Frei Mariano Veloso e a Tipografia do Arco do Cego

A Tipografia do Arco do Cego. Cristina Antunes




"... irei multiplicando, por beneficio da prensa, aquelas obras que a tenuidade dos meus talentos julgar próprias para auxiliar estes novos exploradores da Natureza, para que lhes não haja de ser preciso recursos aos livros forasteiros, que, além de não os haver, são de um preço excessivo os que aparecem”.

(Frei Veloso, na apresentação da obra Helminthologia)





No século XVIII, Portugal, que tinha sido pioneiro com as navegações, havia ficado isolado da cultura moderna europeia. Foi somente com a Reforma de Pombal, em 1772, que o monopólio do ensino jesuíta foi quebrado e foi fundada uma nova universidade com mais abertura, que, de certa forma, rompeu com esse isolamento, embora sem condições para formar uma comunidade científica com autonomia e liberdade de espírito, como havia nos outros países da Europa. Ainda assim, no fim do século XVIII, surgiram cientistas de valor na Universidade e na Academia portuguesas. Nessa mesma época teve início o movimento de brasileiros visando publicar livros para divulgar "conhecimentos úteis" no Brasil (por “conhecimentos úteis”, entenda-se livros técnicos com novas idéias científicas e "técnicas modernas" para aproveitar melhor as riquezas e tirar nosso país do atraso).

Frei José Mariano da Conceição Veloso chegou a Lisboa em 1790, na companhia de seu protetor D. Luís de Vasconcellos e Sousa, que terminara o mandato de Vice-Rei do Brasil. Veloso entrou como sócio da Academia Real das Ciências, tornou-se pensionista do Estado (uma espécie de bolsista) e apresentou "seu plano de publicar livros de divulgação de novas técnicas e culturas capazes de promover o progresso do Brasil". Para isso reuniu um grupo de brasileiros residentes em Lisboa que iriam ajudá-lo a redigir, traduzir e editar os filósofos ilustrados. Nesse grupo estão: Hipólito José da Costa, Antônio Carlos e Martim Francisco de Andrada e Silva, José Feliciano Fernandes Pinheiro, Vicente Seabra da Silva Telles, Manuel Rodrigues da Costa, José Ferreira da Silva, José Viegas de Meneses, João Manso Pereira, Manuel de Arruda Camara e Manuel Jacinto Nogueira da Gama.

O primeiro trabalho publicado por Veloso, a Alographia vegetal da potassa ou soda, saiu em 1793. No princípio, os livros eram impressos em diversas tipografias de Lisboa, como as de Simão Thaddeo Ferreira, João Procópio Correa da Silva e Antonio Rodrigues Galhardo. Mas, em fins de 1799, D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares, ministro do Ultramar e afilhado de Pombal, resolveu fundar uma tipografia. Mandou comprar prelos, encomendou novos tipos para substituir os tipos portugueses fora de moda (pelos de Didot, franceses) e junto à tipografia criou uma fundição de tipos e uma escola de gravura para formar gente capaz de ilustrar os livros. Surge então, no sítio denominado Arco do Cego, a TIPOGRAFIA CALCOGRÁFICA, TIPOPLÁSTICA E LITERÁRIA DO ARCO DO CEGO, dirigida por Frei Veloso, que tinha sob suas ordens cerca de 60 funcionários, entre gravadores, desenhistas e iluminadores.

No que diz respeito à produção científica, Portugal havia produzido muito pouco, daí a necessidade de Veloso de recorrer à tradução dos textos científicos estrangeiros, como ele mesmo afirma na dedicatória do tomo I de O Fazendeiro do Brasil:

“... trasladar em Português todas as Memórias estrangeiras que fossem convenientes aos estabelecimentos do Brasil, para o melhoramento da sua economia rural, e das fábricas que dela dependem, pelas quais ajudados, houvessem de sair do atraso e da atonia em que atualmente estão, e se pusessem ao nível com os das Nações nossas vizinhas, e rivais no mesmo continente, assim na quantidade, como na qualidade dos seus gêneros, e produções”.

Após apenas dois anos de existência, no dia 7 de dezembro de 1801, a Tipografia do Arco do Cego foi incorporada, por decreto, à Impressão Régia. Apesar de sua vida curta, nela Veloso publicou mais de 60 obras, sem contar as de autoria dos seus colaboradores, entre tratados de história natural, obras filosóficas traduzidas de diversas línguas, trabalhos voltados para a indústria e para a arte da ilustração, do desenho, da pintura e da arquitetura.

Com a transferência da corte para o Brasil, Veloso voltou para o Rio e conseguiu uma ordem para que fossem despachados para lá não só os exemplares das obras publicadas, como as chapas abertas na Oficina do Arco do Cego, os estudos inacabados, e demais papéis de sua propriedade intelectual. Morreu antes que isso acontecesse, mas seu espólio veio para Real Biblioteca.

Frei José Mariano da Conceição Veloso. Cristina Antunes e Ermelinda Pataca



José Mariano da Conceição Veloso nasceu em 1742, na Vila de São José, bispado de Mariana, comarca do Rio das Mortes em Minas Gerais. Era primo de Tiradentes. Estudou Filosofia e Teologia no Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, ordenando-se sacerdote em 1766. Em 1768 foi eleito pregador. Durante a década de 1770, estava no Convento de São Francisco em São Paulo onde atuou como passante de Geometria e como lente de Retórica.

Frei Veloso foi missionário em algumas aldeias indígenas paulistas. Em 1773 serviu alguns meses como superior na Aldeia de N. S. dos Prazeres de Itapecerica da Serra (São Paulo) e, em 1781, consta que estava há bastante tempo na Aldeia de São Miguel (São Miguel Paulista, hoje zona leste da cidade de São Paulo). Em 1782 foi transferido para o Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro onde, a partir de 1786, foi eleito lente de Geometria, Retórica e História Natural.

Entre 1782 e 1790 empreendeu a Expedição Botânica, conjunto de viagens que percorreu a capitania do Rio de Janeiro até o interior de São Paulo. Durante a viagem, foram descritas, preparadas e desenhadas muitas espécies de vegetais, e foram realizados experimentos sobre o envio de plantas vivas e de técnicas do envio de sementes por mar, para que se preservassem por mais tempo. Ao final da Expedição, em 1790, Frei Veloso foi para Lisboa, para a publicação da Flora fluminensis, obra de grande importância na qual foram descritas e desenhadas cerca de 1.400 espécies botânicas.

No período em que esteve em Lisboa, entre 1790 e 1808, Frei Veloso contribuiu muito para a a área da História Natural em Portugal. Entre 1791 e 1798, foi sócio livre da Academia de Ciências de Lisboa, colaborando com alguns naturalistas que se encontravam na colônia. Trabalhou como diretor da Tipografia do Arco do Cego (1799-1801) e editor de várias obras sobre História Natural (1796-1805).

Em 1809 voltou ao Rio de Janeiro e fixou residência no Convento de Santo Antônio, onde faleceu em 14 de Julho de 1811.

Arte, ciência e técnica na História Natural das Colônias. Ermelinda Pataca



Na segunda metade do século XVIII a Coroa Portuguesa incentivou as ciências naturais associadas a uma política colonial de desenvolvimento da agricultura, do comércio e da mineração. Domingos Vandelli (1735-1811), médico italiano contratado pelo Marquês de Pombal, elaborou o projeto da História Natural das Colônias com a finalidade de reconhecimento territorial, humano, zoológico, botânico e mineralógico das colônias portuguesas estabelecidas em América, África e Ásia que impulsionassem o desenvolvimento econômico português.

Para abastecer o Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda - anexo ao Palácio Real - com espécimes dos três Reinos da Natureza e desenvolver as ciências em Portugal, Vandelli elaborou as Viagens Filosóficas ao Reino e às colônias portuguesas, com destaque especial para o Brasil. No conjunto das viagens que percorreram grande parte do território brasileiro, o destaque foi concedido à exploração da Amazônia e do Rio de Janeiro. O baiano Alexandre Rodrigues Ferreira (1756 – 1815) comandou a Viagem Filosófica (1783-1792) para as capitanias do Pará, Rio Negro (atual Amazonas) e Mato Grosso, acompanhado pelo botânico Agostinho Joaquim do Cabo e pelos desenhistas José Joaquim Freire e Joaquim José Codina. Os planos iniciais de Vandelli de enviar um naturalista ao Rio de Janeiro se concretizaram na Expedição Botânica (1782-1790) comandada pelo Frei José Mariano da Conceição Velloso, que contou com a colaboração de militares e religiosos formados no Brasil.

Nas viagens e nos estudos científicos em Portugal foram elaboradas imagens, utilizadas tanto em estudos de história natural, quanto na efetivação de políticas de controle colonial. Os registros das formas desconhecidas de vida e das paisagens brasileiras, foram expressos de acordo com a ciência iluminista que defendia a observação direta da realidade e a análise racional e experimental dos fenômenos, o que pressupunha a necessidade de se ver antes de se nomear, resultando na valorização da visão na construção do conhecimento e consequentemente, a criação de representações. A configuração de uma nova cultura visual conferiu aos desenhos de história natural e de máquinas agrícolas e industriais um papel essencial na compreensão e difusão do conhecimento científico, que pode ser observada nas imagens impressas na Tipografia do Arco do Cego.

As imagens científicas produzidas no período podem ser consideradas em suas funções estéticas e documentais, apresentando uma associação entre arte e ciência. A aproximação interdisciplinar também aparece na leitura integrada entre texto e imagens, para o efetivo entendimento das representações científicas. As imagens descrevem o que não pode ser dito em palavras e o texto descreve aquilo que não pode ser representado em imagens.
Os artistas empregados nas viagens, em sua maioria, tinham formação em aulas de engenharia militar, configurando uma aproximação das artes com a tradição técnica. No cumprimento das atribuições ao engenheiro no século XVIII, a habilidade do desenho era essencial, especialmente para a cartografia, a urbanização, a arquitetura e a projeção de máquinas. Na introdução das ciências naturais em Portugal, os engenheiros foram os mais habilitados para a elaboração de desenhos de botânica e zoologia, que deveriam ser representados o mais fielmente possível. A formação dos desenhistas que acompanharam as viagens foi assinalada pelo o advento da industrialização na Europa, o que tornou o ensino artístico mais técnico.

Os desenhos de máquinas agrícolas e industriais seriam um veículo de difusão do conhecimento e impulso à mecanização em Portugal e suas colônias, o que justificava a formação de artistas para o fomento industrial português. A atuação prática dos artistas e engenheiros esteve intimamente relacionada ao desenvolvimento da ciência moderna e ao desenvolvimento técnico. As múltiplas funções dos desenhos dos engenheiros, como a cartográfica, a arquitetônica, a técnico-industrial e de história natural, aparecem no conjunto de imagens publicadas na Tipografia do Arco do Cego.