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TRÁFICO NEGREIRO

20 novembro, 2009 - 10:19

Tâmis Parron *


COLEÇÃO DE DOCUMENTOS SOBRE O TRÁFICO NEGREIRO:

Memória sobre a necessidade de abolir a introdução dos escravos africanos no Brasil; sobre o modo e condições com que esta abolição se deve fazer; e sobre os meios de remediar a falta de braços que ela pode ocasionar (1821)

Memória sobre a escravatura e projeto de colonização de europeus e de pretos da África no Império do Brasil (1826)

Protesto contra o acto do Parlamento britânico, que sujeitou os navios brazileiros que fizerem o trafico de escravos ao Tribunal do Almirantado e a qualquer Tribunal de Vice-Almirantado dentro dos domínios de Sua Magestade Britannica (1845)

Analyse sur la justice du commerce du rachat des esclaves de la côte d'Afrique (1798)

Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura (1825)

Sustentação dos votos dos deputados Raimundo José da Cunha Mattos e Luiz Augusto May sobre a convenção para a final extincção do commercio de escravos (1827)

Memória sobre a abolição do comércio da escravatura (1837)

Memoria sobre o commercio dos escravos, em que se pretende mostrar que este tráfico he, para elles, antes hum bem que hum mal. Escrita por ***, natural dos Campos dos Goitacazes (1838)

O tráfico da escravatura, e O Bill de Lord Palmerston (1840)

The Brazilian Slave Trade and its Remedy, shewing the futility of repressive force measures. Also, how Africa and our West Indian Colonies may be mutually benefited (1850)

Três discursos do Illmo. e Exmo. Sr. Paulino José Soares de Souza, ministro dos negócios estrangeiros (1852)

Systhema de medidas adoptaveis para a progressiva e total extincção do trafico, e da escravatura no Brasil confeccionado e approvado pela Sociedade contra o trafico de africanos, e promotora da colonisação, e da civilisação dos indigenas (1852)

Um conjunto de recordes desagradáveis associa o Brasil à escravidão. Fomos o país que se envolveu por mais tempo no tráfico negreiro (do século XVI ao XIX), a região que recebeu a maior parte dos africanos escravizados (quase 40% do total), a última nação da América a abolir o cativeiro (1888). Todos esses dados, porém, relembrados em jornais, revistas e livros, trazem o risco de figurar a instituição do cativeiro negro como um fenômeno natural, uma espécie de destino manifesto à brasileira. Como a história acaba onde começa a natureza, essa imagem omite o enorme esforço da sociedade e do Estado para preservar ou atacar, politicamente, suas instituições de trabalho forçado. O presente conjunto de documentos intitulado “Tráfico negreiro”, ao lado dos futuros “Escravidão” e “Abolição”, visa a pôr em cena justamente essa dimensão política de nosso passado. São dezenas de panfletos sobre o assunto publicados entre as décadas de 1790 e de 1880.

Nesse período, particularmente até a Guerra Civil norte-americana (1861-1865), a escravidão negra passou por todos os extremos suscitados pelas revoluções liberais e pela formação do mercado mundial capitalista. Sofreu a primeira revolução em massa bem-sucedida da história (São Domingos, atual Haiti, 1791-1794), atingiu o maior número absoluto de indivíduos escravizados na América (cerca de 6 milhões) e auferiu quantidade inédita de capital em artigos como café, açúcar e algodão. Ao mesmo tempo, foi abolida ou paulatinamente desmantelada em todos os enclaves do Novo Mundo, à exceção das colônias espanholas de Cuba e Porto Rico, do Sul dos Estados Unidos e do Império do Brasil. Nesse contexto paradoxal de conturbação política e de estímulo econômico, acabou se tornando objeto de debate entre proprietários, letrados e estadistas do mundo inteiro. No Brasil, em especial, a polêmica se concentrou, primeiro, em torno do tráfico negreiro, extinto apenas em 1850.

Todos os panfletos agora disponíveis se prendem ao assunto. Desde a Analyse sur la justice du commerce du rachat des esclaves (1798), do futuro bispo e inquisidor geral José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, até as falas parlamentares do senador Paulino José Soares de Souza (1852), esses documentos defenderam o tráfico, condenaram-no ou ainda, falando de escravidão, passaram por um circuito de consumo de debatedores interessados no infame comércio. Para aquilatar o sentido de seus enunciados, no entanto, o leitor deve relacioná-los a suas respectivas enunciações, isto é, ao ato da produção ou da publicação dos discursos – que estão brevemente circunstanciados nas sinopses de cada obra. Enquanto o opúsculo de Azeredo Coutinho é claramente pró-escravista, bem mais sutis são outros como a Memória sobre a necessidade de abolir a introdução dos escravos africanos no Brasil (1821), do então conselheiro joanino Maciel da Costa, ou a Memória sobre a escravatura (1826), do matemático e futuro administrador público José Eloy Pessoa da Silva. Lidas com atenção, percebe-se que adotam argumentos antiescravistas para, concretamente, pleitear o trato negreiro pelo máximo tempo possível – o que, às vezes, passou despercebido por historiadores de primeira plana.

A atual coleção também permite repertoriar argumentos dos dois lados da contenda. Contra o trabalho escravo aparecem considerações morais, econômicas, religiosas. Mas será, sobretudo, o cálculo político – isolamento diplomático ou risco de instabilidade social no país por conta de uma instituição internacionalmente cada vez mais fragilizada – o norte dos escritos antiescravistas. A favor do cativeiro, além das ponderações morais e religiosas, desponta a ideologia do “todo-poderoso império” e do liberalismo constitucional, como se nota nas articuladas falas do deputado José Raimundo da Cunha Mattos (1827). Um país novo – “a rising state”, na expressão de Thomas Thomson, autor de um dos panfletos –, dotado de dimensões continentais, se elevaria a potência de primeira grandeza por meio do abastecimento contínuo de trabalhadores, de preferência escravos ou, no limite, africanos livres. Complementarmente, lembravam alguns, não havia leis opostas à ascensão social dos descendentes de escravos africanos que obtivessem a alforria, conforme dizia o artigo VI da Carta de 1824. Eis, em suma, os argumentos, usados em nome da escravização dos povos, de que o Brasil é o país do futuro e de que suas relações sociais não se fundam na noção de raça – tópico dileto dos atuais críticos das cotas raciais.

A presente coleção deve contribuir, assim, para a pesquisa de especialistas em história da escravidão e para os movimentos civis engajados na revisão crítica das desigualdades sociais do Brasil contemporâneo. Afinal, depois de tantos recordes históricos que ligam sociedade brasileira e cativeiro, já era tempo de conhecer, em conjunto, o que os próprios letrados e estadistas da época tinham a dizer sobre o tema. Surpreendentemente, não difere tanto do que alguns dizem hoje em dia.


Bibliografia:

Emília Viotti da Costa. Da Senzala à Colônia. 1ª ed., 1962. São Paulo: Ed. Unesp, 1998.

Robin Blackburn. The Overthrow of Colonial Slavery, 1776-1848. London/New York: Verso, 1988.

Tâmis Parron. A política da escravidão no Império do Brasil. Dissertação de mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 2009.

*Tâmis Parron é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo.

J. PRADO, ILUSTRADOR DE "ESPHINGES"

18 novembro, 2009 - 00:45

Capa interna da segunda edição de Esphinges (1920).
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A segunda edição de Esphinges (1920), de Francisca Júlia, é exemplar da revolução editorial empreendida durante a curta existência da Monteiro Lobato & Cia. Editores. Num rápido passar de olhos sobre o livro, dá-se conta da ilustração na capa interna e de vinhetas para abertura e fechamento dos poemas, completamente ausentes na primeira edição, de 1903. Aliás, capas ilustradas e capricho na ornamentação foram um marco das produções editoriais de Monteiro Lobato e estabeleceram um novo padrão gráfico às publicações brasileiras.


Detalhes da ilustração de J. Prado

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