o indivíduo novo preexiste debaixo de uma fôrma qualquer em um dos sexos, e que í-e desenvolve, c torna-se um ser independente, pelo effeito do avivamento que recebe do outro sexo na geração. Esto systema tem já dado lugar a duas seitas: a dos ovaritas, e a dos animacu- litas. Os ovaritas querem que a matéria fornecida pela fêmea, noacto reproduetor, seja um ovo parte organisado, segundo elles, formado de um embryão c de órgãos particulares, destinados a servir ásua nutrição e aos seus primeiros des envolvimentos, depois dos quaes este embryão 6 apto a tor nar-se um indivíduo semelhante ao de que provém. Confor me os animanilitas, não é um ovo o principio do indi víduo novo, porém um nnimaculo infusorio. Se a comparação tem lugar, a lurgidez que se manifestou se sustenta, e o utero se desenvolveinsensivelmente, seguin do no seu desenvolvimento uma progressão regular até ao. fim da gravidez, línlão este órgão, cujo volume no seu es tado de vaei:idade igualava apenas ao de uma pera, offerece quasi o comprimento de doze polegadas, sobre nove de lar gura c oitoe um quarto de profundidade. O peso desusado que o ulero adquire subitamente, o forço logo a descer um pouco para a escavação da bacia-, porém o seu corpo tornan do-se inui volumoso, á poder ser ahi contido, suspende-se: gradualmente, do 3." ou 4.° mez, de sorte que para o fim da gravidez, o orifício ulerii.o principia a embocar na vagina, mais ou menos, o què deve ser altribuido á convexidade que fôrma acolumna vertebral, articulando-secoma baciae as mudanças que o utero experimenta. Durante este estado — 201 — as outras entranhas do ventre soffrem mais ou menos com pressão, epor isso são os muitos incommodos que sentem as mulheres grávidas. O embaraço da circulação, muitas vezes neste estado in teressante da vida da mulher, faz desenvolver os ovarios, e bem outros phenomenos, que por sympathía se manifestam. A pressão constante do utero sobre a bexiga faz que ella se não possa incher convenientemente, e determine as fre qüentes necessidades de urinar, como ordinariamente se observa nos últimos tempos da gestação. O embryão humano (1) não se pôde distinguir, senão de 19 dias em diante depois da concepção. Nesta época se des cobre no lugar que corresponde ao coração, um ponto ver melho, apresentando pulsações e linhas avermelhadas que delle partem, indicando a existência dos grossos vasos. Da 3.° ou 4." semana em diante póde-se já conhecer a cabeça, (1) No fim de dous ou tres dias, diz um compilador, o ovario torna- se a sede de uma circulação mais activa, e uma das visiculas do ova« rio se introduz nas Trompas, que se acham applicadas ao ovario, e a visicula passando pelo canal que ahi encontra entre dez a doze dias chega ao utero. Tres membranas principaes compõem o ovo: uma interna, lisa e transparente, chamada amnios, outra externa chamada eaduca ou epi- clwrion; e finalmente outra media, chamada chorion; a visicula umbe- lical ou allantoide,a placenta, o cordão umbelical. A face interna do amnios segrega um fluido abundante nos primei ros tempos da concepção, e menor para o fim da gestação, o qual se denomina águas do amnios. Este fluido envolve e protege o feto contra ps choques exteriores. Muitos physiologistas pensam que elleé absor vido pela pelle do feto., a fim de lhe servir de nutrição. Esta opinião nos parece susceptível de objecção, porque muitos parteiros têm visto fetos nascer em tempo, no meio das águas do amnios corrompidas, cxhalando um cheiro insuportável, e, em outros casos, têm achado fe tos perfeitamente vesiveis sem existirem traços das águas do amnios. Os usos do fluido amniano não são somente limitados aos que acabamos de indicar; na época do nascimento elle serve para gradualmente di latar o calo do utero, a fim de facilitar o parto. A placenta, a que se chama também pareas ou secundinas, é uma grande massa vascular que apresenta duas faces; a interna adheie ao utero, e a externa é forrada pelas membranas do feto; 6 sobre ella que se descobre as numerosas ramificações dos vasos. Emplantada no fundo do utero, ou na sua parte lateral, e mui raras vezes no callodo utero. O cordão umbelical, é mui affeto a placenta. Na época do nascimento tem ordinariamente dezoito polegadas de comprimento, medida que exactamcnle corresponde ao tamanho da creança. Não nos competindo — 202 — que é tão volumosa como o resto do corpo, e que se offerece debaixo da fôrma de uma visicula de paredes mui del- •gatlas. Os membros superiores e inferiores não são ainda senão espécies de luberculos redondos, e o comprimento do feto é então de 4 5 linhas. Em dous mezes as diversas par tes da face se desenham; os olhos são indicados por dous pontos negrog;;a boeça, o nariz, as orelhas são perceptíveis; bem como os braços, pernas e coxas-, então o feto tem ad quirido o comprimento de dua§.polegadas. Os órgãos geni- taes apparecem aos 75 dia.s: Afl. 3." mez distinguem-se to das as parles do feia» podendo-sè mesmo determinar o sexo á que pertence. A cabeça, sempre mui volumosa, forma ainda a metade de toda a massa, pesando todo o feto pouco mais de tres onças- No /».- mw as fôrmas são mais desenvolvidas, e os membros têm entre si uma extensão proporcionada*, nesta senão tocar de passagem nos diversos órgãos do feto (*), não trata remos miudamente do tempo em que todos os órgãos principiam a desenvolver-se,e para o que remetiemos o leitor para os tratados de Anatomia de-Bicjaat, Gloquet (J. eH.), Boyer, Cruveillicr, Burgery, Blandin, etc,ele. (*) A circulação-do feto é um phenomeno mui digno do altençSo, e sa executa do modo seguinte, conforme as observações dos melhores parteiroi. anatômicos. As radiculas da veia umbelical absorvem os fluidos das cellulas da placenta» e reunindo-se, formam um só Ironco, que entrando pelo annel umbilical, vae ganhar a parle concava do fígado; este tronco, próximo ao sdo da veia porta, se "divide; parte dos fluidos que elle contém, retrocedem pelo canal venoso, quí os lança na cava inferior; a outra parle é lançada no seio da veia porta : este sangue, junto com o que ahi se descarrega do baixo ventre e membros abdo- mjnaes, é conduzido pelas veias hepaticas á cava inferior, esta veia entra na au ricula direita, e larga todo o sangue que recebeo das hepatiras e do canal ve- noso,.na auricula esquerda, por meio do buraco do Bolai, com o qual a mesma veia se continua. Da auricula esquerda passa O sangue para o ventri culo esquerdo, e deste para a artéria aorla, que o transmilte pelas carótida* e sub-claveas ao systema capillar da cabeça e membros superiores, donde volta pelas veias que formam a cava superior a descarregar-se na auricula direita. Da auricula diieita passa para o ventriculo direito, que 0 Iransmítle para » ar téria pulmonar : esta artéria envia uma pequena parte ao pulmão, que volta pe las veias pulmonares a descarregar-se na auricula esquerda; porém a maior parte passa pelo canal arterial para a aorla, descendente abaixo da origem da» carótidas e sub-claveas, para ser distribuído pelas ramificações da aorla no systema capillar do abdômen c membros abdominaes, indoos seus resíduos de- pôr-se na placenta pelasírterias umbelicaes. monstro , rtuo muito «« , nT a Uu um ftíio ,Sado: os olhos auesoLLSSIm'",a * um k^ /'«sdesnnguo erist?m„„ P"ecJcm com duas Pos- Cha ; a LoS a gal de uma í "T^ "a C0"- biaçose pernas estão Pn^ii-j a outra °relha;os ao assnhin ,!„..__ UIU' ° •*.* »^V ^ «via ainda a 29 dl Abril J la SerPente; v ) assob ril.# >Wx f-^ '•*** a evideu- unha mein-br;nosa de cim. até abaixo, olhando cad. uma para di- vetso pont>. Na face esquerda notava-se uma eminência ema chocada, e no centro uma pequena lenda, sem que peilu'asso a pai te interna y -í >*-rá_, -K-^ 5 '^^^ ^ ^ y ' ' ^**L **&\ -^__^-_-, ^ata *rf>» *- J>.-*y I Tr^' -^ _. 1 • • IJ< r i -^^%^> és^L ^>^>^*^— ^t-r ^ S ^^ -ftaw r v:^. ^ ^c •m^^^y^ y^~ ^^yzy. *rf«yZ* * -—<• » ou adquiridos; os ad quiridos são regulares ou irregulares. Os temperamentos in- natos são aqnelles que dependem da organisacão primitiva do feto; bem como os temperamentos adquiridos são os que resultam dascircumstancias particulares em que se achou a creança, como fossem a qualidade da nutrição, do ar, da limpeza, da educação, exercício, e das demais eousas que se guiram ao indivíduo. Os temperamentos diversificam muito do homem para os da mulher, porque sem lembrar as outras circutnslancips, para os caracterisar basta encarar as disposições naturaes. Os temperamentos regulares são aquelles que conservam o ejui- librio nos órgãos entre si, procedendo cada um conforme sua natureza, e as funeções á que são destinados, a equili brarem os sólidos á viverem em harmonia. Os antigos cha mavam a este temperamento adpondus: saúde florescente; constituição forte e dócil: apresentaram como typo deste caracter, a estatua de Apollo de Bjlvedre. Também dizem possuir esle caracter o famoso Marco Aurélio. Este tempe ramento representa o muncebo. Os temperamentos irregulares podem ser simples ou mis tos. Os temperamentos irregulares simples, tém nove lypos differenciaes,conforme a predominância dos systemas ou ap- parelhos: 1.° se predominam os systemas absorvente e lym- phatico, chama-se lymphatiro ou phlgmalico (typo o quadro da Fortuna, o caracter de Alticu*, e seus representantes as mulheres e creanças); 2 ', se predominam os sólidos cm geral por via das forças assimiladoras, chama-se temperamento- sangüíneo athlelico, quente e humido (typo a estatua de Her cules e Sausão, representantes homens exforçados); 3.', se predomina o systema cellular; 4." se predomina o systema nervoso, cbama-.se temperamento nervoso, ow constituiçSff yt, -*— to_*-^4^^ti> >t_£ x^&^^^jr" *-. *- — 207 — secca (caracter de Voltaire, e representante o adulto); 5. se predomina o systema exhalante do tubo digestivo, cha ma-se temperamento pituitoso, frio e humido; 6.» se predo mina o systema respiratório, em que a hemalose se faz com facilidade e abundância, chama-se temperamento sangui- )ieo(typo a estatua do Gladiador, caracter Alexandre, e re presentante o moço); 7.", se predomina o systema biliario, chama-se temperamento bilioso, quente e secco; 8.", sepre- domina o systema absorvente do tubo digestivo (caracter os guslronomos); 9.°. se predomina o systema sexual (caracter os sensuaes voluptuosos). Os temperamentos irregulares mistos também são olhados sob oito ponlos de vista, segundo, que 1.°, se predomina o systema absorvente geral do organismo (alhletico), e da as- similadora (constituição vigorosa); 2.", se predominam os sys temas nervoso e biliario e melancólico)-, Ò.J, se predominam os systemas absorvente biliario e digestivo (constituição fria e sombria); \.°, se predominam os systemas exhalante biliario e digestivo (constituição fria esecca); 5." se predominam os systemas nervoso e sexual; 6.° se predominam os systemas circulatório, sangüíneo e nervoso; 7.' se predominam os systemas nervoso e cellular; 8.° se predomina a fraqueza or gânica da decrepitude, que representa a velhice (1). IDIOSIUCJIAZIAS iNnivmiiAEs. PREDOMINÂNCIA nos SÓLIDOS. ACTIVIDADE DA FORÇA ASS1MILAD0UA, Caracteres diffevenciaes^ A experiência tem confirmado, quô quem possue este temperamento tem a pelle fina, á deixar ver as inserções! musculares: a cabeça pequena", cabellos curtos, pescoço curto e grosso, espaduas largas e quadradas, peito largo e bem desenvolvido, membros fortes, as mãos e pés largos, com de dos curtos: o systema muscular por toda a parte é bem deli neado. As fôrmas dos órgãos são grosseiras. A susceptibi- lidade nervosa é tardia, e pouco desenvolvida. (1) Como cada variedade destes temperamentos tem seus caracteres áifferenciaes, damos conhecimento de alguns. — 208 — Caracteres physionomicos, moraes e intellectuáes. As pessoas que gozam deste estado orgânico, não sâoacti- vas, e confiam no sentimento de suas forças. Desprezando os subterfúgios, vão direitas ao seu intento: não são dolosos, ou astuciosas, porque suas idéas não alcançam muito, e para fazel-as desenvolver-se a tomar vingança de alguma cousa, é mister estimulal-as. Suas affecções são brandas, suas paixões moderadas; porém se se apoderam da cólera, desenvolvem- na á um ponlo excessivo. Bem que sejam dotadas de docili- dade natural, ellas desconhecem a ambição, c por isso são de pouco mérito na sociedade. O mister que se ajusta com individuos taes é para os trabalhos rudes e grosseiros.—S3o infatigaveispara os prazeres venatoreosesensuaes: comem muito, e com preferencia as eousas grosseiras, e ordinaria mente são valentes beberrões. Suas faculdades intellectuáes pouco alcançam. Physíologia pathologica. As moléstias que mais atacam as pessoas deste tempera- ramento, são as inflammações aslhenicas agudas, particular mente as que invadem os pulmões, o tubo gastro-intestinal, e os invólucros do cérebro. PREDOMINÂNCIA DO SYSTEMA CELLULAR. TEMPERAMENTO LYMPHATICO. Nada ha mais fácil do que conhecer-se o indivíduo em quem predomina o systema cellular, por ser caracterisado este temperamento pela polysarcia e obesidade. Caracteres moraes c intellectuáes. As pessoas que gozam desta disposição orgânica, são tar dias e insensíveis. Physíologia pathologica. As moléstias que mais os accomettem, são as que atacam o systema lymphatico. *^t+^£v>-* '/^{r •* j^t^0>yy^-f —?*-<_ y> -»«-»- J-*-*-^ y*^ ^ * ^ ^ ^-^^<^r JC^~^. ^ _• _^^ _ -• ^^*^v «^ ^-J? ^^í_-t, y+-~ 5^ ^yV >> ''^"^y' Za^***** y"^ *~Zy*jyy***~*'«- J^**"1 "^ — 209 — IniozmcRAziAS INDIVIDUAES. PREDOMINÂNCIA DOS SYSTE MAS LYMPHATICOS E ABSORVENTES. INÉRCIA DA FORÇA ASSIMILADORA. TEMPERAMENTO LYMPIIATICO E PHLEG- MATICO. Caracteres differenciaes. As pessoas em quem predomina este temperamento, têm a pelle desbotada, ou ás vezes ligeiramente rosada, luslrosa e macia; cabellos de um louro cinzento. A fôrma de seus membros são arredondados; e bem quasi que se não distin guem os músculos com o aspecto exterior, por serem apa gadas as saliências subeutaneas. Ao pegar-se no corpo, nota- se serem os músculos moles, sem aquella rigeza das carnes; as articulações são proporcionalmente mui desenvolvidas. Os lymptWticos Vm pouccVcalor. As tffeestõesteão tardias.' Ca\ictere\ohyswno\icos, wioraw e inMlecluaes. . Ao encVar-se fljra um rWividuo de\lempe\amento ly phatico, ouserva-se ter elle uma physionomia tranquill embotada a sensibilidade, lentidão nas sensações, e o que 6 mui ordinário, quasi nenhuma vivacidade nas idéas e na ima ginação. As deliberações são pacificas e mansas, e portanto propensas á indolência e inacção, são incapazes para as eousas de importância, e que dependem de actividade, promptidão e constância. E' sabido pela observação, que as pessoas em quem predomina os systemas absorvente e lym- phatico, são incapazes para as virtudes sublimes, ou mesmo para os vicios hediondos. Physíologia pathologica. As moléstias próprias do temperamento lymphatico são todas as inflammações aslhenicas, scrcphula, gaslro enleri- ús chronicas, como diarrheas, hydropezias, e fluxões leu- corrhaicas. ~^H> Predominância» do systema nervoso Os indivíduos em querb predomina o systema nervoso, tèrn*pelle/brfncaf ou taWjÂa,* cyrpcymagrrf tfsaccp,* puUflfviyo k fr/qujínte/is /eníGçôw ra/idaf :esté tefn/e/i- «*c^ ^a~~~,,yí&Z-~^, yt^yy+í—* C-*-»**-J^ éfyt^*^è> y^A-*-*» ^ ' ^y^^^z^1•* -^*T> ^yZt-**-» '*~~4~> ^-+^í--^2£—*4^, ~^y^< ^'~^ ~ 211 _ fôrmas do corpo um pouco toscas-, grande vivacidade de mo vimentos; caracter ardente e teimoso; espirito susceptível, de grandes applicações, paixões violentas, irascibilidade, ele. Este temperamento é próprio da idade adulta, e predomi nante nos homens de letras. Em consequencia do systema biliario ler grande predo minância em todo o organismo, acontece que reagindo sobre o systema nervoso, se perverte e origina o caracter melan- colicoque muitas vezes vemos em certas pessoas, o que se manifesta pela pallidez sombria da physionomia, encovamen- to dos olhos, dificuldade das digestões, e caracter nimià- mente desconfiado* e por isso buscando a solidão e o isola^ mento. Predominância do systema digestivo. Conhecesse esttrpreiominancia, «uando se observa MOS individuoslppetmle \yraz com nutrirão abundaíle; barrilu- dos. comilies, bJbenjes, obessidadfe na inlelliiencia, incli nação á ryeguiça; liles indivíduos são incala/es par/ os granoes «tines, e ptp-a as nobres* virtudes. Çlles passam uma vida»crapulosa. Predominância do systema sexual. •»-, M. n-rfti m\^ya ^O'"*" ~V "irfi » - f irr •*•' E' caracterisado pelas paixões eróticas mui vehemenles, «tyriaris. nymphomainas, abuso dos prazeres do amor, etc. O estado de obatlimentoem que põe os demais syslemas do corpo, (orna estes individuos inhabililados para os grandes trabalhos da vida. Da Homogeneidade do corpo, extrahido de Lavater. Em todas as organisações, a natureza opera de dentro para fora; cada circuinferencia remata 11*0111 centro commum; a mesma força vital» que faz o coração bater, move também as pontas dos dedos. O craneo e as unhas são arqueadas por uma só força. A arle só faz appareluar, e $ nisso que dillere rflnn -gH j j ^-^"eT^ *€Z^-y£^.y^^yg&toSaav ÂL^- -- 212 — da natureza. Esta fôrma um todo de uma só peça e de um só àclo. As costas liga á cabeça, e a espadua' produz o bra- $o; dò braço nasce a mão, e da mão se originam os dedos; Às raizes produzem o tronco, o tronco' dá ramos, os ramos carregam-se de flores e de frutos, e uma parte tende para! outra como para sua origem. São todas da mesma natureza,, e todas homogêneas. Não obstante todas as suas relaçnus£j o fructo do ramo A não pôde ser o mesmo do ramo B,e muito menos o de uma outra arvore, E' o effeito dcterminadófde uma força fixada; e deste modo é que a natureza sempre' procede. Por essa mesma razão é que os dedos de um homem nSo se poderião ojustarexactamentenamão de um outrohô.memk Cada parte de um todo orgânico é própria para o ajunta mento, e delle tem o caracter. O sangue que corre na ex tremidade dos dedos tem o mesmo caracter do sangue que circula nas veias do coração. "O mesmo succede com os ner vos e os ossos; tudo é animado pelo mesmo espirito, ecomo cada parte do corpo acha-se em relação com o Corpo a que pertence, á medida de um só membro, dejjmapequena jnntd do dedo, pôde servir de regra para achar e delerniinar-seas proporções do todo, e o comprimento e largura do corpo em toda a sua dimensão. A fôrma de cada parle separada pôde servir para indicar a fôrma do todo. Tudo é oval, se a cabeça é oval;se redonda, ÍTítiô* 9e ftwèdonda, e iHdó-é qtjadrado^ella é, quaáradlF ahi não ha senão uma fôrma commum, um espirito corat- mum,e uma commum origem. Isso é que faz cada corpj orgânico compor um todo de nada se pôde separar e nei* ajuntar, sem que a harmonia seja perturbada, e que delia re- ^lie^teofd^Hk.^^dMwsHHdíriie. Jhty&que pertence ao ho mem diriva-se de uma mesma causa. Tudo neste é homo gêneo; a fôrma, a estatura, a côr, os cabellos, a pelle-as Veias, os nervos, os ossos, a voz, o andar, as maneiras^o.eJ- tylo, as paixões, o amor e ódio. E' sempre um, sempre o mesmo. Tem uma esphera deactividade em que, suas facul dades e sensações se movems, Pôde livremente obrar nessa esphera, mas não transpor os limites. Entretanto convirtos na mudança do semblante, ainda que seja impercept|vel- menle e de um momento para outro, até em suas parles só lidas; porém essas mudanças são análogas ao mesmo sem- *// *-* y -J*~ ^yfiía mfcv — 213 — blanle, análogas á mulualidade e ao caracter próprio, que sao assignaladas. Elle só pôde mudar a seu modo; e qualquer movimento affectado, imitado ou hetorogeneo, conserva sua individualidade, que -determinada pela natureza para o ajuntamento, só pertence a um ente, enão poderia ser o mesmo ente differenle. Que diiá aposíeridade quando vir que tanto nos custou provar proposição tão evidente, e entretanto tantas vezes recusada por aquelles que se dizem philosophos. A natureza não se oecupa em apparelhar partes separadas; ella compõe de itma só vez; não são suas organisações peças de rela ções? Seus planos são de momento. E' sempre a mesma idéa que domina; o mesmo espirito se faz sentir nos mais peque nos delulhes; estende-se por todo o systema, e percorre todos os ramos. A natureza não trabalha diversamente; é sobre o mesmo principio que ella fôrma a menor das plantas, e o mais sublime dos homens. Uma obra que se assemelha é um mosaico, cujas partes se não derivam do mesmo tronco, e que leva a seiva até os ramos mais distantes, não é obrado sentimento e nem da natureza. Só encontrareis energia e verdade ao natural, naquella cujos desenvolvimentos nascem do âmago do mesmo assumpto; só ella pôde produzir effei tos admiráveis, universaes, e permanentes. Todas as nossas indagações physionomicas seriam inúteis, e perderia nosso trabalho, se não conseguisse destruir um prejuízo absurdo e indigno do nosso século, e tão contrario á sã philosophia como á experiência; o prejuízo, de que a malureza ajunta de differentes lados as partes do mesmo sem blante. Porém nos julgaria bem recompensado do nosso trabalho, se chegasse a provar para todo sempre a homo geneidade, a harmonia e uniformidade da organisacão de nossa estruetura; e se chegasse a demonstrar essa verdade como uma evidencia tal, que não fosse mais permiltido re- cusal-a. O corpo humano é considerado como uma planta, da qual cada parte não subsistindo por si, vive em perfeita harmo nia, em modo á formar um todo perfeito, como por toda a parte o vemos. Não nos animaria a repetir muitas vezes esta proposi ção, porque é atacada sem attenção de todos os lados, por- TOM. II 28 — 514 — que é insultada constantemente, por palavras e por effeitos, por que é ultrajada a cada passo pelos autores^ e pelos ar tistas. Á esse respeiteis grandes,mestres offereceqa-nos w mais, indiscnlpaveis fajtas. Não conhecemos um só que haja estiK dado a fundo a harmoniá*dos Contornos do generc^ Inumano; nemjnesmo Poussin, e nem, o ,fijkQpiio Raphael. Classlficãe num'quadro ás fórnlls-êo semblante; oppòndeti essas outjjfj análogas tomadas á natureza, queremos dizer, desenho^poi exemplo, os contornofrlTa fronte; procurae iguaes na natu reza, e comparae dépofeaas progressões de umas e de odtras, e encontrareis dessemelhanças que quasitnãft-teriaâ: sido percè"bidas pelos primeiros mestres da arte. Se exceptuasse a distancia e a tensãó^dàs^gurâs, sobtfe tudo as dos homens, nós concederíamos taJTvez a. ChQdawíuclji o màíor sentimento pela homogeneidade; porém só foi em caricaturas, por assim, dizer, que elle expwmio a coherenoi^ das partes e dos traços, pois que esses quadros são de sugeitos mc-mistas, e em caracter carregados em burlesca Do mesmo modo que ha uma homogeneidade para a belleza, ha tam bém outra para a fealdade. Cada figura heteroclita tem uma espécie de"' irregularidade que lhe é particular, e que-se* tende a todas as parles de seu corpo, assim como todas as acções do homem de bem, e as más do perverso conservam sempre o caracter do original, ou pelo menos delle se re- sentem. A maior parte dos poetas e dos pintores não dá muitaatlençãoa esta verdade, que entretantòpodia ser tio útil na pratica das bellas artes. Nossa admiração"cessa logo que. percebemos um assumpto de.,peças inferiores. Pôr que razão nunca se pensou em associar no mesmo sembrápte olhos de cores differentes? Esse disparate não seria menos ridículo que o de collocar um nariz de. uma Venus n'um rosto de virgem, estravagancia que se vê todos os díag,1^ quenão revolta pouco a vista observadora dos physionóhjífc tas. Um homem da moda nos assegurou que n'um baile mas carado, ura simples nari^de papelão"o tornoo desconhecido aos seus mais íntimos amigos; tanto é verdade que a natu reza repugna tudo quê lhe é estranho. Para melhor clareza, do facto, tqmae, se quizerdes»mil perfis exactamenle desenhados- Começae por classificar so mente rs testas (mostraremos em tempo e lugar opportuno U^J ^5^ aaAji^ _.«-_»-«-.*-. -^» *^É> ^%, » • • \ -• -«%« •< — 215 - que, conforme alguns signaes exaclamente determinados, as testas rivaes e possíveis, podem ser levadas a certas classes, cujo numero não é infinito); começae, digo, por classificar separadamente a testa, o nariz e o queixo; ajuntae depois os signaes d'uma mesma classe, e achareis que tal fôrma de nariz não se pôde supportar de modo algum n'uma testa de fôrma heterogênea; e que tal testa associa-se sempre á um nariz de espécie análoga. Esse exame poder-se-ia estender igualmente ás outras parles do semblante; ellas o sustenta riam, se as parles moveis tivessem mais estabelidade, e se Fossem menos sujeitas á adquirir ares emprestados que não são effeito da,fórma primitiva e da força productora da na tureza, porém do disfarce e do gênio. Os exemplos que «juntaremos em algumas estampas particulares, acabarão de confirmar estes princípios. Limitamo-nospor agora a apre sentar o simples resultado de nossas indagações. Entre cem testas que apparecem no perfil, ainda não en contramos uma que apresentasse um nariz aquilino propria mente dito. N'um igual numero de quadros em que se apro ximam a essa fôrma, não nos lembramos d'um só cujas pro gressões não sejam marcadas por profundas cavidades. Quan do a testa é perpendicular, nunca o baixo do semblante offerece partes assás curvadas em circulo, a menos que não sejam em cima do queixo. A fôrma do semblante, sendo perpendicular e sustentada por esses traços muito apertados, de modo algum não admitte sobrancelhas muito arqueadas. Se a lesta é saliente, o lábio inferior ordinariamente ex cede ao outro, só aos membros essa regra não pode ser ap- plicavel. As lestas ligeiramente curvadas, e entretanto mui dei tadas para trás, não podiam soffrer um pequeno nariz arre- bitado, cujo contorno apresentasse em perfil notável esca vação. A proximidade do nariz ao olho decide sempre da distan cia da bocea. Quanto mais intervallo houver entre o nariz e a bocea, mais pequeno será o lábio superior. Um semblante de fôrma oval pede sempre lábios carnudos e bem desenhados. Outras observações que lemos colhido no mesmo gênero, precisam ainda ser confirmadas pela experiência: mas eis - 210 — uma capaz de surprehender por evidencia, c que provará a qualquer espirito capaz de, sentir c penetrar as verdades da physionomia, quanto é simples c harmônica a natureza cm suas operações, e quanto repugrià' nas obras do fma^tr nação. Tomae os perfis de quatro pessoas reconhecidas por ju- diciosas; lirae de cada uma dellas uma parte separada, c dessas secções destacadas componde um todo tão bem, quo nada nelle revele vossas combinações. Gravareis a lesta dó* primeiro perfil sobre o nariz do segundo, depois lhe ajunta- reis a bocea do terceiro e o queixo do quarto, e o resultado1 desses differentes signaes de sabedoria tornar-se-ha a irna gem da loucura; pois que toda a loucura não é mais lalvu que a desconveniencia heterogênea. Porém dir-nos-hSe-jCS- ses quatro semblantes não poderiam ser Jielerogeneos^ per tencendo todos a homens sensatos? Embora; quer tenham, sido quer não, a reunião de seus traços decompostos sopro- duzirá uma impressão de loucura. Aquelles que sustentam que é impossível julgar do lodo do perfil por uma de suas parles, e por uma simples secçao destacada, seriam razoáveis em sua asserção se a natureza, semelhante á arte,, se contentasse em paramenjar, suas obras. Porém os compositores são arbitrários, no entanto que a natureza obra sempre conforme as leis permanentes. Se acontece um homem de bom senso cahir em demência, essa revolução é annunciada immediatamcntepor signaes heterogêneos. O baixo do rosto alonga-se, os olhos tomam uma direcção contraria á da lesta, a bocea não pôde ter-se fechada, ou então os traços adquirem, outro desarranjo qw os faz sahir de seu equilíbrio. Todavia a demência oceiden- tal do homem naturalmente judicioso só se manifestará por" defeito de harmonia e pela desproporção dos traçps, do sem blante. Se o julgarmos só pela testa, nos limitaremos a di zer :« a capacidade deste homem era tal ou qual antes que seu semblante fosse alterado por causas extraordinárias^» Porém se se nos mostrar o semblante por inteiro, não nos será diflicil determinar e distinguir o que era esa<1 bnmMH* ant^s, e o^jue actualmente é. Para estudar a physíonoraia é preciso cortfêçw goT esfôr dar a jconvenjlncia das partes de ^semblantev Sèro eísâ i>^ V • >- 3 • • -•-•-*- * «* > VX^X ^N.v v ' * \ \ % *^*. c1 -*- Jfc-A v*^ ^^ »—»->• *-*><• T\ * v ^ q »• >> *--* % v e^ • ^_!__? -»»•»>* - i f*- o c1 . v^ * ______(*__»>_* W*" _>-» .i**^.-*»»h> — 217 - conhecimento preliminar todos os trabalhos são perdi dos (1). Nada se alcançará da physionomia, e nem jamais se pos suirá o verdadeiro espirito dessa sciencia, senão se for do tado de uma espécie de instincto para perceber a homoge neidade e harmonia da natureza; e se não se tem um justo tacto para apanhar ao primeiro lançar de vista cada parte he terogênea, isto é, tudo que n'um sugeito é obra da arte ou effeito do gênio. Longe do santuário dessa divina sciencia, todos aquelles que destituídos do sentimento de que falía mos, ousam pôr cm duvida a simplicidade e a harmonia da natureza; longe todos os que oltwm como corpo organisado, como uma obra de marchetaria, fazem a natureza semelhan te ao compositor da imprensa que escolhe seus typos em differentes caixas. A pelle mesmo do menor dos insectos não foi feita de tal modo, quanto mais a obra prima de todas as organisaçõés, o corpo do homem! Quem duvidar da pro gressão imniediata, da continuação e da simplicidade das producções orgânicas da natureza, não foi feito para sentir suas bellezas, e nem por conseqüência para apreciar as da arte que a imita. Pedimos perdão, porém, aos nossos leitores sè falíamos com calor, mas o que dizemos é da maior importância, e o as- sumpto nos arrasta. O conhecimento da homogeneidade da natureza em geral, e da fôrma humana em particular; o sen timento prompto que nos faz julgar de uma e de outra, como por instincto, dão-nos a chavede todas as verdades. Ao con trario, quem não tem esse conhecimento, e é privado desse sentimento, só tem falsas idéas de tudo. Á ignorância e á falta de tacto é que se deve attribuir tantas extravagâncias e con- tradicções que se notam nas obras da arte, nas producções do espirito, nas acções e nos juizos. Dahi procede o scepticis- mo, á incredulidade e a irreligião do nosso século. Aquelle que admitte a homogeneidade e que tem sentimento, poderá ser incrédulo? Poderá deixar de crer em DÈOS e em JESUS (1) Lavater collocou essas reflexões no 2.° volume de seus fragmen tos: elle queria que no estudo da physionomia, houvesse uma ordem que elle não teve tempo de arranjar, e que nós estabelecemos, tanto quanto nos foi possível, conforme suas vistas e suas intenções sobre a propagação da sciencia, que a elle se devemos materiae*. — 218 — CHRISTO? Poderá não reconhecer amais perfeita concórdia, t. mais divina harmonia e um mesmo espirito de unidade e de simplicidade em natureza e revelação, na conducta de JESUS CHRISTO e na de seus apóstolos? Onde achará elle uma apparencia? apparencial que digo eu? uma possibilidade de incoherencia? Appliquemos esse principio á physionomia do homem. Deixará esta de.ser um problema, se se tem intima con vicção da homogeneidade da força humana, se se chega a percebel-a ao primeiro lance de vista, e se se sente assás para poder cotejar, desprezando o caracter, a distancia in finita que separa as obras da arte das da natureza. Tende esse sentimento, esse instincto ou esse tacto, como quizerdes chamar, e dareis a cada physionomia a justa me dida de faculdades de que é susceptível, e vós ajuizareis de cada indivíduo segundo o retrato, e nunca dareis a caracter qualidades heterogêneas que lhe não poderão pertencer. Fiel ás regras da natureza, trabalhareis em conformidade a ellas; só exigireis o que ella ha dado, e só recusareis o que ella re cusado tem. Servos-ha fácil distinguir em vossa esposa, em vossos filhos, em vosso educando, em vosso amigo, cada tra ço que lhe convém em virtude da organisacão da natureza. E' obrando com prudência sobre o fundo primordial; é di rigindo as faculdades capitães ainda subsistentes, que en- tregareis ás inclinações do coração e aos traços da physio nomia seu primeiro equilíbrio. Olhareis geralmente cada transgressão, cada vicio, como um desarranjo dessa harmo nia. Convencer-vos-heis que qualquer desvario produz na fôrma exterior alterações que não podem escapar ã olhos1 esclarecidos; convireis que o vicio degrada e enfeia o ho mem creadoá imagem de Deos. Se o physionomista está pe netrado desses sentimentos e dessas idéas, quem melhor do que elle julgará das acções dos homens e das obras da arte? E o supporão injusto? E suas decisões não serão fundada» sobre irresistíveis provas? Das idades. E' a idade a época que designa a maneira da existência de uma cousa resultante da consistência de suas modifica- X/7 /yU? ^ W^ y^L^S;^ e^c^t^* U/y£ $y _. S^y^yL **í£-í€* >*^~*& •<^tu+i, V^-: •>^~<^/y*^* .w^*-^—K •< »»»,-»- 1 ~?y*h$ <>ypU^ V,l^^&^^ y^^C*^*^ **^> à^2S**fe> fe» *m*pgy< Í^ÇJ 'C&è: " i_L_s__: ^L^ S^*o^^A "^L^-é-v Jt^Vfc»* £#^»»-^ ^ííj^v^X-^ . ^ ^«^^W^ -—e*^> «H^S" -*«*~*^ ~~^ -"V-Vt-1-« .»- -< v_*~#^; ^í-v-/«-#i f £t mm^yk-a+r >-£^«-*-*^:-3£i*Í>é*_ A •-*>-^^*J^ 't^sr^Ti » -• » * y~*ur£ &^£*-i-f? *^Ls^ „-* £**++•»- Oaax^t^yy\A ' ^yfit^saUQ^*- y t t *Í2Z'#->-^* -tL*^f ^^>a>t. *T~é?^*^*t>-a^&^ í^^lU^- y^L^^A, -4^?^ .x^tò^-, ^^-«^«v- £' '"w^l *f U*M awak. it v **%^ 7<^t^W ^>*»«><- .^ >>S V3*-_à« .__ ?» _^4 — 219 — çôes successivas e variáveis, com suas qualidades fixas c constantes. A'medida que as modificações apparecem. a idade muda, e dahi vem as differenças da idade. A existên cia do homem, estando sujeita a mudanças, lem-se calcu lado em quatro épocas principaes o curso da sua vida, que são : a infância, a puberdade, a adolescência ou a verilidade, e a velhice. Da infância. O' minha infancial O' estação das flures! De innocenle illusão mansão sinve! Inda hoje te apresentas Ante mim como a imagem fugitiva D'um sonho, que encantou-me a phantasia, Ou como a aurora de um formoso dia. (MAGALHÃES.) Logo que nasce a creança, põe-se immediatamenle cm contado com o ar, e experimenta desde este instante uma revolução considerável. I\ãoé possível (diz um phylosopho, conjeclurar quaes sejam as sensações que este elemento pro duza, ao introduzir-se nos pulmões; mas pelos vagidos da creança temos motivos para crer que elle lhe causs alguma dor. Seus olhos conservam-se abertos, porém como que em botados, e sua túnica exterior está como queehrugada. O mesmo se pude dizer dos outros sentidos: só começa a Sorrir aos 40 dias pouco mais ou menos; e só desde então é que começa a chorar verdadeiramente. O comprimento or dinário de uma creança de tempo anda por 21 polegadas, ou por 2 palmos e meio; ainda que muitas não passam de 14 polegadas ou palmo e meio, e o seu peso anda geralmente de 12 a 18 libras. Suas primeiras sensações de dor são segui das de lagrimas. Suas fôrmas ao nascer são imperfeitas, e só com o tempo é que vae tomando a sua verdadeira confor mação. No fim do terceiro dia é muito commum apparecer uma espécie de hictericia, e isto é devido ao derramamento da bilis, na circulação que o figado principiando a fuhcçio- nar despeja em muita abundância; bem como se nota leite nos peitos que se pode espremer com os dedos. Os osso^-do craneo, ainda imperfeitos, fazem com que se observem tân- — 220 — tanellas(moleiras), que com o andar do tempo desapparecem eom a ossificação. O recemVnascido quasi sempre está dormindo, e cada vez que acorda quer mamar. Convém que se lhe faça a vontade para não chorar, porque disto, e do descuido do asseio.se originam moléstias. As primeiras palavras que comtíçaa sol- ifltp em tçdas as ljnc ]a™fiíof rer>os'_ __ será preferido o leite materná^A.íe" ao tempo da dedução' basta que se costume a amamentar a creança. Os dentes in cisivos, que são os 8 da frente, crescem ordinariamente dos 4 aos 10 mezes; seu desenvolvimento é doloroso, ese an-* nuncia por inflammação das gengivas e febre: neste tempo convém dar pouca alimentação á creança. As presas vem de ordinário dos 8 aos 12 mezes. No decurso do 2.° anno ap parecem os molares (queixaes). Pelos 5.°, 6.°, e 7.° annos cahem os dentes de diante, as presas e os 6 primeiros mo lares, e ás vezes se prolonga mais este phenomeno á appare- cerem os permanentes. Dos 20 aos 30 annos apparecem os dentes do sizo, que vem completar os 32 dentes que guar- necem a bocea do homem. Sabe-se que as creanças sentem menos o frio, do que os outros indivíduos, e isto é devido á grande actividade de seus órgãos internos. Dos Ires aos sete annos a vida das creanças não é mui se gura, e por isso deve haver sempre muito cuidado com ellas. Os cabellos e os olhos, á medida que a idade se prolonga» também vão mudando a cor. j^Zr'*- S Era o brinquinho de todos; a^yasf -a-*/*^ *9 Era de casa o regalo; ^-j^-»^» ^y/r O pae no hombro a cavallo. xn 0 Tristezas, penas, cuidados Eram tanto para mim Como os risos de Glicera, Como o dinheiro e o latim. Com devoção de creança Punha as mãos e ajoelhava, — 221 _ E as orações repetia, Que a boa mãe me ensinava! • • Tempos de paz e de gosto! Deos que me resta?.. A saudade. Esta ao menos, Deos Piedoso, Me conserva em toda a idade. CASTILHO. Da iiulierdadé. A puberdade é a época marcada pela natureza, cm que os seres viventes adquirem a faculdade de se reproduzir. No homem ella varia, segundo os climas e localidades, e se ma nifesta, pela mudança da voz, e na mulher pelo appareci- mentoda menstruação. Entre os Romanos era fixada esta época aos 14 annos para os homens, e para as mulheres aos 12. Pelos 14 annos em diante, diz um escritor, entram os moços a sentir na alma uma octulta inquietação; suas idéas recebem um ar de sensibilidade para elles até alli desconhe cida; vem-lhe ao pensamento mil illusões; têm de ordinário pouca vontade de se occupár£m; procuram muitas vezes a solidão, e daqui nasce que tantos nesta idade (sem consultar sua vocação, porque a mesma vontade neste tempo é illu- soria), buscam oclaustro; então éque por uma singular con- tradicção vem a ser o primeiro effeito da pubéVdade ou do delírio do amor, o desejo de viver casto. Parece que se ama com tal desinteresse, que se daria o sangue e a vida pelo objecto que se idolatra. O coração pulsa mais forte, a razão perturba-se, a voz corta-se ao verem-se os amantes; o sangue ferve-lhe nas veias, e ás vezes a ponto de adoecerem : tudo porém se conserva neste estado, em quanto somente o espirito participa destes encantos, pois passando do moral ao physico, quebrou-se o prestigio, per de, o coração o seu mais suave enleio; e depois toma a ami zade, e muitas vezes o mero appetlite, o lugar do amor. Admirável é por certo o instincto da natureza, quando se considera que as primeiras affeições sempre se apresentam debaixo de um ar de esquivança e de apparente inimizade ! O resultado da puberdade vem á ser, um augmento (con- TOM. II. 29 — 222 - tinúa o mesmo escriptor) de certas funcções vilães, euma diminuição proporcional de outras; é uma troca de vitalida de de um systema orgânico para outro igual systema. Nós te mos duas vidas, a primeira, a de nutrição ou de vegelação, que nunca se interrompe e que subsiste até durante o som- no; a segunda, a de relação ou das faculdades motrizes e sensitivas, que não obra senão eniquanto estamos acorda dos, e que propriamente se interrompe durante o somno* A primeira é da vida interior, e a segunda é da exterior. Na infância a vida interior tem mais actividade, e no tempo da puberdade vem a vida exterior á ser a preponderante. O mancebo pubere, comparado com o que ainda o não é, tem a voz alta e grave, o olhar altivo, o andar firme, os músculos sobresahidos, os membros'rijos, as faces coradas, a barba vae-se cerrando, a pelle fixa mais a côr, o juizo mostra-se então mais vivo e penetrante; ao passo que o rapaz impu- bere tem a voz aguda, o olhar brando, o andar frouxo, os membros flexivels, as faces cheias, o rosto imberbe, a lez alva, o juizo Iev_i e fraco, o aspecto afeminado. No tempo da puberdade é que o nosso juizo adquire o maior gráo de força e penetração; e nota-se que commumente oshomens de juizo são puberes mais cedo que os outros. O conhecimento das suas próprias forças dá ao homem, neste tempo do seu maior vigor corporeo, sentimentos elevados, idéas atrevidas, e uma altivez de espirito que lhe assegura a superioridade so bre todos os entes. O homem que aos 30 annos chega, sendo nullosobrea terra, nunca em sua vida será cousa algu ma (1). A puberdade, principiando aos 14 annos, finda aos 28ou< 30, época em que o organismo tem adquirido todo o seu vi gore perfeição. Dahi em diante principia a idade adulta ou virilidade, que é a continuação do mesmo vigor. Na puber- (1) Nenhuma idade merece mais cuidados e vigilantes disvellos, da que a da puberdade, não só dos pães, como dos preceptores, e mesmo do governo, porque sendo a idade em que as paixões se desenvolvem com toda a sua impetuosidade, convém que ellas sejam estimulada» e bem dirigidas, para não acontecer ficarem os moços de todo perdidos pela acção seduetora dos vicios. O organismo estando por seu desen volvimento apto para tudo, faz com que o moço se preste ás seducçõe» c ás illusõesdos sentidos, e por isso entregues «o abandono, não si se consomem antes do tempo, como s.e inutilisam para sempre. y^y X.21 .cyK • y 223 — dade a vida parece concentrar-se no peito, e por isso o co ração soffre a cada instante alterações em seu rhythmo. Na mulher, o pejo e a timidez são os primeiros annuncios da pu berdade, porque ella sentindo mudanças em seu organismo, que ignorava, reconhece-se mais susceptível ás impressões, e aos sentimentos (1). -h Idade adulta. Bem que completo o organismo os 23 ou 30 annos, com tudo partes ainda existem que não tem adquirido toda a sua •perfeição, e é então dos 28 ou 30 annos em diante que isto acontece. Este estado chega até aos 56 no homem, e na mu lher dos 40 aos 45, em que naquelle principia a decliiiação gradual das forças, e nesta a cessassãodas regras, e por con seguinte a faculdade reproductiva. Ella é, como bem dizRo- chefoucould, a febre da razão. No homem esta faculdade se prolonga até uma idade muito avançada. A idade adulta é a mais bella e ílorente da vida do homem, porque cheio de energia e vida, suas faculdades intellectuáes e moraes che gam ao mais alto gráo de desenvolvimento: a memória me nos activa para adquirir, conserva melhor a lembrança das eousas que lhe são confiadas; o juizo aperfeiçoado pela expe riência acaulela os desvarios da imaginação, e torna o ho mem capaz de tudo o que quer emprehender- Na idade adulta a razão é quem mais império tem, e ajuiza das eousas com «quelle senso e madureza que os casos requerem. O amor ,dos sexos e o da familia têm nesta idade o maior império possível, e então visto com mais calma, elle se torna o mais delicioso sentimento da vida. O Sr. Dr. Domingos José Gonsalves de Magalhães, com- prehendendo mui bem esta bella época da vida, por uma apostrophe se exprimeassim : (1) Não estando de accordo os physiologistas com os moralistas so bre a divisão das épocas da vida do homem, por supporem arbitraria esta maneira de dividir, querem que a infância chegue aos í!\ annos,. e que dahi principie a adolecencia até aos A5 annos, e por fim dahi até aos 80 a velhice; porém nós conhecendo que a natureza em sua marcha sensivelmente marca passagens apreciáveis, seguimos na vida do homem as divisões que aqui mencionamos. — 224 — Gigante cio porvir, 6 Mocidade, Erguei a fronte altiva Enlre as brancas cabeças da velhice, Como ao sopro vital da primavera O pimpollio gentil se desabrocha Enlre os já seccos e curvados troncos. Em vosso coração palpita a vida, O brio e a força os membros vos circulam, Igneas azas vos dá o enlliusiasmo, E' vulcanea vossa alma E de águia os olhos tendes, Com que medis o espaço, o céo, e o globo. A terra vos pertence, ó Mocidade! P'ra vós renasce o mundo a todo o instante P'ra vós resplende juventude a terraj Não envelhece o céo, nem as eslrellas, Nem se encanece o sol no longo gyro. • • • • O passado p'ra võs é muda estatua, Que o grande livro aponta Onde a verdade e o erro se confundem, Como o ouro c'o pó no antro da terra. Os séculos sellaram esse livro, Quando nelle seus fastos transcreveram. Eis a pagina branca, Em a guarda os feitos vossos; Mcditae, meditae antes de encliel-a! Quando já*fatigados do caminho, Sobre a pedra da tumba repousardes, Avante marcharão os filhos vossos, E esse livro tomando-vos um dia Irão saber o que seus pães fizeram. Velhice. E' a velhice o ultimo quartel da vida, em que (como ele gantemente diz o illustre J. P. Barthez nos Elementos da sciencia do homem) as forças radicaesgradualmente se afrou xam e se deslroem,perdendo sua tenacidade; em que as sensações, os oppetites e as paixões, semelhantes ao crepús culo, apenas deixam ver o clarão fraco de sua actividade. •Diogenes -compara a velhice a um inverno tempestuoso, c 0-**~*J%^. <£*-*-£ -*^<-«-^2gA-* «*Í do Cor- reiO ,/o SUl, de Portò-Alefre : «Na manhã de 11 do corrente mez morreu,- ua (azeu — *Z^a~ *** '__/£"*^*-^- * J5V^*J^Ê ^ çX -v _0* Lr.w#fr~t • ^V v •-••*- %-«* -^_- \ /xV. » V -»_»--r- V* * — Í29 — traeção das fibras reclrateis, sobre as quaes é applkado. Os vasos capillares cutâneos e pulmonares são os primeiros que experimentam seus effeitos; sua compressão é proporciona da á sua acção, de sorte queá medida que o calibre se des- Iroe, os líquidos são irapellidos para o interior, onde po dem formar congestões e obstrucçoes seguidas de inflamma- ção. Os pulmões eo cérebro, por sua estruetura molle e de licada, estão rnui expostos a estas obstrucções. O refluxo dos líquidos faz-se algumas vezes para os intes tinos: então a excreção dos exhalantes dessesorgãosaugmenr taimais sobre a forma de diarrhea mucosa. A actividade acr carretaria dos rins, do ligado, etc, maior abundância de urina, e bilis: A acção continuada dq frio acaba por es gotar a força rectratil das paredes vaiculares, assim cor mo a mão muito tempo e com força fechada, faliga-se e involuntariamente se abre ou cede ao menor esforço ten tado para abril-a. As túnicas vasculares se relaxam quan do a continuação produz essa atonia; as paredes das capillares arteriaes, tornadas flaccidas e molles, cedem ao aíluxo de líquidos que o coração derrama na cavidade desses vasos, que se engrossam e estendem-se além da medida, attendendo que os absorventes lendo igualmente perdido seu expediente, não tomam esses vasos uas propor ções em que elles abundam nos ramos excrelorios. Então a parte submcttida a este effeito torna-se rubra, quente e in- tumecida; fica n'uma espécie de inllummação; se este esta do continua, experimenta ahi a sensação de um calor mory tificante, que se muda em um sentimento de prurido ou co- ccira inconinioda. A côr é an òxada, azulada, e então se vê o que se chama frieira: se o frio é forte ou muito intenso, todos os capilla res da periferia se tapam; a depuração do sangue nos pul mões torna-se penivel e faz-se imperfeitamente; esle li quido passa ao ventriculo esquerdo, impróprio ao entreteni mento da vida, porque não levando ao cérebro uma quan tidade sufficiente de partes nutritivas, este órgão cahe em enfraquecimento e langor; sua inércia propaga-se, a todos os órgãos que elle pQe em acção; suas funeções perdem a actividade, e o indivíduo que experimenta este effeito sente «aas . faculdades diminuírem e se extinguirem; caheiu em somnolencia, e por fim succurçibem. Este funesto resultado TOM. H. 30 — 23D — é devido ás qualidades lelhaesdo sangue, que levado ao cé rebro ataca o principio vital deste orgao que ella paralysaj resultando disto a mor te. Este funesto termo é uma verda deira osphyxia, semelhante á oceasionada: pela suffocação, sufcmetsão e inspiração eorptiitpr- ria-sè balofo etomido. Os pulmon A bumidade produz a atonia ou fraqueza áquelles que a ellaestpo expostos; as partes constantemente mergulhadas ^unia atmosphera humida, estão uão só relaxadas pela acção ejnojiente das moléculas aquosas que constituem a água, porém ainda essas, moléculas postas em contado permanen te com o orifício das boccas dos vaso? .absorventes cutâneos e pulmonares, são tomadas por esses vasos:, e levadas á massa dp.shumora/que estão então estendidos e dilata^ypjpma _lUfiiHif_ade.de água considerável,, de sorte que.osyfreTn!avas« ^mja/açíia-se cheio e .farto de üqui,dos pouco nutrientes, porque a água fôrma a maior parle dos líquidos. As molé culas nutritivas assim divididas, são levadas em pequeno quantidade a todos os órgãos, que recebem nmaexorbitân cia de substancia que não pôde servir á sua conservação; en tão nasce a fraqueza por falta de moléculas sjmilares; a ma neiradas moléculas aquosas, que não podem prehentber'o — 232 — lugar das partes nutritivas; e então os indivíduos tornam. se lymphaticos, leucophlegmaticos, indolentes, etc. Estes quatro estados da atmosphera raramente existem sós: as mais das vezes estão, combinados de dous a dous; isto é, que o ar, no meio do qual vivemos, goza mais ordinaria mente deduas dessas qualidades; por exemplo, pôde ser ao mesmo tempo frio e secco, ou frio e humido; quente e sec- co, ou quente e humido. A atmosphera composta de todas essas qualidades, produz effeitos communs ou próprios ás duas qualidades de que se goza. B«s climas e «na influencia «obre o homem, EPIGBAPHE. Figurasse do mundo a redondeza N'um globo cm terra e mares dividido; • Divisão que lhe deo a natureza. -' O geographo porém o tem partido Por círculos somente imaginários Cada um por seu nome conhecido Foram os seus primeiros arbitrários: Depois tem vindo a ser a toda gente Não só universaes, mas necessários. (Extr. Põel. Sobre á harmonia do mundo.) Dão os geographós o nome de clima ao espaço do globo terráqueo comprehendido entro dous círculos parallelos ao Equador. Mas'ordinariamente se entende por clima umai porção de terra sübmettida ás influencias particulares do calor atmosphericó, das estações, das qualidades, etc, que o tornam differente de outro, sob as relaçOés dascircums- tancias^pjiysicas (1). jak* ts^av ^é Montesquieu, fallando dos climas, avançou al- gnmaFiifoposiçoes, que, no seu sentido, julgando verdade^ ras, foram*vigorosamente contestadas pelo celebre abbade (1) Os climas são quentes, temperados e frios; os primeiros são com- pre.hendidos entre os dous trópicos até 30." de latitude boreal ou airç- tral; os segundos principiam aos 31." até 35 ou 60.* Os terceiros es tão situados entre os círculos polaies,Nós climas queiitcs a tempera tura média é de 22 a 25." Z33 s* -^t"— '/ — 233 — pupradt. Monlesquieu, suppgequeos climas quente* inha- bililam os-homens para o trabalho, e por conseguinte tor na-os indolenles e preguiçosos. Oabbade Dupradt com mui ,v fortes argumentos desfez estas supposições, esclarecendo a * verdade. Quando o escriptor francez tomava a -peito esta çaestão, o illustre pernambucano, D. José Joaquim da Cu-k + ^r nlut de Azeredo Coutinho, bispo/d'Elvas, no seu Ensaio*!.!**'' Econômico, provou com a evidencia dos factos, as vantagens e proveito que então o governo poderia tirar dos índios do Brasil, se se empregassem os meios que estavam, e ainda es tão ao seu alcance. Quasi sempre a abundância é a causa da Indolência, e.os Índios ignorando as vantagens sociaes, e des- pconhecendo as necessidades da vida, passam o tempo sem ijportifieações. , , J f* O professor Felice, fallando da influencia do clima sobro ohomemAcba tão impossível attribuir tudo ao clima, como igualmente tudo recusar-lhe. Niío poderei, diz elle, deixar ^Ae convir que as qualidades do ar têm infinito poder sobre os corpos. As causas physicas devem operar os effeitos phy-^ sicos. O frio ou o calor occasionam uma tendência para a ac tividade ou para a preguiça: é mais fácil animar o trabalho n'um clima, que n'outro. Se se abandonam os homens a si "mesmos o clima decididamente manifestará sua impressão. Aquelle que avança o paradeiro de igualdade de juizo, de imaginação e de espirito, sendo bem organisado parece nada deverão clima. (>, í f De outro lado, se a acção c reacção das fibras, tornadas ,'«iais perfeitas nos paizes frios, dão mais a conhecer sua su- , inferioridade, queremos dizer, menos desejo de vingança; islo ^"é,! attribuir tudo ao clima. Porém que differença não se nota 'no homem que passa do solesticio do inverno ao doeslio? Trinta gráos do thermometro de Reaumur. devem fazer.de , um homem vingativo um homem chrislão. Concordar*se-ha que a mesma-fibra, que se encolhe, tornar-se-ha mais forte; porém será ella mais que a de outro indivíduo, ainda que mais comprida? Se alguém sustentar uma tal asserção, se gui r-se-ha deste principio, que a fibra deve ser mais vigorosa no homem de pequena estatura, do que no alto-, c conforma este pensar, um homem baixinho deve ter mais força e co ragem que um gigante, o que algumas vezes tem-se visto: •na>será antes a conslructura c o calibre proporcionado qu%, ^ «lg.««"V&^ — 234 — decidida iforca? Confessamos que sentimos nãopódermo-nos explicar de outro modo-. • "T * ... ' Dawiesma família, debaixo do mesmo tec to nascera dous meninos; ^om-tem uma alma cândida encerrada n'um corpo ròtustkí^p outro uma alma indócil n'um cor|io débil. Tam bém vê-se ancoragem e aUimidez em dousxorposjgualmenV Wganisados exteriormen^, dotados irmãmente de finissime» senlidos principaes; e ás aiffeeenças mostram-se logo na in fância. Porém,'ptftt mais imperceptível e occultp que seja a nosso respeito, a ma.ne.ira porque a organisacão opera sobrV os espíritos e os caracteres, basta que se admitta qae ella tem ahi alguma parte, para que se possa aceusar o clima eralfÉ|j| te. Um; conhecimento mais preciso da causa não ó absoluto-< mente necessário^ questão.-Ella reduz-se a examinar se o clima determina a disposição dos órgãos ao ponto de darás maneiras ide. perceber e de obrar: se encontrados outías causas, então poderemos dizer tão somente que elle. para isso contribue. *> .!;: - Ha uma constituição de origem, que o menino tm do ventre materno; e esta parece ser a dominante, eé verdude que tal ou' tal constituição reina mais ou menosem tal ou tal região. Não se pôde sem negar que ella participa do cli ma, pensar que a qualidade dos alimentos usados opérá com mais força ainda. A Inglaterra e a Hollanda estão sob a mes ma temperatura, e o differença entre a construcção corpo- rea e humor destes dous povos é mui notável: beín que*um nutre-se de leite e peixe, e o outro de carne meia crua. As, differentes qualidades em alimentos semelhantes, não devem, mesmo ser attribüidas ao clima. A natureza do território que os produz enutre, ainda mais contribue para isso::ser.ia um eiro crer que o clima decida do terreno; conheceavo-i em um. espaço menos de.urna legoa, ha\er a fertilidade e.a es terilidade: o extremo do limoso e do arenoso, do seccoie.do humido. A.constniccão primitiva do feto deve ser attribuj- da em grande parte á nutrição ordiqaria e principal dopafy «Ia mãe.e dos ,ávôs: se*ainutrição contribue paraa foriua;- ç5o dos elementos da>organisação, mais.queo^oaJojt-ejofri^ ella é mais poderosa que o clima: se uma e.oujlra se reúnem, -asqualidades que disso resnltam,.chama(f&edÉ8o'qualida(b* aStade íátBBsysnmiáak pães. n> ^ >•"• tf- + Se se transporta ruma nação de um clima- para outt»»^ Cy7 9 4**£j y ^•^x^ _; L-%-*-« -• «r . , *#> • ' C^ '"^i *___ » »N i-s » %Xri*Ja^a*4> r n^yí* ->-y.<--^ ^3 I r>/ -* • »«J-|,,J" • ^* -•* *y£àC »••«•• 4-c .•: -v*. iv« - írvr^- (•fe»j*^^fr O* -«•—*-<--» *•••« »,^ i _»-c JO ^>-» -..-a- ^ • • . • • _r^ i r «« \ .»- * » ív*^r <^í »V •» v £ #>^ » «£i*, ±_ + -a * a-^-*~-+ ^- *--<-*. s&^^s^ 2_-£- -ÍV- •% v-^ >. **3N ,«,« __ « •» t+~**y ±^^^m ^ —. «>i — 235 — oerto que seu gênio muda,,como as frutos* os gráos e a» plantas que são .transplantadas a ura terreno dedifierente natureza, Os povos do norte sahindo do mesmo clima, peri- dem seus,- costumes e em parle a sua maneira de pensar; e será, ao clima que isto se deve. A Provença está na mesma latitude que a Lombardia, e no entanto os caracteres não se assemelham- As Asturias estão muitos gráos distantes da Andaluzia, e os costumes, são os mesmos. Pôde se^absoluta- mente distinguir no,homem a conformação, os costumes e as uianejras, entretanto estas tres. concorrem para formar ©scaracteres, dislinctivos das nações. PódeTso lambem di* vidir as qualidades que parecem depender mais panticular- Ipp.nte da machina, eaquellas onde parece que a alma inr flue mais immediatamente., J)e umas é outras, vè-se que igualmente se formam as maneirai de pensar e de obrar de cada povo. Entre as primeiras estavam a força ea pregui ça» mesmo a penetração ou o torpor do espirito, nàsqoaes a organisacão coopera como vehiculo ou como obstáculo. Es tas qualidades, e algumas outras, derivam-se do tempera mento, e de alguma sorte podem ser attribuidas ao clima e aoselementos. Encontrar-se-ha entre as segundas aaliivez, a doçura, a rectidão, a dissimulação, etc; esta tem precisa mente mais sua origem nos .costumes e nas. maneiras. E' fora de duvida q;ie a maneira porque a imaginação éaffecta- da, éque faz sobre tudo imprimir o que se chama caracter. A.imagiaaçSü ohra sobre os Órgãos, e os fâz ceder ou os vi gora, e daqui se vêem povos naturalmente fracos e sem co ragem emprehenderem acções atrozes, sendo capazes de inJ Crivei firmeza. Logo deve-se também concordar, que;o mo- do.de dirigir a imaginação é o mais poderoso de todos os mo veis. A educação e as leis são:meios jnfalJiveis de determinar a imaginação, e por conseqüência de dar o tom, geral: isso .peçtenceao governo. A educação fôrma a maneira de .pensar, e a maneira de f ensar dirige-as acçces; donde resulte unia continuidade dos mesmos usos enlre os mesmos povos. A educação dá-se con forme á razão, ou aos projnizmrecebidos. A razãocnão está sujeita ao clima, ainda-mesmo que se concorde qpe elle in- ilue sobre o modo de raciocinar; e os prejuízos têm uma in finidade de causas que lhe süo estranhas, ainda que algumas delle se derivam. —-236 — O furor dos duellos em França não é um negocio do cti- ma- Se se diz que elle vem dos povos do norte, donde os Francezes descendem, por que se tem elle tanto conservado debaixo do mais temperado clima? E por que desappareceo daquelle onde se pretende que nasceo? Por que so apossa elle só d'uma porção distincta da nação? E por que se apodera elle de todos aquclles que aspiram compor essa porção? As mesmas leis abrigando as mesmas acções, as mesmas regulando uma conducta uniforme, dão necessariamente as mesmas maneiras de pensar, as mesmas vistas, idéas seme lhantes do bem e do mal, c por conseqüência'costumes e maneiras semelhantes. O governo commum' torna a coitf- municação mais freqüente. O cidadão das províncias meri- dionaes da França habita e conversa mais com aquellesqoc estão ao norte do mesmo reino, do que com os estrangeiros seus visinhos,: sob a mesma latitude: por essas razões é que o Provençal differe do Milanez, e o Asturiano tem as maneiras doAndaluz. O mesmo effeito da freqüência tem communiçado aos po vos do norte, ainda que conquistadores, uma parlo das ma neiras, dos costumes dos povos conquistados; elles se hão misturado com os seus; uns e outros os tinham de seus anti gos governos. E' deste modo que os grãos transplantada tomam a qualidade dos novos terrenos, conservando sem pre alguma cousa do primeiro. E' natural que o Germano que tenha nascido na Hespanha, dilíira daquclles que habi tam as Gaules. A educação até é capaz de mudar o machinal pelo habito. Ninguém ignora que o exercício torna os corpos robustos e ágeis.- Uai selvagem dos climas ardentes, áco-túmalltf á cassa e a uma vida dura, desarma na luta o habitante do nor te que tiver vivido na preguiça. Licurgo mandou Mtrir dous cães da mesma ninhada, um no habito da cassa, e o outro na occiosidade domestica, e fel-os depois» combatei perante o povo da Lacedemonia; o segundo não pôde-susteo- tar o combate. Nota-se que os povos que habitam as fronteiras de dous Estados, que têm muitas vezes guerreado, são mais valente* que os que vivem no coração dos mesmos reinos. Ao contra rio, uma longa paz, o habito do repouso e dos prazeres basta para enfraquecer a coragem. Assegura-se que os povos 9g cabellag. Os cabellos, formando um systema de tecidos, tomam dif ferentes nomes, conforme os lugares onde apparecem; no iWto existem as sobrancelhas, as pestanas e a barba. Deixando as mtnuciosidades anatômicas, passaremos ás considerações geraes e physionomicas dos cabellos (1). Herder diz que os cabellos compridos, eslirados e como pontas de agulhas, ou crespos, rudes e grosseiros, plantados n'uma mancha trigueira no pescoço ou no queixo, é o mais decisão indicio de extrema inclinarão para a volupluosida- de, inclinação que quasi sempre acompanha excessiva levian dade. niyslonomia cios cabellos. O homem quando nasce, diz um pliysiologista, traz de ordinário cabellos: os que hão de ser louros, têm os olhos azues;os ruivos um amarcllo vivo, eos negros, um amarcllo descorado. Varia muito a côr dos cabellos nos adultos; com tudo dislinguem-se quatro cores principaes, que são: kuro, caslai.ho, negro, rvtvo; os quaes trazem cada um differentes sombras. O louro dourado se antepõe ao máo louro; mas o louro cor de cinza se reputa pelo melhor; o castanho próprio, isto é, castanho claro e castanho escuro, são as cores mais (1) Os cabellos, diz o Dr. Guindmt, não apontam e não sahem com- mumente do seu bolbo senão aos tres mezes de nascimento: os cabel los do corpo e da barba não sahem e não rompem senio na passagem da puberdade á adolecencia? Quantos exemplos não contradizem esta lei geral? Os Aças do Isthmo do Darien, na America, os Albinos na África, não têm barba, c nem cabellos nas partes vergonhosas. — 248 — communs: quanto ao negro, o negro azeviche é o que se pode trazer sem pós, mas raras vezes se encontra; o ruivo passa por sombra entre o louro dourado até ao louro escuro. Todos sabem que os Europeus não gostam desta côr, quando entre outras nações se conta entre as bellezas. Os cabellos das faces são os primeiros que se fazem bran cos, depois os da cabeça, das sobrancelhas, dos sobre-olhos, da barba. Os cabellos crespos se fazem russos mais tarde, do que os que o não são. Ha cabellos grisalhos de muitas castas: os que se chamam gri de mouro, nunca se fazem negros: outros fazem-se escuros; o branco fundo amarello, é a côr dos cabellos louros quando se fazem brancos. Entre os ca bellos que se fazem brancos com a idade, reputam-se melfa* res os brancos de agatha; são ordinariamente as pessoas tri gueiras que têm esle cabello quando fica branco de todo. O branco pérola 6 a côr dos cabellos castanhos. Os cabellos branco leite foram louros ou ruços: os que foram louros nunca são de tão boa qualidade como os que foram russos; estes são muito rijos, e muilo melhores, o corpo é continuo, a ponta sempre fina, e se faz em anneis naturalmente. Ha uma differença das pessoas louras ás outras, que quan to mais velhos são, mais louros se lhe fazem os cabellos, e os outros, pelo contrario, quanto mais brancos se fazem adian tando em annos, melhor core força tomam. Com tudo con vém reparar que este augmento geralmente se não faz senão até aos 36 annos, e depois disto os cabellos não têm a mesma nutrição, e ficam mais seccos e espigados. Observa-se geralmente, que os cabellos das pessoas que se não dão a excessos, se conservam mais tempo, e pelo contra rio, os dos homens dados a devassidões de mulheres, como também os das mulheres que têm muito traclocom homens, têm menos substancia, seccam e perdem a sua qualidade. Os cabellos das mulheres do campo conservam-se melhor do que os das da cidade. l»o cabello e da barba, segundo I/avater. Se o cabello não pode ser collocado na classe dos mem bros do corpo, é pelo menos uma parte inherente a estes Produziremos aqui algumas observações antigas e novas, — 249 — geraes e particulares, das quaes umas são nossas e oulras emprestadas. Os cabellos offerecem multiplicados indícios do tempera mento do homem, de sua energia, de sua maneira de sentir, e, por conseqüência, também de suas faculdades espirituaes: estes não admittem a menor dissimulação; respondem por nossa constituição physica, assim como as plantas e os fru tos pelo terreno que os produz. Tereis cuidado de distinguir o comprimento dos cabellos, sua quantidade e maneira por que estão plantados; sua qualidade: se são redondos, lisos ou crespos, e de que côr são. Os cabellos compridos são sempre fracos e signal de câ ncer feminino, e é somente nesse sentido que S. Paulo diz que não è honroso para um homem nutrir seus cabellos, 1 Cor. 11, 14. Se são ao mesmo tempo chatos, nunca se associam a um espirito varonil. Chamamos cabellos vulgares aos que são curtos, chatos e mal arranjados; lambem os que cahem em pequenos anneis pontudos e desagradáveis, sobre tudo quando são grosseiros e de um escuro carregado. Chama mos cabellos nobres os que são de um amarello dourado, ou de um louro tornado para o castanho, que reluzem docemente, e que se arranjam com facilidade eagradavelmente. Os cabel los negros, que são chatos, naturalmente frisados, espessos e grossos, denotam pouco espirito, mas assiduidade e amor da ordem. Cabellos negros e finos, plantados em uma cabeça meio calva, cuja fronte é elevada e bem arqueada, nos têm fornecido muitas vczesprovas de um juízo são e recto; porém excluído de isenção e deargucias; ao contrario, essa mesma espécie de cabellos, quando inteiramente chatos e lisos, ex plicam decidida fraqueza das faculdades espirituaes. Nos paizes quentes os cabellos são do mais escuro negro: nos cli mas temperados, são de um negro menos carregado, ou cas tanho; nos paizes frios variam entre o amarello, o ruivo e o castanho. A velhice faz embranquecer essas differentes co res, e temos notado que dos obreiros que trabalham em co bre, muda-se para verde. Os cabellos louros annunciam ge ralmente temperamento delicado, sangüíneo e íleugmatico. Dizem que os cabellos rui vos caracterisam, ou muita bonda de, ou muita maldade. Um contraste notável entre a côr dos cabellos e a das sobrancelhas inspira-nos desconfiança. A diversidade da côr e do pello dos animaes demonstra — -250 — muito bem que a dos cabellos de\e ser expressiva no homsin. Comparae a lã do cordeiro com a que cobre o lobo, o pello da lebre com o da hyena; comparae as pennas de todas as espécies de pássaros, e não podereis recusar-vos á convicção de que essas excrescencias são características, e que podem ajudar a differençar as capacidades e as inclinações de cada animal. Estas reflexões vos conduzirão á grande idéa « do « que foi a vontade e a sabedoria do Todo Poderoso que for ce mou o menor cabello da cabeça, que os tem todos conta- « dos, e que um só não cahe sem sua ordem.» Os cabellos, considerados com esta extensão de indagação, e sob uma maneira ao mesmo tempo pliysionomica o phy- siologica, offerecem um grande numero de fados mui •___. riosos. Nada mais picante na historia dos costumes do ho mem, do que a importância que tem sidoligada entre muitos povos, quer á belleza e ao tamanho dos cabellos, quer ao mo do de cortal-os ou dispol-os, e a todas as variedades de pen teados. Os Egypcios cortavam-os, e os povos do Orienle ainda hoje adoptam esse uso, tendo constantemente a cabeça co berta com enorme turbante; no eintanlo que os povos dos climas muito mais frios têm a'cabeça habitualmente nua, o somente protegida pelo cabello. Os Malaios raspavam acabeça de ambos os lados, e tinham somente no meio delia unia espécie de lupete ou cinta ca- belluda, que dava a seu aspecto um ar extravaganle. Os Mexicanos raspavam-na de todo o lado esquerdo; os Brasileiros raspavam-na inteiramente, e os Iroquezes con servavam com cuidado seus cabellos: os mancebos desta na ção dão grande importância a íeu cabello; frisam-o e o ar ranjam de diversos modos com muito cuidado e pretenção. Em outras nações cortavam os cabellos em signal de luto, e os julgavam consagrados ás divindades infernaes. Na Enei da, Íris é enviada por Juno á desgraçada rainha de Cartago para corlar-lheo fatal cabello consagrado a Proserpina. To dos os povos do Oriente, em geral, trazem a cabeça raspada e coberta: a tonsura poderia muito bem referir-se a este uso: os lheologos que procuram as ligações da religião chrislã e do orientalismo, de\em examinar isso. De que procedem essas differenças e essas diversidades? Talvez se soubesse, se se houvesse meditado tão profunda- ._ 281 — tnenle sobre o espirito dos costumes, como sobre o das leis; e é provável que se descobrisse então algumas relações entre os usos relativos ao cabello e ás opiniões, as idéas e os pre juízos dos povos, sobre as qualidades annunciadas pelos diffe rentes estados daquelles. E' cerlo ao menos que o compri mento dos cabellos era entre os antigos G;iulezcs, signal de liberdade e nobreza. Cezar, que conquistou esses povos, usou do seu direito de conquistador fazendo-os cortar. Os Fran cos davam o mesmo apreço que os Gaulezes ao comprimento dos cabellos. Segundo Gregorio de Tours, elles escolhiam para seus chefes homens que tivessem cabellos grandes. Plia- ramoud é qualificado de rex crinilus. Mandar cortar o ca- tafHWTera degradar, dar a morte civil e condemnar ao claus- tro e á nullidade. Alguns autores pretendem que havia gráos no corte dos cabellos: de sorte que os cabellos do monar- cha eram o padrão das condições. Não seria difficil ver por fal uso, que os povos entre os quaes elle se observa, ligam um grande preço cuma significação physionomica á belleza, e sobre tudo á grandeza dos cabellos. O volume, a extensão e a fôrma das cabelleiras em cerlas épocas, não parece tender menos aos costumes e ás idéas que o physionomisla deve nolár. As mais volumosas dessas cabelleiras foram inventadas no tempo de Luiz XIV. Elias davam evidentemente ás personagens que as traziam um ar de sabedoria e dignidade, e M. Velles, que fez esta observa ção, notou muito bem que o effeito maravilhoso das cabellei ras volumosas era tornar a cabeça maior, principalmente nas regiões do craneo, ás quaes o Dr. Gall altribue os órgãos dj circumspecção e da solidez do juizo. Não deve sem duvida admirar que um semelhante modo de penteado nascesse na corte de um príncipe que dava tanto apreço a essas qualida des e á nobreza das maneiras.Luiz XIV teve evidentemente uma influencia nessa moda; elle mesmo usava dessas cabel leiras, feitas então pelo celebre cabelleireiro Binette, que al tivo com o titulo de cabelleireiro do rei, dizia com enphase, que de boa vontade tosquearia todos os homens, para ornar a cabeça de seu senhor. Os homens que exercem profissões importantes, conser varam muito tempo as cabelleiras volumosas, ou penteados análogos, que dão um falso ar de sabedoria e solidez ás pes soas, que muitas >ezes são tão moças como frivolas. E' pre- — 252 — (iso confessar, accrescenta o autor que acabamos de citar que um medico ou membro do parlamento, de cabelleira quadrada, era bem differente de outra personagem que tivesse a cabeça tosqueada: não se fazia difliculdade alguma em suppor grande senso e profunda reflexão debaixo de tão enorme volume (1). Se da historia moral dos povos se passa á historia natural e physiologica do homem, encontrar-se-ha nas indagações e observações de que os cabellos são objecto, factos que inte ressam mais directamente ao physionomista* A custo con cebe-se a gradação, volume e qualidade dessas partes. Os ca- belleireiros interessados em notar essas diflerenças, compram cabellos desde 4 francos até 50 escudos. Vê-se lari!**••___ por isso, quantas qualidades intermediárias devem elles ter, e que essas qualidades têm necessariamente relação com as diversidades dependentes da constituição individual, ou dos effeitos do temperamento, da idade, do sexo, do clima e de todas as causas, permanentes oq eventuaes, de modificação na economia animal. Os tres grandes typos, relativamente á côr, são o louro, o preto e o ruivo afogueado. O louro e todas as suas grada ções, encontram mais ordinariamente com os temperamen tos sangüíneo arterial, e lymphalico. O preto e suas modi ficações, tem mais analogia, sobre tudo, na gradação mais escura, com os temperamentos nervosos, biliosos, melancó licos e muscular. O ruivo parece formar um dos princi paes signaes de um modo particular de constituição, de que depende em geral um caracter physico e moral assás des favorável, cujos principaes altributos são forte odor d.i transpiração, e paixões ordinariamente mais vehemeutes que generosas. Odeametrodos cabellos tem relações com a côr delles; Eis o que diz Haller a esse respeito, em sua grande Physío logia, conforme as experiências minuciosamente exactasde Vit-Hop: « O volume dos cabellos varia desde 1700 polegadas até 7300. Na extensão de uma polegada contam-se 572 cabel los pretos, 608 louros dourados, e 790 desmaiados. A mollezae rigidez dos cabellos, sua sequidão, aridez, seu» (1) Carta á Cutier sobre o systema de Gall. — 253 — differentes gráos de aptidão para encrespar, são outras lan- tas disposições mui significativas que o physionomista observa logo que estende suas indagações sobre o estado physico e moral da organisacão. Os cabellos finos e flexíveis, diz Aris tóteles, são signal de um natural limido, e os duros annun- ciam força e coragem. Esta indicação é offerecida em todos os animaes. O cervo, a lebre, a ovelha, que são de natureza timida, têm o pello muito macio, no entanto que o do leão e javali, tão fortes e tão corajosos, é firme e erriçado. No ta-se o mesmo nos pássaros: a brandura da plumagem ou sua dureza, são indícios mui seguros da fraqueza ou da força do animal em que se observam. ifcsds vistas geraes se applicam também á espécie huma na: as raças selvagens e guerreiras do Norte lèm cabellos duros e grosseiros; as nações afeminadas do meio-dia lêm, ao contrario, cabellos ondeados, macios e frisados. Nota-se também, accrescenta Aristóteles, que os homens que têm o ventre muito cabelludo, são muito falladores. O estado dos cabellos offerece uma correspondência muito notável e muito positiva, com o modo de constituição pró pria a differentes variedades da espécie humana. Em to dos os ramos da bella raça, que se chama raça cauca- siana, os cabellos são longos, macios, e de um castanho de noz, que de um lado passa ao louro, e de outro ao preto car regado. As numerosas tribus da raça mongola têm, ao con trario, cabellos duros, negros e quasi da natureza da clina. Nota-se esta disposição de cabellos nas raças americanas. Todas as variedades mulataes têm cabellos muito negros, po rém espeços e caracolados. Finalmente, na raça negra o cabello é uma espécie de lã, e fôrma um dos principaes caracteres dessa raça. A espécie humana, tomada por divisões menos exlensas, offereceria igualmente sob a relação dos cabellos muitas dif- ferenças nacionaes, so a este respeito se fizesse uma serie de observações assás numerosas. Os mercadores de cabellos designam mesmo pelo nome das províncias em que elles os adquirem, muitas qualidades de cabellos que são mais pro curadas; e não obstante a multidão de causas que tendem a apagar os caracteres nacionaes, reconhcce-se ainda os Sue cos, os Norweguezes, os Inglezes, os Normandos, pela finura e pelo louro cinzenlo de seus bellos cabellos. Nas parles da TOM. II. 33 — 254 — Normandia, um pouco distantes das grandes cidades, seria tão difiicil encontrar mulheres trigueiras, como louras sob o céo da Provença e da Itália. Muitas espécies de animaes, de que por especulação com- mercial tem-se estudado a physionomia com o maior cuidado, offerecem na natureza dos pellos indicações muito mais nu merosas que as que têm sido tiradas dos cabellos no homem. Com effeito, ainda que se tenha notado que ha excellentes cavallos de todos os pellos, reconhece-se muitas gradações, muitas cores,cuja significação tem talvez sido exagerada pelo prejuízo, porém que entretanto merecem ser examinadas. Os cavallos do Norte, em geral, têm o pello muito mais duro que os cavallos do meio-dia; os cavallos amarelIos-tfrlflWl* tos (isabeis ou baios) tem muito menos força que as oulras raças. Parece que a natureza fez essa variedade para orna mento, e que tudo ahi se encontra reunido para a belleza, e não para o vigor, que é o attributo principal dos cavallos pretos. Nola-se de uma maneira bem positiva, esta differença nas duas companhias de guardas do corpo, que uma tinha ca vallos isabeis, e a outra pretos; a primeira era sempre re formada muito mais vezes que a outra. Havia em tempos passados na Normandia, uma raça que se chamava perna de ferro, na qual a côr preta achava-se asso ciada a grande vigor. A côr lasão-queimado, que também tem uma tinta pronunciada, annuncia muita energia, e tem- se dito dos cavallos lasões-queimados, antes mortos que can- çados. Os cavallos de côr mais fraca e com espécies de manchas brancas (foveiros), têm menos valor, são mais fracos, mais delicados, e seu estado parece ler alguma cousa de análogo com manchas das plantas que são, como se sabe, estados de doenças, ou pelo menos de alteração. O que se chama pello lavado, que consiste n'uma côr mais clara nos flancos, indica ordinariamente estômago fraco, habito das más digestões, e esses gestos estravagantes que se tem tido oceasião denotar nas disposições semelhantes do homem. O estado do pello fornece muitas outras indicações phy- sionomicas aos contractadores de cavallos, quer no estado são, quer nas doenças. Quando o pello se torna duro esecco, e erriça-se de um modo repugnante, é um dos symptomas mais visíveis de peste nos animaes. — 255 — Nas doenças e nas enfermidades que cercam a espécie hu- maua, o estado dos cabellos serve igualmente de symptoma em muitas circumstancias, e deve ser tomado em grande consideração na physionomia do homem doente. Julgamos a propósito lembrar aqui uma passagem muito notável que se encontra na noticia sobre a doença e morte deMirabeau, por M. Cabanis: « O estado physiologico de Mirabeau, apresentava um phe nomeno notável : seus cabellos naturalmente annelados, prestavam-se maravilhosamente a serem encrespados, quan do elle estava no estado de saúde: em seu estado de doença, e mesmo nos iiicommodos passageiros, as ondulações se des- üamaaMe alguma sorte, e os cabellos tornavam-se de uma molleza sensível á mão. Assim quando eu me informava de sua saúde, minhas primeiras questões a seu creado versavam sobre esse phenomeno, e não eram ás que eu dava menos importância.» A pratica da medicina muitas vezes offerece factos seme lhantes, quando se sabe abraçar na observação do homem doente, os detalhes menos importantes em apparencia, e compreheuder as relações que elles tem com o todo da orga nisacão. Os cabellos não são, como se poderia crer, uma espécie de vegetação,uma producção parasita ligada ao homem, e viven do de sua substancia: é uma porção do homem, órgãos que nascem, crescem, e mesmo sentem em algumas circumstan cias, e que em todos os casos tomam parte nas mudanças physicas ou moraes do homem. As relações dos cabellos c da Sensibilidade, vivamente excitada pelas paixões ou doenças malignas e nervosas, estão principalmente provadas por um grande numero de exemplos que juntam á importância das verdades physiologicas o interesse das mais curiosas anec- dotas. As grandes emoções, as paixões vivas e tumultuosas, e Io dos os órgãos da alma e do coração têm effeitos, cuja inten sidade muitas vezes se manifesta pela queda ou brancura dos cabellos. As doenças malignas e nervosas, nas quaes a sensibilidade ó tão profundamente perturbada, são as que determinam mais vezes a queda ou qualquer alteração nos cabellos. O medo, um terror súbito, desgostos violentos, pa recem obrar do mesmo modo, e tem-se visto cabellos em- — 256 — brauquecereni de repente nas agonias do temor, ou pela in fluencia da dor e da desesperação (1). Conhecemos um velho, cuja physionomia melancólica e cabellos brancos inspiravam ao mesmo tempo o enlerneci- mento que a desgraça reclama, e o respeito que se deve á velhice. « Meus cabellos, dizia elle muitas vezes, ficaram no estado em que os vedes hoje, muito tempo antes da minha ultima estação. Maisactivase mais poderosas em seus effei tos quo os trabalhos, a dôr e a desesperação que me causou a perda de uma esposa adorada, os embranqueceram em uma noite; tinha eu então trinta annos: julgae da força de meus desgostos! d'elles ainda conservo cruel lembrança.» O estado dos cabellos, a actividade desses órgãos MEU. cortes mais ou menos freqüentes, influem sobre as differen tes affecções orgânicas, e ás vezes podem contribuir para a cura das doenças, ou tornar-se causa de funestos symp- tomas. Um amigo de Valsava curou um maniaco raspando-lhe a cabeça. Lemery filho, conheceo um homem, a quem um purgante muito violento fez cahir subitamente o cabello, que era mui to negro, nascendo depois outro muito louro. Em outros casos tem-se visto cabellos castanhos tornarem-se louros de- repente, e formar um importante symptoma. Cita-se na Encyclopedia, sob a palavra Pello, um capuchinho, que só pôde ser curado de uma moléstia longa e cruel pelo sacrifício da barba; e Grimaud refero que muitas teimosas enchaque- cas têm cessadosó pela precaução de fazer o crescimento dos cabellos mais activo, cortando-os freqüentemente. Publi-< cou-se no Jornal de Medicina uma observação muito mais importante, sobre uma mania curada pelo corte dos cabel los. M..., que é o assumplo dessa observação, leve antes de seu casamento, na idade de doze annos, uma febre nervosa (1) O infeliz Dr. Thomaz Antônio Gonzaga, dá desta verdade um exemplo seguro dizendo a sua Marilia: Já, já me vai, Marilia, branquejando Loiro cabello, que circula a testa ; Esle mesmo, que alveja, vai cahindo, E pouco já me resta! — 257 — violenta, que se terminou aos trinta dias da doença, sem apparencia alguma de crise. Os primeiros dias de convales cença se annunciaram por uma mui grande mobilidade do systema nervoso, á qual depois succedeo um delírio que in - sensivelmente manifestou todos os caracteres da loucura; a razão desapparecco completamente, e a doente ficou mergu lhada n'um profundo acabrunhamento, do qual só sahia para pedir, com expressão do mais vivo desejo, que lhe cortas sem a cabeça, causa de seus males e de suas dores. Este es tado durou seis semanas. Sempre, e sobre todos os pontos, o mesmo desvario, e o mesmo desejo da doente, do se desem baraçar da cabeça, sem que parecesse entrar nesse empenho num desgosto, e nem impaciência da vida. ATé então a doente, cujos cabellos profusos e longos po diam servir-lhe de vestimenta, não se tinha podido pentear. A desordem em que se elles achavam induziram a cortal-os, e isso por effeito salutar em que se estava bem longe de pen sar, foi um seguro meio de cura. Apenas a cabeça ficou in teiramente rapada, uma sensivel melhora foi experimenta da. « Estais-me cortando a cabeça, dizia a joven doente du rante a operação, ah! estou salva! » Esta exclamação, que parecia um redobramento de lou cura, annunciava o que realmente succedeo. M..., quasi de pois de haver ficado desembaraçada de seus longos cabellos, tornou á razão, que sempre conservou sem experimentar o menor accidente. N'outros casos tem-se visto o corte dos cabellos dar lugar aos mais graves accidentes, e mesmo á morte repentina nos primeiros dias de convalescença. M. Le Fox, doutor em medicina, fez conhecer muitos factos desse gênero, em uma memória tão interessante como curiosa, sobre o perigo de cortar os cabellos durante o tempo ou o fim de algumas doen ças agudas. Conclue com razão dos factos que descreve com muito cuidado, que, no caso que não houvesse ulceração no couro cabelludo, como nos exemplos por elle citados, haveria sempre accidentes que temer do corte mui breve dos cabellos nas convalescenças. Accrescenta, que tahez se saberá por observações ulteriores, que as erysipelas e os differentes ma les dos olhos, na continuação das doenças, não conhecem outras causas senão esse corlamento de cabellos prematuro. As considerações geraes, e os factos mais ou menos eu- — 258 — riosos que temos demonstrado, bastarão sem duvida para fa zer ver que as differentes qualidades e variações dos cabellos estão sempre ligadas ás mudanças mais notáveis da econo mia vivente, e que esses órgãos preenchem funcções assás importantes para que seu estado exterior não seja tomado em consideração pelo physionomista. Reflexões sobre a influencia da imaginação, relativamente A iiliysionomia («), segundo _.s;v:-.l<*i-. Nossa imaginação opera sobre nossa physionomia. Ella assemelha-se de alguma sorte ao objecto amado ou odmhq (1) Fallando da imaginação nas artes com razão diz um compilador: « Não ha quadro tão perfeito na disposição natural das eousas, que a imaginação não tenha que retocar. Ha poucos factos na historia que a poesia não deva corrigir e adornar, para que fiquem mais interes santes. Não têm pois as producções das artes typo completo em a natureza: são, propriamente fallando, ficções, e isto nos obriga a con templar a ficção e as differentes espécies delia, de que se faz uso nas artes, a saber : perfeita, exagerada, monstruosa, e phantastica. Grande engano seria o presumir que a imaginação tira de seu pró prio fundo os modelos que se propõe a pintar; ella compõe e não cria. Seus quadros mais originaes são meras copias, ao menos pelas cir- cumslancias. A maior ou menor analogia entre os differentes rasgos que ella junta, é que forma os quatro gêneros de ficção que passamos a distinguir, e de que acima falíamos. Ficção perfeita é a regular união das mais bellas partes de que é susceptível um composto natural, e só neste sentido é que a ficção é indispensável nas artes de imitação. Recolheram os artistas as disper sas bellezas dos modelos existentes, e dellas compozeram um todo, mais ou menos perfeito, segundo a melhor ou peor escolha das ditas bellezas reunidas. Mas nem sempre a belleza da composição é uma junlura de bellezas particulares. Ella é relativa ao effeito que nos pro pomos, e consiste na escolha dos meios mais aptos para conimover a alma, admiral-a, enternecel-a, etc. Nestas composições é que o pintor necessita do mais profundo estudo, não só da natureza, em quanto mo delo, mas da natureza espectadora, para interessar e mover. Deve por tanto a ficção ser o arremedo da verdade, mas da verdade embelleci- da e adornada pela escolha e combinação das cores havidas por ella na natureza. Ha também artes para quem ainda a natureza é nova: a poesia parece não só ter ceifado, masrespigado tudo: porém a pintura, cuja carreira é quasi a mesma, apenas tem dado os primeiros passos. Homero só por si apresenta mais quadros que todos os pintores jun tos. Quantos assumptos não achariam estes cm suas obras, e mesmo em nossas tragédias modernas! — 259 — esle retrata-se a nossos olhos; vicia-se diante de nós, e desde então pertence immediatamente á esphera de nossa activi dade. A physionomia de um homem muito apaixonado, que crê que ninguém o observa, tomará instantaneamente alguns traços da amante querida, de que seu espirito se oecupa, que sua ternura apraz-se em embellecer, á qual talvez elle empreste, quando ausente, perfeições que, presente, não lhe encontrará. Esta espécie de analogia physionomica não escaparia cer tamente a um observador exercitado; assim lhe seria fácil distinguir no ar feroz de um homem vingativo, alguns tra ços do adversário a quem medita desfeitear. Nosso semblan- dVW quadro dos objectos de que gostamos, ou que particu- Tem-se conhecido em todas as artes quão pouco interessaria a imi tação servil de uma natureza defeituosa e commum. Mas também pa- receo mais fácil exageral-a que embelíecel-a, e daqui nasce o segundo gênero de ficção que estabelecemos. A exageração produz o que se chama maravilhoso na maior parte dos poemas., è que meramente con siste cm addicçõcs arithmeticas de massa, força e velocidade. Sacudido uma vez o jugo da verosimilhança, e transcursada a regra das propor ções, nada custa o exagerado. Porém se elle observa no physico as gradações da perspectiva, c a das idéas no moral; se em uma e outra apresenta as mais bellas proporções da natureza ideal ou real, que se propõe a imitar, então só se distingue do perfeito por ler um mérito mais, já não é a natureza exagerada, é a natureza reduzida a suas di mensões pelos longes. Mas cm nada é tão difficil passar os marcos da natureza, sem alterar as proporções, comono moral, e sua combina ção, com o physico. E' fácil ao homem imaginar corpos mais extensos, fortes e ágeis do que o seu, a natureza lhe fornece os materiaese os modelos; porém no moral não conhece o homem outra alma que não seja a sua, e não pôde por isso dar ao colosso, que anima, mais do que suas faculdades, idéas, sentimentos, paixões, virtudes e vicios. Não ha cousa que pintores e poetas não tenham imaginado para causar admiração; e a mesma esterilidade que os compellio a exagerar a natureza cm vez de embelleccl-a, fez que elles a desfigurassem de- compondo-lhe as espécies: mas não sahiram melhor de imitar seus er ros, que de cnsanchar seus limites. A ficção monstruosa parece ter a superstição por base, os jogos da natureza por exemplo, e a alegoria por objecto. Acreditava-se em Sphynges, em Satyros, em Sereas; via-se que a mesma natureza confundia ás vezes em suas producções as fôrmas e faculdades das differentes espécies, e imitando estas mixtões, tornam- se sensíveis por uma só imagem as relações de muitas idéas. Conside rado como symbolo, tem este gênero de ficção a sua verosimilhança, mas tem igualmente suas difficuldades, e nellc se não descarta a imagi nação das regras da proporção e do todo. Cumpria pois que na monstruosa juneção de duas espécies, cada — 2G0 — Iarmente nos repugna. Um olho menos esclarecido quo o dos anjos, perceberia talvez no rosto do clirislão, quando está no fervor de sua devoção, um raio de divindade. Muitas vezes uma representação mui viva, loca-nos mais que a realidade. Muitas vezes nos ligamos mais fortemente á imagem, c iden- tificamo-nos mais facilmente com ella, do que o poderíamos fazer com o próprio objecto. Supponde um homem que hou vesse v isto de perto um amigo, um Deos, o Messias, durante sua peregrinação sobre a terra; que tivesse, não digo, eou- templado-o com vagar em todo o brilho de sua magestsde, mas somente entrevisto-o com um rápido lance de vista; seria preciso que esse homem fosse inteiramente destitjwdo de imaginação e de sensibilidade, para que um aspccTIptfc? «ma dellas tivesse a sua belleza e regularidade especifica, formando de mais a mais com a outra um todo, que a imaginação podesse rcaitsar, sem que deseconomisasse as leis do movimento e os processos da na'- tureza. Cumpria porporcionar o movei ás massas e os apoios aos pe sos; mas quaes deverão ser aqui as proporções? E' certo que não são arbitrarias; não é menos certo que a regularidade do todo consiste i»at grandezas naturaesde cada uma de suas partes. Fizera máo effeito tu Sphynge a delicada cabeça e torneado pescoço de uma mulher sobre o corpo de um enorme leão; deve pois o pintor afinar as proporções das duas espécies; mas que regra seguirá para isso? a que a natureza seguiria se formasse semelhantes compostos; e não é só para escolar proporções que o pintor deve pòr-se no lugar da natureza, masahid» muito mais na ligação das partes, sua mutua correspondência e »r.•"><> reciproca, cousa que parece nunca ter oceorrido, nem ainda aos p ai J res pintores!.. Examinem-se os músculos do corpo do Pcgaso, da Fa ma, dos Amores; busquem-se ahi os fios, e moveis das azas; obser ve-se a estruetura do Centauro, e ahi se acharão dous estômagos, dous peitos, dous lugares para intestinos: tel-os-hia a natureza assim fabri cado? Para passar do monstruoso ao phantastico, bastou que o eslravio da imaginação transpozesse a barreira das propriedades. O primeiro era a combinação de espécies visinhas, o segundo a junetura dos gêneros mais distantes e das mais desconchavadas fôrmas sem proporção, pro gresso, nem gradação. Do que temos expendido, acerca dos quatro gêneros de ficção, re sulta, que o phantastico só é supportavel em um momento de loucura; que o monstruoso só pôde ter o mérito da allegoria; e que da parte do todo e correcção do desenho, tem difficuldades que só podem vencer- se, deslembrando os modelos da arte c creando uma nova natureza; que o exagerado nada é no physico só por si, e que na união do phy sico e moral, cahe em disproporções inevitáveis; que, n'uma palavra, a ficção que se dirige ao perfeito, é o único gênero que satisfaz o gosto, interessa a razão, e é digna de dar exercício ao Gênio. — 261 — augusto não imprimisse em sua fronte alguns dos tra ços que o teriam impressionado. Reconhecer-se-hia infalli- velmente em sua physionomia a Divindade de que sua alma estaria cheia. Nossa imaginação não obra só em nós, obra também nos outros. A imaginação da mãe influe sobre o filho, e eis por que procura-se distrahir as mulheres durante a gravidez, entretendo-as com idéas risonhos, é mesmo rodeando-as de objectos agradáveis. Porém a nosso ver, não é tanto pela vista de uma bella fôrma ou de um lindo retrato, e nem de qual quer outro meio semelhante, que o effeito desejado será pro duzido; é preciso attender antes ao interesse que essas bellas TrjrmaTnos inspira em certos momentos. O que opera im- mediatamente sobre nós, é a affecçãoda almat uma espécie de lance de vista que se lhe pôde suppor;e em tudo isto a imaginação, propriamente dita, só obra como causa secun daria: ella não é mais do que o órgão por onde passa o olhar decisivo ou repulsivo. Aqui é ainda o espirito que vivifica; a carne, e a imagem da carne, unicamente considerada como tal, é inteiramente inútil. Se taes olhares não são animados e vivificados, não poderiam á seu turno animar e. nem vivi- ficar. Um único olhar de amor, tirado, se assim nos podemos exprimir, do fundo do coração, é certamente maisefBcazque uma longa contemplação^ que um reflectido estudo das mais lindas fôrmas; porém estamos tão pouco habilitados para pro vocar em nós olhares creadores, como chegar a conseguir o mudar ou embellezar nossa própria fôrma, contemplando-a ou estudando-a diante de um espelho, Tudo quanto cria, tu do que fortemente obra em nosso interior* tem sua origem dentro de nós; é um dom do céo. Nada poderia eonduzil-o, nem preparal-o; em vão procurareis vós dispor a intenção, a vontade, ou as faculdades da pessoa que deve produzir os effeitos. Nem as bellas fôrmas, e nem as monstruosas, só obras d'arte ou de um estudo particular, são resultado dos accidentes de que o objecto tratado é subitamente ferido nos momentos escolhidos; esses accidentes dependem de uma Providencia que conduz tudo, de um Deos, que determina todas as eousas com antecedência, que as dirige, e que as acaba. Se todavia persistis em querer arrancar á natureza effeitos TOM. II 34 — 262 — extraordinários, cuidae menos em tocar nos sentidos, do que em obrar sobre o sentimento. Sabei excital-o e despertal-o no momento em que elle está perto de assomar, c que para se declarar só espera vosso chamado; sabei-o attrahir a pro pósito, e ficae seguro que elle procurará, e encontrará por si mesmo os soccorros que lhe são necessários. Mas esse sentimento deve existir antes que possa ser despertada' <>i: attrahido; começae pois, por assegurar-vos de o havérdes inspirado, porque não podemos fazel-o nascer á vontade. Considerações taes não deveriam escapar áquelles que preten dem operar causas quasi milagrosas por systemas requinta dos, e por planos methodicos: todas as suas precauções fodig as suas combinações pouco lógicas serão de balde, e nósIEeí lembraremos sempre as palavras do Cântico dos Canti*'»*: « Filhas de Jerusalém, eu vos conjuro pelos cabritos e.cor- ças dos campos, que não desperteis e nem acordeis mi*! <> muito-amada, antes que ella o queira. Eis ahi o gênio criador que vem saltitante sobre montanha, e pulando sobre mara vilhas.» Conforme nossos princípios, cada comparação boa ou má, depende de certos momentos imprevistos, e esses tem rapi dez e vivacidade de brilhar. Toda e qualquer creação é mo mentânea. O desenvolvimento, a nutrição, as mudançasffioas. ou ínás, são obra do tempo, da educação e da arte. O poibr creadornão se adquire por theorias; uma creação não se deixa preparar. Contrafareis em todos os casos physlono mias, nos seres vivos e activos,cujo exterior e interiorizou cordam perfeitamente juntas, imagens de divindades; lisòn- jear-vos-heis de compor ou de fazel-os subir como uma ma- china? Não, elles devem ser creados e formados, não do sangue, não do querer da carne e nem do querer do homem, mas sim do Deos único. A imaginação, quando é animada por sentimento ou por paixão, opera não só sobre nós e sobre os objectos que estão diante de nossos olhos, trabalha também na ausência e na distancia; talvez que mesmo o futuro se ache comprehendido no circulo de sua inexplicável actividade, e talvez seja pre ciso completar entre seus effeitos, o que commumente se cha ma apparição dos mortos. Admittindo por verdadeiras uma infinidade de causas mui singulares nesse gênero, que real mente hão poderiam ser postas em duvida; associando-lhes — 263 — as apparições análogas ãs pessoas ausentes que se tornam vi síveis a seus amigos nos lugares mais alongados, separando desses factos tudo o que a superstição mistura de fabuloso» dando-lhes seu preço verdadoiro, combinando com tantas anecdotas authenticas que se contam a respeito de presenti- menlos, poderiam estabelecer uma hypothese digna de oc- cuparum dos primeiros lugares na classe das probabilidades philosgphicas;e eis essa hypothese: «A imaginação, excitada pelos desejos do amor, ou es quentada por outra qualquer paixão bastante viva, opera em lugares e em tempos alongados.» Um doente, um moribundo, ou qualquer pessoa que se Scr£rííTJeTigo imminente, suspira por seu amigo ausente, por seu irmão, seus pães, ou sua esposa. Estes ignoram sua doença e seus perigos, e não pensam nella nesse momento. O moribundo, arrastado pelo ardor de sua imaginação, passa através das paredes, transpõe os espaços, e apparece em sua situação actual, ou em outros termos, dá signaes de sua pre sença que se approximam á realidade. Uma tal apparição é corporal? Certissimamente que não (1). O doente,o moribun do,' languece em seu leito, e seu amigo talvez vaga em com pleta saúde sobre um mar agitado; a presença real torna-se por conseqüência impossível. O que é então que produz essa espécie de manifestação? o que é então que obra na ausên cia de nm sobre os sentidos e sobre a faculade visual de ou tro? E' a imaginação, a imaginação perdida de amor e de de sejos, concentrada, por assim dizer, no fogo da paixão (por que é preciso suppor com antecedência que ella existe, quan do mesmo se quizesse admittir uma cooperação intermediá ria, pois que só o excesso da paixão pôde justificar a idéa, a possibilidade de semelhante mediação espiritual). O como da questão é inexplicável, confessamos; mas os factos são evidentes, e negal-os seria insultar todas as verdades histó ricas. Appliquemos agora mais particularmente estas obser vações ao nosso assumplo. (.1) No tomo 3.°, quando tractarmos do somno e dos seus pheno- menos, mencionaremos as importantes e luminosas observações do conselheiro Chardel no seu Ensaio de Psychologia Physiologica, ten dentes ás communicacõcs do homem terrestre com o mundo espiri tual. — 264 — Não haveriam situações d'alma, nas quaes a imaginação operasse nos meninos ao nascer, de uma maneira análoga, e também incomprehensivel? A incomprehensibilidade tem alguma cousa de revoltante para nós, nós o sentimos e sabe mos; mas os exemplos por nós citados, e todos os que se tem podido allegar nesse gênero, não apresentam as mesmuí dif- ficuldades? Qual a certeza physica, cuja essência seja an mes mo tempo inconcebível ao espirito? A mesma existência de Deos e a de suas obras, não é ella tão positiva como incom prehensivel? Vemos muitas vezes creanças que nascem perfeitamente bem constituídas em apparencia, e que depois, ás vez«' '/)- mente no fim de muitos annos, tomam vicios dCLUff^r.;.: ção de que a imaginação, e ainda o presentimento da mãe, havia sido impressionada antes, durante, ou depois da con cepção. Se as mulheres pudessem formar um regislro-exacto dos accidentes mais notáveis que lhes apparecem duiãi.'" a gravidez; se podessem combinar as emoções senlidas, e> cli car os abalos que sua alma experimenta nesse estado, ellas previriam talvez as revelações physiologicas, philosopjiicas intellectuáes, moraes e physiouomicas, por que cada um de seus filhos tem de passar, e fixariam talvez com antecedên cia as principaes épocas da vida desses filhos. Quajido n imaginação está poderosamente agitada pelo desejo, pelo amor ou ódio, um único instante basta para crear ou para destruir, para engrandecer ou para relrahir, para formar gigantes Ou anãos, para decidir da belleza e da fealdadej ella impregna euião o feto orgânico de um germen de cres-i cimento ou de pequenez, de sabedoria ou de loucura, dé proporção ou de desproporção, de saúde ou de doença, de vida ou de morte; e esse germen não se desenvolve senão de pois de certo tempo e circumstancias próprias. Esta facul dade d'alma, em virtude da qual ella opera assim creações e metamorpboses, não tem sido sufficientemente aprofunda da até aqui; mas ella não se tem manifestado menos vezes da mais positiva maneira. Considerando-a em sua essência, e em seus princípios, não será ella análoga, ou antes, idên tica, com essa fé milagrosa que pôde ser excitada e enten dida, nntrida e fortificada por soecorros exteriores, onde ella já existe, porém que não poderia ser communicada, nem revelada a cspirjíos inteiramente destituídos de crenças, O - 265 — -que lemos dito não são mais que simples bosquejost ou con jecturas puramente hypotheticas, e nós não os damos senão como taes. Melhor desenvolvidas poderião servir para es clarecer os mais occultos mysterios da sciencia physiono- nomica. Da influencia das pliysionomlas, umas sotire as outras» Acontece a todos nós tomar hábitos, gestos e modos daquelles que freqüentamos com familiaridade. Imitamos de alguma sorte tudo o que nos agrada, e de duas uma, ou •JHj&no amado que nos transforma a seu bel-prazer, ou somos nós que cuidamos em transformal-o ao nosso. Tudo o que está fora de nós, obra sobre nós, e experimenta uma acção reciproca de nossa parte; mas nada opera tão efficaz- mente sobre nosso indivíduo, como o que nos agrada, sem duvida, nada é mais amável e mais próprio para impres sionar-nos, que o semblante do homem; o que nol-o torna amável é precisamente sua connivencia com o nosso. Passagem tirada das indagações nliilosophicas sobre os Americanos. Cs Americanos eram, sobre tudo, notáveis por faltar sobrancelhas a um grande numero, e barba a todos. Só por esse defeito não se pôde inferir que elles fossem fracos no organismo da geração, pois que os Tarlaros e os Chins tèm pouco mais ou menos esse mesmo caracter imberbe: é natu ral todavia que muitos desses povos não fossem, nem muito fecundos, e nem muito dados ao amor; assim como também não é verdade o serem os Tartaros e Chins absolutamente imberbes; cresce-lhes no lábio inferior, aos 30 annos, um bigode em fôrma de pincel, e algumas espigas no queixo* Entre os Esquimáos, que differem no porte, na fôrma, nas feições e nos costumes dos outros selvagens do norte da America, póde-se contar como uma variedade os Mansas, chamados commumente pelos Francezes homens bellosi são de estatura alta, tem feições bem desenhadas, e sem o me nor vestígio de barba: olhos bem rasgados, o iris azulado, e — 266 — es cabellos finos e louros: no entanto que os povos que os rodeam são de estatura medíocre, têm a physionomia abjec- ta, olhos negros, e cabellos côr de ebano, extremamente grossos e rígidos. Os Peruanos não lêm talhe muito elevado; porém, ain da que rochonchudos, são bem feitos: a variedade ahi existe; ha uma quantidade de monstruosos por sua pequenez, outros surdos, imbeceis, cegos, mudos, e outros que nascem sem um dos membros. São os trabalhos excessivos a que a bar baridade dos Hespanhoes os sujeita, que provavelmente f;u com que ahi appareçam tantos homens defeituosos. A tyran nia até ahi tem influído sobre o temperamento physico d..* escravos: elles têm o nariz aquilino, a testa estrgí.ís_o»> miei!. • ;?;"l; \-;?fo não ser verdade o que as relações editas, as^ep^rma, diz«r>j.- qvf todos osIndi'>r' que ÍH"i--?s*-.., \\\ Amwics ilações ínte.eus d?, :~uicos a furiesos, o quec iu«;..-fe*i fi mesmo em suppósição. Difficilmente encontra-se uma famitin dr e da conformação do povo que tão inhumanamente expulsa rão. Os Persas e os Armênios distinguem-se por traços gra ciosos è magestosos, e principalmente por um bello nariz aquilino, que parece ser particular á sua nação, o que i m parte nem-uma é tão commum. Plutarco refere que Artaxer- xes tinha nariz d'aguia: a mesma cousa diz-se de Demetrio, Gryphio , Neoptolemo, Augusto, Galba, Constantino o Grande, Landerbeg e Solimão, todos guerreiros, heroes e homens magnânimos. Antigamente o nariz aquilino era um iraço nacional dos Romanos, porém hoje elles o têm tão di reito como os outros Europeus. Os índios têm a testa natu ralmente alta e o nariz chato: com tudo essa regra tem ex- cepções naquelles que têm sangue portuguez, e nos que são mais vizinhos das partes meridionaes. Nos paizes excessiva mente quentes, os habitantes são de ordinário, de limitada capacidade. Os habitantes das costas marítimas são com- mumente mais astutos que os do continente : d ahi vem o provérbio: Insulanos esse maios, Sicilianos autem péssimos. — 269 — Sabemos o que S. Paulo repetio o que disse Epaminon- das como testemunho authentico: « Os Crelas são sempre embusteiros, animaes ferozes e es fomeados. A physionomia apoiada por autoridades. SALOMÃO. O homem maligno e corrompido anda com a bocea tor ta; faz sienaos com o- olhos, falia com os «eiií pés,e designa ÍUUS uedos. risca os olhos para niaehinardestruiçG^s, e quando mor de os labi-s, executa o mal. A prudência mostra-se no semblante do prudt.ue, ÍCZ.» os olhares do louco percorrem todos os pontos da ler rs. Olhos altivos, coração soberbo- O homem máo acãutela seu rosto, mas o justo peneira seu desígnio. O coração do homem muda o semblante para o bem ou para o mal. O rosto contente é signal de que o coração está na prosperidade. (Ecclesiast. XIX, 26,27-) O homem conhece-se pelo olhar, e o judicioso pelo ar do rosto. O vestido de que usa, o riso e o andar, dizem o que elle é. (Ecclesiast. XIX, 26, 27.) A maldade muda o semblante da mulher. (Ecclesiast. XXV. 24.) MONTAIGNE. Nada mais verosimel do que a conformidade e relação do corpo com o espirito. Não é de crer que qualquer deshar- monia appareça, sem que seja por algum accidente que haja interrompido o curso ordinário. Não me canço de repetir quanto é a belleza estimavel para mim, qualidade que é tão poderosa e vantajosa... não só nos homens, como também nos animaes; eu a considero à dous dedos da bondade. (Liv. III, Cap. 12.) TOM. II. 35 — '270 — LE1BNITZ. Se os homens se estudassem mais para poder observar os movimentos exteriores que acompanham as paixões, ellas serião difficeis de dissimular. Quanto aos movimentos que revelam o sentimento de — vergonha —. ó digno de consi deração notar-se que as pessoas modestas ás vezes os cxpe • rimentam semelhantes, quando são testemunhas somente de alguma acção incidente. (Novo Ensaio sobre o entendimento humano, L. II, C. 20.1 SULZEB. -,?.' unia'feniíiut.'<.-•'onliccida, mss tití") por isso muk', • ••..; -j«'j" t.üie k-dos .-•••. ..i».j..ei<-s que enoulian nosso.-. olho;-, o homem é o mais •inc»'i-%; -,li sob qualquer j> ,itl<, de vista que se encare, ü acto mui» grandioso e úiviimco bivel da natureza é de ter subide modelar uma massa de matéria bruta de tal modo, que nella se vejam impressos, a vida, o pensamento, o sentimento, e o caracter moral. Se não ficamos possuídos de espanto e admiração á vista co Ni mem, é unicamente effeito do habito que nos familiarisa com as eousas mais maravilhosas. Dahi procede a figura hum ui >, e o semblante mesmo não excitarem a altenção do vuí.4« Mas para aquelle que se eleva acima do prejuízo do cosiu- me, e que sabe encarar os objectos com cuidado e reflexão, cada physionomia é um assumpto notável. Por ma/s frivola que a physionomia ou sciencia de descobrir o caracter do homem, pelo semblante e pela figura, pareça á maior parle dos homens, é entretanto mui verdadeiro que, toda a pessoa reflectida, possue esta sciencia, pelo menos até certo gráo, pois que descobre, a não poder enganar-se, na physionomia e no porte de um homem o que no momento actual passa-se em seu interior. Muitas vezes dizemos, com a maior persua- ção, que fulano está triste ou alegre, que está pensativo, inquieto, desgostoso, etc; e ficaríamos muito sorprehendi- dos que se nos quizesse contradizer sobre esse ponto. Por tanto é certo que podemos descobrir na figura do homem, e principalmente em seu semblante, alguma cousa do que se passa em sua alma. Nós vemos a alma no corpo. Logo po- — 271 — demos dizer: o corpo é a imagem da alma, ou a mesma alma tornada visível. (Theo. geral das Rellas Artes, parle H. art. Retrato.) WOI.F. Sabemos que nada se passa na alma sem produzir alguma mudança no corpo, sobre tudo que não se eleva n'ella um desejo, que uma vontade não se fôrma sem que um movi mento corporal corresponda-lhe logo. Ora, como todos as modiüv-aç-Vr. < . corpo provém de sua e^sencin, * a e.i:-cnc;;i ..., TJIHÕ WUS.SIU^SÊ. -iiitncira porque 6 conpoáio, ó preciso que st::* est:"r!C'')i;, r* pr-'i oons.-uier.cia si:»t IviMia exk-rior o •) ile -eus niOâubros estejnm úc &C<-;S~ÍUI, :^\ a e.^vjaciu il.i alma. Assim, u defeveüç.i d»' -%_-./: mie" so Corp-; tcrii alguma "tou^a cm ^i, em sua tVtua total, eu u.i d;- suas Paiies, do"di- se pudera d*,iIU'.;r ab disposições jue pinla-se no resto e no- olhos. Uma alma honesta, doce e pacifica, isempta do or gulho e de remorsos, cheia de benevolência e de humanida de; uma alma superior aos sentidos e ás paixões, descobrè- se facilmente sobre a physionomia, e em toda a acção da corpo. A expressão ordinária é um ar modesto, gracio$oi e encantador; ella ó que imprime na fronte um caracter de nobreza e magestade, e nos olhos o de candura e cordiali dade; delia é que provém a doçura e affabilidade espaihadt t em toda a physionomia; a graça da fronte; o olhar aííectuoso que acompanha o pudor; em uma palavra, a mais bella ex- pressão, o mais bello colorido do semblante dimanam de um bom espirito e de um bom coração. Porém, dirão, a phy sionomia é enganosa: sim, pode-se contrafazel-a; comludoé muito raro que o constrangimento não traia a impostura; e também se não distingua facilmente o ar natural do fingido, e o pensamento justo do que não é de modo algum. O arre- bique nunca é a pelle, por melhor que seja applicado. A mesma objecção, que sobre a mais feliz apparencia se occulta ás vezes um coração depravado; tal objecção, digo, não me abala. Concluirei antes que essas pessoas tinham muita dis posição natural para as boas qualidades, da qual ainda con servamos traços. Finalmente, se é \erdadeque uma alma cheia de doçura — 273 - c de serenidade, é muitas vezes encoberta por um exterior morno e sombrio, e que um olhar altivo e ameaçador acom panha ás vezes um caracter amável, essa dissonância pôde vir, ou de máos costumes que sejam contrahidos, ou de exemplos que se tenham visto; talvez também esse exterior desagra dável seja effeito de um vicio de temperamento, ou talvez seja emfim obra nossa, conseguindo reformai-o pela conti nuação de um longo habito. A experiência prova-nos que cerlas inclinações desregra das e viciosas, imprimem no semblante traços bem sensíveis. O que é o méis l>cllo rosto.se deixar ter "elle osudio-.as itr-ft2^"'~ '•'•w-"- jía CO!'TÍJ. da falsidade, da imeiu, da ava reza, (io orgulho e ^Wi/Sclle- zar nossa physionomia, h«!o quanto de nós >J<-pem. ,^feií»v.-.- Itllezar nossa alma e mo deixar entrar neila paixão algu ma viciosa; e o melhor meio de tornar essa physionomia expressiva e interessante, é pensar com acerto e delicadeza. Finalmente, para neila espalhardes um caracter de dignida de, enchei vossa alma de sentimentos de virtude e religião: elles imprimirão em todas as feições de vosso semblante a paz de vossa alma, e a nobreza de vossos pensamentos. O celebre Young disse, não me lembra onde, que não podia conceber um aspecto mais importante do que ode uma mu lher de joelhos na hora da devoção, que não se julga \islã, c sobre afronte da qual se reúnem a humildade e a inno- cencia de uma alma piedosa. Não ha duvida, a offabilidade e beneficência que gosta mos tanto de encontrar no exterior, se nos tornariam natu raes, se com effeito fôssemos tão bons como nos esforçamos de parecer, e talvez nos custe mais fingir bondade, do que nos custaria adquiril-a. Supponhamos dous ministros de estado, iguaes em qualidades naturaes, e dotados das mes mas vantagens exteriores. Um tem-se dedicado ás virtudes do christianismo, o outro se ha limitado á poülica e aos co nhecimentos do homem de corte: qual dos dous agradará mais por seu exterior e suas maneiras? Aquelle cujo coração está cheio do nobre amor da humanidade, ou o q»-c por amor próprio somente procura parecer amável? — Tík — A voz também é muitas vezes expressão natural do ca racter, e participa do que elle tem de bom ou de máo. Ha um certo tom que revela falta de idéas, e que se per deria aprendendo-se a pensar. O coração é que é a alma da voz. (Lições de moral, p. 303, 307). LA CHAMBRE. Não tinha razão aquelle que se lastimava por a natureza não ter posto uma janella diante do coração, para que se podessem ler os pensamentos e os desígnios dos homens, não só rioTine s:~r> '"tiras 71:0nlo pr.üt-m sidi< ,,!•'.'•, sontidíts. e -'tsí- ris^mo -r< oVavi vís-st^r" ' ?í<úO imiu-.» C ri:».,.,, tosüo coração, 'satla ^'•'" ^a-..:.!.^.i !.u-- !•"* der-^e o nu:.• .'*r t»« - elíirecimenío; r «^.aiüd.; porque 1 naU/e;'^ tendo p^w.sio i'ás; (^ ^-tò, acl.ou meios mais c ;vtoj íie I>./O!'-.I, s°iu ser a"ésn'.mí •beruira qae ^lYnus ÍH.ai.''ii')»: poi-, cpr. r^o só •': ao l:ou>em a vo.' ea ii *«.;,'u.: pura x-ruii .lüerpretcs d» "pensamento, como, desconfiando'que deYlas podessem abu sar, fez também fallar sua testa e seus olhos, paradesmen- til-os quando não fossem fieis. Em uma palavra, ella espa lhou por fora toda sua alma, e não se tem necessidade da janèlla para ver seus movimentos, suas inclinações, e seus hábitos, pois que apparecem sobro o semblante, e ahi estão escriptos em caracteres tão visíveis, como manifestos, O se gredo da sabedoria consiste em conhecer o que é,o que pôde, e o que deve fazer; c o da prudência, em conhecer também o que são os outros, o que podem e o t[ue desejam. Ha conhe cimento algum que seja mais agradável e útil que estes? c aquelle que os tiver adquirido não ?e poderá lisongear de gozar os maiores vantagens que se possam gozar na vida? A arte de conhecer os homens reune todas essas vantagens, ainda que pareça não ter outro fini mais que descobrir as inclinações e os movimentos da alma, assim como os vícios e as virtudes de outrem; se aprende a reconhecel-os em si, para fazer depois juízos mais justos c mais sinceros dos outros. Mas como esla arlc é obrigada a examinar a fundo tudo o que diz respeito aos costumes, é impossível que buscando as suas causas o a maneira como se formam, não fosse en trar no domínio da mais bella parle da physica, c que follan- - 275 - do da comparação das partes, dos temperamentos, dos espí ritos e dos costumes, das inclinações, das paixões e dos hábitos, não descubra o que ha de mais occulto no corpo e na alma do homem. Digo mais: por todos os seus conhecimentos ella eleva o espirito alé ao Soberano Creadordo universo; porque mos- trando-lhe os milagres sem numero que se encontram no homem, o conduz insensivelmeute a gloriíicar o autor de tantas maravilhas, e assim o leva ao fim a que foi destinado. (Arte de conhecer os homens, pelo senhor de Ia Chambre, conselheiro e medico do rei. P 1.). FIM no TOMO SEGUNDO. EMP. TYP. — DOUS DE DEZEMBRO — DE PAULA BRITO IMPRESSOR DA CASA IMPERIAL. 
 
 
 
 
 
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